O uso de Isaías em Apocalipse: hermenêutica e escatologia intratestamentárias

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  1. Introdução

Mesmo uma leitura casual do livro de Apocalipse deixa a impressão de que seu autor foi profundamente afetado pelos livros proféticos do Antigo Testamento. As esperanças messiânicas eram tão elevadas entre os cristãos primitivos quanto haviam sido entre os judeus durante os dois séculos imediatamente anteriores e posteriores ao nascimento de Jesus Cristo. João tirou partido destas altas expectativas, ao apresentar uma descrição semi-apocalíptica[1] da tomada soberana do poder universal por Jesus Cristo, de modo a estimular em sua própria geração a mesma lealdade exclusiva que a derradeira geração de cristãos irá demonstrar ao Rei que estará prestes a retornar.

Ao fazer isso, o vidente de Patmos recorreu a citações extensas e a frequentes alusões à literatura profética do Antigo Testamento (de agora em diante designado por AT). O método e propósito de João, todavia, não se percebem tão facilmente. Suas citações e alusões mais óbvias vêm de Daniel e Ezequiel, ao passo que outras fontes são de identificação mais difícil. O primeiro objetivo deste artigo é examinar e classificar as alusões ao profeta Isaías no livro de Apocalipse. O segundo objetivo é aplicar observações ao estudo de um assunto controvertido na área da escatologia, ou seja, a localização dos eventos e lugares mencionados em Apocalipse 21.

  1. A necessidade deste estudo

É importante entender as técnicas literárias de um autor quando este compõe seu trabalho. É ponto pacífico entre os intérpretes do Novo Testamento (de agora em diante designado por NT) que os seus autores nem sempre tratam os termos extraídos do AT com um rigor literalista. Ao lidar com citações e alusões veterotestamentárias, o intérprete precisa dar prioridade ao conceito de revelação progressiva como uma das forças que podem ter contribuído para que o autor neotestamentário tivesse uma compreensão expandida de um texto do AT.

No caso específico de Isaías e Apocalipse, a preocupação deste autor é a interpretação errônea de Isaías 65 e 66, quando de seu uso por João, em relação aos novos céus e à nova terra. O teólogo reformado Anthony Hoekema propôs uma mudança significativa na hermenêutica e escatologia aliancistas, ao sugerir que as profecias concernentes ao reino messiânico fossem entendidas mais literalmente.[2] Hoekema as vê recebendo cumprimento mais “literal”, mas não na terra histórica e sim na nova terra do ἒσχατον (eschaton). Esta guinada escatológica teve influência aparente sobre teólogos dispensacionalistas mais recentes, que parecem dispostos a considerar a posição de Hoekema como compatível com o dispensacionalisrno.[3]

Ao investigar o uso joanino do “profeta evangélico”, este artigo tentará determinar se João modificou ou não o sentido da expressão “novos céus e nova terra”, encontrada em Isaías 65.17.

  1. Método de Estudo

O processo a ser seguido é o seguinte: o primeiro passo será o estabelecimento de uma lista razoavelmente abrangente das alusões a Isaías em Apocalipse; o segundo passo será determinar o método ou a abordagem empregada por João ao citar a profecia de Isaías. Os dois últimos passos serão um estudo mais detalhado de Isaías 34, que é o capítulo ao qual João mais alude, e um exame de Isaías 65.17 e Apocalipse 21.1, na tentativa de determinar como João usa a frase “novos céus e nova terra”, visando avaliar a posição proposta por Hoekema e sua compatibilidade ou não com uma escatologia dispensacionalista.

Em geral, o artigo espera atacar o problema levantado por Merrill Tenney, que escreveu:

Com uma ou duas exceções, nas quais as referências são bastante vagas, as restantes são identificáveis, apesar de indiretas. As alusões são suficientemente definidas para identificarmos sua fonte, mas não explícitas o bastante para que possa ser detectado um padrão consecutivo de pensamento baseado no Antigo Testamento.[4]

II. O uso de Isaías em Apocalipse

  1. Definição

O uso que João faz de Isaías (e de outros profetas do AT) em Apocalipse é bastante variado. Não há citações formais precedidas por fórmulas tal como se vê em outros livros do NT. Não há citações literais, mas sim referências a palavras, frases, ou simplesmente a conceitos encontrados na obra original.

Tais referências serão aqui chamadas alusões. Este termo tem recebido definições diferentes como categoria literária. O Novo Dicionário Aurélio assim o define: “referência vaga e indireta” ou “menção, referência, relação” ou ainda “apreciação indireta de uma pessoa ou um ato, por meio de referência a um fato ou personagem conhecidos”.[5] Uma definição mais “literária” afirma que alusão é

costumeiramente uma referência implícita, talvez a outra obra de literatura ou arte, a uma pessoa ou a um evento. Frequentemente se trata de uma espécie de apelo a que o leitor compartilhe alguma experiência com o autor. Uma alusão pode, por meio de associações, enriquecer um texto e dar-lhe profundidade.[6]

Embora exatas do ponto de vista literário, tais definições mal se referem à pessoa que é o alvo da alusão, ou seja, o leitor! Uma definição mais exata nos é oferecida por Ziva ben-Porath, que afirma:

Num texto literário, alusão é um recurso pelo qual o leitor liga um ou mais elementos no referido texto a outros elementos independentes e diferentes em outro texto evocado.[7]

Esta definição é aqui adotada, por perceber e valorizar o elemento de propósito embutido no processo alusivo. Na verdade, ben-Porath nos oferece uma descrição útil do processo literário conhecido por alusão:

O processo de efetivar uma alusão pode ser esquematizado, grosso modo, em cinco estágios: (1) identificação do marcador (aquilo que evoca a associação); (2) identificação da fonte; (3) compreensão do componente marcado — a ativação de seus componentes contextuais relevantes, seguida de (4) a ligação dos elementos relevantes a partir de seus respectivos contextos; e (5) o ajuste de um novo padrão ou de novos padrões no texto de onde parte a alusão.[8]

Este projeto proposto pela erudita americana será aqui parcialmente aplicado às alusões que Apocalipse faz à profecia de Isaías. Esta divisão do artigo tratará dos estágios (1) e (2). A próxima divisão tratará dos estágios (3) e (5) com respeito ao capítulo 34 de Isaías,

  1. Alusões a Isaías em Apocalipse

O que se segue é uma lista praticamente completa de alusões ao livro de Isaías encontradas em Apocalipse. A passagem em questão é citada, e a passagem aludida em Isaías é identificada e citada.

Apocalipse

1.4         daquele que é, que era e que há de vir

1.4         dos sete Espíritos que se acham diante do seu trono

1.6 e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus. Também 5.10; 20.6.

1.8 Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus.

1.16       e da boca sai-lhe uma afiada espada de dois gumes. Também 2.12,16.

1.17       Eu sou o primeiro e o último. Também 2.8; 21.6; 22.13.

2.17       … e sobre essa pedrinha branca escrito um nome novo. Também 3.12.

2.27       … e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro.

3.7         … aquele que tem a chave de Davi, que abre c ninguém fechará, e que fecha e ninguém abre.

3.9         … farei que venham adorar prostrados aos teus pés e saibam que eu te amo.

3.18       Aconselho-te que de mim compres …

4.2         … eis armado no céu um trono, e no trono alguém sentado;

4.4         … e assentados nos tronos vinte e quatro anciães …

4.8         … tendo cada um deles respectivamente seis asas …

5.5         … a Raiz de Davi venceu …

5.6,12    … de pé, um Cordeiro, como tinha sido morto …

5:9         … e entoavam um novo cântico … Também 14.3.

6.12       O sol se tornou negro como saco de crina.

6.13       … as estrelas do céu caíram pela terra, como a figueira, quando abalada por um grande vento, deixa cair os seus figos verdes.

6.14       … e o céu recolheu-se como um pergaminho que se enrola.

Então todos os montes e ilhas foram movidos dos seus lugares.

6.15       … se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes.

7.16       Jamais terão fome, nunca mais terão sede.

7.17       E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima.

9.1         e vi uma estrela caída do céu na terra …

11.2       estes por quarenta e dois meses calcarão aos pés a cidade santa.

12.2       que, achando-se grávida, grita com as dores de parto, sofrendo tormentos para dar à luz.

12.3,4    … e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres …

12.9       … sim, foi atirado para a terra.

14.5       e não se achou mentira na sua boca …

14.8       Caiu, caiu a grande Babilônia …

14.10     … também esse beberá do vinho da cólera de Deus … do cálice da sua ira … Também 15.7; 16.19

14.11     A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos …

14.19     … e vindimou a videira da terra e lançou-a no grande lagar da cólera de Deus.

15.4       … todas as nações virão e adorarão diante de Ti.

15.8       O santuário se encheu de Fumaça … da glória de Deus ..

16.1       Ouvi, vinda do santuário, uma grande voz … as sete taças da cólera de Deus. Também 16.17.

16.6       também sangue lhes tens dado a beber …

16.12     o grande rio Eufrates, rujas águas secaram para que se preparasse o caminho para os reis que vêm do lado do nascimento do sol.

18.2       … e se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo, e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável.

18.4       Retirai-vos dela, povo meu …

18.7       … porque diz consigo mesma: “Estou sentada como rainha. Viúva não sou. Pranto nunca hei de ver.

18.8       Por isso em um só dia sobrevirão os seus flagelos …

18.20     Exultai sobre ela, ó céus …

18.22     E voz de harpistas, de músicos, de tocadores de flautas e de clarins jamais em ti se ouvirá.

18.23     … os teus mercadores foram os grandes da terra …

19.3       E a sua fumaça sobe pelos séculos dos séculos.

19.8       Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos.

19.11     … e julga e peleja com justiça.

19.13     Está vestido com um manto tinto de sangue. Também 14.20.

19.15     … para com ela ferir as nações.

19.17     Vinde, reuni-vos para a grande ceia de Deus.

19.20     Os dois foram lançados vivos dentro do lago do fogo que arde com enxofre. Também 20.10,15.

20.4       … e viveram e reinaram com Cristo …

21.1       Vi novo céu e nova terra.

21.2       … ataviada como noiva adornada para o seu esposo.

21.4       … já não haverá luto, nem pranto, nem dor …

21.6       Eu, a quem tem sede darei de graça da fonte da água da vida. Também 22.17.

21.11     a qual tem a glória de Deus …

21.19     Os fundamentos da muralha da cidade estão adornados de toda espécie de pedras preciosas.

21.21     As doze portas são doze pérolas …

21.23     A cidade não precisa nem do sol nem da lua para lhe darem claridade … Também 22.5.

21.24     As nações andarão mediante a sua luz …

21.25     As suas portas nunca jamais se fecharão de dia porque nela não haverá noite.

21.27     Nela nunca jamais peneirará coisa alguma contaminada, nem o que pratica abominação e mentira.

22.12     E eis que venho sem demora, e comigo está o meu galardão para retribuir a cada um segundo as suas obras.

22.16     Eu sou a raiz e a geração de Davi.

Isaías

41.4       … eu, o SENHOR, o primeiro, c com os últimos eu mesmo.

11.2       … o Espírito do SENHOR … temor do SENHOR

61.6       Mas vós sereis chamados sacerdotes do SENHOR, e vos chamarão ministros do nosso Deus.

41.4       … eu, o Senhor, o primeiro, e com os últimos eu mesmo.

49.2       fez a minha boca como uma espada aguda

48.12     … sou o primeiro e também o último. Também 44.6.

62.2       … e serás chamado por um nome novo …

65.15     … e a seus servos chamará por outro nome.

30.14     O SENHOR o quebrará como se quebra o vaso do oleiro …

22.22     Porei sobre o seu ombro a chave da casa de Davi; ele abrirá e ninguém fechará, fechará e ninguém abrirá.

60.14     Também virão a ti, inclinando-se, os filhos dos que te oprimiram; prostrar-se-ão até às plantas dos teus pés todos os que te desdenharam. Também 45.14 e 49.23.

55.1       Vinde às aguas… vós os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei…

6.1         … eu vi o SENHOR assentado num alto e sublime trono …

24.23     … quando o SENHOR dos Exércitos reinar no monte Sião e em Jerusalém; perante os seus anciães haverá glória.

6.2         Serafins … cada um tinha seis asas …

11.10     Naquele dia recorrerão as nações à Raiz de Jessé que está posta por estandarte dos povos.

53.7       … como cordeiro foi levado para o matadouro ..

42.10     Cantai ao SENHOR um cântico novo …

50.3       Eu visto os céus de negridão e lhes ponho pano de saco por sua coberta. Também 13.10.

34.4       Todo o exército dos céus se dissolverá … todo o seu exército cairá como cai a folha da vide e a folha da figueira.

34.4       … os céus se enrolarão como um pergaminho …

54.10     Porque os montes se retirarão e os outeiros serão removidos.

2.10       Vai, entra nas rochas e esconde-te no pó ante o terror do SENHOR …

  • Não terão fome nem sede.

25.8     … e assim enxugará o SENHOR Deus as lágrimas de todos os rostos …

14.12     Como caíste do céu, ó estrela da manhã …

52.1       … ó Jerusalém, cidade santa …

63.18     … nossos adversários pisaram o teu santuário.

66.7,8    Antes que estivesse de parto, deu à luz; antes que lhe viessem as dores, nasceu-lhe um menino.

27.1       … o SENHOR castigará … o dragão … e matará o monstro que está no mar.

14.12     … Como foste lançado por terra …

53.9       … nem dolo algum se achou em sua boca.

21.9       … Caiu, caiu Babilônia …

51.17     … que da mão do SENHOR bebeste o cálice da sua ira, o cálice de atordoamento … Também 51.22.

34.8-10  Porque será o dia da vingança do SENHOR … subirá para sempre a sua [de Edom] fumaça.

63.3       O lagar eu o pisei sozinho … pisei as uvas na minha ira; no meu furor as esmaguei …

66.23     … virá toda a carne a adorar perante mim, diz o SENHOR.

6.4         As bases do limiar se moveram à voz do que clamava c a casa se encheu de fumaça.

66.5,6    Ouvi … voz do templo, voz do SENHOR que dá o pago aos seus inimigos.

49.26     … e com seu próprio sangue se embriagarão …

11.15     … e com a força do seu vento moverá a mão contra o Eufrates … de sorte que qualquer o atravessará de sandálias. Também 44.27.

34.14     As feras do deserto se encontrarão com as hienas e os sátiras clamarão uns para os Outros Também 13.19-22.

52.11     Retirai-vos, retirai-vos, saí de lá. Também 48.20

47.7,8    E disseste: “Eu serei senhora para sempre … não ficarei viúva nem conhecerei a perda dos filhos.

47.9       Mas ambas estas causas sobrevirão a ti num só momento, no mesmo dia …

44.23     Regozijai-vos, ó céus …

24.8       Cessou o folguedo dos tamboris, acabou o ruído dos que exultam, e descansou a alegria da harpa.

23.8       cujos mercadores são príncipes e cujos negociantes são os mais nobres da terra.

34.10     … subirá para sempre a sua fumaça …

61.10     … porque me cobriu de vestes de salvação e me envolveu com um manto de justiça.

11.4       … julgará com justiça os pobres, e decidirá com equidade a favor dos mansos …

63.3       … o seu sangue me salpicou as vestes e me manchou o traje todo.

11.4       … ferirá a terra com a vara de sua boca …

34.6       … porque o SENHOR tem sacrifício em Bozra, e grande matança na terra de Edom.

30.33     … a pira é profunda e larga … o assopro do SENHOR como torrente de enxofre a acenderá.

26.19     Os vossos mortos ressuscitarão …

65.17     Pois eis que eu crio novos céus e nova terra … Também 66.22.

61.10     … como noiva que se enfeita com suas joias.

65.19     … e nunca mais se ouvirá nela nem voz de choro nem de clamor.

55.1       Ah, todos vós os que tendes sede vinde às águas … vós os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei …

60.1       … e a glória do SENHOR nasce sobre ti.

60.19     … mas o SENHOR será a tua luz perpétua, e o teu Deus a tua glória.

54.11,12            … e te fundarei sobre safiras … e toda a tua muralha de pedras preciosas.

54.12     … as tuas portas de carbúnculos …

24.23     A lua se envergonhará e o sol se confundirá … Também 60.19,20.

60.3       As nações se encaminham para a tua luz …

60.11     As tuas portas estarão abertas de contínuo; nem de dia nem de noite se fecharão …

52.1       … porque não mais entrará em si incircunciso nem impuro.

62.11     … Eis que vem o teu salvador; vem com ele a sua recompensa, e diante dele o seu galardão.

11.10     Naquele dia recorrerão as nações à Raiz de Jessé …

  1. Observações quanto ao uso das alusões

As primeiras observações a serem feitas são de natureza estatística. Há um total de 71 alusões a Isaías. Destas, 28 vêm dos primeiros 39 capítulos da profecia; as 43 restantes originam-se na parte final do livro (caps. 40—66).

O capítulo de Isaías com o maior número de alusões em Apocalipse é o 34, com seis menções específicas; seguem-se os capítulos 11 e 60 com cinco alusões cada um. Parece que João escolheu concentrar sua atenção em capítulos explicitamente messiânicos de Isaías, ora enfatizando os benefícios desfrutados pelo povo de Deus, ora a vingança divina contra Seus inimigos ao tempo da manifestação do Messias.

Tal é o tom que João usa ao aludir a Isaías 34, onde o leitor, de fato, encontra temas intimamente relacionados com punição, destruição, batalha escatológica, vingança divina e distúrbios cósmicos. Os outros dois capítulos, 11 e 60, embora também focalizem questões escatológicas, falam mais do Messias como pessoa e das bênçãos de que o povo de Deus desfrutará no ἒσχατον.

Os parágrafos que se seguem oferecem uma visão panorâmica dos principais temas isaianos encontrados em Apocalipse:

a. A pessoa e a obra do Messias. Aqui, João enfoca o Messias como o Deus eterno, a associação do Messias com o Espírito ubíquo e onisciente de Deus, a autoridade davídica outorgada ao Messias, que é a Raiz de Davi. O Messias aparece como cordeiro e justo governante da Terra. A palavra do Messias é o instrumento da justiça retribuidora de Deus, e a Sua vinda é a oportunidade de recompensa para os crentes.

b. Os crentes. Os crentes são sacerdotes e parte do reino de Deus, possuem um novo nome, verão seus inimigos curvando-se diante deles. Os redimidos cantarão um cântico novo e desfrutarão de eterna felicidade. João enfoca ainda os crentes como continuadores da obra e do caráter do Servo, ressuscitados, vestidos de justiça, receptores da livre oferta da água da vida, adornados como (a) noiva (do Cordeiro).

c. Escatologia. Nesta categoria, João apresenta o Messias despedaçando as nações, distúrbios cósmicos, o terror universal diante dos juízos divinos, Jerusalém sendo pisada pelos gentios, a queda da Babilônia, o cálice da ira de Deus, a derrota definitiva dos inimigos de Deus, a Tribulação como o lagar de Deus, o louvor universal a Deus, a vingança associada com o templo, o julgamento da Babilônia, a batalha escatológica como o banquete divino, os novos céus e a nova terra, a glória divina na Nova Jerusalém, com seus alicerces feitos de pedras preciosas e seus portões semelhantes a joias, o livre acesso a Deus na cidade, que será a luz e o guia das nações, e Deus como a luz da Nova Jerusalém.

d. Outros temas. João dedica ainda atenção a Deus como soberano, ao convite feito aos descrentes para que venham e bebam (ou comprem), à presença de anciãos diante de Deus, a seres angelicais de seis asas, à queda de Satanás, a Israel como mulher em trabalho de parto, a Satanás como dragão que é derrotado por Deus e ao castigo com fogo e enxofre.

4. Um problema sério

Embora as observações alistadas acima indiquem que o uso de Isaías por João foi extenso e que o filho de Amoz merece um lugar ao lado de Daniel e Ezequiel como fonte principal para o panorama apocalíptico de João, elas não nos oferecem uma indicação imediata do processo hermenêutico e teológico empregado pelo apóstolo para aludir ao profeta em Apocalipse. É necessário entender como e por que usou o que parecia ser histórico e particular em Isaías com um propósito escatológico e universal em Apocalipse. Além disso, quem acredita num cumprimento literal de profecia messiânica precisa justificar tal crença diante da aparente liberdade com que João transfere da terra para o céu características da Jerusalém messiânica de Isaías.[9] Este é o ponto em que Hoekema ataca os dispensacionalistas:

… o Velho Testamento nada fala sobre tal reino milenar. Passagens comumente interpretadas como descrições do Milênio descrevem, na verdade, a nova terra que é o ápice da obra redentora de Deus.

… Parece que os editores desta Bíblia (Scofield), embora compelidos a admitir que o versículo 17 descreve a nova terra final, restringem o significado dos versos 18 a 25 a uma descrição do milênio que deve preceder a nova terra. Porém, só se pode encontrar uma descrição do milênio, nesta passagem, se deliberadamente ignorar o que é dito nos versos 17 a 19. O verso 17 fala inequivocamente acerca dos novos céus e nova terra (que o livro de Apocalipse reconhece como marcando o estado final; ver Ap 21.1) … O que se segue, no verso 19, acrescenta outro detalhe que, em Apocalipse 21.4, é uma marca do estado final: “Nunca mais se ouvirá nela (a nova Jerusalém) nem voz de choro nem de clamor”.[10]

O ataque de Hoekema não pode ser ignorado ou tratado levianamente. Há um grau de incerteza entre os dispensacionalistas quanto à interpretação de Apocalipse 21. J. Dwight Pentecost aparentemente prefere alternar entre o estado eterno (21.1-8) e o milênio (21.9-27),[11] ao passo que Ryrie e Walvoord defendem uma sequência cronológica do livro, designando 21.1—22.5 como uma descrição do estado eterno.[12] Nenhum dos dois autores, todavia, tenta explicar por que João usou a terminologia isaiana para indicar um conceito radicalmente diferente daquele proposto pelo profeta.

Este é o problema complexo com que precisamos lidar. A proposta deste artigo é que João, validamente, sob a direção do Espírito Santo, extrapolou o conceito de restauração encontrado em Isaías, de modo a incluir nele, muito além de Israel, todo o cosmos. Poderia, assim, sem violentar o sentido original de Isaías, expandir conceitos e características que, ao mesmo tempo, se assemelham aos seus protótipos proféticos e deles diferem significativamente.

III. Isaías 34 como teste para método joanino de alusão

Isaías 34 é o capítulo ao qual João mais frequentemente alude em Apocalipse. Se esta porção da profecia de Isaías deve aqui servir para elucidar o método joanino de utilizar material veterotestamentário, deve ser primeiro examinada em seu contexto, de modo a podermos determinar seu papel na profecia e, assim, validar o uso que dela faz o apóstolo. Depois disso, um exame mais minucioso de suas ocorrências em Apocalipse deverá determinar se nossa perspectiva é acertada, à luz de uma interpretação dispensacionalista do Apocalipse. Estes passos cobrirão as três últimas fases do processo sugerido por Ziva ben-Porath (cf. supra 3).

  1. A mensagem e o propósito de Isaías

O livro de Isaías enfatiza a singularidade de Javé como fonte de esperança e segurança para a nação de Israel. Enquanto os partidos políticos na corte faziam o reino cambalear de um lado para outro, ora voltando-se para O Egito, ora inclinando-se para a Assíria, Isaías estimulava os reis a dependerem unicamente de Javé para sua sobrevivência e bem-estar.

Essa espécie de neutralidade divina seria mais tarde interpretada, erroneamente, como uma panacéia para os pecados da nação, mas não fora este o propósito com que Isaías a anunciara. O mesmo Senhor que poderia salvar teria primeiro que remover em juízo uma ordem antropocêntrica universal para, então, introduzir a era de bênção universal.

O redondo fracasso de Israel em se conformar aos padrões divinos (Is 1.2-8; 42.18-20; cf. 6.9-13) para sua missão na terra preparou o caminho para a manifestação escatológica do Servo, que incorpora em Sua pessoa e obra tudo aquilo que Israel deveria ter sido e feito. Ele é o Israel ideal, por meio de quem Javé realizará o julgamento e a libertação definitivos. À luz de tais observações, a seguinte mensagem pode ser proposta para Isaías:

A salvação prometida por Javé consiste da remoção da presente ordem antropocêntrica rebelde e do estabelecimento de uma ordem teocêntrica sob a autoridade de Seu Servo, em quem a bênção universal se tornará realidade.[13]

O propósito da profecia era duplo. Em primeiro lugar, era a condenação judicial de Judá e das nações circunvizinhas, e um aviso solene de julgamento iminente. Em segundo lugar, trazia lima mensagem de conforto para aqueles cuja experiência da ira de Deus pudesse ter levado a pensar que tudo estava perdido. Um remanescente arrependido ainda retomaria à terra prometida a Israel para experimentar plenitude de bênção sob a égide do Servo de Javé.

  1. A mensagem de Isaías 34

O livro de Isaías é mais apropriadamente dividido em três partes. A primeira delas lida com a remoção da ordem antropocêntrica sob cujo controle se encontra a nação (caps. 1—35). A segunda parte é como uma dobradiça literária em torno da qual giram os dois temas de julgamento e libertação, conforme ilustrados na ambígua experiência do rei Ezequias (caps. 36—39). A terceira parte, por fim, trata do estabelecimento da nova ordem divina em que a rebeldia idólatra é punida e o reino universal de bênção e salvação centralizado em Sião é transformado em realidade pelo Servo.[14]

A mensagem da primeira parte, onde se encontra o capítulo 34, é assim proposta por este autor:

A salvação prometida por Javé exige a remoção da presente ordem rebelde em Judá e nas nações circunvizinhas (1.1—35.10).

 Além disso, a porção desta primeira parte, em que se encontra o capítulo 34, tem a seguinte mensagem:

A salvação definitiva será realizada por Javé por meio de um julgamento universal sobre Seus inimigos e a plena restauração de Seu povo e sua terra (34.1—35.10),

mensagem esta que nos leva ao resumo exegético do capítulo 34:

A salvação definitiva será realizada por Javé por mero de julgamentos universais contra Seus inimigos (34.1-17).

O capítulo demonstra como a indignação divina será derramada em proporções cósmicas (34.1-4), como Seu julgamento vingativo em defesa de Sião consumirá completamente seus inimigos (34.5-15), e afirma a certeza da promessa divina de julgamento, já que esta foi dada pelo Espírito de Deus (34.16,17).[15]

3. O uso de Isaías 34 em Apocalipse

a. Os distúrbios cósmicos. Isaías 34 recebe seis alusões em Apocalipse. As duas primeiras ocorrências aparecem em 6.13, onde João descreve distúrbios cósmicos ligados aos juízos da Grande Tribulação. Será que João usa Isaías de maneira compatível com o sentido tencionado pelo profeta?

O profeta descreve a promessa de juízo contra as nações que ameaçavam Judá com o חֶרֶם (herem), a guerra santa de extermínio. O resultado de tal intenção é que elas seriam colocadas sob o חֶרֶם, divino e totalmente destruídas. Uma vez que o capítulo 33 trata da ameaça assíria, seria natural ver Isaías projetando tal ameaça para o futuro, assim como um artista pinta uma obra-prima a partir de um esboço rudimentar.

Já que a descrição aqui aponta para um distúrbio maior do que aquele descrito em Isaías 13.10-13, onde encontramos a descrição do juízo divino contra a Babilônia, a interpretação escatológica parece ser justificada.[16] No que diz respeito ao versículo 4, portanto, a alusão joanina a Isaías 34 não apres­enta problemas. Em 34.5, todavia, a menção que o profeta faz de Edom parece apresentar uma dificuldade. Será que a passagem não é um oráculo dirigido a uma nação específica, em vez de ser universal? Será que a referência à cidade de Bozra (34.6) não indica que o capítulo 34 é geograficamente restrito e localizado?

Aceitando o risco de ser seletivamente literal, este autor prefere afirmar que, nesta passagem, Edom é o inimigo típico, ou melhor, arquetípico de Sião.[17] As referências a Bozra no capítulo 63 sugerem que a extremidade sul do Mar Morto terá papel estratégico no desenvolvimento da batalha final entre Deus e Suas criaturas rebeldes. Isaías 34, portanto, usa Edom não em sentido étnico, mas geográfico e arquetípico (em virtude da secular inimizade entre Seir e Sião), onde Edom aparece como o inimigo-padrão, cuja rebelião Deus punirá por meio de distúrbios cósmicos de magnitude sem precedentes.

b. O juízo contra os adoradores da besta. O terceiro uso de Isaías 34 em Apocalipse ocorre em 14.11, onde se anuncia a punição eterna dos adoradores da besta. Isto, mais uma vez, apresenta um possível problema, pois Isaías descreve novamente um juízo físico e localizado, nos quais os wadis de Edom serão inundados de piche e sua terra ficará desolada por gerações sem conta. Será que a alusão joanina é compatível com a prática da interpretação literal de profecia?

É particularmente instrutivo percebermos que o próprio Isaías se vale de alusão no capítulo 34. A linguagem aqui traz reminiscências da destruição de Sodoma e Gomorra (cf. Gn 19.24-28; ver ainda Jr 49.18, onde a derrocada final de Edom é semelhante à de Sodoma e Gomorra). Esta simples observação pode muito bem sugerir que Isaías não tinha em mente uma descrição literal, tentando, isto sim, relacionar tipologicamente seu julgamento universal a um arquétipo prévio, Sodoma e Gomorra. João, portanto, tirou partido do exemplo do profeta e usou linguagem semelhante para descrever o castigo eterno daqueles que se rebelam contra Deus. Na verdade, as situações são notavelmente semelhantes. Em Gênesis, Sodoma e Gomorra são obstinadas em seus pecados e não dão ouvidos às advertências divinas; a menção de fogo e enxofre em ambas as passagens não é mera casualidade. Ela retrata a intensidade do castigo e a agonia que ele produz.

Uma confirmação interessante desta prática alusionista vem do Targum de Isaías, onde o versículo 9 é assim parafraseado: E as correntes de Roma se transformarão em piche, e a sua poeira em enxofre, e sua terra se tornará em piche incandescente.[18] Embora a data final do Targum de Isaías não possa ser precisada, seu conteúdo é contemporâneo do Apocalipse (ou anterior a ele), o que sugere que a prática de aplicar material profético a situações políticas específicas não era propriedade exclusiva dos autores bíblicos.

O contraste entre Isaías e Apocalipse encontra-se em suas concepções de “para sempre”. O termo לְעוֺלָם֭, usado por Isaías, é qualificado pela menção de gerações sucessivas, o que sugere um castigo temporal na terra em que o Messias derrotar Seus inimigos. A expressão joanina  εις αιώνας αιώνων (eis aiönas aiönön) soa a eternidade (uma passagem mais do que adequadamente explicada pelo conceito de progresso de revelação), essa “sensação interpretativa” pela menção dos “santos anjos e do Cordeiro”, os agentes do inexorável juízo de Deus.

Certo padrão parece formar-se aqui. João está lançando mão de imagens do AT e expandindo-as, às vezes em relação ao tempo (como aqui), às vezes além de seu significado literal (como em 6.13,14). Em nenhum dos dois casos, todavia, o sentido normal das palavras de Isaías é violado. O que João faz, guiado pelo Espírito Santo, é ampliar o referencial de que o sentido original é capaz.[19]

c. A queda da Babilônia. A quarta ocorrência de Isaías 34 acontece na descrição da queda da Babilônia escatológica, em Apocalipse 18. Quer o intérprete veja a Babilônia como um nome críptico correspondente a Roma ou como uma Babilônia literal, restaurada nos últimos tempos, permanece o fato de que João associou o castigo divino a esta prolongada maldição do próprio solo em que outrora se ergueu este centro anti-Deus.

Além da destruição física, o solo em que Babilônia se ergueu permanecerá (durante o reino milenar) como solene aviso a todas as nações da loucura da idolatria e da rebelião. A Babilônia se tornará o local de encontro de animais impuros e demônios. A associação destes dois elementos encontra-se também em Isaías 13, onde a Babilônia histórica é o assunto da profecia, e pode apontar para a referência profética às mitologias assíria e babilônica (o termo לִילִח; (lîlît, 34.14), traduzido na ARA por “fantasma”, corresponde ao termo acadiano Lilîtu, um demônio feminino noturno da mitologia mesopotâmica).[20]

Esta referência a espíritos malignos e animais imundos como moradores da Babilônia, se tomada ao pé da letra, é um bom argumento para uma posição pré-milenista, pois se tornaria sem sentido sob uma interpretação amilenista do Apocalipse. Hendriksen simplesmente evita o assunto, ao afirmar que “mesmo os espíritos imundos e aves imundas e detestáveis a consideram uma prisão!”[21] É mais apropriado argumentar que as ruínas perpetuamente fumegantes da Babilônia escatológica servirão tanto de prisão terrena para espíritos imundos (cf. Ap 9.13-15) quanto de memorial macabro do furor da ira retribuidora de Deus para os moradores da terra milenar.

É preciso novamente levantar a questão da fidelidade joanina ao sentido de Isaías. A resposta deve ser encontrada no contexto de Isaías, que sentiu plena liberdade de associar Edom e Babilônia sob a mesma descrição do juízo divino (caps. 13 e 34). A razão para tal associação foi a ameaça que ambas as nações representavam para a sobrevivência de Israel.

No contexto de Isaías 13, a Babilônia era uma ameaça, por causa da falsa sensação de segurança que uma aliança política com os caldeus oferecia ao incrédulo povo israelita. No capítulo 34, Edom era uma ameaça, devido a ataques literais contra Jerusalém (cf. 2 Cr 28.17). Já que a Babilônia escatológica representa ambas as ameaças para o povo de Deus durante a Tribulação, João parece ter justificativas teológicas para associar tais ameaças aos juízos divinos contra os inimigos do Seu povo. O expositor bíblico deve, portanto, defender um cumprimento literal da predição de Isaías em termos de uma realidade maior do que aquela representada individualmente por Edom ou Babilônia. Novamente, não se trata de advogar sensus plenior, mas de postular um referencial maior, onde o sentido básico é mantido (ou seja, a completa destruição dos inimigos do povo de Deus, com suas ruínas calcinadas e fumegantes a servir de duradouro lembrete da ferrenha ira de Deus contra o pecado), mas o objeto do sentido é expandido validamente dentro dos limites impostos pelo assunto central da passagem profética original.

d. O júbilo pela queda da Babilônia. A quinta alusão a Isaías 34 em Apocalipse deriva de 34.10 (“subirá para sempre a sua fumaça”). A alusão encontra-se em 19.3 e não exige um exame particular, pois evoca os mesmos sentimentos e ideias tratadas na seção anterior. A meretriz escatológica (Babilônia) partilhará o destino dos inimigos viscerais de Deus no passado. Cabe ao povo de Deus, portanto, rejeitá-la e a seu ímpio estilo de vida, alegrando-se, pelo contrário, na promessa de sua destruição definitiva.

É interessante observar também que, assim como Isaías terminou sua descrição do juízo de Edom com uma garantia divina de que tais coisas certamente aconteceriam (34.16, 17), João também o faz, pela boca de um anjo: “São estas as verdadeiras palavras de Deus” (19.9).

e. A Batalha de Armagedom. A última alusão a Isaías 34 em Apocalipse está ligada à batalha monumental que marcará o fim da Grande Tribulação. Embora João não ofereça detalhes específicos de localização, somos informados de que a batalha se travará entre as forças da Besta e o Cavaleiro Celestial, o Messias e Seus exércitos.

Isaías 34.6 usa linguagem poética para descrever uma batalha feroz na qual o Senhor derrota definitivamente Seus inimigos. A figura empregada (uma hipocatástase) é a de um gigantesco abate de animais para sacrifício. A mesma figura é encontrada em Jeremias (46.10; 50.27; 51.40) e Ezequiel (39.17-19, que usa uma símile em lugar da hipocatástase). A figura é apropriada, pois retrata a impotência das nações, quando finalmente se acham face a face com o Messias e Sua ira longamente reprimida.

A enumeração de animais em Isaías enquadra-se com a lista hierárquica oferecida por João, embora não seja possível (ou necessário) estabelecer uma correspondência direta entre elas.

O restante da descrição de Armagedom no Apocalipse reflete a mesma impotência sugerida por Isaías. A Besta e seu acólito, o falso profeta, são aprisionados e lançados, sem qualquer esforço, ao lago de fogo. Seus exércitos são dizimados pelo sopro (espada) da boca do Cavaleiro Celestial.

Esta alusão, portanto, é bem clara e direta, não exigindo maiores explicações depois que a conexão temática batalha-abate tenha sido estabelecida. Poder-se-ia argumentar, todavia, que João está falando de um banquete, não de um sacrifício. Tal objeção não é insuperável, já que a figura do banquete é bem estabelecida como um símbolo do reino escatológico (cf. Is 25.6). João pode muito bem ter associado a batalha que abrirá caminho para o estabelecimento do reino com a figura empregada para o próprio reino. Outra maneira de explicar a ideia do banquete em Apocalipse 19 é considerar os abates citados em Isaías 34 e Ezequiel 39 não como sacrifícios litúrgicos, mas como preparativos necessários para uma gigantesca celebração.

O contraste óbvio em Apocalipse acha-se entre o patético banquete de Armagedom e a jubilosa celebração de 19.9, as bodas do Cordeiro, celebradas na Terra pelo Senhor, Sua Noiva (a Igreja) e Seus convidados (redimidos do AT e da Grande Tribulação).[22]

f. Resumo. Seis alusões a Isaías 34 em Apocalipse foram examinadas. Seguindo o método sugerido por Ziva ben-Porath para efetivar uma alusão, a mensagem contextual de Isaías 34 foi apresentada, estabelecendo-se uma interação hermenêutica entre os dois textos.

Enquanto três das alusões propostas eram interpretativamente neutras, por assim dizer, três delas sugeriam que João assumiu o vocabulário de Isaias, reteve as categorias amplas de sentido dentro das quais o vocabulário poderia ser usado, e o investiu de um referencial maior, tornando-o assim aplicável aos eventos escatológicos que estava descrevendo.

Já que seu propósito era exortar os crentes de sua geração a uma lealdade exclusiva a Jesus, tais alusões a profecias passadas na descrição de eventos escatológicos encorajariam os crentes, enquanto estes enfrentavam forças que espelhavam aquelas sobre as quais Cristo haverá de triunfar.

IV. Alusões joaninas aos novos céus e à nova terra

Até aqui este artigo tentou demonstrar que a técnica empregada por João para citar Isaías foi usar o vocabulário do profeta em seu sentido genérico com um referencial expandido.

O capítulo 34 foi escolhido como exemplo de tal técnica alusiva. Outros exemplos poderiam ter sido discutidos, se fosse maior o escopo deste trabalho. O capítulo 60, por exemplo, seria outro candidato. João alude a ele em sua carta à igreja de Filadélfia (3.9), usando como marcadores a fé e a fidelidade dos filadélfios, tomando como elemento marcado em Isaías (60.14) a firme confiança em Javé demonstrada pelo remanescente fiel diante de inimigos poderosos e da apostasia generalizada em Israel. Outras referências nesse capítulo de Isaías dizem respeito à Jerusalém restaurada, à qual João alude quando se refere à cidade celestial nos capítulos finais de Apocalipse.

A preocupação maior deste artigo era a aparente incoerência em que incorrem intérpretes dispensacionalistas, ao lidarem com o conceito de novos céus e nova terra em Apocalipse e Isaías (cf. p. 41, 42, acima).

Uma vez que a obra de Anthony Hoekema foi citada em relação ao problema, é apropriado interagir com ela antes de aplicar a técnica alusiva de João às passagens em questão. Embora correto em criticar os dispensacionalistas por seu tratamento algo nebuloso de Isaías 65, o próprio Hoekema não se sai melhor do que eles ao tratar daquele capítulo.

Ao defender seu ponto de vista de que somente os novos céus e a nova terra são focalizados em Isaías 65.17-25, Hoekema acaba presa do mesmo problema de que acusa os dispensacionalistas, i.e, ignorar o contexto. Para escapar ao fato do pecado e da morte no que ele afirma ser o estado eterno, Hoekema recorre a uma exegese tortuosa.[23]

É bem verdade que dispensacionalistas, mesmo os mais recentes, também sacrificam suas premissas ao tratar desta passagem. John A. Martin, por exemplo, embora prefira ver toda a passagem como uma referência ao milênio, (desviando-se assim da abordagem dispensacionalista tradicional), obscurece distinções teológicas necessárias, ao afirmar que “Isaías não distingue entre esses dois aspectos o governo de Deus; ele os vê juntos, como um só”.[24] Este é outro exemplo da convergência teológica mencionada na Introdução.

A convicção deste autor é de que a verdade seria mais bem tratada se, em vez de negarmos a Isaías a crença fundamental (para não usar o termo mais forte “exclusiva”) em um reino terreno que cumprisse as promessas da aliança davídica, ou de importar sentidos neotestamentários para a profecia de Isaías (no final das contas, tanto Hoekema quanto aqueles que ele ataca fazem exatamente isso), ou ainda de forçar João a dizer exatamente aquilo que Isaías disse, fosse permitido ao profeta do AT falar de um cenário mais limitado, e ao profeta do NT (em linha com o conceito de revelação progressiva) tomar posse da expressão isaiana e aplicá-la a um referencial mais amplo, estando, todavia, sob o guarda-chuva da categoria maior, isto é, o governo de Deus sobre Sua criação, vencendo o mal e recompensando o bem.

Em outras palavras, enquanto Isaías falou, por meio de hipérboles, de condições vastamente melhoradas numa terra não-amaldiçoada durante um reino milenar literal, João teria falado de um universo radicalmente transformado depois de um reino milenar literal na terra.

Se a abordagem alusiva sugerida acima for aplicada a esta passagem controvertida, tanto dispensacionalistas quanto aliancistas encontrarão a solução para seus problemas. Aqueles não mais precisarão passar do estado eterno (65.17) para a terra milenar (65.18ss.), e estes não terão de quebrar sua espinha hermenêutica para justificar o uso das palavras morte e pecado durante o estado eterno. É necessário investigar o contexto de Isaías 65 para descobrir se tal abordagem é válida neste caso.

  1. A mensagem de Isaías 65

A terceira parte do livro de Isaías contém profecias relacionadas à consolação derivada da intervenção de Deus em favor de Israel depois de seu sofrimento na Babilônia. A primeira divisão (caps. 40—48) trata da promessa da restauração de Israel. A segunda divisão (caps. 49—57) trata da salvação oferecida pelo Servo, por meio de Seus sofrimentos e em Sua glória. A terceira divisão (caps. 58—66) fala da consumação da restauração de Israel com a vinda do Messias. Israel é advertido por causa de seus pecados (caps. 58—59) e a glória futura de Sião é apresentada a título de motivação à pureza no presente (cap. 60). O ministério universal de esperança e renovação (cap. 61) encontra uma nota de equilíbrio na descrição dos severos juízos contra o pecado humano (caps. 63 e 65). O livro termina com uma profecia sobre a reunião de Israel e a manifestação da justiça divina em salvação e juízo (66). A mensagem desta terceira parte do livro pode ser assim resumida:

A salvação prometida por Javé consiste do estabelecimento de uma ordem teocêntrica sob a autoridade do Servo, em quem as bênçãos universais são concretizadas (40.1—66.25).

O capítulo 65 é precedido por uma comovida e comovente oração oferecida pelo remanescente fiel da nação que anseia o restabelecimento do governo de Deus sobre Israel e o mundo. À medida que o capítulo se desenvolve, a performance desapontadora de Israel como povo escolhido é contrastada com a maneira intensa em que Ele foi buscado pelo gentios (v. 1-7). A seguir, a punição do grosso da nação é contrastada com a promessa de preservação e prosperidade para o remanescente fiel (v. 8-16). O parágrafo final apresenta a realidade da promessa de restauração de Israel. A nova ordem de Israel será um reino universal sobre uma terra renovada da qual terá sido removida a maldição e onde habitarão paz e justiça (v. 17-25). A mensagem do capítulo pode ser assim resumida:

A promessa de Javé em resposta à oração de Isaías é que o presente contraste entre a nação ímpia e o remanescente piedoso também será visto em seus respectivos destinos de juízo e bênção na vinda do Messias.

A não ser que, com Hoekema, o intérprete flagrantemente ignore a natureza terrena de promessas como as que começam a surgir em Gênesis 12, Isaías não pode falar do estado eterno. A simples menção de um remanescente dentro da nação torna completamente inaceitável a equação Israel = Igreja proposta por Hoekema (e por muitos outros autores, aliancistas ou não). De igual modo, a pesada ênfase em restauração, no remanescente, na אָרֶץ (´ärets, terra) deveria fazer com que intérpretes dispensacionalistas deixassem ele entendeחֲדָשִׁים  e חֲדָשָׁה (hadäshîm, hadäshâ; novos, nova) como termos absolutos. A menção de grupos étnicos e localidades específicas no contexto geral desta passagem oferece apoio extra contra a teoria da “novidade absoluta” que se encontra na Bíblia de Scofield e na Bíblia Anotada, obras ele alcance popular, e em outras obras de escopo mais erudito.[25]

  1. Novos Céus e Nova Terra em Apocalipse 21.1

Se Isaías não quer dizer “absolutamente novo” ao falar ele novos céus e nova terra, será que o uso joanino da expressão é válido, já que ele se refere ao estado eterno? A resposta é um retumbante sim, porque sua visão se encaixa dentro da categoria mais ampla de sentido contida no texto de Isaías 65.17.[26]

Esta categoria mais ampla é o estabelecimento do domínio de Deus sobre o universo. Do ponto de vista de Isaías, isso seria realizado em um reino terreno, onde, contudo, a presença do pecado e da morte — embora grandemente diminuída — faria que o triunfo inevitável de Deus sobre o mal tivesse caráter incompleto e provisório.

João, por sua vez, vê mais além de Isaías um mundo sem mal, sem tristeza, morte ou mesmo mar (um símbolo frequente de caos e separação no AT). Na visão joanina, o domínio de Deus sobre o universo se tornou absoluto e completo; depois de os últimos inimigos terem sido vencidos (cf. 1 Co 15.24-26) o reino foi entregue ao Deus e Pai que agora será tudo em todos. Enquanto Isaías vê continuidade (por focalizar as promessas feitas a Israel e ainda por se cumprirem), João vê a descontinuidade entre a presente ordem (por mais melhorada que ela tenha sido no milênio) e a eterna morada dos remidos com Deus. Para usar uma ilustração, se alguém que mora num barraco for convidado a se hospedar numa sala muito rica e sofisticada, poderá contentar-se em ficar na varanda, pois só ali encontrará muitos dos confortos de que não partilhava em sua humilde moradia. Ao entrar na casa propriamente dita, ficará deslumbrado, ao perceber quão magníficas são as condições de vida ali. Isaías percebeu e descreveu a varanda; João entrou e descreveu a casa.

  1. Conclusão

Este artigo focalizou as alusões a Isaías no livro de Apocalipse. No que diz respeito a passagens escatológicas, o uso joanino parece consistir de levar seu tema a Isaías, encontrar ali uma categoria específica que o profeta explora mas não exaure, lançar mão de alusão ou linguagem evocativa e expandir o referencial ou o horizonte profético da passagem isaiana. Ao fazer isso, com frequência transporta o histórico para o eterno, o localizado para o universal e o corriqueiro para o sublime.

Tais observações sugerem que não é correto afirmar que Isaías proclamou a mesma nova ordem celestial encontrada em Apocalipse. Fazer isso resultaria numa ênfase exagerada no eterno em detrimento do histórico (A. Hoekema) ou numa exegese incoerente de Isaías 65 e 66 (alguns dispensacionalistas).

As doutrinas da inspiração verbal e da inerrância não sofrem dano quando os horizontes proféticos de Isaías são limitados. A técnica alusiva aqui defendida não contradiz a interpretação normal (às vezes chamada de literal) das Escrituras. Verifica-se aqui apenas aquilo que S. L. Johnson Jr. afirmou: “… a vontade do autor divino vai além da vontade do autor humano.[27] Além disso, distinções normativas dentro do dispensacionalismo ficam protegidas de uma sujeição indevida a pressões hermenêuticas da teologia do pacto.

Espera-se com este estudo abrir a porta para estudos mais completos da técnica alusiva de João, que deverão dar prova mais completa e adequada do que aqui foi apresentado de forma inicial e exploratória.

____________________

[1] Considerando as características marcantes da literatura apocalíptica, sugeridas por autores como D. S. Russell e Leon Morris, entendo que nosso Apocalipse de João não é um exemplo típico do gênero; daí a expressão.

[2] Ver seu livro A Bíblia e a Futuro (Casa Editora Presbiteriana, 1989), particularmente sua análise das teorias milenistas (cap. 14) e sua proposta escatológica (cap. 20).

[3] Refiro-me aqui ao artigo de Craig Blaising em Bibliotheca Sacra 145:579 (julho-setembro 1988) 254-80. Este autor tem a sensação de que a aproximação entre conservadores de várias nuanças durante o debate sobre inerrância, que ocorreu no início da década de 80 nos Estados Unidos, contribuiu para uma maior permeabilidade hermenêutica no final da década passada.

[4] M. C. Tenney, Interpreting Revelation, p. 112.

[5] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Novo Dicionário Aurélio (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986) p. 95.

[6] J. A. Cuddon, A Dictionary of Literary Terms, p. 31.

[7] Ziva ben-Porath, “The Poetics of Allusion”. Dissertação de doutoramento não-publicada da Universidade da Califórnia em Berkeley, 1973, p. iii.

[8] Ibid., p. iv.

[9] Tal é o caso de Isaías 60.3 e Apocalipse 21.24, onde características da Jerusalém milenar são aplicadas à Jerusalém celestial.

[10] A. Hoekema, op. cit., p. 270.

[11] J. Dwight Pentecost, notas de aula do curso Seminário sobre Literatura Joanina, Dallas, Theological Seminary, 1989.

[12] Charles C. Ryrie, Revelation, Everyman’s Bible Commentary, 118. John F. Walvoord, The Revelation of Jesus Christ, 318-9.

[13] Esta mensagem foi formulada à luz do estudo particular do livro. De um modo geral, os atuais comentários de Isaías não contêm sequer tentativas de sumarizar o ensino do livro. Mesmo o excelente trabalho de J. N. Oswalt, The Book of Isaiah 1-39, da série New International Commentary on the Old Testament, contém tal resumo.

[14] Este autor prontamente reconhece certas diferenças de conteúdo entre o que estudiosos costumam chamar de Primeiro, Segundo e Terceiro Isaías. E sua convicção, todavia, que tais diferenças são complementares em suas ênfases e não oferecem base sequer razoável para que postule uma autoria tríplice para o livro. Os argumentos de Oswald Allis (The Unity of Isaiah) e aqueles compilados por Gleason Archer (Merece Confiança o Antigo Testamento?) contundentemente negam o que Doderleim, Duhm e seus seguidores propuseram ao longo destes dois últimos séculos.

[15] J. Oswalt sugere, acertadamente, que estes capítulos (34-35) servem para enfatizar a sabedoria de se confiar em Deus e a loucura de se confiar nas nações, formando assim o ápice de toda a divisão; The Book of Isaiah 1-39, 607.

[16] Este autor prefere ver Isaías 13.1-16 como uma referência à destruição histórica da Babilônia, em 687 a.C. pelos exércitos assírios de Senaqueribe, onde fenômenos como os descritos em 13.10-16 poderiam ser localizados (devido às circunstâncias da batalha), ou a linguagem poderia ser entendida figuradamente em relação à religião astral dos caldeus. No entanto, na medida em que o “dia do Senhor” está em vista, o referencial escatológico pode ser validamente mantido. Minha opinião é baseada em alguns dos argumentos de Seth Erlandsson em The Burden of Babylon, embora eu rejeite sua tese final de que a passagem como um todo foi dirigida não à Babilônia mas à Assíria e posteriormente modificada por um editor.

[17] Assim o entendem H. Ridderbos, Isaías: Introdução e Comentário, 262-3; J. Oswalt, The Book of Isaiah 1-39, 610-1. E. J. Young não o afirma explicitamente, mas toma todo o capítulo num sentido mais espiritual (The Book of Isaiah, 2:430). A alusão joanina, portanto, toma em sentido universal aquilo que era arquetípico, sendo, assim, válida.

[18] O Targum de Isaías, p. 112.

[19] O que se sugere aqui não é a prática do sensus plenior (i.e., a descoberta de sentidos múltiplos diferentes, não-relacionados, ou até mesmo contraditórios), mas o reconhecimento de que o sentido original único era passível de uma multiplicidadc de referenciais. E. E. Johnson assim expressou esta opção interpretativa: “O sentido único é capaz de implicar um significado mais rico e uma plenitude de referências” (Expository Hermeneutics: An Introduction, 185). J. I. Packer, embora utilizando a expressão que aqui foi impugnada, afirma a unicidade do sentido, ao dizer que “o sensus plenior que textos adquirem em seu contexto bíblico mais amplo permanece uma extrapolação no plano gramático-histórico”.

[20] Cf. Brown-Driver-Briggs, Hebrew and English Lexicon of the Old Testament, 539. E. J. Young, The Book of Isaiah, 2:440-1. Ridderbos utiliza a feliz expressão “bruxa noturna” (embora a edição portuguesa do comentário transcreva erradamente a palavra como lilith), Isaías: Introdução e Comentário, 264-5. Oswalt prefere uma tradução mais “biológica” à luz do contexto, “ave noturna”, apesar de reconhecer as associações mitológicas da palavra, The Book of Isaiah 1-39, 616.

[21] W. Hendriksen, More Than Conquerors, p. 207.

[22] J. D. Pentecost, Things to Come, p. 228.

[23] Hoekema virtualmente entrega sua premissa fundamental (a de interpretar mais literal- mente o AT), quando enfrenta Isaías 65.20 e iguala “morte” a uma descrição figurativa das “vidas incalculavelmente longas” dos habitantes da nova terra. O leitor deste artigo deve verificar por si mesmo a ginástica interpretativa do Prof. Hoekema em A Bíblia e o Futuro, 270-l.

[24] John A. Martin, “Isaiah”, no Bible Knowledge Commentary – Old Testament Edition, 1120.

[25] A Bíblia de Scofield, 731; A Bíblia Anotada, 916; J. D. Pentecost, Things to Come, p. 56l.

[26] S. Lewis Johnson, Jr. advoga, com outras palavras, que Jesus empregou este mesmo princípio de utilização do AT em seu famoso diálogo com os líderes de Israel em João 10, quando explorou a plenitude de sentidos da palavra אֱלֺהִים (elohîm [The Old Testament in the New, 29-37]).

[27] The Old Testament in the New, p. 50.

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