“Praga nenhuma chegará à tua tenda” – Uma interpretação do Salmo 91 e sua aplicação para o cenário do coronavírus

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1979

Introdução

Diante da pandemia do coronavírus, o Salmo 91.10b tem sido veementemente propagado nas redes sociais por muitos cristãos: “… praga nenhuma chegará à tua tenda” (ARA[1]). O envio de certas passagens da Palavra de Deus que expressam consolo e esperança para contatos do WhatsApp e a publicação delas nas mídias sociais é bastante compreensível nesse momento em que o COVID-19 está impondo uma calamidade em nossa sociedade. E o Salmo 91 nos apresenta uma mensagem deveras consoladora, pois nos convida a nos abrigarmos à sombra do Deus Onipotente (v.1) e nos refugiarmos em nosso Deus, renovando a nossa confiança Nele (v.2).

Contudo, é fundamental que as Escrituras sejam devidamente interpretadas, porque só assim trarão o consolo desejado por todos nós. Assim, a declaração expressa no Salmo 91.10b precisa ser compreendida.

Será que no Salmo 91.10 Deus está prometendo que o cristão jamais será afetado pelo mal e pelas enfermidades? Será que Deus promete que, se formos infectados na rua com o coronavírus, esse vírus não nos fará nenhum mal, e, ao entrarmos em nossa casa, não contagiaremos nossos pais e avós? Se ficarmos enfermos, será que podemos reivindicar e determinar a cura, já que supostamente Deus teria prometido que o crente não pode ser afetado pelo mal?

O objetivo do presenta artigo é propor uma interpretação para o Salmo 91, e com isto, oferecer uma explicação para o tão citado v.10 desse Salmo. A relevância de um estudo no Salmo 91 justifica-se pelo fato de que, quando as autoridades da saúde recomendaram o fechamento dos templos como forma de conter o avanço do coronavírus, alguns cristãos se posicionaram de forma contrária a essa recomendação, alegando que suspender as atividades da igreja se configuraria como falta de fé no cuidado providencial de Deus, e normalmente uma das passagens bíblicas utilizadas para abalizar seus argumentos foi justamente o Salmo 91, principalmente o v.10.

Ainda a título de introdução, precisamos relembrar uma das regras fundamentais da boa intepretação bíblica: a Bíblia interpreta a própria Bíblia. Por implicação, cada passagem da Bíblia precisa ser comparada com outras passagens, e um trecho em particular precisa ser compreendido à luz da Bíblia como um todo. Outra implicação é que nenhuma doutrina ou afirmação de fé pode ser sustentada tendo por base um único trecho bíblico. Portanto, o Salmo 91.10 precisa ser compreendido à luz de outras passagens bíblicas que explicitam como Deus manifesta o seu cuidado para o seu povo.

A proposta desse artigo é interpretar o Salmo 91 tendo a aliança mosaica como referencial hermenêutico, notando também como esse belo poema se aplica para a igreja e para a nossa sociedade atual assolada pelo coronavírus.

Estrutura:

De início, é importante olhar o Salmo 91 como um todo, percebendo a forma como esse poema está estruturado:

V.1-2: o salmista afirma que Deus é refúgio para aqueles que Nele confiam.

V.3-13: o salmista afirma que os fiéis estariam livres das epidemias.

V.14-16: Deus afirma o seu livramento aos fiéis.

Análise do Salmo 91.3-7, 10

De acordo com o Salmo 91, os fiéis que se refugiam à sombra do Deus Altíssimo estariam livres das enfermidades que poderiam afetar a sociedade israelita. Nos v.3-7 e v.10, apresentam-se alguns termos que precisam ser analisados, a fim de que o caráter de tais doenças seja devidamente compreendido.

Observemos, de início, os termos dos v.3-7:

3 Pois ele te livrará do laço do passarinheiro, da peste[2] calamitosa.

4 Ele te protegerá[3] com a sua asa,

e sob suas asas encontrarás abrigo[4].

A sua fidelidade[5] é escudo protetor.

5 Não te assustarás do terror da noite,

nem da flecha que voa de dia,

6 nem da peste que caminha[6] na escuridão[7],

nem da destruição que devasta[8] ao meio-dia.

7 Cairão[9] mil ao teu lado, dez mil à tua direita;

a ti não se aproximará[10].

O v.3 apresenta uma enfermidade ameaçadora: a “peste calamitosa”. A palavra “peste” (hebr. deber) pode ser traduzido como “pestilência”, “praga mortal”. No livro de Jeremias, o termo está associado a outras palavras que expresam uma calamidade terrível: espada (guerra) e fome (Jr 14.12; 21.7,9; 24.10; 27.8,13; 19.17-18; 32.24,36; 34.17; 38.2; 42.17,22; 44.13). Deus envia a pestilência, junto com outras calamidades (2Cr 7.13). “Com exceção de cerca de cinco casos, todos os usos de deber referem-se à peste enviada por Deus como castigo”.[11] Poderiam ser tumores malignos, lepra ou qualquer outra doença de pele (cf. Dt 28.27), cegueira (Dt 28.28-29) e ainda loucura (Dt 28.28: “perturbação do espírito”). No caso do Salmo 91, poderia ser qualquer uma dessas  enfermidades, normalmente acompanhadas com outras calamidades (Dt 32.24). Era comum as pestes ocorrerem em um cenário de guerra. Cadáveres expostos das pessoas que sucumbiram a uma invasão militar certamente poderiam trazer muitas infecções, não à toa a “peste” é mencionada por Amós juntamente com os cadáves (Am 5.10). No final do v.3, a “peste” é qualificada como “calamitosa” (o termo hebraico[12] significa “calamidades”; Jó 6.2; 30.13).

Nesse v.3 a enfermidade é apresentada como um passarinheiro que monta uma armadilha para suas presas. Essa imagem pode sugerir que a doença em vista aqui seja contagiosa. Ela ficaria sobre uma superfície, à espreita para capturar (contagiar) alguém.

A mentalidade predominante no Antigo Testamento é que a “peste”, acompanhada por outras calamidades, seria um juízo de Javé sobre o Israel infrator; no caso, a infração seria a quebra da aliança divina (2Cr 7.13; cf. Jr 14.12; 21.7,9; 24.10; 27.8,13; 19.17-18; 32.24,36; 34.17; 38.2; 42.17,22; 44.13.[13] Nesse contexto, o v.3 promete que a “armadilha” arquitetada contra os infratores (“ímpios”, v.8) não pegaria aqueles que se abrigam à sombra do Altíssimo.

No v.4, a imagem que apresenta Deus estendendo suas “asas” como forma de proteção à aqueles que Nele confiam é retirada de Dt 32.11. Aqueles que buscam refúgio no Deus Altíssimo (v.1-2, 9) certamente serão protegidos por Ele, tal qual uma águia protege seus filhotes.

De acordo com os v.5-6, a “peste” impõe ameaças tanto durante a “noite” como durante o “dia” (v.5), tanto na “escuridão” como ao “meio dia” (v.6). É uma forma de dizer que o perigo era constante. A ameaça não dava tréguas. Causava destruição nas 24 horas do dia.

O v.4a declara que o israelita confiante em Javé não se assustaria com o “terror noturno”. Aqui, o “terror” (hebr. pahad) é o “medo”, o “pânico”, propagado pela doença. O v.4b anuncia livramento da “flecha que voa de dia”. Agora a imagem da enfermidade é de uma “flecha” atirada pelos guerreiros. Epidemias são como flechas atiradas. Algumas acertam o alvo, outras não. Algumas pessoas são infectadas, outras não.

De acordo com o v.6a, a “peste” (hebr. deber) é uma ameaça que se propaga: ela “caminha”. Novamente é possível notar que trata-se de uma enfermidade contagiosa. Poderia ser a lepra, ou qualquer outra doença contaminante. A enfermidade anda na “escuridão” (heb. ’opel), termo este que simboliza a calamidade extrema.

Pelo v.6b, é possível notar que a “peste” traz uma devastação desmedida. Ela é apresentada aqui como uma “destruição”, tradução do hebraico qeteb. Em Os 13.14, qeteb está associado ao poder destruidor da morte, por isso também pode ser traduzido como “mortandade” (ARA) Portanto, é possível afirmar que a “peste” contagiosa impõe uma alta taxa de mortalidade, a ponto de derrubar milhares (v.7).

De acordo com o v.7, milhares de pessoas sucumbem a essa enfermidade mortal. Trata-se, portanto, de uma epidemia, uma doença infecciosa que atinge toda uma população.

Portanto, a promessa dos v.3-7 é que o israelita piedoso seria protegido por Deus das epidemias mortais, que poderiam advir sobre a população de Israel.

Notemos agora o v.10. Propomos aqui a seguinte tradução do hebraico:

“Não sucederá[14] para ti um mal,

e uma praga não se chegará em tua tenda”.

A primeira frase (v.10a) precisa ser devidamente comprendida. As nossas traduções em língua portuguesa podem sugerir que o crente piedoso está livre de todo mal: “Nenhum mal te sucederá”. Entretanto, o pronome indefinido “nenhum” não aparece no texto hebraico, que, na verdade, refere-se a “um mal” do qual o fiel poderia ser livre. O substantivo “mal” (hebr. ra‘ah) não é precedido por artigo definido, o que na gramática hebraica sugere pronome indefinido: “um mal”. Ou seja, o texto bíblico não promete que o crente em Javé estará livre de todo mal. Aliás, não apresenta-se garantias absolutas de que o fiel estaria completamente livre do mal. Na verdade, o v.15 pressupõe que ele experimentará “angústia” (hebr. tsarah, “aperto”, “aflição”). Também é preciso observar que mesmo os israelitas piedosos estavam sujeitos à “praga” (Sl 38.11[12]).

A segunda frase do verso (v.10b) explica que o “mal” seria “uma praga”. O termo hebraico nega tem o sentido de “doença”. Em 1Rs 8.38, o termo é sinônimo de mahalah, “doença”, “enfermidade”. Trata-se de um “golpe”, normalmente aplicado por Deus. Na mentalidade do Antigo Testamento a enfermidade é uma forma de punição divina (Gn 12.17; Êx 11.1; Pv 6.33; Sl 38.11[12]; 39.10; 1Rs 8.37; cf. Nm 12.10; 2Sm 12.15; 2Cr 21.14,15; Is 53.8).[15]

Portanto, ainda que o agente do mal não seja especificado no Salmo 91.10, não é difícil concluir, à luz de outras passagens do Antigo Testamento, que tal agente seria o próprio Deus, que traria enfermidades e calamidades sobre os israelitas impenitentes (cf. 2Cr 7.13; Am 4.10). Sendo assim, o Sl 91.10 está afirmando que, quando Deus trouxesse “um mal” para punir Israel, os israelitas piedosos poderiam buscar refúgio em Deus como forma de não ser atingido por esse mal (a peste).

Para se compreender melhor as razões porque Deus poderia acometer seu povo com enfermidades, é preciso entender o que as cláusulas da aliança mosaica declaram acerca desses males. O interesse do presente artigo, para fins de interpretação do Salmo 91, é observar aquelas maldições na forma de enfermidades, que seriam enviadas para o Israel desobediente.

O Salmo 91 no contexto da aliança mosaica 

No Antigo Testamento, Deus fez sucessivas alianças. Os estudiosos propõem várias formas para se compreender essas alianças, e uma delas apresenta o seguinte esquema[16]:

Adão: a aliança do começo (Gn 3.14-19);

Noé: a aliança da preservação (Gn 6.18; 9.1-19);

Abraão: a aliança da promessa (Gn 15.18; 17.11);

Moisés: a aliança da lei (Êx 34.27);

Davi: a aliança do reino (2Sm 7.13-16);

Cristo: a aliança da consumação (Lc 22.20; cf. Jr 31.31-34).

Algumas dessas alianças (aliança abraâmica, aliança mosaica, aliança davídica) fazem parte de um pacto maior que Deus estabeleceu com o povo de Israel, no contexto da história da salvação em que Javé elegeu Israel para ser a nação que traria o Messias Salvador ao mundo.

Conforme se nota, uma dessas alianças com Israel foi a mosaica.[17] Após libertar o povo de Israel do Egito, Javé conduziu-o até o monte Sinai, onde firmou uma aliança com ele. O propósito do pacto foi constituir Israel como uma propriedade particular e exclusiva de Javé, sendo que, para que tal condição fosse mantida, o povo do pacto deveria obedecer às cláusulas impostas por Javé (Êx 19.5-6). As regulamentações, os estatutos e os mandamentos (os dez mandamentos e as demais leis estabelecidas no monte Sinai) funcionariam, a partir dali, como elementos que estabeleciam as diretrizes para Israel se relacionar com o Deus da aliança. O pacto estabelecido ao pé do monte Sinai foi renovado no livro do Deuteronômio, 38 anos depois, quando, após a geração que saíra do Egito tombar no deserto por causa da incredulidade, a nova geração de israelitas, agora acampada nas campinas de Moabe, preparava-se para entrar na Terra Prometida.  O Deuteronômio relembra aos israelitas que a permanência deles em Canaã estaria condicionada à obediência às cláusulas da aliança, e tal obediência seria motivada pelo amor e temor deles a Javé, o Deus da aliança que os libertou do Egito por causa do seu amor fiel e os escolheu para ser o povo da aliança.

Antes de analisar a relação entre o Salmo 91 com a lei mosaica, convém perceber a aproximação entre esse Salmo e o Salmo precedente (o Salmo 90). A últimas pesquisas na área do Antigo Testamento, especialmente aquelas que abordam o livro dos Salmos, recomendam a aproximação entre os Salmos. É importante perceber como um salmo está relacionado com o outro que vem antes e depois. Sendo assim, é importante notar a relação entre o Salmo 91 e o 90. Este Salmo (o 90) foi escrito por Moisés. A figura de Moisés parece estar implícita também no Salmo 91. Vejamos:

  • O Salmo 91 guarda uma memória da época que Israel no deserto. A “tenda” referida no v.10 é uma morada de nômades, o mesmo tipo de morada que abrigou os israelitas durante os 40 anos de jornada no deserto.
  • A imagem de Deus como uma sombra (Sl 91.1). Naquele deserto abrasador, os israelitas precisavam de uma sombra, e o Senhor era a própria sombra para eles (Sl 105.39).
  • Também é importante notar que a promessa do verso 4 (“Cobrir-te-á com as suas penas, e, sob suas asas, estarás seguro”), que apresenta a imagem de Deus como uma águia que voaje sobre seus filhotes, mantém clara relações com Dt 32.11: “Como a águia desperta a sua ninhada e voeja sobre os seus filhotes, estende as asas e, tomando-os, os leva sobre elas”. O salmista conhecia o Deuteronômio, e faz alusão ao cântico de Moisés (Dt 32.1-52).
  • Tanto o Salmo 90 como o 91 apresentam Deus como “refúgio”: “o nosso refúgio” (90.1), “meu refúgio” (91.1,9).

Portanto, nota-se que os Salmos 90 e 91 estão interrelacionados. A figura de Moisés e as jornadas pelo deserto se presentificam nesses dois Salmos.

Na verdade, conforme a hipótese desse artigo, o referencial do salmista no Salmo 91 é o pacto mosaico. Para evidenciar esta tese, é necessário observar como as pestes epidêmicas referidas no Salmo 91 são apresentadas nos livros de Moisés, principalmente no Deuteronômio, para então se notar as relações entre o pacto mosaico e o Salmo 91. Vamos a essa análise, agora.

As cláusulas da aliança mosaica apresentam bênçãos, se Israel obedecesse, e maldições, caso fosse desobediente (Lv 26.3-46; Dt 7.12-24; 28.1-68). Dentre as promessas divinas destinadas ao Israel obediente, é importante notar aquela apresentada em Dt 7.15: “O Senhor afastará de ti toda enfermidade; sobre ti não porá nenhuma das doenças malignas dos egípcios, que bem sabes; antes, as porá sobre todos os que te odeiam.” Javé livraria Israel da “peste” (hebr. deber) caso as cláusulas na aliança fossem obedecidas pelo povo.

É importante notar, ainda, outras passagens do Deuteronômio que apresentam as enfermidades que poderiam vir sobre Israel, em caso de desobediência do povo da aliança:

  • Dt 28.21: “O Senhor fará que a pestilência te pegue a ti, até que te consuma a terra a que passas para possuí-la.”
  • Dt 28.27: “O Senhor te ferirá com as úlceras do Egito, com tumores, com sarna e com prurido de que não possas curar-te.”
  • Dt 28.35: “O Senhor te ferirá com úlceras malignas nos joelhos e nas pernas, das quais não te possas curar, desde a planta do pé até ao alto da cabeça”.
  • Dt 28.59-61: “59então, o Senhor fará terríveis as tuas pragas e as pragas de tua descendência, grandes e duradouras pragas, e enfermidades graves e duradouras; 60 fará voltar contra ti todas as moléstias do Egito, que temeste; e se apegarão a ti. 61Também o Senhor fará vir sobre ti toda enfermidade e toda praga que não estão escritas no livro desta Lei, até que sejas destruído.”
  • Dt 29.22: “Então, dirá a geração vindoura, os vossos filhos, que se levantarem depois de vós, e o estrangeiro que virá de terras longínquas, vendo as pragas desta terra e as suas doenças, com que o Senhor a terá afligido”.
  • Dt 32.24a: “Consumidos serão pela fome, devorados pela febre e peste violenta”.

O objetivo das enfermidades era o extermínio com vistas a diminuir a população de Israel, conforme declara Dt 28.62: “Ficareis poucos em número, vós que éreis como as estrelas dos céus em multidão, porque não destes ouvidos à voz do Senhor, vosso Deus.”. Quando Javé fez aliança com Abraão, prometeu que os israelitas seriam uma multidão incontavél, tal qual as estrelas do céu (Gn 15.5). Portanto, reduzir a população de Israel é o reverso da promessa feita a Abraão, e isso certamente significa que as maldições seriam um sinal de que Israel havia quebrado a aliança firmada por Deus com ele. De fato, a quebra da aliança é o que atrairia as maldições: “Trarei sobre vós a espada vingadora da minha aliança; e, então, quando vos ajuntardes nas vossas cidades, enviarei a peste para o meio de vós, e sereis entregues na mão do inimigo” (Lv 26.25).

O ensino do Deuteronômio aos israelitas que estavam entrando na Terra Prometida era muito claro: as “palavras da aliança” (Dt 29.1) identificam-se com as “palavras desta maldição” (Dt 29.19), e Israel atrairia sobre si essas maldições publicadas no Deuteronômio (Dt 29.27), e, além disso, sua rebeldia se configuraria como quebra da aliança que o Senhor havia feito com eles (Dt 29.25).

Por isso, através do profeta Jeremias, Javé declara: “Enviarei contra eles a espada, a fome e a peste, até que se consumam de sobre a terra que lhes dei, a eles e a seus pais.” (Jr 24.10; cf. Jr 14.12; 21.7,9; 27.8,13; 19.7-8; 32.24,36; 34.17; 38.2; 42.17,22; 44.13). O anúncio jeremiano de desgraça fundamenta-se na aliança mosaica; a razão da calamidade é a quebra da aliança (Jr 11.1-14; cf. Jr 7.21-28).

Portanto, quando Israel ou algum israelita desobedecia a alguma ordem preceituada nos livros de Moisés (Pentateuco), estaria sujeito a sofrer severas penalidades por Javé, que viriam não somente na forma de guerras, fomes, exílios e pestes (Nm 25.1-9; cf. 2Sm 24.13,15).

Violar a lei mosaica poderia acarretar sérias consequências. Há casos de indivíduos que foram penalizados por descumprirem algum preceito da lei:

1. O próprio Moisés (ou seu filho) quase foi morto por Javé, devido à negligência quanto à ordenança da circuncisão (Êx 4.24-26).

2. Certo homem foi apedrejado pela congregação de Israel por violar o sábado (Nm 15.32-36). Aquele desventurado sofreu a penalidade prevista pela lei de Moisés (Êx 31.14; 35.2).

3. Um homem dos filhos de Israel e uma prostituta sagrada dos moabitas foram mortos por despertar a ardente ira de Javé (Nm 25.6-8).

4. Uzias ficou leproso porque orgulhosamente tentou usurpar a função sacerdotal (2Cr 26.16-23).

O Salmo 91 parece afirmar que, quando Javé infligisse sobre o Israel nacional as pragas previstas na lei mosaica, decorrentes da desobediência, poderia haver livramento para aqueles israelitas piedosos que não seguissem a mesma conduta ímpia dos seus compatriotas. Assim, a hipótese aventada nesse artigo é que os v.3-7,10 do Salmo 91 estão reiterando a promessa de Dt 7.15.

No v.7, o Salmo 91 pressupõe uma situação em que uma multidão estaria sendo atingida pela peste mortal, mas a praga não chegaria perto do fiel que se abriga à sombra do Onipotente. O crente israelita contemplaria com seus próprios olhos a ruína dos “ímpios”, mas não sofreria o mesmo destino deles (v.8). Os “ímpios” (v.8) são os infratores da aliança; são israelitas que cometiam sérios delitos contra Deus e contra o próximo, e perturbavam a ordem social (Sl 1; Mq 3.1-12; 6.9-16; Hc 1.4).

Ou seja, quando Deus infligisse o seu povo com enfermidades mortais, resultantes de uma conduta ímpia (como aquela narrada em Nm 25), naquela situação em que mil e dez mil caíssem, o israelita temente a Javé teria sua vida preservada. Portanto, o que o salmista está dizendo aqui no Salmo 91 é que a maldição declarada no livro do Deuteronômio (cf. Dt 29.27) não recairam sobre aqueles que confiam em Deus e buscam a proteção Nele.

É verdade que quando Javé trouxe sobre o seu povo uma das maldições do livro da lei (o exílio babilônico), de certa forma todos indistintamente (justos e ímpios) foram penalizados. Homens de Deus, como Daniel (e seus amigos) e Ezequiel foram levados para o cativeiro na Babilônia. Mesmo assim, os exilados receberam promessas de redenção (cf. Jr 24). Lá na Babilônia o remanescente fiel foi preservado e a promessa de longevidade declarada no final do Salmo 91 (v.16, também Sl 92.12-15) certamente se estendia a eles.

Para explicitar o argumento do presente artigo, convém, novamente, aproximar o Salmo 91 ao Salmo 90. O Salmo 90 apresenta “o poder da tua ira”, da “tua cólera” (v.11); Moisés clama por compaixão (v.13), pois Javé afligiu o seu povo (v.15). A ira de Deus sobre o povo de Israel no deserto, apresentada no Salmo 90, possivelmente precisa ser identificada com aquelas situações em que Javé derramava suas pragas contra seu povo rebelde (Nm 25.3,9). No Salmo 90, Moisés ora para que Javé manifeste compaixão ao seu povo. No Salmo 91, por sua vez, o israelita deveria orar para ser livre das pestes (Sl 91.15).

As razões do livramento e as promessas de Javé: Sl 91.14-16

No final do Salmo 91, apresenta-se a razão do livramento (v.14) e as promessas de Javé (v.15-16).

O v.9 já antecipa a justificativa do livramento. A preposição no início do verso, “pois”, “porque” (hebr. ki), apresenta a razão porque Javé livraria da peste/praga: “Pois tu (dizes): O Senhor é o meu refúgio; fazes do Altíssimo a tua morada”. Abrigando-se à sombra do Altíssimo e confiando Nele (v.1-2), o crente israelita poderia ser salvo das epidemias.

O v.14 apresenta outras duas razões do livramento:

“Porque em mim se apegou com amor, eu o livrarei;

coloca-lo-ei em um lugar seguro[18], porque conhece o meu nome.”

À semelhança do v.9, este v.14 também apresenta a preposição “pois”, “porque” (hebr. ki), que ocorre no início do verso e também na segunda linha antes do verbo “conhecer”.

A primeira razão porque alguém poderia ser salvo da enfermidade é o amor a Javé: “a mim se apegou com amor”. Esta expressão relaciona-se com Dt 6.5: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força”. Apegar-se a Deus com amor, tema muito caro ao Deuteronômio (Dt 6.5; 10.12; 11.1), é reiterado pelo salmista como a razão porque Javé livraria os israelitas piedosos das enfermidades mortais.

A segunda razão do livramento é afirmada na segunda linha do verso: “porque conhece o meu nome”. “Conhecer” (hebr. yada), aqui, não é um saber meramente racional, mas um conhecimento experimental, fruto de um relacionamento íntimo. O “nome” de Deus é uma referência à Pessoa de Deus. Em Deuteronômio 12, lemos que Javé escolheu um lugar, provavelmente Jerusalém, para ali fazer habitar o seu nome (Dt 12.5). Aqui no Salmo 91, aquele que declara “o Senhor é meu refúgio” se relaciona com Deus pessoalmente, possui um relacionamento íntimo com Javé através do culto ministrado em Jerusalém, conforme preceituado no Deuteronômio.

A expressão “coloca-lo-ei em um lugar seguro” (v.14) reafirma os v.1-2, só que nos v.1-2 é o fiel que busca refúgio em Deus, enquanto que aqui no v.14 é o próprio Javé que promete colocar o fiel em um lugar seguro.

O v.15 apresenta outra razão do livramento: o clamor, a oração.

“Ele clamará a mim, e eu lhe responderei;

eu estarei com ele na angústia,

livrá-lo-ei e o glorificarei.

A oração poderia livrar os israelitas das calamidades descritas nas cláusulas da aliança. Quando Deus derramava o seu juízo sobre Israel, trazendo sobre seu povo impenitente as maldições do livro da aliança, havia a expectativa de livramento, no caso de Israel clamar a Javé por socorro. É o que se lê na oração de Salomão lemos em:

37 Quando houver fome na terra ou peste, quando houver crestamento ou ferrugem, gafanhotos e larvas, quando o seu inimigo o cercar em qualquer das suas cidades ou houver alguma praga ou doença, 38 toda oração e súplica que qualquer homem ou todo o teu povo de Israel fizer, conhecendo cada um a chaga do seu coração e estendendo as mãos para o rumo desta casa, 39 ouve tu nos céus, lugar da tua habitação… (1Rs 8.37-39a; Cf. 2Cr 6.28).

A mesma perspectiva é esboçada na oração de Josafá: “Se algum mal nos sobrevier, espada por castigo, peste ou fome, nós nos apresentaremos diante desta casa e diante de ti, pois o teu nome está nesta casa; e clamaremos a ti na nossa angústia, e tu nos ouvirás e livrarás.” (2Cr 20.9).

Tudo indica que o Salmo 91 está alinhado ao pensamento de 1Rs 8.37-39 e 2Cr 20.9 (cf. 2Cr 7.14; 30.20; 32.24-26; 33.10-13). Assim, mesmo quando Deus derramasse seu furor contra Israel, aqueles que se apegassem a Ele com amor e clamassem a Ele não seriam afetados pelas maldições decorrentes da desobediência (Sl 91.14-16; cf. Am 7.1-6; Ez 22.30). No v.16a do Salmo 91 Javé promete longevidade. Livre da epidemia mortal, o israelita piedoso poderia ter uma vida longa sobre a terra da promessa (Dt 6.2). Desse modo, Javé manifestaria a sua “salvação” (v.16b), a preservação da vida, o livramento das pestes.

É importante ainda notar outra passagem do Antigo Testamento em que Javé promete livramento aos fiéis, quando o Israel nacional sofresse as sanções impostas pelo livro da aliança. Trata-se de um texto de Jeremias:

8 A este povo dirás: Assim diz o SENHOR: Eis que ponho diante de vós o caminho da vida e o caminho da morte. 9 O que ficar nesta cidade há de morrer à espada, ou à fome, ou de peste; mas o que sair e render-se aos caldeus, que vos cercam, viverá, e a vida lhe será como despojo. 10 Pois voltei o rosto contra esta cidade, para mal e não para bem, diz o SENHOR; ela será entregue nas mãos do rei da Babilônia, e este a queimará. (Jr 21.8-10).

Jeremias já havia anunciado a vinda do “mal” (exílio e outras calamidades) sobre Jerusalém (Jr 14.12; 19.7-9; 21.7; 24.10; etc.). Naquela circunstância, Deus estava trazendo os caldeus, bem como a fome e as pestes, para destruírem a capital de Judá. Contudo, aqueles que se entregassem aos caldeus teriam suas vidas preservadas (21.9). Ainda que Judá sofresse as sanções impostas por Javé, alguns teriam suas vidas por desposo (cf. Jr 45.4-5).

Portanto, havia esperança de salvamento, mesmo em meio às calamidades. O Salmo 91 deve ser situado nessas expectativas de livramentos dos flagelos impostas por Javé ao Israel desobediente.

A relevância do Salmo 91 para a Igreja

Antes de notar a relevância do Salmo 91 para a igreja, é preciso ponderar que a promessa do livramento das “pragas”, conforme apresentada no Salmo 91, destinava-se exclusivamente para o Israel do Antigo Testamento, e não se aplica à comunidade da nova aliança (Igreja) no mesmo sentido como se aplicava ao Israel nacional da antiga aliança. Para se confirmar essa afirmativa, é necessário voltar os olhos novamente ao Deuteronômio. Neste livro, Moisés refere-se às “pragas desta terra” e às “suas doenças” (Dt 29.22), como sinal de que “a ira do Senhor se acendeu contra esta terra” (Dt 29.27). Não podemos perder de vista um importante detalhe aqui. As “pragas” e as “doenças” viriam contra a terra de Israel, especificamente: “contra esta terra” (note o pronome demonstrativo “esta”). Isso porque Deus havia feito aliança com o Israel nacional, que habitava naquela terra. Do mesmo modo como as bênçãos da aliança se destinavam exclusivamente ao Israel nacional (Dt 28.1-14), as maldições, de igual modo, destinavam-se a esse povo do pacto (Dt 28.15-68).

As ordens preceituadas em Deuteronômio foram dadas para Israel, e não para Igreja. Consequentemente, as penalidades que viriam sobre Israel, em caso de desobediência, não se aplicam mais para a igreja. É preciso prestar atenção ao que o próprio texto bíblico afirma: “Hoje, o SENHOR, teu Deus, te manda cumprir estes estatutos e juízos” (Dt 26.16; cf. Dt 7.12). Notemos bem: “estes estatutos e juízos”. Novamente o pronome demonstrativo aqui não pode ser ignorado: “estes” (também em Dt 7.12). Seriam “as palavras desta lei” (Dt 28.58, 61) que atrairiam as maldições de Javé sobre Israel, dentre essas maldições, as enfermidades mortais. Ou seja, aqueles mandamentos especificamente elencados no livro de Deuteronômio (também em Êxodo, Levítico e Números) deveriam ser observados pelos israelitas quando de posse da Terra Prometida. Citemos só alguns aqui: extermínio dos falsos profetas e dos idólatras (Dt 13), leis de pureza e impureza (Dt 14.3-21), celebração das festas (Dt 16). Se os cristãos hoje fossem colocar em prática a lei do extermínio dos falsos profetas e idólatras certamente seriam tratados como assassinos, e com razão.

O povo da nova aliança não está mais sujeito a essas e outras penalidades previstas na lei de Moisés, porque não obedece mais a lei de Moisés em sua totalidade. Deus não matará nenhum cristão por causa da lei da circuncisão, nem ordenará à igreja apedrejar alguém por descumprir o sábado.

Portanto, as maldições que poderiam vir sobre o Israel desobediente, bem como as bênçãos ao Israel obediente, estavam estritamente relacionadas com os estatutos apresentados nas cláusulas da aliança mosaica. Caso a Igreja reivindique as bênçãos da aliança mosaica, também precisará reivindicar suas maldições, e tal prerrogativa exigiria à comunidade da nova aliança a obediência irrestrita a todos os mandamentos e estatutos preceituados nos livros de Moisés, o que certamente confrontaria uma das afirmativas centrais do Novo Testamento, qual seja, os aspectos cerimoniais e ritualísticos da lei se tornaram obsoletos pela obra de Cristo.

É importante destacar que algumas ordens e promessas de Deus para o Israel do Antigo Testamento não se aplicam mais à Igreja. Por exemplo, Deus ordenou os israelitas entrarem na terra de Canaã e exterminarem completamente os cananeus, com a promessa de que estaria com eles nas batalhas que travariam naquela terra. É muito óbvio que essa ordem e promessa divinas, conforme sua configuração no Antigo Testamento, não se aplica mais para o povo da nova aliança. Deus não ordena que os cristãos saíam à guerra contra seus inimigos, nem ordena que eles destruam cidades e matem seus habitantes, nem promete que estará com eles caso eles saíam a subjugar povos e nações atuais. Deus não ordena à sua Igreja para marchar em torno de alguma cidade por sete dias, uma vez por dia e sete vezes no sétimo dia, sob a promessa de que as muralhas dessa cidade ruirão (Js 6). Essa foi uma ordem e promessa dadas em um contexto histórico específico da conquista da Terra Prometida. Essa ordem e promessa eram restritas à comunidade da antiga aliança, no estágio da história da salvação em que Deus estava levantando Israel para ser o povo através do qual o Messias nasceria para trazer salvação para a humidade.

Deus não tem uma aliança com as nações atuais como tinha com a nação de Israel no Antigo Testamento. Compreendendo-se adequadamente essa questão, chega-se a uma implicação fundamental: a pandemia do coronavírus (e outras pestes que devastaram a humanidade no passado) não pode ser interpretada como quebra da aliança e, consequentemente, não podem ser vistas como sanções de Deus. Aqueles que sofriam as pragas preceituadas nos livros de Moisés eram os “ímpios” (Sl 91.8). Ora, aqueles que hoje contraem o coronavírus são “ímpios” no mesmo sentido do Antigo Testamento? Absolutamente não. Chamar de “ímpios” aqueles que são vitimados pelo COVID-19 seria não somente um desvio da correta interpretação bíblica, mas também uma violência à solidariedade. Idosos e doentes crônicos (principais vítimas do coronavírus) certamente não podem ser classificados como iníquos e corruptos no mesmo sentido dos ímpios na comunidade israelita. Até porque não precisa ser muito inteligente para constatar que os crentes piedosos também têm morrido por causa do vírus (e por outras enfermidades), enquanto que muitos ímpios têm suas vidas preservadas desse mal. Passada a epidemia, os criminosos e corruptos continuarão seus desserviços à sociedade, enquanto que muitos justos terão sido exterminados. Na verdade, a pandemia tem matado justos e ímpios, cristãos e não cristãos, indistintamente.

Por outro lado, precisamos responder honestamente à seguinte questão: a pandemia do coronavírus foi enviada por Deus? Ora, se o Altíssimo é Soberano sobre tudo e sobre todos (e de fato Ele é), se nenhum passarinho cai em terra sem a permissão de Deus (Mt 10.29), se Dele, e por meio Dele e para Ele são todas as coisas (Rm 11.36), então não podemos negar que Deus enviou ou permitiu o coronavírus para que algum dos propósitos sejam cumpridos na história atual.

Feitas essas constatações, é necessário ainda tecer uma ponderação. O Salmo 91, apesar de precisar ser lido no contexto da aliança mosaica e ter sido dirigido originalmente a Israel, não pode jamais ser menosprezado pelos cristãos. Esse Salmo afirma o cuidado providencial de Deus sobre seus filhos, e certamente a Igreja só está de pé porque o Senhor é o seu refúgio e abrigo. Baseado no Salmo 91.10, e na própria oração do Pai-nosso (Mt 6.13), precisamos orar para Deus nos livrar do mal. Não precisamos temer mal algum porque nosso Supremo Pastor está conosco (Sl 23.4). O próprio Jesus se fundamentou no Salmo 91 ao comissionar os setenta discípulos: “Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano” (Lucas 10.19). Cristo retomou a promessa do Sl 91.13. Quando o Senhor promete que “nada, absolutamente, vos causará dano” não está afirmando que os pregadores do evangelho não poderiam sofrer sérios danos por causa da pregação do evangelho (cf. Jo 21.19; At 12.1-2), mas simplesmente está assegurando que as forças do mal não poderão impedir o avanço do evangelho. A antiga serpente tenta a todo custo derrubar a Igreja de Cristo (Ap 12), mas, ao final, o Cordeiro e Sua igreja prevalecerão.

Com base no Sl 91.3-7, 10, o cristão certamente pode orar suplicando para que Deus o livre das enfermidades. Sobretudo em uma situação de pandemia, o povo de Deus precisa renovar seu compromisso com a oração, levantando um clamor para que o Altíssimo nos livre das epidemias e das calamidades geradas por elas. Por outro lado, é necessário sempre se lembrar que Deus nunca prometeu que a Igreja estaria completamente livre das enfermidades. Neste ponto, é importante recordar que vivemos em um mundo amaldiçoado por causa do pecado original (Gn 3). O próprio Deus decretou: “maldita é a terra por sua causa” (Gn 3.17). Note-se bem. A maldição sobre o cosmos é um decreto divino. Não pode ser alterado, por enquanto. Está decretado que a terra e seus habitantes sofreriam os efeitos catastróficos por causa do pecado, e esse decreto não pode ser alterado até que novos céus e nova terra sejam criados, quando finalmente a maldição lançada em Gn 3 será extinta (Ap 22.3). Quando novos céus e nova terra surgirem, “não haverá mais morte, nem pranto, nem lamento, nem dor” (Ap 21.4). Mas, enquanto isso não ocorrer, toda a natureza agoniza e sofre os efeitos do pecado (Rm 8.22), “e não somente ela, mas também nós, que temos os primeiros frutos do Espírito, também gememos em nosso íntimo, aguardando ansiosamente nossa adoção, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23).

Sendo assim, orações que decretam a cura ou a proteção das enfermidades estão totalmente desalinhadas à teologia bíblica. Nos arraiais evangélicos, é comum se ouvir orações com os seguintes dizeres: “nós determinamos a cura em nome de Jesus”; “nós declaramos o livramento de todo o mal”, etc. Certamente uma das bases dessas orações é a má interpretação do Salmo 91.10. Ora, decretar que todo cristão será livre de todo o mal é ir contra o decreto lançado pelo próprio Deus em Gn 3.17. Qual dos decretos será efetivado? O decreto da maldição sobre a natureza que o próprio Deus lançou, ou o decreto das “orações fortes”?

O cristão ora para ser livre das epidemias. Ora pela cura dos enfermos. Mas não decreta nada. Simplesmente confia, com a expectativa de que a vontade de Deus seja feita.

É preciso ainda se lembrar que, de acordo com o Novo Testamento, as epidemias seriam um dos sinais da segunda vinda de Jesus (Lc 21.11; Ap 6.8). As pestes sinalizam que o fim virá, mas elas não apontam exatamente a proximidade do fim: “é necessário que primeiro aconteçam estas coisas, mas o fim não será logo” (Lc 21.9, itálico do autor). Note-se o final do verso: “mas o fim não será logo”. As epidemias só marcarão o início das dores, e não fim delas. Não é o fim, mas só o começo do fim. Portanto, a vinda do COVID-19 não nos autoriza a afirmar que Jesus voltará hoje ou na próxima semana. Sim, Cristo pode voltar, mas isso pode ocorrer agora ou daqui mil anos. Ele virá como um ladrão, em um momento que não esperamos (Mt 24.42-44). De qualquer modo, o conselho da Escritura sempre é válido: precisamos estar preparados para a volta de Jesus!

Conclusão

A confiança expressa no Salmo 91 está fundamentada na aliança que Deus fez com Israel, conforme relatada nos livros de Êxodo e Levítico, cujas cláusulas são renovadas no livro do Deuteronômio, e foram dadas por Javé no estágio da história da salvação caracterizado como antiga dispensação, quando Israel estava de posse da terra de Canaã. As cláusulas da antiga aliança eram nacionais, ou seja, estavam estritamente relacionadas com Israel como nação. Portanto, essas palavras pertenciam à antiga aliança. Hoje, nós, cristãos, estamos em outra dispensação, na nova aliança estabelecida pelo sangue de Cristo. Nossa “terra prometida” não é a terra física de Israel, mas os novos céus e a nova terra que o Senhor tem preparado para aqueles que Nele confiam (Hb 4).

A promessa de livramento das enfermidades, conforme apresentada no Salmo 91, especialmente nos v.3-7, 10, no contexto da aliança veterotestamentária, estava voltada para os israelitas piedosos que clamassem a Javé por livramento (v.14-16). Estes fiéis poderiam ser livres das enfermidades mortais preceituadas no livro da aliança.

O povo de Deus certamente precisa orar clamando pelo livramento das epidemias. Entretanto, o crente piedoso não pode se iludir com falsas promessas. O cristão, por mais piedoso que seja, está sujeito às aflições pertinentes a esse mundo caído. Não está livre dos efeitos cósmicos do pecado. O cristão está sujeito a acidentes. Cristão também morre de câncer. Está sujeito a todo tipo de enfermidade. Também pega coronavírus. O cristão também fica desempregado. É assaltado por bandidos cruéis. Entretanto, possui uma certeza absoluta: o seu tesouro será preservado até o Dia final (2Tm 1.12); a esperança viva domina o coração do crente, pois sua herança está preservada nos céus, onde Cristo o aguarda (1Pe 1.3-5). Aquele que crê em Cristo sempre será abrigado à sombra do Altíssimo aqui nessa vida, em meio às tormentas dessa vida, e para todo o sempre. Nada o separará do amor de Deus que está em Cristo Jesus.

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[1] As citações bíblicas do presente artigo foram extraídas da tradução de João Ferreira de Almeida, Revista e Atualizada, 2ª ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2015. Entretanto, os versículos do Salmo 91 citados no artigo foram traduzidos diretamente do TM (Texto Massorético).

[2] TM (Texto Massorético): middeber, “da peste”. A Bíblia de Jerusalém sugere modificar a pontuação massorética: medabber (particípio), “que se ocupa”. A Bíblia Hebraica Stuttgartensia, no seu aparato crítico, admite a inclusão do waw conjuntivo: umiddeber, “e da peste”. Se o waw conjuntivo for incluído, uma segunda linha se abriria no verso.

[3] sakak hifil imperfeito, “proteger, cobrir”.

[4] hasah qal imperfeito, “buscar refúgio”.

[5] ’emet, “fidelidade, verdade”.

[6] halak qal imperfeito, “andar, caminhar”.

[7] ’opel substantivo masculino singular, “escuridão, trevas”

[8] shadad qal imperfeito, “arruinar, destruir, devastar”.

[9] napal qal imperfeito, “cair, deitar”.

[10] nagash qal imperfeito, “aproximar, chegar perto”, aqui conjugado na terceira pessoa. O sujeito do verbo é a “destruição” (qeteb) do v.6b.

[11] Earl S. Kalland, in: R. Laird Harris; Gleason L. Archer Jr., Bruce K. Waltke (organizadores), Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento (São Paulo, Vida Nova, 1998), verbete 399b, p. 292.

[12] hauwot, “calamidades, ruínas, ameaças”.

[13] G. Mayer, deber, in: Botterweck, G. Johannes; Ringgren, Helmer e Fabry, Heinz-Josef (editores), Theological Dictionary of the Old Testament, Grand Rapids, William B. Eerdmans Publishing Company, vol. 3, 1978, p. 126.

[14] anah II pual imperfeito, “suceder, sobrevir” (Sl 91.10; Pv 12.21). Nelson Kirst et. al., Dicionário hebraico-português e aramaico-português (São Leopoldo/Petrópolis, Sinodal/Vozes, 2003, 16a edição) p. 14.

[15] Leonard J. Coppes, in: R. Laird Harris; Gleason L. Archer Jr., Bruce K. Waltke (organizadores), Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento (São Paulo, Vida Nova, 1998), verbete 1293a, p. 918.

[16] O. Palmer Robertson, O Cristo dos Pactos, 2ª edição (São Paulo: Cultura Cristã, 2011).

[17] Para mais detalhes acerca da aliança mosaica, veja O. Palmer Robertson, O Cristo dos Pactos, p. 139-164.

[18] shagab piel imperfeito, “”pôr em lugar alto/seguro”.

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