O apoio da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos ao Estado de Israel

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No meio do atual clima de escalada do antissemitismo, onde alunos apoiam os terroristas do Hamas no pátio das melhores universidades ocidentais gritando “morte aos judeus!”, como as igrejas evangélicas têm se posicionado?[1] Ainda que muitas das denominações protestantes tenham aderido ao supersessionismo e sido contaminadas pela mentira de que antissionismo e antissemitismo não são a mesma coisa, uma denominação protestante norte-americana tem uma história consistente de apoio aos judeus e ao Estado de Israel.

A Convenção Batista do Sul (SBC, Southern Baptist Convention) é uma denominação protestante norte-americana, com quase 14 milhões de membros e 47 mil igrejas espalhadas pelos Estados Unidos, na atualidade. É a maior organização batista do mundo, o maior grupo protestante e segundo maior grupo cristão nos Estados Unidos. A SBC não é uma denominação no sentido de ser uma igreja hierarquicamente organizada, mas é uma união de igrejas que voluntariamente unem seus esforços em questões em comum, como missões e educação teológica. Esse espírito cooperativo se baseia em convicções bíblicas da fé comum e seu entendimento sobre a igreja local, conforme resumido na confissão de fé Mensagem & Fé Batista 2000. Suas igrejas afiliadas são evangélicas em doutrina e prática, enfatizando a importância da experiência da conversão individual, que é testemunhada por o fiel ser batizado em sua profissão de fé no evangelho de Cristo. A SBC, por meio de seus missionários enviados por sua junta missionária, conhecida como International Mission Board (IMB), foi fundamental no plantio de igrejas batistas no solo brasileiro, a partir de 1882, e com a organização da Convenção Batista Brasileira, em 1907, e que hoje tem um milhão e oitocentos mil membros e 13 mil igrejas afiliadas espalhadas pelo Brasil.

A SBC é reconhecida pelo seu forte apoio teológico ao Estado de Israel. Pode-se citar uma amostra de declarações emitidas pela SBC em apoio a Israel, que refletem o compromisso desta denominação com questões relacionadas ao povo judeu e ao Estado de Israel, sobretudo nos últimos 50 anos:

  1. Resolução sobre o apoio aos judeus na Rússia (1974): Expressou solidariedade e apoio aos judeus na União Soviética, que enfrentavam restrições religiosas e políticas. Também instou o governo dos Estados Unidos a tomar medidas para proteger os direitos humanos dos judeus na Rússia.
  2. Resolução sobre o Estado de Israel (1978): Assegurou o apoio da SBC ao direito de Israel existir como uma nação soberana e independente. Também reconheceu o vínculo histórico e espiritual entre o povo judeu e a terra de Israel.
  3. Resolução sobre Jerusalém (1995): Afirmou o apoio da SBC à soberania de Israel sobre Jerusalém como sua capital indivisível. Também instou o governo dos Estados Unidos a reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e a transferir a embaixada dos Estados Unidos para lá.
  4. Resolução sobre o terrorismo em Israel (2002): Condenou veementemente os ataques terroristas contra civis israelenses e expressou solidariedade com o povo de Israel em sua luta contra o terrorismo. Também pediu orações pela paz e segurança em Israel.
  5. Resolução sobre o apoio a Israel (2006): Garantiu o apoio da SBC ao Estado de Israel e condenou os ataques terroristas contra Israel. Também pediu orações pela paz em Israel e na região do Oriente Médio.
  6. Resolução sobre a segurança de Israel (2010): Reiterou o compromisso da SBC com a segurança e a soberania de Israel. Além disso, expressou preocupação com as ameaças à segurança de Israel, incluindo o desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã.
  7. Resolução sobre o direito de Israel à autodefesa (2014): Reafirmou o direito de Israel à autodefesa contra ameaças e ataques terroristas. Também expressou preocupação com a segurança e o bem-estar do povo israelense em meio a conflitos na região.
  8. Resolução sobre o antissemitismo (2017): Condenou o antissemitismo em todas as suas formas e expressões. Também expressou solidariedade com o povo judeu e reafirmou o compromisso da SBC com a promoção da justiça e da paz.
  9. Resolução sobre o reconhecimento de Israel (2018): Elogiou a decisão do governo dos Estados Unidos de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e de transferir sua embaixada para aquela cidade. Também reafirmou o apoio da SBC à soberania de Israel sobre Jerusalém.
  10. Declaração evangélica em apoio a Israel (2023): Condenou o ataque do grupo terrorista Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, que deixou 1.143 mortos, 3.400 feridos e 247 sequestrados. Estes pronunciamentos sintetizam suas perspectivas: “No rastro das atrocidades agora cometidas contra o povo de Israel pelo Hamas, nós […] condenamos inequivocamente a violência contra os vulneráveis, apoiamos plenamente o direito e o dever de Israel de se defender contra novos ataques e instamos urgentemente todos os cristãos a orar pela salvação e paz do povo de Israel e Palestina”. E depois: “Embora nossas perspectivas teológicas sobre Israel e a Igreja possam variar, estamos unidos em considerar os ataques contra o povo judeu especialmente preocupantes, já que eles têm sido frequentemente alvos de seus vizinhos desde que Deus os chamou como seu povo nos dias de Abraão”. Também enfatizou que desde a criação do estado de Israel, em 1948, “ele enfrentou inúmeros ataques, incursões e violações de sua soberania nacional”. Destacando que Israel é a única presença democrática na região, afirmou: “O povo judeu tem sofrido há muito tempo tentativas genocidas de erradicá-los e destruir o estado judeu. Essas ideologias antissemitas mortais e ações terroristas devem ser combatidas”. Por fim, apoia a resposta militar de Israel contra o grupo terrorista Hamas: “Em conformidade com a tradição cristã da guerra justa, também afirmamos a legitimidade do direito de Israel de responder [militarmente] contra aqueles que iniciaram esses ataques, já que Romanos 13 concede aos governos o poder de empunhar a espada contra aqueles que cometem tais atos malignos contra a vida inocente”.[2]

Esses exemplos demonstram o contínuo compromisso das igrejas batistas afiliadas da SBC com o apoio a Israel e ao povo judeu, bem como o interesse da denominação em questões relacionadas à segurança, soberania e bem-estar do Estado de Israel e do povo judeu.

No entanto, esse apoio da SBC a Israel é o resultado de um processo que se desenvolveu por décadas e que foi precedido por uma variedade de opiniões entre os batistas sobre o movimento sionista, que culminou na fundação do Estado de Israel, em 1948. É o que defende Walker Robins, historiador e palestrante no Merrimack College, em Massachusetts, especialista em relações judaico-cristãs, sionismo cristão e nas relações entre os Estados Unidos e Israel, e autor de Between Dixie and Zion: Southern Baptists and Palestine Before Israel.[3] Ele resumiu algumas reflexões de seu livro em um seminário online, ocorrido em 3 de novembro de 2022.[4]

De fato, de acordo com Robins, uma denominação protestante que viria a adotar inúmeras resoluções em favor de Israel rejeitou em sua assembleia anual de 1948 agradecer ao presidente Harry Truman, membro de uma igreja batista ligada à SBC, por seu papel no estabelecimento do Estado de Israel. “A maioria dos batistas do sul realmente não priorizava a questão da Palestina como uma questão política”, disse ele sobre o que era então um debate internacional ocorrendo há décadas sobre como dividir a região entre judeus e árabes. “Não havia um senso generalizado de que os batistas do sul tinham, ou deveriam ter, uma perspectiva particular sobre a questão da Palestina, ou sobre o sionismo ou sobre os objetivos da população árabe”. Antes de 1948, Robins acrescentou, “o que eu encontrei em vez disso é que os batistas do sul tinham várias prioridades que moldaram a maneira como pensavam e escreviam sobre a Palestina, sobre a terra, sobre o povo e sobre a política da região”.

O livro de Robins examina essas perspectivas batistas compartilhadas por peregrinos em viagem pela região, pastores de igrejas locais nos Estados Unidos, líderes denominacionais e missionários convertidos do judaísmo e islamismo. No seminário online Robins se concentrou nos escritos de quatro missionários e uma editora de publicações da SBC que expressaram várias opiniões sobre Israel, o sionismo e os árabes.

Shukri Mosa

Robins começou com Shukri Mosa, um árabe muçulmano que se converteu ao cristianismo e se tornou batista por meio das pregações de George Truett, pastor da Primeira Igreja Batista de Dallas, enquanto trabalhava como vendedor ambulante no estado do Texas, no início dos anos 1900. Ele foi ordenado ao pastorado nos Estados Unidos, antes de retornar com sua esposa, Munira, à Palestina otomana, como missionário, em 1911, enviado pela Associação Batista do Sul de Illinois. Seus artigos em revistas da SBC e no Baptist Standard do Texas transmitiam a preocupação de Mosa de que o movimento sionista pudesse prejudicar seus esforços de evangelização em e ao redor de Nazaré, onde fundou uma igreja batista: “Ele estava alertando os líderes batistas em casa que os sionistas estavam comprando terras ao redor de Nazaré. Ele alerta aos líderes batistas da IMB da SBC que os sionistas estavam interessados em possivelmente estabelecer uma escola perto de Nazaré”.

Robins citou um artigo de 1922 do Baptist Standard no qual Mosa reclama que “esses novos judeus, ou pelo menos a maioria deles, são pessoas não religiosas. Eles não acreditam na Bíblia como os antigos judeus e nós cremos; eles não reconhecem o shabat; eles comem qualquer tipo de carne; eles raramente são vistos na sinagoga; eles são imorais. […] Eles têm um grande ódio pelo cristianismo e por cristãos”, sendo “mais bolcheviques [comunistas] do que judeus”. Mas a crítica de Mosa aos sionistas não significava apoio político à causa árabe na região. “Se você realmente examinar o contexto desses artigos e as coisas que ele estava dizendo sobre o sionismo, o que ele realmente está tentando fazer é acender uma chama [pela região] entre os batistas do sul e ajudá-los a ampliar o apoio financeiro à missão [em Nazaré]”, disse Robins.

No extremo oposto estava o missionário batista do Texas, William Alexander Hamlett, enviado pela IMB. Ele, junto com sua esposa, chegou à região em 1921, prometendo criar igrejas, escolas e hospitais. Em menos de um mês, ele retornou para o Texas – não sem antes quase destruir a Missão Batista em Nazaré. Tendo retornado aos Estados Unidos, Hamlett fez campanha contra a Missão em uma série de artigos e discursos, alegando que era impossível manter uma missão na então Palestina Britânica. Mosa ficou constrangido e suplicou aos líderes batistas do sul nos Estados Unidos que enviassem outros missionários que pudessem “reabilitar nosso grande nome batista”, após o fracasso de Hamlett. Ao retornar ao Texas, Hamlett renunciou ao pastorado e se associou à Ku Klux Klan. Em 1923 a IMB, para ajudar com a situação causada por Hamlett, enviou os casais J. Wash e Mattie Watts e Fred e Ruth Pearson, para apoiar o ministério de Mosa. Como fruto desse serviço, na atualidade há uma Associação de Igrejas Batistas em Israel, com 17 igrejas e 900 membros.

Leo Eddleman

Missionário da SBC, por meio da IMB, Leo Eddleman estava inicialmente otimista quanto ao sionismo quando chegou à região, vindo dos Estados Unidos, em 1936. Ele serviu em Jerusalém, Tel Aviv e Nazaré. Eddleman, que depois se tornou reitor do New Orleans Baptist Theological Seminary, era conhecido por sua maestria tanto em hebraico quanto em árabe. Ele atribuía essas habilidades ao toque de recolher ocorrido durante o Mandato Britânico da Palestina, dizendo que havia pouco a fazer, além de estudar do nascer ao pôr do sol.

De acordo com Robins, Eddleman “era, inicialmente, muito entusiasmado com a possibilidade de receber [dos sionistas] uma abertura para os missionários batistas do sul que estavam tentando alcançar judeus para [Jesus] Cristo. E essa esperança foi compartilhada pela maioria dos missionários batistas do sul que começaram a chegar [na região] a partir dos anos 1920”. Eddleman, que serviu na região até 1941, foi encorajado por um componente da ideologia sionista que conectava a identidade judaica com a nacionalidade, não com a religião, disse Robins. “Então, os missionários realmente assumiram esse ponto e argumentaram que, se a ‘judaicidade’ é uma questão de identidade nacional em vez de religião, então não deveria ser um problema para os judeus se converterem ao cristianismo”.

Mas o missionário acabou se decepcionando ao descobrir que os próprios sionistas não viam as coisas dessa maneira. Como explicou Robins: “Na verdade, a maioria dos sionistas com quem ele falou sobre o assunto se opuseram à sua mensagem em nome do sionismo, e isso realmente começou a frustrá-lo, e você pode ouvir suas frustrações em questão de meses após sua chegada ao solo na Palestina [Britânica]”. A frustração se transformou em desconfiança, e, no meio e no final dos anos 1940, Eddleman escreveria ao presidente Truman para alertá-lo sobre as possíveis conexões sionistas com o comunismo.

Robert Lindsey

Mas onde Eddleman via limitação, Robert Lindsey via oportunidade, disse Robins. Esse missionário da IMB, acompanhado de sua esposa, Margaret, chegou em Jerusalém em 1945. Lindsey havia estado região como estudante, em 1939, e já possuía um bom conhecimento do hebraico. Ao chegar em Jerusalém, ele residiu na Casa Batista no bairro de Rehavia, fundada em 1925. Lindsey serviu na Casa Batista (conhecida atualmente como Igreja Batista de Jerusalém[5]) ao longo das próximas quatro décadas.

Quase um ano após o estabelecimento do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, Lindsay, que também era um erudito especializado nos estudos dos Evangelhos Sinóticos, comprou uma área de 15 acres perto de Petah Tikva, em nome da IMB. A fazenda tornou-se conhecida como Vila Batista, e serviu como orfanato, internato, acampamento e centro de retiro. Lindsey, que dirigiu a Vila Batista de 1956 a 1959, tornou-se pai de dezenove órfãos árabes e judeus. Ele sofreu um grave ferimento em 1961 ao tentar resgatar um dos órfãos, Edward Salim Zoumout. O missionário pisou em uma mina terrestre e perdeu o pé esquerdo, e se tornou um herói em Israel. Em 1960 ele foi o tradutor do destacado evangelista batista Billy Graham, quando este visitou Israel.

“O próprio Lindsay veio a se identificar muito profundamente com o movimento sionista. Ele foi ativamente inspirado por ele”, disse Robins. “Ele era um grande estudioso do hebraico, e ele começou a desenvolver um vocabulário que os missionários poderiam usar para mudar a maneira como os cristãos falavam sobre aspectos do cristianismo na língua hebraica. Ele queria torná-lo mais amigável para os ouvidos judaicos. Ele argumenta realmente pela renovação da fé cristã à luz de suas raízes judaicas”. E, para ele, o movimento nacionalista judaico seria “algo a que a Missão [Batista] precisaria se adaptar, e isso orientou a maneira como ele falou sobre o sionismo quando escrevia aos batistas do sul em casa [nos Estados Unidos]”, disse Robins.

Jacob Gartenhaus

Nenhuma pessoa ou evento isolado foi responsável pela gradual inclinação da SBC para uma postura pró-sionista antes de 1948, o ano da criação do Estado de Israel. Em vez disso, esta foi uma causa defendida por pessoas importantes, como o incansável convertido batista do judaísmo, Jacob Gartenhaus.[6]

Criado em um lar judaico ortodoxo na Áustria, Gartenhaus se mudou para a cidade de Nova York por volta dos vinte anos, quando passou a confiar em Jesus como o Messias e o Salvador, após ler a passagem bíblica de Isaías 53. Perseguido por amigos e abandonado por sua família, ele se tornou um missionário da SBC, por meio de sua Junta de Missões Norte Americana (NAMB, North American Mission Board), para alcançar para a fé no Messias os judeus do sul dos Estados Unidos. Mas ele foi muito bem-sucedido em defender entre os batistas do sul o sionismo, o Estado de Israel e a evangelização dos judeus. Seus escritos teológicos sobre as virtudes do sionismo foram influentes em toda a convenção, disse Robins: “Ele acreditava que as promessas de pacto entre Deus e o povo de Israel eram permanentes, que os judeus permaneciam o povo escolhido de Deus, que a Palestina [sic] permanecia como sua terra prometida e ele acreditava que essas promessas pactuais seriam cumpridas em ligação com a segunda vinda de Cristo”.

Para Gartenhaus, o ódio aos judeus e o verdadeiro cristianismo são mutuamente exclusivos. Aqueles que perseguem os judeus não podem, na realidade, ser cristãos, “porque qualquer pessoa que odeie qualquer ser humano, judeu ou não, não tem direito de se dizer cristão”. Assim, os cristãos só devem abordar os judeus com um espírito de amor: “Deus é amor […] então, quando você se aproximar de um judeu, certifique-se de que seu coração está cheio disso”.[7]

Baseada no mandamento bíblico e na prioridade da evangelização dos judeus, como ensinado nas Escrituras, a visão de Gartenhaus era dupla: ajudar e capacitar igrejas existentes a cumprir a Grande Comissão, alcançando tanto judeus quanto gentios para o evangelho; e fundar novas igrejas perto de comunidades judaicas. Para tanto, ele serviu na NAMB por 27 anos. Em 1949 ele fundou a Junta Internacional de Missões Judaicas (IBJM), que tem missionários em muitas cidades dos Estados Unidos e em 18 países ao redor do mundo. Porém, a conversão mais gratificante do ministério de Jacob foi a de seu próprio pai, que havia se mudado para a Palestina otomana na década de 1910 e lutava para seguir as tradições dos rabinos. Mas, aos 90 anos, confessou Jesus como o Messias durante o último encontro que Jacob teve com ele.[8]

Myrtle Creasman

Uma líder batista que foi fortemente influenciada por Gartenhaus foi Myrtle Robinson Creasman, editora de programas para a Royal Service, um periódico da União Feminina Missionária da SBC, que informava os batistas do sul dos Estados Unidos sobre os vários campos servidos por seus missionários. Como ela escreveu em 1935, a Terra Santa, então sob domínio britânico, tinha dado ao mundo “sua maior raça, os judeus; seu maior livro, a Bíblia; seu maior homem, [Jesus] Cristo; e sua maior religião, o cristianismo!” Esta era a terra “onde a história da terra se concentra e para a qual a profecia aponta como o lugar da realização do plano de Deus para o mundo”.

“Hoje, os olhos do mundo estão voltados para esta terra”, escreveu Creasman, “observando ansiosamente os eventos que estão ocorrendo lá, lendo novamente as profecias [bíblicas] que ainda devem se cumprir dentro de suas fronteiras, perguntando-se qual novo propósito Deus está realizando naquele local privilegiado do globo”. Creasman estava certa de que “a Palestina [Britânica] será redimida […] a bandeira da cruz tremulará triunfante sobre a terra do Senhor”. De acordo com Robins: “Myrtle Creasman é uma das batistas do sul mais importantes do início do século 20. […] Ela seguiu Gartenhaus. […] Ela acreditava que o sionismo era parte do plano de Deus para a história. Então, quando ela está escrevendo sobre a Palestina [sob domínio britânico] como um campo missionário, ela traz essa perspectiva e essas ideias começariam a ser disseminadas em toda a convenção [Batista do Sul]”.

Os líderes da SBC na época não endossavam a crença no pré-milenismo dispensacionalista ou o papel proeminente dos judeus na Terra Santa nos dias anteriores à segunda vinda do Senhor Jesus – na verdade, o pré-milenismo dispensacional era considerado “unBaptistic”. E nem todos os prémilenistas da SBC eram sionistas. No entanto, o controverso J. Frank Norris, pastor da Primeira Igreja Batista em Fort Worth, no Texas, travou batalhas duras contra pastores e instituições batistas do sul dos Estados Unidos, em parte por seu compromisso inabalável com o pré-milenismo e o sionismo. Em 1948, Norris e seus aliados tentaram fazer com que a convenção da SBC parabenizasse o presidente Harry Truman por reconhecer oficialmente o Estado de Israel, mas os delegados representantes das igrejas na convenção se recusaram a fazê-lo – provavelmente por várias das polêmicas envolvendo Norris.

Uma interpretação de Israel a partir da fé

Mosa, Eddleman, Lindsey, Gartenhaus e Creasman “refletem essa diversidade mais ampla [sobre os judeus e Israel] que se tem dentro da SBC durante esses anos” de 1911 a 1948, disse Robins. Não houve “um senso generalizado de uma única perspectiva batista do sul sobre a questão da Palestina”. Mas um tema quase universal entre os batistas do sul na época, independentemente de como viam a questão de Israel, era “identificar o movimento sionista com a civilização ocidental e a modernidade e o progresso material, em contraste com os árabes, que eles viam como atrasados ou pitorescos, no máximo”, acrescentou ele.

Os missionários e peregrinos batistas da época interpretavam os sionistas e a terra de Israel à luz da profecia bíblica. Essa abordagem implicava que os eventos na região estavam inseridos em um plano divino na história, interpretável de várias maneiras, seja pré-milenistas ou pós-milenistas. Havia uma percepção generalizada de que as dinâmicas na região estavam entrelaçadas com os desígnios de Deus, independentemente das interpretações específicas desses desígnios. O que deve ser destacado é que os batistas do sul abordavam a questão da terra de Israel sob uma perspectiva predominantemente religiosa, desvinculada de partidarismos políticos. Seus missionários na região também adotavam a mentalidade da peregrinação, considerando Israel como a Terra Santa. Assim, a visão da SBC sobre os judeus e a terra de Israel era moldada mais por considerações bíblicas e teológicas do que por análises políticas.

As ações realizadas pelo grupo terrorista Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, exigem inequívoco apoio internacional a Israel. Também é crucial que a comunidade cristã se posicione em solidariedade com Israel. Reconhecendo os laços históricos entre judeus e cristãos, baseados na tradição bíblica, a SBC condenou veementemente o terrorismo praticado pelo Hamas contra Israel. E esta condenação está relacionada à compreensão fundamental dos batistas de que alcançar os judeus e defender seu direito de existir e viver na Terra Prometida é crucial para cumprir a Grande Comissão (Mt 28.18-20), que orienta os seguidores de Jesus a fazer discípulos em todas as nações; o Grande Mandamento (Mt 22.36-40), que destaca o amor a Deus e ao próximo como base da Lei; e as promessas divinas feitas na aliança que o único Deus estabeleceu com Abraão (Gn 12.1-3; 15.1-21; 17.1-21), que incluem bênçãos para todos os povos por meio de seu descendente, o Messias, Jesus Cristo, o maior dos judeus. Como cristãos, os batistas do sul dos Estados Unidos reconhecem que a história de Israel e seu papel na revelação divina são elementos centrais de sua própria fé e compreensão da redenção.

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[1]Publicado originalmente no jornal Gazeta do Povo, em 16 de maio de 2024, em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/franklin-ferreira/convencao-batista-do-sul-eua-israel/. Republicado com autorização.

[2]Cf. “Evangelical Statement in Support of Israel”, ERLC, October 11, 2023, em: https://erlc.com/resource-library/statements/israel/.

[3]A dissertação de doutorado, Between Dixie and Zion: Southern Baptists’ Palestine Questions, que deu origem ao livro, e defendida na Universidade de Oklahoma, pode ser lida aqui: https://shareok.org/bitstream/handle/11244/23313/Walker%20Robins%20-%20Dissertation%20-%202015.pdf?sequence=1.

[4]Cf. “Southern Baptist support for Israel has traveled a winding road, scholar explains”, Baptist News Global, November 7, 2022, em: https://baptistnews.com/article/southern-baptist-support-for-israel-has-traveled-a-winding-road-scholar-explains/.

[5]Jerusalem Baptist Church in Jerusalem, em: https://jerusalembaptistchurch.org/.

[6]“Jacob Gartenhaus: ‘Eu preferiria morrer do que renunciar a Ele’ (1896-1984)”, Jewish Testimonies, em: https://www.jewishtestimonies.com/pt/jacob-gartenhaus-eu-preferiria-morrer-do-que-renunciar-a-ele-1896-1984/

[7]Walker Robins, “Jacob Gartenhaus: The Southern Baptists’ Jew”, JSR Volume 19 (2017), em: https://jsreligion.org/vol19/robins/.

[8]Doug Kutilek, “Jacob Gartenhaus — a true Israelite”, Baptist Bible Tribune, em: https://www.tribune.org/jacob-gartenhaus-a-true-israelite/.

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