O que o Apocalipse ensina sobre a política e a cultura no mundo de hoje

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Comentando as visões proféticas do apóstolo João no livro de Apocalipse, Richard Bauckham escreveu: “É um erro grave deduzir que Apocalipse se opõe ao Império Romano meramente por causa de sua perseguição aos cristãos. Na verdade, o livro apresenta uma crítica profética completa do sistema de poder romano. […] Não é só porque Roma persegue os cristãos que eles precisam opor-se a ela; antes, é porque os cristãos querem afastar-se do mal do sistema romano que […] sofrerão perseguição. […] João vê que a natureza do poder romano é tal que, se os cristãos são testemunhas fiéis de Deus, precisam suportar o confronto inevitável entre as pretensões divinas de Roma e seu testemunho do Deus verdadeiro […] Aqueles que testificam o único Deus real, verdadeiro e absoluto, a quem todo o poder político está sujeito, expõem a deificação idólatra de Roma pelo que é em si mesma. Isso significa que o poder de resistência a Roma teve origem na fé cristã no único Deus verdadeiro.”[1] A crítica profética de João ao poder imperial romano, como revelada em Apocalipse, é ampliada e aplicada a todo o Estado que impõe sua ideologia sobre toda a sociedade e requer culto ao seu líder, no lugar do único Deus vivo e soberano.

Assim, na medida em que a trama revelada em Apocalipse avança, a trama também se adensa. João tem visões proféticas cada vez mais dramáticas de uma grande guerra cósmica final entre o único Deus verdadeiro e o diabo, que se serve do Estado totalitário. Em Apocalipse 12.18 João tem a visão do “dragão” ou serpente parando na praia e aguardando o aparecimento da primeira “besta” ou monstro marinho. A razão para ele parar “em pé sobre a areia do mar” é que ele está convocando seu agente, a besta, para a batalha final. O “dragão” era o monstro marinho das profundezas, e o “mar” simboliza a esfera do mal. Essa é uma cena dramática, enquanto o dragão está parado na praia, a besta, vagarosamente, emerge do mar. A visão que João tem do surgimento das duas bestas está registrado em Apocalipse 13.1-18:

Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças, e, sobre os chifres, dez diademas, e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia. A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E o dragão deu à besta o seu poder, o seu trono e grande autoridade. Uma das cabeças da besta parecia ter sido golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi curada. E toda a terra se maravilhou, seguindo a besta; e adoraram o dragão porque deu a sua autoridade à besta. Também adoraram a besta, dizendo: — Quem é semelhante à besta? Quem pode lutar contra ela? Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e foi-lhe dada autoridade para agir durante quarenta e dois meses. A besta abriu a boca em blasfêmias contra Deus, para lhe difamar o nome e difamar o tabernáculo, a saber, os que habitam no céu. Foi-lhe permitido, também, que lutasse contra os santos e os vencesse. Foi-lhe dada, ainda, autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação. E ela será adorada por todos os que habitam sobre a terra, aqueles que, desde a fundação do mundo, não tiveram os seus nomes escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto. Se alguém tem ouvidos, ouça. ‘Se alguém tiver de ir para o cativeiro, para o cativeiro irá. Se alguém tiver de ser morto pela espada, pela espada morto será.’ Aqui está a perseverança e a fidelidade dos santos.

Vi ainda outra besta emergir da terra. Tinha dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão. Ela exerce toda a autoridade da primeira besta na sua presença e faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta, cuja ferida mortal havia sido curada. Também opera grandes sinais, de maneira que até faz descer fogo do céu sobre a terra, diante de todas as pessoas. Seduz aqueles que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi permitido realizar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta, àquela que foi ferida à espada e sobreviveu. E lhe foi concedido poder para dar vida à imagem da besta, para que também a imagem da besta falasse e fizesse morrer todos os que não adorassem a imagem da besta. A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz com que lhes seja dada certa marca na mão direita ou na testa, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome. Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de ser humano. E esse número é seiscentos e sessenta e seis.

O dragão concede poder a besta

João afirma que viu “emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças, e, sobre os chifres, dez diademas”. O “mar”, a morada do mal, pode representar a humanidade rebelde a Deus, em constante agitação, um caldeirão de vida nacional e social confusa, num ponto de ruptura. E deste ambiente caótico surge a besta, que combina aspectos das quatro bestas do livro de Daniel 7, que representam reinos idólatras, mas agora englobando todos aqueles reinos em um último reino mundano. O parentesco entre a besta e o dragão fica evidente no fato de que ambos têm “dez chifres e sete cabeças”. Os detalhes retratam uma besta medonha e amedrontadora, a incorporação de todo o mal. “E, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia”, ou seja, a besta traz um nome de divindade sobre a cabeça, exigindo que os homens a adorem. Na época de João o imperador Domiciano exigiu que as pessoas se dirigissem a ele com o título de Dominus et Deus (Senhor e Deus) e as cidades da Ásia Menor competiam entre si pela honra de ter um templo dedicado ao imperador, para promover o culto imperial. Mas há aspectos nesta besta que não têm paralelo no mundo romano. Ela será uma combinação de todas as bestas ou impérios iníquos que, ao longo da história, têm se levantado contra Deus e seu povo. Por isso, a besta da visão é o Anticristo, um somatório de todos os reinos opressores e Estados totalitários que surgiram antes dela.[2]

Na visão, a besta “era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão”, combinando adjetivos das primeiras três bestas de Daniel 7; a quarta besta é representada pelos dez chifres. E “o dragão deu à besta o seu poder, o seu trono e grande autoridade”, ou seja, a besta não é apenas uma concentração de poder político e militar, ou a deificação do Estado e do seu governante; ela personifica a maldade satânica, obtendo seu poder e sua autoridade do dragão, que opera por meio do Estado iníquo. E “uma das cabeças da besta parecia ter sido golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi curada”. Estas são as mesmas palavras usadas para o Cordeiro (5.6), que foi morto de fato. E essa ferida na cabeça da besta não é outra coisa senão aquela que o Cristo-Cordeiro infligiu, em sua ressurreição, ao diabo (Gn 3.15). Mas a cabeça “foi curada”, a besta retornou à vida depois de receber uma “ferida mortal”, portanto a besta se apresenta como uma paródia da morte e ressurreição de Cristo. Esta será mais uma imitação satânica, onde o dragão e a besta copiam o que Deus e Cristo realizaram. Assim, por causa desta ressurreição falsificada, “toda a terra se maravilhou”. Aqueles apartados de Deus e do Cordeiro “adoraram o dragão […] também adoraram a besta”. As multidões são enganadas pelo milagre e fazem o que não fizeram durante o ministério de Jesus, adoram o dragão e a besta. A besta não quer exercer apenas poder político, sua meta é conquistar a lealdade das pessoas e desviá-las da adoração a Deus. Mas adorar a besta, usando uma paródia do Cântico de Moisés (Êx 15.11), é adorar o poder satânico por trás dela, pois as forças demoníacas sempre estão por trás da adoração aos ídolos.

João nos lembra que o tempo do Anticristo será um tempo de luta pelas almas da terra. E a besta evidenciará um poder tão grande que o mundo será convencido da futilidade de querer resistir ao seu poder maligno. Como cristãos, como estamos nos preparando para esse tempo de iniquidade e trevas que virá?

O controle divino sobre as atividades da besta

Na visão de João é dito que foi “dada [à besta] uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias”. Como a besta recebeu esta boca de alguém, fica claro que o seu poder não provinha dela, mas de uma autoridade superior. Ela recebeu seu poder do dragão. Ou seja, a autoridade da besta parece ter vindo de Satanás. Mas, na realidade, o Deus soberano limita essa autoridade, “para agir durante quarenta e dois meses”, número que simboliza todo o período de perseguição da igreja, principalmente este período final, o tempo da grande tribulação. As “arrogâncias e blasfêmias” da besta contra Deus são a reivindicação da besta de que as pessoas lhe sejam fiéis e o adorem em lugar de Deus. E os santos serão difamados e pisados pelo Anticristo. O “tabernáculo” celestial não é apenas um lugar, é também o povo de Deus, e blasfemar contra o povo de Deus é blasfemar contra o lugar em que Deus habita. Diante de um quadro tão terrível, confiamos em que apenas o Deus soberano, e não o diabo, estabelece tempos e períodos? Como tal certeza guia nossa vida e preparação para o embate final?

E foi “permitido [à besta…] que lutasse contra os santos e os vencesse”. A besta tem ódio contra os santos, e agirá contra eles não importa os meios, mas sempre no âmbito da soberania divina. Sua ação primordial será desviar os santos de Cristo, o que a besta tenta com perseguição feroz. Ela os perseguirá terrivelmente, mas isto não significa que a besta consegue desviar os santos de sua lealdade de Cristo. Na verdade, aqueles que a besta aparentemente vencera tinham obtido a vitória, através do seu martírio. Seu martírio foi sua vitória; eles permaneceram leais a Cristo e se recusaram a adorar a besta e o dragão. Como Grant Osborne colocou: “Quando o dragão e a besta vencem os santos, eles são vencidos pelos santos. Isso repete a derrota de Satanás por Cristo. Quando Satanás planejou a morte de Cristo e entrou em Judas a fim de levar Cristo à cruz, ele estava selando o próprio destino. Quando Satanás ‘venceu’ Cristo, ele foi ‘vencido por Cristo’. Quando os santos se engajam na ‘participação dos seus sofrimentos’ […], eles compartilham da vitória final de Cristo mediante uma aparente derrota”.[3] Também foi “dada [à besta] autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação”. Não é possível encontrar o cumprimento destas palavras em nenhuma situação do Império Romano. A perseguição sob Nero estava limitada a Roma e implicou em poucos mártires; a perseguição sob Domiciano teve um alcance muito curto, Roma e cidades da Ásia Menor. João olha para um tempo em que um governante anticristão exercerá poder sobre todo o mundo. Mas, novamente, até mesmo esse ato final de abuso da besta contra o povo de Deus está sob o controle soberano do Senhor.

Por fim, a besta “será adorada por todos os que habitam sobre a terra”, uma referência às nações descrentes que seguem a besta, opõe-se a Deus e perseguem os santos. A besta terá total controle sobre elas, e elas realizarão todos os caprichos da besta. Entretanto, a besta não tem poder sobre o povo de Deus. A besta pode, com certeza, persegui-los e matá-los, mas seu poder sobre os santos será físico, não espiritual. O “Livro da Vida” é o registro de todos os que foram salvos pela fé no Cordeiro de Deus crucificado e ressurreto. Que seus nomes foram escritos “desde a fundação do mundo” implica na certeza que estes têm de sua eleição graciosa e da segurança de que Deus os guarda, apesar de parecerem indefesos diante dos ataques da besta. Que o Cordeiro “foi morto” se refere ao fato que ele operou a salvação para os que creem nele, e que sua morte mostrou o caminho para os que o seguiriam.

Aqui somos lembrados que a derrota que Cristo impôs ao diabo é semelhante ao Dia D na Segunda Guerra Mundial, e atual luta do diabo e de sua serva, a besta, é semelhante à resistência das forças alemãs ao inevitável e vitorioso avanço dos aliados ocidentais. Como o ponto de virada do Dia D, o resultado decisivo está agora assegurado, mesmo que a batalha ainda continue sendo travada. Assim, estamos diante dos últimos atos de rebeldia de um inimigo fanatizado, mas já derrotado. A vitória final foi alcançada na cruz pelo Cordeiro de Deus que foi morto em favor e no lugar dos eleitos.

Uma exortação para discernir entre a verdadeira e a falsa religião

João encerra sua descrição do Anticristo com uma advertência: “se alguém tem ouvidos, ouça”. Deus está dando instruções sobre a conduta de seu povo diante da perseguição violenta e pesada. Ele requer que ouçamos e obedeçamos a suas instruções. A isto segue uma afirmação solene, que pode ser traduzida de duas maneiras. A primeira versão faz referência a perseguidores que no fim sofrerão o mesmo destino que estão infligindo a outros: “Se alguém leva para cativeiro, para cativeiro vai. Se alguém matar à espada, necessário é que seja morto à espada”. A segunda versão pode se referir aos perseguidos: “Se alguém tiver de ir para o cativeiro, para o cativeiro irá. Se alguém tiver de ser morto pela espada, pela espada morto será”. A perseguição pela besta faz parte da providência de Deus e não cabe resistência violenta por parte dos santos. Quem está destinado ao cativeiro, tem de estar disposto a ir, como cristão. O cativeiro e a morte sempre têm sido o destino dos santos e, nos dias finais, debaixo da influência do Anticristo, ambos se tornarão a experiência universal da igreja – que, de acordo com Bauckham, pode implicar “o martírio de todos os cristãos, sem exceção [… o que] exige que todo cristão fiel esteja preparado para morrer”.[4] Mas a perseguição não é a última palavra, pois ambas as versões podem estar certas: Deus retribui, e o castigo dos que perseguem e matam, no fim, será de acordo com seu crime. A última palavra não está com o perseguidor. O julgamento final está nas mãos de Deus, e este virá, com certeza. Os que erguem a espada contra o povo de Deus receberão a retribuição justa, mas para esperar aquele dia é preciso “perseverança” e “fidelidade”. Por enquanto, a impressão é que a besta tem poder ilimitado para matar os santos. Assim, tal tribulação exigirá dos santos fé de que Deus ainda é Deus, que ele ainda está governando, e que seu Reino triunfará.

A luz da exortação feita pelo apóstolo, devemos rejeitar a tão popular ficção de um suposto “arrebatamento secreto”, que salvaria a igreja magicamente antes dessa grande tribulação. Como afirmou corretamente Corrie ten Boom, que foi presa em 1944 pelos nacional-socialistas alemães por abrigar judeus em sua casa na Holanda, não há fundamento bíblico para tal ensino. E, como ela também afirmou, essa crença tornou a igreja cristã despreparada para enfrentar tempos de grande perseguição e martírio.[5]

A única ação que será permitida aos santos nessa perseguição final é o se aplicar ao testemunho fiel e à perseverança em seguir a Cristo. Seremos chamados a nos submeter à besta, mas, sobretudo, à providência de Deus. Como no Antigo Testamento, em que o Senhor Deus é quem vencia as guerras em favor de seu povo, não devemos fazer guerra contra a besta – isso é função de Deus. Devemos viver fielmente e perseverar em nosso testemunho, deixando a batalha para o Senhor. Pois, como Bauckham escreveu, “enquanto a terminologia moderna chama o martírio de ‘resistência passiva’, as representações militares de João [em Apocalipse] o tornam tão ativo quanto qualquer guerra física. […] A mensagem […] não é ‘não resistam!’, mas, sim, ‘resistam, mas pelo testemunho e martírio, não pela violência’. […] Os leitores de João não devem transigir, antes, devem resistir à idolatria do Estado e da sociedade pagãos. Ao agirem dessa forma, estarão cumprindo uma função indispensável na concretização da vitória do Cordeiro.”[6]

E os nomes blasfemos que adornam a besta, a adoração que a besta requer das nações, o seu poder para realizar milagres e enganar e até perseguir os santos, ocorrem no âmbito da soberania de Deus. Não há poder verdadeiro no mal. O Deus soberano está no controle, e o mal não pode realizar nada além do que faz parte do propósito divino. E todos esses males terão seu fim no tempo predeterminado por Deus. Como John Owen, que no tempo de Oliver Cromwell havia sido vice-chanceler da Universidade de Oxford, e que perdeu esta posição com a volta do tirano Carlos II ao poder, escreveu em 1680: “Mesmo que caiamos, a nossa causa será vitoriosa porque Cristo está assentado à direita de Deus; o Evangelho triunfará e isso me conforta de forma extraordinária.”[7]

O surgimento da besta da terra ou monstro terrestre

João menciona que viu “outra besta emergir da terra”. Esta segunda besta ou monstro terrestre era semelhante a um cordeiro, mas sua voz traía sua aparência, pois falava como dragão. Ela representa a religião a serviço da adoração à besta do mar, sendo chamada, mais adiante, de o “falso profeta” (Ap 19.20). A primeira besta incorpora o poder civil e militar; a segunda besta representa o poder religioso, empregado para apoiar o poder civil e militar. Ou seja, a rebelião final de Satanás será empreendida de forma implacável, por meio da instrumentalização de todas as esferas da sociedade. E, para promover essa grande batalha contra Deus e seu povo, Satanás parodia a Santa Trindade e estabelece sua própria trindade falsa: o dragão, ou seja, ele mesmo; a besta do mar, que é o Anticristo, com seu poder político e militar total; e a besta da terra, que é o falso profeta, que será o líder religioso do movimento. O dragão usa essas criaturas para ganhar o controle tanto do sistema político quanto do religioso, criando um único governo mundial, com o Anticristo como o rei supremo, e uma religião mundial, com o Anticristo como o ídolo do mundo. A combinação dos domínios político e religioso são o cerne do poder absoluto da falsa trindade sobre as nações.

A segunda besta, cuja descrição é tomada de Daniel 8, está a serviço da primeira besta. Não tem poder próprio, mas recebe poder de sua união com a primeira besta. Seu único objetivo é angariar a lealdade religiosa da terra para a primeira besta, fazendo com que todos os habitantes da terra “adorem” o Anticristo, tendo como base uma paródia da ressurreição. “Também opera grandes sinais, […] faz descer fogo do céu sobre a terra, diante de todas as pessoas. Seduz aqueles que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi permitido realizar”. No mundo romano a magia tinha um papel importante e era muito usada para enganar os crédulos. O falso profeta não fará somente supostos milagres, como uma paródia dos profetas Moisés e Elias. Ele terá poder para fazer descer fogo do céu, para enganar os homens com supostos poderes divinos, fazendo-os crer no que na realidade é obra de Satanás. Como G. K. Beale & David H. Campbell escrevem: “Um profeta verdadeiro leva as pessoas a adorar a Deus, mas o falso profeta as leva a adorar o Estado (e, por extensão, o diabo)”.[8] Portanto, os cristãos não podem tolerar falsos mestres que se infiltram na igreja para seduzir alguns a que se comprometem com as instituições idólatras da cultura da morte, ilustrada pela defesa do abordo, sancionada pelo Estado iníquo, e que servem à besta.[9] Os “que habitam sobre a terra” é uma expressão para aqueles que não creem no Cordeiro. Já que os que rejeitaram a oferta de salvação de Deus e recusaram-se a se arrepender (Ap 9.20,21), Deus os entregou ao engano que eles mesmos haviam escolhido. Em certo sentido, Deus está “entregando-os a Satanás”.

A vivificação aparente da primeira besta lembra trapaças realizadas por sacerdotes e feiticeiros do mundo antigo, que construíam roldanas e usavam técnicas de ventriloquia para dar a impressão de que os ídolos estavam vivos. Mas os sinais da besta parecem incluir atividade demoníaca real, já que o dragão está por trás dos ídolos estatais. Além disto, a segunda besta recebeu poder para fazer “morrer todos os que não adorassem a imagem da besta”. A frase, que é um eco da ordem de Nabucodonosor, em Daniel 3, afirma que a imagem da besta ordena que os que não adoram a besta sejam mortos. Contudo, Bauckham escreve, “a besta pode matá-los, mas não pode suprimir seu testemunho da verdade. Sua morte não contesta sua evidência, porque mesmo em sua morte, o poder da verdade em convencer supera o poder da mera força física para suprimi-lo.”[10] Assim, o conflito crucial é colocado pelo apóstolo de forma bem clara. O conflito não é entre religião e ateísmo ou entre religião e religião. Mas entre Cristo e Anticristo – entre Deus e Satanás. De que lado estamos?

O povo de Deus, às portas da grande tribulação, foi selado em suas testas (Ap 7.3), separando-o da ira de Deus derramada sobre o mundo (Ap 9.4), fortalecendo-o em seu testemunho e sua lealdade a Cristo. A besta tem a sua “marca”, que é aplicada sobre a “mão direita” ou a “testa” daqueles que a adoram, numa inversão e paródia macabra dos tefilin judaicos. De maneira que temos dois grupos de pessoas, os que são selados por Deus e os que levam a marca da besta. A marca da besta é sinal de fidelidade por parte dos que a recebem, identificando-os como adoradores da besta. E esta marca da besta tinha utilidade religiosa e econômica. Pois a besta, com a ajuda do falso profeta, assumirá poderes totalitários, com controle completo de toda a política, religião e economia do mundo, com o objetivo de levar toda a humanidade a adorá-la. Se isso parece distante ou fantasioso basta acompanhar os experimentos de controle social que estão ocorrendo na China comunista.[11] Assim, devemos observar atentamente a polarização: crentes são marcados com o “selo” de Cristo, enquanto os descrentes têm a “marca” da besta. Não há neutralidade nessa guerra, ou se pertence a Cristo ou à besta. A quem, de fato, pertencemos?

Uma exortação a perseverar na fé

Esta visão de João se encerra com nova exortação: “aqui está a sabedoria. […] O número da besta […] é número de ser humano. E esse número é seiscentos e sessenta e seis”. João dá o nome da besta de maneira simbólica. Os primeiros leitores de Apocalipse devem ter entendido a menção. O máximo que podemos dizer é que se o número da besta é uma profecia de uma situação futura, ninguém ainda resolveu seu significado. O que é claro é que “seiscentos e sessenta e seis” refere-se à besta como inerentemente incompleta e pecaminosa, imperfeita, ainda que aparente ter alcançado perfeição e divinização.

Em toda essa passagem de Apocalipse 13, João antevê o período de tribulação final da História, quando a besta, o Anticristo, sobe ao poder e a segunda besta, o falso profeta, se torna seu sumo sacerdote, obrigando o mundo a escolher entre Cristo e a besta. Nesse contexto, a recusa em participar da adoração universal à [12]besta será considerada crime capital. Isso nos parece dramático ou radical? Devemos lembrar que vivemos apenas setenta anos depois da ascensão de monstros como Adolf Hitler, Josef Stalin e Mao Tsé-Tung ao poder e exigiram para si lealdade total. Na atualidade o espírito do Anticristo opera no Ocidente, engolfando-o numa onda de controle estatal, paganização, imposição de uma cultura de morte e promiscuidade sexual, enquanto no Oriente Médio o islamismo persegue os cristãos com fúria e o comunismo chinês suprime violentamente a liberdade da fé cristã. Portanto, somos, aqui, colocados todos diante do momento decisivo, a escolha entre seguir a besta ou o Cordeiro, o diabo ou o único Deus verdadeiro. A quem você seguirá – aqui e agora?

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Referências bibliográficas

[1] Richard Bauckham, A teologia do livro de Apocalipse (Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2022), passim.

[2] Cf. Franklin Ferreira, “O Anticristo nas obras de Soloviev e Benson”, em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/franklin-ferreira/o-anticristo-nas-obras-de-soloviev-e-benson/.

[3] Grant Osborne, Comentário Exegético: Apocalipse (São Paulo: Vida Nova, 2014), p. 562.

[4] Richard Bauckham, A teologia do livro de Apocalipse, passim.

[5] Cf. Corrie ten Boom, “The coming tribulation”, em The Texas Herald, vol. 32, n. 10, October 1981.

[6] Richard Bauckham, A teologia do livro de Apocalipse, passim.

[7] Esta citação se encontra em Iain Murray, The puritan Hope; revival and the interpretation of prophecy (Edinburgh: Banner of Truth, 1998), p. xii-xiii.

[8] G. K. Beale & David H. Campbell, Brado de vitória: um breve comentário de Apocalipse (São Paulo: Cultura Cristã, 2017), p. 262.

[9] Cf. Franklin Ferreira, “O ‘outro Evangelho’ dos ‘cristãos progressistas’”, em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/franklin-ferreira/cristaos-progressistas-outro-evangelho/.

[10] Richard Bauckham, A teologia do livro de Apocalipse, passim.

[11] Cf., por exemplo, “Superestado Han da China: O Novo Terceiro Reich”, em: https://pt.gatestoneinstitute.org/14048/china-novo-terceiro-reich; “Mais monitoramento e restrições: veja as novas medidas da China contra igrejas”, em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/mais-monitoramento-e-restricoes-veja-as-novas-medidas-da-china-contra-igrejas/.

1 COMENTÁRIO

  1. Será que devo desconsiderar tudo que já li sobre as anotações do Dr. Scofield, da Bíblia Vida Nova e dos diversos textos de interpretação batistas sobre arrebatamento da Igreja? Eu sempre achei que o que João registra após o cap. 4 de Apocalipse trata de eventos futuros. Na minha Bíblia com anotações de Scofield diz sobre Ap 4.1: “o ponto de vista de João é do céu. Como a palavra ‘igreja’ não aparece novamente no Apocalipse até 22:16, o arrebatamento de João da terra ao céu tem siso aceito como representação simbólica da trasladação da Igreja ocorrendo antes dos acontecimentos da tribulação descritos nos caps. 6-19.” É assim que tenho crido até hoje!…

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