A necessidade de relacionamento para o desenvolvimento da igreja – Parte1

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho objetiva discorrer sobre a necessidade de existirem relacionamentos saudáveis numa igreja local, para que esta se desenvolva dentro da perspectiva bíblica.

Em razão de uma tradição cultural, herdada das denominações evangélicas, do catolicismo romano e, também, por causa da cosmovisão individualista, prevalecente na sociedade atual, as ideias básicas existentes hoje para os membros das igrejas são:

1. “A salvação é individual e sou eu que devo ser responsável pela minha vida espiritual”.
2. “Jesus está próximo de vir e arrebatar a sua igreja, porém ele só arrebatará os crentes (individualmente) que estiverem fiéis a ele”.
3. “Qualquer crente em Jesus, individualmente, tem acesso direto a ele, porque cada um é sacerdote (1Pe 2.9). Por isso, individualmente, o crente pode orar, jejuar, adorar e louvar a sós, ao Senhor, além da meditação na palavra”.
4. “O Espírito Santo distribui seus dons (individualmente) a cada crente (1Co 12.11) e o seu fruto se manifesta também na pessoa de cada um (Gl 5.22,23)”.
5. “Paulo adverte para ‘aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia!’ (1Co 10.12), portanto, cada crente é responsável pela sua própria vida perante Deus”.

De fato, esses pensamentos podem ser observados no cotidiano das programações de uma igreja local. Através deles, as famílias vão, dominicalmente, à igreja e, em alguns casos, antes de iniciar o culto, conversam superficialmente com alguém conhecido; cultuam a Deus, sendo que, cada membro da família irá fazê-lo, individualmente, para o Senhor; louvam, oram, contribuem com as ofertas e dízimos, e participam das campanhas da igreja. Ouvem a pregação da palavra, tomam parte na Ceia do Senhor e, após o término do culto, retornam para seus lares, contudo, sem exercitarem alguma comunhão mais profunda entre si. E assim o ciclo se renova semanalmente, talvez com pequenas variações.

Mesmo que o número de membros da igreja cresça regularmente, ou a quantidade de pessoas que assistam aos cultos1 , vê-se que os pensamentos 1, 2, 3, 4 e 5, supracitados, permanecem inalterados, bem como o comportamento e as atitudes dos frequentadores da igreja.

Para os que propõem métodos de crescimento e de desenvolvimento da igreja, a ênfase deles está na eficácia da aplicação desses métodos e dos resultados quantitativos obtidos: o aumento da quantidade de frequentadores e/ou de adesões à instituição; a ampliação das estruturas prediais da igreja; o acréscimo da arrecadação de dízimos e de ofertas; o número de cura de doenças, de portas de emprego abertas e de dívidas financeiras quitadas, entre outras.

A reflexão aqui se justifica porque nem sempre é dada por parte das igrejas e da literatura publicada a devida importância acerca da necessidade de existirem na igreja relacionamentos saudáveis entre os seus membros, para que a igreja se desenvolva também de maneira saudável. Parece até que, para haver um bom crescimento da igreja, basta que esta utilize apenas as técnicas eficazes de administração organizacional, de marketing e de psicologia motivacional.

Este artigo torna-se relevante, porque trata de um assunto referente à vida cristã, e esta vai além de um relacionamento entre a pessoa e Cristo. Aborda também o relacionamento dessas pessoas entre si e com o Senhor, formando assim um triângulo de relacionamentos saudáveis.

Afinal não foi o apóstolo João quem disse que a “Nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo […]. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros […]”(1João 1.3b e 7, NVI2, grifo nosso)?

1. PRINCIPAIS TEORIAS DA BASE DOS RELACIONAMENTOS HUMANOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
As teorias da personalidade, com o desenvolvimento da ciência, mudaram seu foco de estudo, passando da psicologia da deficiência, característica da psicanálise, para a psicologia do ser, conforme Carl Rogers. Desta passou para os relacionamentos, e, por último, passou a dar atenção à sociedade (psicologia social).

Neste capítulo, serão descritas resumidamente as principais teses sobre a pessoa humana e os relacionamentos, além das teorias de base do Behaviorismo, da Psicologia Humanista e da Psicanálise.

1.1 Behaviorismo
Trata-se da corrente da psicologia científica, cujo precursor B. F. Skinner (1904-1990) defendia que todo comportamento pode ser explicado como uma reação motora ou glandular, condicionada a um estímulo específico do ambiente. Para Skinner, todo comportamento humano é fruto de condicionamento operante3, ou seja, a pessoa humana é reduzida à expressão de seu comportamento; e este, por sua vez, é fruto de um processo dinâmico de condicionamento do ambiente em que a pessoa esteja inserida.

1.2 A Psicologia Humanista
“O objeto de estudo da psicologia humanista é a experiência humana, cujo método está na compreensão do significado dessa experiência, tendo em mente os alvos de vida e os valores básicos de alguém.” (grifo do autor)4.  O psicopedagogo norte americano, Carl Rogers (1902-1987), teórico mais influente desse ramo da psicologia, desenvolveu seu método de trabalho sob a influência de Freud e de Dewey. Estes defendiam o modelo de terapia fundamentada na relação direta entre o terapeuta e o paciente, mais centralizada neste último. A meta de tratamento consistia na “atualização do Ego”, isto é, partia de um gradual processo de autodescoberta do indivíduo e de seu desenvolvimento pessoal. Segundo Rogers, a terapia centralizada no cliente significa a crença de que este tem a capacidade nata de mudar a si mesmo em todos os níveis e que a sua natureza interior é “boa”.

1.3 A Psicanálise
É o método da psicoterapia que estuda o inconsciente das pessoas. Sigmund Freud (1856-1939) foi o idealizador dessa teoria e o defensor de que a natureza humana devia ser vista sob quatro áreas principais: o inconsciente, a teoria dos instintos, os estágios do desenvolvimento e a teoria da personalidade5.  

Freud também via a estrutura da mente como duas forças instintivas: o eros e o tanatos6  e as três áreas que a constituem: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente.

Houve ainda outro psicanalista, Carl Gustav Jung (1875-1961), discípulo de Freud e considerado seu legítimo sucessor. Por volta de 1914, ocorreu uma ruptura entre os dois, isso porque Jung considerava a libido uma energia primária e indistinta, que se expressa de várias maneiras com a finalidade de autopreservação da pessoa humana. Em contrapartida, Freud acreditava que a libido era a energia do instinto básico da autopreservação.

Para Jung, todas as pessoas possuem uma persona, uma “máscara”, que representa os diversos papéis desempenhados nos relacionamentos em sociedade. Sob a superfície dessa persona, existe a sombra, uma região localizada no inconsciente pessoal, que Jung considerava como um problema moral que desafiava toda a personalidade do ego.

Jung, assim como Freud, acreditava que existem fenômenos inconscientes que podem interferir na vida consciente de uma pessoa. Para Jung, a psiquê humana compreende tanto o campo do inconsciente quanto o do consciente, sendo o ego o centro deste7.  O ego se desenvolve durante toda a vida do indivíduo, a partir das colisões com o ambiente externo, conhecido como o “fator somático”, em que a pessoa esteja inserida.

Para Jung, a personalidade total do ser humano não é o mesmo que “ego”, mas sim aquilo que ele definiu como sendo o self (ou si-mesmo). Como o inconsciente, por definição, é inacessível, só se tem acesso ao conteúdo daquele, através de suas manifestações e representações à consciência.

Do ponto de vista da psicologia da personalidade total (self), o inconsciente é dividido em: a) uma psiquê extraconsciente, cujos conteúdos são pessoais; e b) uma psiquê extraconsciente, cujos conteúdos são impessoais e coletivos.

O inconsciente pessoal constitui-se das percepções e dos sentimentos subliminares, como também dos traços de eventos passados, abrigados na memória consciente, de modo que todo material não atinge a consciência, por não possuir energia suficiente. Em outras palavras, todo material: imagens, ideias, sentimentos, percepções, lembranças e conceitos afetivos são impedidos de alcançarem a consciência. Isso ocorre devido à incompatibilidade com as predisposições naturais dessa consciência.

E o inconsciente coletivo foi definido por Jung como sendo o padrão (arquétipo) de estruturação da personalidade herdada, que é comum a todas as pessoas e que toma a sua forma gradualmente, a partir das interações com o ambiente, sendo este preenchido com as substâncias dessa realidade externa.

2. OS CONCEITOS BÍBLICOS DE IGREJA, DE PESSOA E DE COMUNHÃO

2.1 Conceito de Igreja
É senso comum observar que o conceito de igreja está relacionado a um prédio onde funciona uma organização religiosa. No Dicionário Vine8, consta que a palavra grega ekklesia (“igreja”) “era usada entre os gregos para descrever um corpo de cidadãos ‘reunidos’ com a finalidade de discutir os assuntos do Estado (At 19.39)”. Já o Dicionário Ilustrado da Bíblia9  conceitua igreja como a “congregação local de crentes e remidos de todas as idades, que seguem a Jesus Cristo como Salvador e Senhor.”

A palavra ekklesia é empregada 115 vezes no Novo Testamento (NT), sendo, na maioria das vezes, no livro de Atos, nas cartas paulinas e nas epístolas gerais. Todavia, em 92 casos, refere-se a uma congregação local.

Já Barclay10, explicando a influência da cultura grega no significado de ekklesia em seu uso no NT, diz:

Nos grandes dias clássicos em Atenas a ekklesia era a assembleia convocada do povo. Consistia em todos os cidadãos da cidade que não tinham perdido seus direitos civis […] elegia e demitia magistrados e dirigia a política da cidade. Declarava guerra, fazia a paz, contratava tratados e planejava alianças […] obtinha e designava verbas.
Duas coisas são interessantes de se notar. Em primeiro lugar, todas as reuniões começavam com orações e sacrifícios. Em segundo lugar, era uma verdadeira democracia. Suas duas grandes senhas eram “igualdade” (isonomia) e “liberdade” (eleutheria). Era uma assembleia onde todos tinham o mesmo dever e o mesmo direito de participar.

Acerca da influência das tradições hebraicas no conceito de ekklesia, o mesmo Barclay comenta “[…] no sentido hebraico, que ekklesia significa o povo de Deus conclamado por Ele, a fim de escutar a Deus ou agir por Ele.” 11

Na LXX12, ekklesia foi usada para traduzir a palavra hebraica gahal “assembleia”, “congregação”, em mais de 70 ocorrências (Lv 10.17; Nm 1.16; Dt 18.16; Jz 20.2; 1Rs 8.14).

O NT usa várias figuras de linguagem para representar a igreja13. Para objeto deste estudo, opta-se pelo conceito de a igreja ser o “Corpo de Cristo”. Para tal, serão analisadas as passagens de 1Coríntios 12.12-27 e Romanos 12.4-514,  em que essa relação está explícita, e Atos 2.42-47 e 4.32-35, que são os registros históricos e inspirados de como era a igreja primitiva nos seus momentos iniciais de existência.

2.1.1 1Coríntios 12.12-27
Embora essa passagem esteja num contexto em que Paulo trata dos dons espirituais,15  iniciado em 12.1-11, o texto de 12.12-27 também ensina verdades sobre a igreja:

a) Só há um corpo, o Corpo de Cristo (a igreja), mesmo que existam muitos membros que formam esse corpo (12.20,27).
b) Assim como os membros do corpo estão ligados a este, da mesma forma os
membros estão ligados entre si (12.25,26).
c) Todos os membros necessitam16 uns dos outros (12.25) e devem ter igual cuidado  uns com os outros (12.25).

A partir de 1Coríntios 12.12-27, conclui-se que a metáfora de corpo de Cristo para a igreja não é de uma imagem estática, como se fosse uma fotografia, em que cada crente é um membro do corpo de Cristo isoladamente. Tal metáfora está ligada tanto a Cristo como aos outros membros, em que há fluxo e refluxo relacional tanto dos membros com Cristo, quanto de uns com os outros. Visto assim, como em um corpo saudável, esses membros que o constituem, interagem entre si fisiologicamente, devendo, por isso, também, tais membros do corpo de Cristo se relacionarem entre si, para que o corpo (a igreja) seja saudável.

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1Esse aumento pode ser devido à realização de campanhas na igreja, à vinda de um pregador ou cantor famoso, ao emprego de propaganda no rádio e/ou TV, à distribuição de panfletos e cartazes pela localidade prometendo curas, bênçãos, prosperidade financeira, milagres e sinais.
 2A NVI é a tradução das Escrituras conhecida como Nova Versão Internacional, publicada em 2000 (a Bíblia completa) pela Sociedade Bíblica Internacional.
 33 Cf. HURDING, Roger F. A árvore da cura: modelos de aconselhamento e de psicoterapia. São Paulo, Vida Nova, 1995, p. 60.
  4Ibid., p.126.
  5Para análise mais abrangente desses termos, ver: FREUD, S. Ego e o id. Rio de Janeiro, Imago, 1976; ______. Introdução à psicanálise. Rio de Janeiro, Delta, 1978.
 6Freud posteriormente reformulou o seu conceito de instintos e rotulou tanatos como “o instinto destruidor da natureza humana”, e eros como “o instinto da preservação da vida”.
 7Cf. RAPPAPORT, Clara Regina (Coord.). Temas básicos de psicologia: teorias da personalidade em Freud, Reich e Jung. v. 7. São Paulo, EPU, 1984, p. 135.
 8VINE, W. E.; UNGER, Merril F. e WHITE, William Jr. Dicionário Vine: o significado exegético e expositivo das palavras do Antigo e do Novo Testamento. Rio de Janeiro, CPAD, 2002, p. 419.
 9YOUNGBLOOD, Ronald F. (Ed.). Dicionário ilustrado da Bíblia. São Paulo, Vida Nova, 2004, p. 681.
 10BARCLAY, William. Palavras chaves do Novo Testamento. São Paulo, Vida Nova, 1988, p. 45.
 11Ibid., p. 45.
 12A Septuaginta (LXX) é a tradução grega do AT hebraico, realizada entre 300 a.C. e 200 a.C., por 70 (ou 72) judeus sábios e era o texto do AT mais utilizado tanto pelos judeus praticantes, como pela igreja primitiva nos tempos do NT.
 13Outras figuras de linguagem que o NT utiliza para a igreja são: a noiva de Cristo (2Coríntios 11.2), a família de Deus (Efésios 2.19) e um edifício (1Coríntios 3.9).
 141Coríntios e Romanos serão estudadas na sua respectiva data cronológica de escrita. CARSON, D. A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo, Vida Nova, 2004, p.270, 315 e 340, estipulam que Paulo escreveu 1 Coríntios em 55 d.C. e Romanos em 57 d.C. A importância de se estudar essas cartas, pela seqüência cronológica de escrita, é por causa da possibilidade de se perceber a influência do significado que tem o termo igreja como “corpo de Cristo” de 1Coríntios em Romanos.
  15No original grego, o versículo 12.12 começa com kathaper gar (“assim como”, “pois”), concluindo e expandindo o argumento sobre dons espirituais iniciado em 1 Coríntios 12.1.
 16A palavra grega (chcreia), que a NVI traduziu em 1Coríntios 12.21 por “precisa”, foi também usada em Mateus 3.14 e Hebreus 5.12, significando “necessidade”, “falta”, “precisão”. Cf. GINGRICH, F. Wilbur. DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento grego/português. São Paulo, Vida Nova, 1991, p.224.
 17O verbo grego merimnaõ tem o significado básico de “ter ansiedade”, “estar ansioso”, “estar
(indevidamente) preocupado” (Mt 6.25; Fp 4.6) e positivamente significa ”cuidar”, “preocupar-se” (1 Co 7.32-34 e Fp 2.20). É este sentido positivo que a palavra deve ter aqui em 1Coríntios 12.25. Cf. Gingrich e Danker, Op. Cit., p. 133.

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