A necessidade de relacionamento para o desenvolvimento da igreja – Parte 2

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2.1.2 Romanos 12.4-5
A passagem de Romanos 12.4-5 deve ser interpretada no contexto dos dons espirituais de 12.3-8.18 Ao longo desse texto, Paulo faz uma analogia para representar a constituição do “Corpo de Cristo”: como um corpo humano possui muitos membros e cada um tem uma função orgânica específica, assim também se constitui o Corpo de Cristo19, a igreja. Ela possui muitos membros, formando um só corpo, de modo que, cada membro, por causa do seu dom espiritual, tem uma função que o difere de outros membros do mesmo corpo.

Diante disso, é importante destacar o versículo 12.5, em que Paulo diz que “[…] somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros” (ARA20). Como se pode notar, o verbo grego esmen (“somos”) está no tempo presente e sugere o estado de que os membros pertencem tanto a Cristo, quanto uns aos outros, ao mesmo tempo.

Na conhecida passagem de 12.2, Paulo exorta a igreja para que não se deixe moldar pelos padrões, crenças, valores, hábitos, costumes e práticas do mundo à sua volta. Isso ocorre para que a mesma igreja renove a sua mentalidade a fim de conhecer-se e experimentar a vontade de Deus.

Por isso, a igreja não deve se conformar com a cosmovisão secular prevalecente sobre relacionamentos (individualismo21, hedonismo 22, egocentrismo23, etc.), mas deve renovar-se através do conceito de que os membros pertencem tanto a Cristo, como uns aos outros. Assim, do mesmo modo que cada crente deve se relacionar com o Senhor, deve igualmente se relacionar e cuidar dos outros crentes.

2.1.3 Atos 2.42-47; 4.32-35
1Coríntios e Romanos foram escritos, aproximadamente, entre 22 e 24 anos depois dos fatos históricos narrados nas passagens de Atos. Nesses textos, Lucas registrou os eventos do início da igreja cristã (Lc 1.1-4; At 1.1-2), eles nos ensinam que:

a) Há ênfase no aspecto comunitário da vida cristã e não apenas no bem-estar da pessoa do convertido.
b) O autor usa a forma plural dos principais verbos: “dedicavam”, “estavam”, “criam”, “mantinham-se”, etc., para ressaltar o valor do relacionamento coletivo na igreja.
c) A dedicação dos discípulos estava tanto para o ensino dos apóstolos, como para a oração, para o partir do pão e para a comunhão.24
d) Todos os que creram, em Jesus, estavam juntos25 e tinham tudo em comum (2.44).
e) Havia participação junto às refeições (2.46). Nessa passagem, Lucas mostra que a refeição era realizada coletivamente (ninguém ceava “sozinho”).
f) Todos os que creram formavam uma só alma e um só coração (4.32). Com isso, a igreja primitiva não era simplesmente um somatório de almas e de corações individuais, que cultuavam no espaço físico do Templo
em Jerusalém.
g) Todos partilhavam seus bens, isto é, como pertencentes uns dos outros (4.32), e isso só poderia ter ocorrido dentro de um contexto de relacionamentos interpessoais saudáveis.
h) Os relacionamentos eram bons entre os membros da igreja (2.42, 44, 46; 4.32 e 35) e também para com os de fora da
comunidade (2.47).26
i) Todos estavam cheios do Espírito Santo (2.4; 4.31) e não só falaram em outras línguas (2.4), ou foram dedicados ao ensino dos apóstolos, à comunhão e à participação nas ceias e nas orações (2.42), mas também, formavam uma só alma e um só coração (4.32),27 ou seja: havia muitas interações pessoais entre eles!

2.2 O conceito de pessoa
As Escrituras afirmam que Deus criou os seres humanos para a sua glória (Is 43.7; Ro 11.36; Ef 1.11-12) e que é ele que forma cada parte da pessoa humana: corpo físico, mente, alma, espírito, emoções e sentimentos (Sl 33.15; 139.13-16). Com base nisso, tem-se que a pessoa humana foi criada “à imagem e à semelhança de seu Criador” (Gn 1.26-27). Grudem28 defende a ideia de que, se o ser humano foi criado à imagem e à semelhança de Deus, isso significa que o homem possui:

a) Aspectos morais: as pessoas, diferentemente dos animais, possuem naturalmente um sentimento interior de justiça e de moralidade.
b) Aspectos espirituais: o sentimento de que existem vidas de natureza espiritual.
c) Aspectos mentais: apenas os seres humanos possuem a capacidade de raciocinar, de pensar logicamente e de criar. Os aspectos da mente humana são também expressos nas artes, na música, na literatura e no desenvolvimento da ciência e da tecnologia.
d) Aspectos emocionais e sentimentais:29 a Bíblia contém vários relatos descrevendo Deus e os seres humanos possuindo sentimentos e emoções. Há o registro da alegria em Salmos 16.11 e Filipenses 4.4; do prazer: Salmos 73.25-26; do gozo: João 15.11 e Romanos 15.13; do júbilo: Lucas 24.52 e Atos 8.39; da tristeza: Lucas 22.45 e 2Coríntios 7.10; dos desejos emocionais profundos: Salmos 42.1; 63.1 e 84.1-2; do medo: Mateus 14.26 e Apocalipse 11.11; da ansiedade: 1Pedro 5.7 e da depressão: Salmos 42.5-7. Jesus sentiu tristeza pela morte de Lázaro: João 11.33-36; zangou-se com os cambistas: João 2.14-17; cansou-se após um dia desgastante: João 4.6; teve fome: Mateus 4.2 e sede: João 19.28.

Para Killen,30 com base nas passagens bíblicas que tratam do ser humano, pessoa é “aquele ser vivente que possui intelecto, desejo e emoção. É o ser capaz de autoconsciência e de autodeterminação”. O mesmo autor reconhece que a Bíblia descreve a existência de sentimentos, emoções, corpo físico e de capacidade mental nas pessoas. Já Crabb 31 define o ser humano como um “ser pessoal, que anseia profundamente; ser racional, que pensa; ser volutivo, que escolhe e um ser emocional, que sente”.

Segundo Crabb,32 pessoas saudáveis são aquelas que “desfrutam profundamente de Deus, o que é expresso com explosões ocasionais de êxtase, seguidas por longos períodos de serena fidelidade. Suas vidas estão ancoradas nele porque sabem que sentiam o toque de Deus em seu ser. Tal toque as liberta de maneira crescente, o que faz se envolverem mais plenamente com outras pessoas”.

A Bíblia também faz distinção entre as fases do desenvolvimento de uma pessoa: recém-nascido, criança, jovem, adulto e ancião, seja no seu aspecto físico, mental ou afetivo (1Co 13.11). Quanto à questão da maturidade, alcança-se através de relacionamentos e não consiste de um processo isolado e natural. Real33 diz que “O compromisso de conhecer, de guardar e de transmitir a palavra, de viver a vida cheia do Espírito Santo e a comunhão é fundamental para o desenvolvimento do caráter e, por conseguinte, para o crescimento espiritual.”

2.3 O conceito de comunhão
O substantivo grego koinõnia (“comunhão”) apresenta-se 19 vezes no uso do NT e tem o significado básico de “participação”.

McRAY, comentando acerca dos relacionamentos na igreja apostólica, diz que “a amizade é uma expressão suprema da comunhão. A igreja primitiva mantinha diariamente esta comunhão (At 2.42), conforme comprova sua vida em comum, descrita em Atos 4 e 5.”34

Não apenas os fatos de terem sido cheios do Espírito Santo, de falarem em outras línguas (At 2.4), de praticarem o jejum (At 13.1-3), a oração (At 2.42), a pregação da palavra (At 4.31), de se dedicarem ao ensino dos apóstolos (At 2.42) e a regular presença de sinais e prodígios (At 5.12; 8.6-7) foram características que se destacaram na igreja primitiva, mas também o fato de desfrutarem relacionamentos saudáveis: ela tinha a comunhão dos membros entre si e com o Senhor , além de se dedicar a ela (At 2.42).35

O mesmo substantivo koinõnia é empregado em Atos 2.42; 1Coríntios 1.9; 2Coríntios 13.13, 1João 1.3, 6-7. Em 1João 1.3, 6-7, o apóstolo João é categórico quando diz que:

a) A comunhão dele e de seus leitores, é com o Pai e com o Senhor Jesus (1.3).
b) Se os discípulos tiverem verdadeira comunhão com o Senhor Jesus, terão também a mesma comunhão entre si (1.7).
c) E, não existe diferença entre a comunhão que o crente tem com o Senhor e a que tem com os irmãos. A palavra grega empregada por João, ao afirmar que temos comunhão (koinõnia) com o Pai e com o seu Filho (1.6), é a mesma quando ele diz que temos comunhão (koinõnia) uns com os outros (1.7). Diante disso, compreende-se que, para o apóstolo João, não existe a possibilidade de alguém se relacionar bem “apenas com o Senhor” e viver com problemas de relacionamento com outras pessoas.36 Dentro dessa visão, para que um crente tenha relacionamentos saudáveis com outras pessoas, é imprescindível que eles tenham também um bom relacionamento com o Senhor.

Em Gênesis 2.18, tem-se que foi o próprio Deus quem disse que não era bom que o homem, ou qualquer pessoa estivesse “só”, embora Adão tivesse a companhia e a perfeita comunhão com o Senhor, pois ainda não tinha caído no pecado original. O Senhor então cria Eva, e ambos têm um perfeito relacionamento interpessoal (Gn 2.24 e 25). Ambos foram criados para formar uma “só carne”, o que deixa implícita a existência de um relacionamento, uma convivência, uma interação, uma troca de sentimentos e uma comunicação saudável e plena entre eles.

Apesar de Adão não possuir ainda o pecado em sua natureza humana, de ter a companhia plena com Deus, de habitar no Jardim do Éden e de viver em perfeita harmonia com a natureza, o Senhor lhe concedeu uma companheira para que ambos se relacionassem.37 A Bíblia na Linguagem Viva traduz assim Gênesis 2.18: “Não é bom que o homem fique sozinho. Vou fazer uma companheira para ele[…]” (itálicos nossos). Quando Deus disse que não era bom que a pessoa humana permanecesse sozinha, provavelmente, ele quis dizer que era bom para a pessoa humana viver na companhia de outras, relacionando-se com o seu semelhante.38

Kidner39 analisando Gênesis 2.18 diz:

“[…] a mulher é apresentada integralmente como sua associada e sua réplica [de Adão]; nada se diz dela ainda como gestante e mãe. […] O que se tem de registro é que o verdadeiro companheirismo é exposto pelas expressões empregadas: uma auxiliadora adequada a ele, 18, 20 […]”. (grifo do autor).

Na oração sacerdotal de Jesus, o Senhor ora para que “todos os seus discípulos sejam um” (Jo 17.21) e que “sejam levados à plena unidade” (Jo 17.23). Ora, a visibilidade em que essa oração de Jesus será percebida pelo mundo, acontecerá quando existir um relacionamento harmonioso e saudável entre os discípulos de Jesus. Assim, a oração de Jesus, de certa forma, é para Deus auxilie seus discípulos a se relacionem melhor entre si e que estes, por sua vez, procurem atender à essa petição.

3. PERSPECTIVA BÍBLICA SOBRE RELACIONAMENTOS
A Bíblia ensina que, quem está em Cristo, é uma nova criatura (2Co 5.17). Tem no seu interior: o consciente, o inconsciente, a mente, o ego, as emoções, os sentimentos, assim como os desejos, o caráter, a personalidade, os valores, as convicções, a alma e espírito, e tal interior foi regenerado pelo Espírito Santo e está sendo transformado progressivamente (Ez 36.26-27; Tt 3.5-6; 2Co 3.8). O Espírito de Cristo passou a fazer morada permanente nele (Jo 3.5,8; Ef 1.13-14) e a produzir regularmente o seu fruto (Gl 5.22-23).

Também é revelado na Bíblia: quem está em Cristo, crucificou a sua natureza humana, com as suas obras, desejos, vícios e paixões pecaminosas (Gl 5.24). Isso não significa que o crente seja perfeito ou isento de pecar ou até de prejudicar seus relacionamentos. Mas, por possuir uma nova natureza, tem condições de se autoavaliar e, com a graça do Senhor, procurar restaurar seus relacionamentos.

Como já foi visto anteriormente, se os discípulos de Jesus tiverem comunhão verdadeira com o Senhor (1Jo 1.6), terão plenas condições de terem comunhão entre si (1Jo 1.7). Também para Paulo, se os convertidos ao evangelho forem guiados (Gl 5.16, 18) e controlados pelo Espírito (Ef 5.18), produzirão o fruto do Espírito e terão condições de desenvolver relacionamentos saudáveis. Dessa forma, pela perspectiva bíblica, para o convertido desenvolver bons relacionamentos, é necessário:

a) Buscar conhecer a si mesmo, conforme a ótica do Senhor (Ro 12.3), com suas reais falhas, fraquezas, imperfeições, defeitos e virtudes.
b) Procurar periodicamente a ajuda do Senhor (Hb 4.14-16), tirando, para isso, as “máscaras” e sendo o mais sincero e autêntico diante dele (2Co 3.17-18), para que o Senhor o transforme progressivamente pelo Espírito (Ro 8.29) e pela Palavra (Êx 34.29; 1Pe 1.23-25).
c) Dispor-se a se relacionar com os outros irmãos, em um nível mais profundo, para que, nessa interação, Deus venha usá-los como instrumentos para aperfeiçoar o interior (Pv 27.17), quando outros perceberem as suas fraquezas e ajudarem-no na identificação e no tratamento (Mt 7.1-5).

Portanto, o crescimento pessoal e o amadurecimento do discípulo se darão através dos relacionamentos. Existem vários imperativos no NT para que membros das igrejas ajam reciprocamente e, por consequência, tenham o seu interior aperfeiçoado de acordo com o caráter de Cristo (Hb 12.10): exortar (Hb 3.13); alegrar (Ro 12.15); orar (Tg 5.16), admoestar (Rm 15.14), consolar (1Ts 4.18), suportar (Cl 3.13), instruir e aconselhar na Palavra (Cl 3.16), viver em paz (1Ts 5.11), servir (1Pe 4.10), sujeitar-se (Ef 5.21) e amar (1Ts 4.9) são alguns exemplos.

4. O PERDÃO E A RECONCILIAÇÃO
Em Efésios 4.1-6 (NVI), Paulo apresenta o seu ensino para que os membros da igreja:

a) Sejam humildes, dóceis, pacientes e que suportem40 uns aos outros.
b) Façam todo o esforço a fim de que mantenham entre si a unidade do Espírito, pelo vínculo da paz.41
c) Formem um só corpo, a igreja de Cristo, para que, apesar de esta ser constituída de muitos membros diferentes, Deus esteja em todos os membros e opere em cada um, diante do convívio e num ambiente de constante interação humana.42

Diante disso, há a frequente necessidade do exercício do perdão para que os relacionamentos entre os discípulos do Senhor se processem dentro do contexto de suportar uns aos outros em amor. Para tal, é preciso manter o vínculo da paz e, consequentemente, a unidade do Espírito.

O Dicionário Ilustrado da Bíblia43 define perdão como: “O ato de eximir alguém da culpa, a partir de seus erros”. Acerca desse ato, o NT ensina que:

a) Assim como Deus perdoou aos seus filhos, estes devem perdoar uns aos outros (Ef 4.32; Cl 3.13). Por isso, o padrão de como deve ser o perdão entre os convertidos é o mesmo de Deus para com eles. A parábola do servo impiedoso de Mateus 18.21-35 serve de ilustração para o perdão. Conforme o versículo 35 (NVI), ali Jesus deixa claro que o perdão deve ser verdadeiro e sincero: “[…] se cada um de vocês não perdoar de coração a seu irmão” (grifo nosso).
b) Jesus disse que o Pai celeste condiciona o seu perdão para com os seus filhos, quando estes se perdoam entre si (Mt 6.14-19; Lc 11.4).
c) Por sua vez, o arrependimento do pecado cometido (Lc 24.47), e a fé na misericórdia do Senhor (At 10.43) são os meios pelos quais os discípulos recebem o perdão de Deus.44

A Bíblia exorta tanto o ofendido para que este perdoe, como o que causou a ofensa para que se arrependa verdadeiramente e peça perdão à pessoa prejudicada (Lc 17.4). Tudo isso para que o relacionamento entre as partes seja restaurado, uma vez que o verdadeiro perdão produz consequências concretas nos relacionamentos das pessoas envolvidas em conflitos, restaurando-os a uma paz relacional, de maneira que estas voltem a ter ou passem a ter uma saudável comunhão.

Por causa da pecaminosidade da natureza humana, os relacionamentos entre as pessoas são frequentemente afetados. Mediante isso, a prática do perdão é o remédio eficaz, segundo a visão das Escrituras, para curar as feridas existentes neles e para restaurá-los (Pv 10.12; 17.9; 1Pe 4.8).

Além disso, é importante também ressaltar que Jesus ensinou aos seus discípulos que é mais prioritário ocorrer o perdão e a reconciliação entre eles, antes de eles prestarem culto ao Senhor (Mt 5.23-24), pois, como disse Mounce45, comentando essa passagem:

Acertar um problema de relacionamento pessoal com um irmão em Cristo tem precedência sobre quaisquer atividades ritualísticas. A Mishna ensinava que, a menos que a ofensa contra o próximo houvesse sido acertada, nem mesmo o dia da expiação poderia valer alguma coisa (m. Yoma 8.9). As rupturas na comunhão dos santos são coisa séria.

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Notas e Referências Bíbliográficas:

1  No original grego, o versículo 12.3 inicia-se com a conjunção gar (“pois”), para fazer a conexão de12.4-8 com 12.1-3.
2 A mesma palavra grega soma (“corpo”) dos versículos de Efésios 1.23 e 5.23 foi também usada em Romanos 12.4 e  3  3A ARA é a tradução da Bíblia conhecida como Almeida Revista e Atualizada, 2ª edição, publicada em 1993, pela  
Ramo filosófico que propõe a libertação de toda solidariedade com o seu grupo social e a desenvolver excessivamente o valor e os direitos apenas do indivíduo.
5   Doutrina moral que considera o prazer da natureza humana a finalidade principal da vida.
6  Tendência de tudo se referir às perspectivas do indivíduo, sendo tomadas como o centro de todos os interesses da 
 7  No original grego de Atos 2.42, a palavra comunhão (koinõnia) tem ênfase, porque é listada após a expressão no início do versículo didachê tõn apostolõn (“ensino dos apóstolos”), seguida por “partir do pão” e “orações”. Isso é importantíssimo porque o aspecto da comunhão (relacionamentos) entre os membros da igreja primitiva não tem recebido o mesmo destaque na literatura sobre a igreja primitiva e/ou sobre o crescimento da igreja. A impressão que se tem, perante essas literaturas, é que, nessa igreja, os crentes, individualmente, só se dedicavam a orar, jejuar, evangelizar e pregar, com a presença de sinais em abundância.
8  Literalmente, o texto grego diz: pantes de oi pisteuontes êsan epi to auto (“todos, porém, os que criam estavam sobre o mesmo [lugar]”). Lucas usou a preposição grega adversativa de (“porém”, “mas”) para enfatizar que, apesar do que dissera nos versículos anteriores (2.41 e 42), todos os discípulos estavam juntos se dedicando ao ensino dos apóstolos, à comunhão, à oração e à ceia, e os sinais eram manifestados através dos apóstolos, mas tudo isso dentro dessa atmosfera de relacionamentos saudáveis.
9  Seria impossível a igreja ter a simpatia de todo o povo descrente em derredor, sem ter um bom relacionamento com este. Além do mais, para que fossem evangelizados e viessem a crer no evangelho, como está descrito no versículo 2.47, era imprescindível a existência de um bom relacionamento entre o evangelizador e aqueles que estavam sendo evangelizados.
10  No texto grego, o versículo 4.32 inicia com tou, de […] (“porém, da”) fazendo a ligação do versículo 4.31 com este. Quando um grupo de discípulos têm “uma só alma e coração” parece ser, segundo esta passagem, uma das consequências de terem sido cheios do Espírito Santo!
11  Cf. GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática. São Paulo, Vida Nova, 2000, p. 367-368.
12  POUJOL, Jacques & POUJOL, Claire. Manual de relacionamento de ajuda. São Paulo, Vida Nova, 2006, p. 105, distinguem emoções de sentimentos quando afirmam que “as emoções se relacionam principalmente à realidade fisiológica, corporal, enquanto os sentimentos são associados à realidade afetiva” (grifo nosso). Para eles, os sentimentos expressam a identidade afetiva da pessoa e as emoções são reações fisiológicas demonstradas pelo ser humano diante de determinadas situações.
13  KILLEN, R. Allan. Pessoa ou pessoalidade. Em PFEIFFER, Chales F.; VOS, Howard F.; REA, John (Eds.). Dicionário Bíblico Wycliffe. Rio de Janeiro, CPAD, 2006, p. 1536.
14  CRABB JR., Lawrence J. Como compreender as pessoas: fundamentos bíblicos e psicológicos para desenvolver
15  Ibid, p. 142.
16  REAL, Paulo. Relacionamentos na igreja: uma perspectiva bíblica. São Paulo, Vida, 2003, p. 36.
17  McRAY, J. R. Comunhão. In: ELWELL, Walter A. (Ed.). Enciclopédia histórico teológica da igreja cristã. V. 1. São Paulo, Vida Nova, 1988, p. 300.
18  “A palavra usada aqui e traduzida por comunhão (gr. koinonia significa ‘compartilhar’ ou ‘fazer com que compartilhem’ alguma coisa ou alguém), e nesse contexto devemos entender que o objeto direto compartilhado é Deus.” Cf. WILLIAMS, David J. Novo comentário bíblico contemporâneo: Atos. São Paulo, Vida, 1996, p. 75. É importante destacar que essa comunhão era entre os discípulos e Deus.
19  Ou da pessoa ter um “grande relacionamento apenas com o Senhor, através da oração, meditação da palavra, da meditação e da adoração” e de não vivenciar a qualidade desse relacionamento com as pessoas de sua convivência diária. Como já foi mencionado na introdução deste artigo, o individualismo da sociedade atual tem influenciado os crentes evangélicos ao ponto de eles acreditarem que “o importante é o relacionamento com o Senhor apenas”. O texto de 1João 1.3 e 7 é diretamente contra esse posicionamento. Um relacionamento saudável com o Senhor produzirá 
relacionamento saudável com o Senhor produzirá relacionamentos saudáveis com suas pessoas.
 20  É importante assinalar que Eva foi dada para Adão como “companheira” e não como “esposa”, conforme o significado que esse termo possui hoje. No original hebraico, a palavra que foi traduzida na NVI por “auxilie” (‘êzer) é um substantivo que tem o significado de “ajuda”, “apoio” e “auxilio”. “Embora esse substantivo masculino indique a ideia de ajuda ou assistência, na maioria das vezes, é empregado num sentido concreto para designar aquele que presta ajuda.” Cf. SCHULTZ, Carl. Ajuda. In. HARRIS, R. Laird.; ARCHER, Jr., Gleason L; WALTKE, Bruce K. (Eds.). Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo, Vida Nova, 1988, p. 1105. Portanto, quando o autor de Gênesis usa esse substantivo para descrever quem seria Eva para Adão, quis dar mais ênfase à existência de um relacionamento entre 
 21  “Deus nos criou, interdependentes e não autossuficientes; sociais e não isolados”. Cf. BOLT, Martin & MYERS, David G. Interação humana. São Paulo, Vida Nova, 1989, p. 12.
22  KIDNER, Derek. Gênesis: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 61.
23  A palavra grega hanexomai que a NVI traduziu por “suportando” é usada 15 vezes no NT e significa “[…] ter paciência com alguém até que termine a provocação”. Cf. Rienecker e Rogers, Op. cit., p. 393.
 24  Paulo não exorta a igreja de Éfeso para que esta crie e depois mantenha a unidade do Espírito entre os seus membros, mas para que ela conserve algo que já existe. É interessante que, no original grego, de 4.1-2, Paulo escreve: tên enotêta tou Pneumatos en tô syndesmô tês eirenês (“a unidade do Espírito em o vínculo da paz”). A palavra grega syndesmô (“vínculo”) significa “aquilo que une”, “aquilo que vincula”, “que mantém duas coisas juntas”. Cf. Gingrich e Danker, Op. Cit., p. 198. Para Paulo, segundo esse texto de Efésios, a paz, no relacionamento entre as pessoas, é o vínculo que as une e que mantém a unidade do Espírito já existente entre elas.
25  No versículo 4.6, está escrito no grego dia pantôn (“través de todos”). Isso significa que Deus não apenas opera na vida de cada membro de uma igreja, individualmente, mas entre todos eles. Para isso, é necessário que existam bons relacionamentos entre os mesmos.
 26  Ibid., p. 1115.
 27  Comentando sobre o perdão, Morris diz “a fé e o arrependimento não devem ser reputados coisas meritórias, mediante as quais merecemos o perdão. Pelo contrário, são os meios pelos quais nos apropriamos da graça de Deus”. Cf. MORRIS, Leon. Perdão. In: DOUGLAS, J. D (Ed.). O novo dicionário da Bíblia. 2. ed. São Paulo, Vida Nova, 1998, p. 1268.
 28  Cf. MOUNCE, Robert H. Novo comentário bíblico contemporâneo: Mateus. São Paulo, Vida, 1996, p. 56.


[28] Cf. GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática. São Paulo, Vida Nova, 2000, p. 367-368.

[29] POUJOL, Jacques & POUJOL, Claire. Manual de relacionamento de ajuda. São Paulo, Vida Nova, 2006, p. 105, distinguem emoções de sentimentos quando afirmam que “as emoções se relacionam principalmente à realidade fisiológica, corporal, enquanto os sentimentos são associados à realidade afetiva” (grifo nosso). Para eles, os sentimentos expressam a identidade afetiva da pessoa e as emoções são reações fisiológicas demonstradas pelo ser humano diante de determinadas situações.

[30] KILLEN, R. Allan. Pessoa ou pessoalidade. Em PFEIFFER, Chales F.; VOS, Howard F.; REA, John (Eds.). Dicionário Bíblico Wycliffe. Rio de Janeiro, CPAD, 2006, p. 1536.

[31] CRABB JR., Lawrence J. Como compreender as pessoas: fundamentos bíblicos e psicológicos para desenvolver relacionamentos saudáveis. São Paulo, Vida, 1998, p. 108.

[32] Ibid, p. 142.

[33] REAL, Paulo. Relacionamentos na igreja: uma perspectiva bíblica. São Paulo, Vida, 2003, p. 36.

[34] McRAY, J. R. Comunhão. In: ELWELL, Walter A. (Ed.). Enciclopédia histórico teológica da igreja cristã. V. 1. São Paulo, Vida Nova, 1988, p. 300.

[35] “A palavra usada aqui e traduzida por comunhão (gr. koinonia significa ‘compartilhar’ ou ‘fazer com que compartilhem’ alguma coisa ou alguém), e nesse contexto devemos entender que o objeto direto compartilhado é Deus.” Cf. WILLIAMS, David J. Novo comentário bíblico contemporâneo: Atos. São Paulo, Vida, 1996, p. 75. É importante destacar que essa comunhão era entre os discípulos e Deus.

[36] Ou da pessoa ter um “grande relacionamento apenas com o Senhor, através da oração, meditação da palavra, da meditação e da adoração” e de não vivenciar a qualidade desse relacionamento com as pessoas de sua convivência diária. Como já foi mencionado na introdução deste artigo, o individualismo da sociedade atual tem influenciado os crentes evangélicos ao ponto de eles acreditarem que “o importante é o relacionamento com o Senhor apenas”. O texto de 1João 1.3 e 7 é diretamente contra esse posicionamento. Um relacionamento saudável com o Senhor produzirá relacionamentos saudáveis com outras pessoas.

[37] É importante assinalar que Eva foi dada para Adão como “companheira” e não como “esposa”, conforme o significado que esse termo possui hoje. No original hebraico, a palavra que foi traduzida na NVI por “auxilie” (‘êzer) é um substantivo que tem o significado de “ajuda”, “apoio” e “auxilio”. “Embora esse substantivo masculino indique a ideia de ajuda ou assistência, na maioria das vezes, é empregado num sentido concreto para designar aquele que presta ajuda.” Cf. SCHULTZ, Carl. Ajuda. In. HARRIS, R. Laird.; ARCHER, Jr., Gleason L; WALTKE, Bruce K. (Eds.). Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo, Vida Nova, 1988, p. 1105. Portanto, quando o autor de Gênesis usa esse substantivo para descrever quem seria Eva para Adão, quis dar mais ênfase à existência de um relacionamento entre eles, do que à figura de serem “esposo” e “esposa”.

[38] “Deus nos criou, interdependentes e não autossuficientes; sociais e não isolados”. Cf. BOLT, Martin & MYERS, David G. Interação humana. São Paulo, Vida Nova, 1989, p. 12.

[39] KIDNER, Derek. Gênesis: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 61.
 
[40] A palavra grega hanexomai que a NVI traduziu por “suportando” é usada 15 vezes no nt e significa “[…] ter paciência com alguém até que termine a provocação”. Cf. Rienecker e Rogers, Op. cit., p. 393.

[41] Paulo não exorta a igreja de Éfeso para que esta crie e depois mantenha a unidade do Espírito entre os seus membros, mas para que ela conserve algo que já existe. É interessante que, no original grego, de 4.1-2, Paulo escreve: tên enotêta tou Pneumatos en tô syndesmô tês eirenês (“a unidade do Espírito em o vínculo da paz”). A palavra grega syndesmô (“vínculo”) significa “aquilo que une”, “aquilo que vincula”, “que mantém duas coisas juntas”. Cf. Gingrich e Danker, Op. Cit., p. 198. Para Paulo, segundo esse texto de Efésios, a paz, no relacionamento entre as pessoas, é o vínculo que as une e que mantém a unidade do Espírito já existente entre elas.

[42] No versículo 4.6, está escrito no grego dia pantôn (“través de todos”). Isso significa que Deus não apenas opera na vida de cada membro de uma igreja, individualmente, mas entre todos eles. Para isso, é necessário que existam bons relacionamentos entre os mesmos.

[43] Ibid., p. 1115.

[44] Comentando sobre o perdão, Morris diz “a fé e o arrependimento não devem ser reputados coisas meritórias, mediante as quais merecemos o perdão. Pelo contrário, são os meios pelos quais nos apropriamos da graça de Deus”. Cf. MORRIS, Leon. Perdão. In: DOUGLAS, J. D (Ed.). O novo dicionário da Bíblia. 2. ed. São Paulo, Vida Nova, 1998, p. 1268.

[45] Cf. MOUNCE, Robert H. Novo comentário bíblico contemporâneo: Mateus. São Paulo, Vida, 1996, p. 56.

1 COMENTÁRIO

  1. Achei maravilhoso, sabendo que esse ‚ um tempo em que devemos investir nos relacionamento, dedicar tempo, amar, como Deus manda verdadeiramente, principalmente na igreja, entre a familia de Deus, assim, tornando mais forte,para que possamos ajudar a cumprir a grande missão!como diz Aline Barros: um pode ir mais r pido, mas dois com certeza vai mais longe.Oro ao Senhor, para que essa consciência invada realmente a mente do povo de Deus!e a gente viva na pr tica, esse ensinamento do Altíssimo.

  2. parabéns … revista pela publicação deste artigo riquíssimo de conteúdo, e ao autor Wanderson pela sua dedicação, competência e gosto pelos estudos teológicos. Que o Senhor abençoe grandemente e revista com Seu Santo Espírito todos os estudos realizados de Sua Palavra, de forma a trazer a edicação de todos os leitores.

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