Uma agenda para o voto consciente

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“Eu tenho ouvido: ‘Não traga a religião para a política’. É precisamente para este lugar que ela deveria ser trazida e colocada ali na frente de todos os homens como um candelabro”
(C. H. Spurgeon).

Como se costuma dizer, “a política é o espaço do bem comum”, frase que pode ser entendida como uma forma de praticar o amor cristão. Afinal, é pela ação política que muitas pessoas no país podem ser beneficiadas pelo bem e pela justiça. Mas para que isso aconteça, é necessário que a prática política esteja fundamentada em valores éticos. Além disso, a transformação da conjuntura social de acordo com a cosmovisão cristã é, também, uma forma de evangelizar. Portanto, com o objetivo de propor o voto consciente e responsável aos cristãos evangélicos, sugerimos alguns elementos que deverão ser considerados na hora da sua escolha eleitoral:

1. Conheça bem o candidato que receberá o seu voto. Pesquise seu histórico pessoal, seus feitos, seus valores e suas propostas. Pesquise também suas promessas durante a campanha eleitoral, analisando se são plausíveis. Acompanhe as entrevistas que os candidatos concederem na mídia e compare o que cada um diz. Veja também se o candidato se porta com decência e se sua escala de valores é voltada para o interesse público. Se ele se identifica como cristão, é importante saber a que igreja ou comunidade ele está filiado e se ele a frequenta regularmente, buscando conselho e prestando-lhe contas. Enfim, não desperdice o seu voto com alguém de quem você nunca ouviu falar, sem saber as suas propostas e sua postura ética durante a campanha eleitoral.

2. Também considere se os projetos do candidato estão de acordo com os do partido ao qual ele está filiado, pois ao votar em um candidato você ao mesmo tempo vota num partido, ajudando a eleger candidatos do mesmo partido. Por isso, é preciso conhecer os programas e a filosofia do partido. No caso de candidatos evangélicos, é bom averiguar se estes e seus partidos não somente afirmam, mas estão comprometidos com a separação entre a Igreja e o Estado, lembrando que toda autoridade procede de Deus.

3. Lute contra todas as formas de corrupção, apoiando mecanismos de controle do uso do dinheiro público e das prioridades do governo; colaborando para que projetos tais como o Ficha Limpa, que tratem sobre a ética nas eleições, sejam conhecidos e aplicados; denunciando o uso da máquina administrativa federal, estadual ou municipal para favorecer determinados candidatos; em conformidade com a lei N.º 9.840/99, denunciando a compra de votos através de dinheiro, programas assistenciais ou promessas de vantagens pessoais, assim como quem obrigue os eleitores a votar em determinados candidatos, seja por meio de ameaças, seja através de pressão religiosa.

4. Apoie propostas que defendam a vida e a dignidade do ser humano em qualquer circunstância. Para a fé cristã, a vida humana é dom de Deus, desde a concepção no ventre materno até ao dia de sua morte. Portanto, proteger a vida inclui combater o aborto e a eutanásia; reprimir a violência por meio de políticas de segurança pública realistas; promover uma ética do trabalho que enfatize virtudes bíblicas, tais como honestidade, pontualidade, diligência, obediência ao quarto mandamento (“seis dias trabalharás”), obediência ao oitavo mandamento (“não furtarás”) e obediência ao décimo mandamento (“não cobiçarás”); defender o direito à propriedade privada como direito fundamental (cf. Êx 20.15, 17; 1Rs 21.1-29).

5. Verifique qual a proposta educacional do candidato, analisando se ele defende a qualidade e a liberdade do ensino, inclusive no âmbito religioso, promovendo uma escola digna e de qualidade. Confira também se ele promove as liberdades individuais, por meio do estabelecimento de normas gerais de conduta que redundem em liberdade de expressão, associação e de imprensa.

6. Rejeite candidatos e partidos com ênfases estatizantes e intervencionistas nas esferas familiar, eclesiástica, artística, trabalhista e escolar, que concebam um ambiente onde se tem pouca ou nenhuma liberdade pessoal e econômica. Para a fé cristã, a família, a igreja, o trabalho e a escola são esferas independentes do Estado, pois existem sem este, derivando sua autoridade somente de Deus. Logo, o papel do Estado é mediador, intervindo quando as diferentes esferas entram em conflito entre si ou para defender os fracos contra o abuso dos demais. Portanto, os cristãos devem não somente não apoiar, mas também resistir a um sistema político autoritário ou totalitário (cf. At 5.29; Ap 13.1-18).

7. Repudie ministros, igrejas ou denominações que tentem identificar determinada ideologia com o reino de Deus ou com a mensagem bíblica. Pois, como afirma a Declaração de Barmen [8.18], “rejeitamos a falsa doutrina de que à Igreja seria permitido substituir a forma da sua mensagem e organização, a seu bel-prazer ou de acordo com as respectivas convicções ideológicas e políticas reinantes”. A igreja, ao proclamar com fidelidade a Palavra de Deus, influencia o Estado, de modo que suas leis se conformem com a vontade de Deus, decorrendo daí consequências políticas de tal fidelidade ao chamado primário da comunidade cristã.

8. Apoie candidatos comprometidos com propostas e leis que sejam derivadas da lei de Deus, como revelada nas Escrituras, pois esta é a fonte absoluta e final da ética pessoal, eclesiástica e social. Há que se ter compromisso por parte do candidato com o contrato social, que é um acordo entre os membros de uma sociedade pelo qual reconhecem a autoridade sobre todos de um conjunto de regras, a Constituição, que limita o poder, organiza o Estado e define direitos e garantias fundamentais.
 
9. Valorize candidatos e partidos comprometidos com o modelo republicano de governo, no qual a nação é governada pela lei constitucional e administrada por representantes eleitos pelo povo, assim como a divisão e a separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário, de modo que nenhum governo ou ramo do governo monopolize o poder. Assim também valorize aqueles que respeitem a alternância do poder civil, que impede que um partido ou autoridade se perpetue no poder, assim como a defesa do pluralismo político e partidário. Portanto, devem-se rejeitar candidatos que apoiem o Decreto N.º 8.243, conhecido como Política Nacional de Participação Social (PNPS). Tal decreto fere a cláusula pétrea constitucional da autonomia e independência dos Poderes, e praticamente desmonta a democracia representativa, substituindo-a pela participação popular direta, indicada, nomeada e controlada por órgãos do Estado.

10. Apoie candidatos que enfatizem as funções primordiais do Estado, onde os governantes têm a obrigação de zelar pela segurança do povo, pela qual pagamos tributos (cf. Rm 13.1-7), assim como ressaltem a limitação do poder do Estado, pois a partir das Escrituras, entende-se que o governo civil não tem autoridade para cobrar impostos exorbitantes, redistribuir propriedades ou renda, criar zonas francas ou confiscar depósitos bancários.

Pedimos que o Cristo Rei, o único e absoluto soberano Senhor, nos sustente e nos conduza sempre em nossas opções políticas. Façamos destas eleições um gesto de amor a este país e a nossos irmãos e irmãs, para maior glória de Deus.

Bibliografia:

• “A Declaração Teológica de Barmen”, em A Constituição da Igreja Presbiteriana Unida dos Estados Unidos da América, Parte 1: Livro de Confissões (São Paulo: Missão Presbiteriana do Brasil Central, 1969), 8.01-8.28.
• Johannes Althusius, Política (Rio de Janeiro: Top Books, 2003).
• João Calvino, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. ed. latina de 1559 (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), IV.20.1-32.
• Wayne Grudem, Política segundo a Bíblia (São Paulo: Vida Nova, 2014).
• Abraham Kuyper, Calvinismo (São Paulo: Cultura Cristã, 2002).
• Augustus Nicodemus Lopes, Ética na política e a universidade: Carta de princípios 2006 (São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2006).
• Ives Gandra da Silva Martins, “Por um congresso inexpressivo”, Folha de São Paulo (10/06/2014). http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/06/1467665-ives-gandra-da-silva-martins-por-um-congresso-inexpressivo.shtml.
• Merval Pereira, “Desconstruindo a representação”, O Globo (08/06/2014). http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?blogadmin=true&cod_post=538649&ch=n.
• Francis Schaeffer, A igreja no século 21 (São Paulo: Cultura Cristã, 2010).
• C. H. Spurgeon, The Candle (Delivered on Lord’s-Day Morning, April 24, 1881, at The Metropolitan Tabernacle, Newington). http://www.spurgeongems.org/vols25-27/chs1594.pdf.
Voto consciente: dever do cristão (Rio de Janeiro: Arquidiocese do Rio de Janeiro, s/d).

1 COMENTÁRIO

  1. Muito bom, concordo em número, gênero e grau.Espero sinceramente que este texto se propague e que muitos esclarecidos. possam exercer o voto com sabedoria, dignidade e com responsabilidade!!! E que tenhamos um Brasil melhor para todos nós!!!

  2. Franklin,

    Glória a Deus por sua vida e pelo trabalho que você tem feito, o qual Deus tem usado para edificar a igreja brasileira! Muito bom o artigo, especialmente nestes dias sombrios que vivemos! Tenho uma dúvida apenas no d‚cimo ponto, quando diz : entende-se que o governo civil não possui autoridade para…. redistribuir propriedades e renda…. Com que base bíblica eu posso afirmar isso? Não que eu esteja rotulando como não bíblica, mas eu sinceramente não sei como argumentar assim a partir da Palavra.

    Obrigado e Deus abençäe!

  3. Incrível como apenas 10 dicas nos mostram como deve ser a relação entre Política/Cristãos. E ainda assim temos visto que v rios cristãos que ascendem ao poder publico simplesmente abandonam os valores ‚ticos/morais em troca de vantagens pessoais. Entre os eleitores cristãos, a deturpação dos valores bíblicos tem nos sido vergonhosa. Tenho visto cristãos que apoiam candidatos que defendem o aborto, a liberação da maconha, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, entre outras aberraçäes. E tudo isso em troca de um emprego nesse grande cabide, de favores pessoais ou simplesmente por pura ignorância.

    parabéns ao professor Franklin Ferreira por estes esclarecimentos, que garanto, caso difundidos a tempo, transformarão nosso pais j  no próximo ano.

  4. Primeiramente quero deixar meus parabéns ao Prof. Franklin Ferreira pelo excelente artigo postado. Por‚m, sou totalmente contra líderes evang‚licos envolvidos na política, pelo mesmo fato acima citado pelo nosso irmão Anderson Araújo, pelo abandono dos valores ‚ticos/‚ticos-religiosos/morais. Portanto, bem sabemos que o mesmo sistema NÃO RESPEITA O NOSSO VOTO ‚ o mesmo que CRUCIFICOU o nosso SENHOR e SALVADOR
    e soltou Barrab s pelas mãos do SUMO SACERDOTE (CAIFAS), ‚ mesmo sistema de Constantino que matou o seu próprio filho por interesses políticos, e ‚ o mesmo que ainda hoje apoiam o trafico de drogas, a corrupção, a exploração infantil entre outras…

  5. Prezado irmão e ex-colega mission rio,

    parabéns pelo artigo, que de maneira geral estou de acordo. Entretanto, creio que em alguns pontos merce minha honesta discordância. O decreto citado, 8243, ainda se encontra em processo legislativo, e portanto, ainda ‚ constitucional at‚ que alguem o declare inconstitucional, via Congresso ou STF. Mas o importante ‚ o seu m‚rito: não ‚ inovador, pelo contr rio vai ao encontro do anseio da sociedade por mais participação nas coisas que lhe afetam o dia-a-dia. Antes do Governo Lula j  existim milhares de conselhos gestores e municipais. Isso não tem nada de anti-bíblico. Isso não desmonta a democracia representativa muito pelo contr rio, ‚ uma tendência e reclamo nas democracias avançadas. O que pode e deve acontecer ‚ que o próprio povo, corrupto e sem valores cristãos, disvirtuar algo que ‚ bom em tese.

    Quanto ao governo civil ter autoridade para redistribuir propriedades ou renda também devemos ser cautelosos, pois no AT existem claras

  6. Concordo plenamente que o cristão que tiver a proposta da candidatura, devera agir como candelabro, fazendo a diferença entre aqueles que estão fora do padrão. Vc podera pensar mas o nºdos corruptos ‚ muito maior, eu diria com toda certeza que o poder do nosso Deus ïïe infinitamente maior e atraves destas pessoas podera mudar o rumo deste país. Temos que dar o 1ºpasso sem titubiar.
    Que a isto Deus nos ajude!

  7. Eduardo, que o PNPS mina a democracia representativa e ‚ inconstitucional ‚ afirmado por juristas como I. Gandra. E quem ir  participar de tais conselhos serão apenas os “burgueses vermelhos” bem nascidos. Quem precisa trabalhar não poder  participar, logo se tornarão instrumentos de apoio ao partido no poder. Instrumento de democracia direta numa república ‚ o plebiscito, do qual este governo tem pavor, desde que foi derrotado num em 2005. E na ‚tica do AT ‚ o membro da aliança que deve repartir com o pobre, sem coerção do estado (Dt 15.11, Lv 25.8-28). O AT não concede tal poder a um rei. Ali s, quando o rei Acabe tentou desapropriar terras se deu mal (1Rs 21.1-29): Deus exterminou sua dinastia.

  8. parabéns! Dicas instrutivas, e educativas, para tomada de uma tão grande decisão, que ‚ a escolha dos Administradores e Representantes dos Bens Público do País. É importante que a igreja tenha representantes no congresso nacional, e at‚ que tenha Presidenta(e). Portanto, no dia 5 de Outubro, votemos em Marina Silva 40, bem como, nos candidatos da sua coligação partid ria, estes, claro, conhecedores da palavra de Deus. Abraços! O Senhor nos abençoe e nos guarde.

  9. Caro Franklin, me permita um tr‚plica somente no primeiro ponto por limitação de espaço. Não podemos nos basearmos em pareceres de juristas. Isso tem pr  todos os gostos. Se vivemos, ainda que nascente e capenca, numa Democracia, temos que respeitar ainda que com nossa visão crítica cistã, os pilares dela. Dentre esses est  o fundamental pilar da Constitucionalidade dos atos dos poderes e isso quem faz, de forma final, ‚ o STF e não advogados, professores ou juristas. Quanto ao PNPS, não podemos de ante-mão rotular de burgueses vermelhos os ocupantes, não podem ser azuis e amarelos? Todos que ocuparam o poder na República foram corruptos. Não ‚ por aí. Se nossa nascente democracia não ‚ participativa e isso decorre de inúmeros fatores, cuidemos para não jogar a  gua suja com o bêbê dentro. Bem, isso ‚ pouquíssima discordância e estou com você no restante, abçs em JC

  10. Oi Eduardo, na verdade, numa república, as leis são estabelecidas pelo poder legislativo – assessorado por juristas. O STF zela pela constituição, estabelecida pelo congresso. Mas, copiando o modelo USA, parece haver uma judicialização em curso no debate, no Brasil, com o STF sendo provocado a criar leis (que colidem com a constituição), indo além de sua competência republicana. Agora, o que não pode ‚ o executivo, na pessoa da presidente Dilma, do PT, tentar fazer reforma política por meio de decreto. Isso também viola a independência dos poderes e ‚ inconstitucional. Surpreendentemente, mesmo congressistas da base de apoio do PT (no caso, do PMDB) afirmaram ser o PNPS inconstitucional.

  11. Excelente texto. Só discordo no que diz respeito … redistribuição de renda, pois ‚ uma forma de dar maiores condiçäes aos menos favorecidos. Quanto … criação das zonas francas, honestamente, não entendi o que h  de mau.

  12. Querido Franklin, gostaria muito de agradecer a você pelo debate travado. Mas mantenho meu ponto-de-vista. Acho que est  faltando isso entre nós cristãos, discutirmos nossa vida na sociedade e nas outras  reas. Nos enriquecermos e equilibradamente seguimos com o bin“mio f‚-razão. Por isso sou seu fã e leitor apaixonado. Temos muitos temas sensíveis e modernos invadindo nossos lares, por v rios meios e não temos que ficar só na nossa caixa. Isso não significa mundanizar nossa atuação como muitos seguimentos cristãos estão fazendo. Isso ‚ particularmente importante para os jovens. Abraços e obrigado (vou estudar as passagens do AT citadas).

  13. Oi Diego, eu tenho minhas dúvidas se a distribuição de renda, nos moldes que temos, realmente d  melhores condiçäes aos menos favorecidos. Me parece que um investimento maciço na educação e saúde seriam muito mais eficazes. Sobre Zonas Francas, elas são criação do protecionismo e dirigismo econ“mico da junta militar. Inclusive ‚ mat‚ria de debate os supostos benefícios de tal zona aos amazonenses. Por mim, reduzia-se as taxas de importação, estimulava-se livre com‚rcio internacional com a CE, EUA, etc.

  14. Oi Franklin, gostaria de iniciar dizendo que o texto me surpreendeu. Fui criado dentro da igreja e raramente temos a oportunidade de ver cristãos falando de política com o mínimo de embasamento. Concordo em sentido com o seu ponto de vista (defesa da limitação e descentralização do governo), mas discordo em grau. Pelo meu entendimento, o seu texto nos aconselha sobre o melhor cen rio em um governo repúblicano, mas acho sempre importante lembrar a imoralidade desta forma de arranjo de poder quando falamos em política. Como ocorreu nos comentários, ‚ sempre possível uma defesa de maior democracia que resultaria em desrespeito … propriedade privada e outras liberdades individuais para o bem comum (termo que detesto e para mim foi mal colocado no início do texto). Gostaria de recomendar a leitura de Democracia, o Deus que falhou de Hans-Hermann Hoppe, que aborda como governos republicanos não passam de uma versão lgiht de socialismo.

  15. Muito Bom o texto,
    Poucos textos eu li abordando o tema religião e política com tamanha clareza, objetividade e conteúdo.

    Reforçando, NÃO VOTEM NO PT, governo autorit rio, intervencionista, corrupto.

    Que Deus nos guarde e guia a nossa nação.

  16. Ol  Marcus. Eu não cheguei a ler este livro, só comentários no site do Mises. Mas não me parece que a troca de um regime republicano por uma monarquia (como dos Habsburgos) v  melhorar algo significativamente – ou constitui-se uma afirmação realista. At‚ porque, as democracias atuais se provaram muito mais prósperas do que as antigas monarquias. E monarquias nunca zelaram por liberdade de expressão (como se pode ver no reinado dos Stuart ou Rom nov) como numa república, como na dos EUA. Por outro lado, não tenho interesse num modelo de governo que não seja derivado da autoridade da Escritura. Por exemplo: como adequar a posição de Hoppe com a teologia pactual e o federalismo – duas doutrinas bíblicas que tem implicaçäes políticas profundas no Ocidente? Recomendo as obras de Daniel Elazar, que tenta conectar o ensino pactual do AT com a política. Dê uma olhadinha no ensaio “A relação entre a igreja e o estado” publicado no último TB para bibliografia e desenvolvimento destas ideias.

  17. Marcus, fui dar uma pesquisada sobre o Hoppe, e descobri que ele tem defendido posiçäes muito controvertidas, difíceis de harmoniz -las com a ‚tica bíblica. Como neste texto: The (Sick) Mind of Hans-Hermann Hoppe em http://www.dialoginternational.com/dialoginternational/2011/04/the-sick-mind-of-hans-hermann-hoppe.html. Achei muito ir“nica a conclusão: After all, the anarchist and anti-statist Hoppe is an employee of the state of Nevada, and he able to publish whatever he wishes thanks to the freedoms offered by the federally enshrined US constitution he hates.

  18. Oi Frankiln. Li o texto, e a única critica que vi ali foi uma citação fora de contexto para associa-lo com racismo. Sim, o Hoppe ‚ anarquista e isso não entra em conflito com o cristianismo. Pelo contrario, nos acostumamos … existência do estado e esquecemos que ele ‚ a legitimação da iniciação de força. Não tenho como explicar em mil caracteres a praxeologia e todo o argumento dele sobre estados não serem uma exceção … regra de que monopólios aumentam os preços e diminuem a qualidade do serviço prestado (no caso a justiça). Um pouco de entendimento em economia também revela que todos os conflitos sociais adv‚m da existência de propriedade publica. Não existe migração em propriedade privada, você decide quem convida … sua casa, e isto não te torna racista ou xenofóbico. Recomendo novamente a leitura do livro, onde todas essas questäes são esmiuçadas praxeologicamente.

  19. Qualquer critica que use da carta “racismo” deve ser muito questionada atualmente. O texto não mostra em momento algum como ele chegou a tais conclusäes, só as condena por contrariar a cartilha politicamente correta. Caso queira algo honesto sobre o Hoppe recomendo também o artigo “Os problemas do conservadorismo atual e com uma ala do libertarianismo”, e tenho certeza que muitos outros artigos dele estão … disposição no Instituto Mises. No youtube h  também uma palestra magnifica: “Queremos uma sociedade com leis estatais ou privadas?”.

  20. Marcus, obrigado pela interação. Só note a ironia da frase em inglês que destaquei. Se Hoppe acha o anarquismo uma posição política vi vel ele deveria dar o exemplo, não? Uma prova da verdade de uma cosmovisão ‚ sua coerência, tanto no nível intelectual, como existencial. Eu também não vejo diferença muito substancial do argumento dele do apartheid. Veja na wiki em inglês sobre o Hoppe que a acusação de racismo também se d  por falas descuidadas dele. Eu li a entrevista do Hoppe na Dicta&Contradicta de julho de 2013. E, sinceramente, não me disse nada. Estou ficando velho para apostar em utopias impossíveis de serem concretizadas.

  21. O anarquismo tem sido promovido no Brasil h  algum tempo por meio de Jaques Ellul, que dizia que …Jesus was not only a socialist but an anarchist and I want to stress here that I regard anarchism as the fullest and most serious form of socialism. A tentativa de Ellul de fazer uma exegese alternativa de Rm 13.1-7, 1Pe 2.13-17 etc. ‚ pífia. Eu poderia dizer que prefiro conservadores como Burke, Tocqueville, Kirk, Coutinho. Mas minha posição política ‚ moldada por Agostinho, Calvino, Althusius, Rutherford, Kuyper, Barth. E mesmo com tensäes, estes lutaram para construir uma sociedade calcada na Escritura, que ‚ realista – não utópica. Por fim, cristãos esperam a concretização da verdadeira monarquia, o reino de Deus – no eschaton.

  22. Franckiln, pra mim a graça de tal ironia esta na fraqueza de sua logica. Onde esta o contrato que nos exime de pagar impostos? Não só o Hoppe o assinaria, mas também eu e provavelmente os participantes de 50 de nossa economia que estão na informalidade. É ridículo você retirar algo a força de algu‚m e dizer que ela ‚ conivente porque aceita de volta parte da sua “caridade”. Todo o argumento dele se baseia na falta de contratualidade dos estados. Fossem eles volunt rios, estaríamos vivendo no cen rio proposto por ele. Só gostaria de lembrar que não vim aqui defender a anarquia, sou tão c‚tico quanto você sobre teorias sem empirismo. Mas, no mundo das ideias, bradar “utopia” não consiste em um argumento, e, por não achar falhas na logica do Hoppe, ele tem o meu respeito. Mas, mais importante do que a teoria anarco-capitalista dele, ‚ a sua critica sobre governos republicanos.

  23. Tocqueville previu com maestria o desfecho do “grande experimento”, ‚ ineg vel a insustentabilidade econ“mica das democracias. As mais antigas do mundo puxam a fila para o abismo da divida publica, que eles acreditam poder rolar eternamente. Então, quer tomemos o lado das utopias (como a democracia também j  foi classificada) ou da monarquia (que alguns consideram ainda mais inconcebível), esta ‚ uma conversa que não podemos evitar em politica. Os autores que você citou são excelentes no desenvolvimento de questäes morais, mas a politica não depende somente da ‚tica. Somos restringidos por um mundo físico, dando a economia papel essencial nesta discussão. Para complementar sua lista de grandes pensadores eu sugiro Mises, Hayek, Rothbard e o próprio Hoppe. Forte abraço!

  24. Marcus, acho que vc não entendeu a ironia da citação: Hoppe foi empregado de uma universidade pública (estadual) e usufrui as belezas da constituição dos USA, que ele ataca. Bom vc citar Hayek: por que não a demarquia, em vez de anarquia ou monarquia? A posição de Hoppe ‚ utópica, na medida que só uma revolução mundial violenta poderia produzir o que ele aspira. Ou não? Sobre os autores cristãos que eu citei: foram eles (e não Rousseau, etc) que estabeleceram os fundamentos do regime republicano (que ‚ ligeiramente diferente da democracia), como o federalismo e pacto social. E o fizeram derivando suas ideias das Escrituras – o que ‚ virtualmente impossível para o anarquismo ou monarquismo (neste caso, veja as obras de Daniel Elazar sobre o AT). Sobre Rothbard, mentor do Hoppe: ele dizia que um feto ‚ um parasita. Como libert rio, defendia que a mulher poderia fazer o aborto em qualquer situação. Não d  pra um cristão flertar com uma posição como esta.

  25. Franklin, não ha diferença alguma em exercer um cargo publico ou usar ruas publicas. Ambos são oferecidos as custas do dinheiro expropriado da sociedade e, então, não h  contradição em criticar a expropriação e utilizar seus resultados, uma vez que você não pode se livrar do primeiro. Não vejo uma revolução mundial como necess ria para a aplicação do anarco-capitalismo. Ainda que a primeira necessite, a democracia moderna não difere neste aspecto, tendo a revolução americana como berço e a primeira GM como ponte para o mundo antigo. O Bitcoin e outras moedas criptogr ficas trazem esperança de uma revolução pacifica a teóricos anarquistas, uma vez que tais moedas não estão sujeitas a bancos centrais e seria impossível taxar uma economia baseada nelas. Não concordo com a posição de Rothbard quanto ao aborto, mas isso não invalida as enormes contribuiçäes dele em outras questäes.

  26. Duvido muito que o modelo republicano seja o único compatível com o cristianismo, isto significaria que os princípios cristãos são tão insustent veis e tempor rios quanto tal arranjo politico. J  contribui com o que eu podia, governos democr ticos são um subsidio massivo a idiotice. Não ‚ atoa que keynesianismo ‚ regra hoje em dia e a população se revolte quando chega a hora de pagar a conta. A austeridade grega ‚ uma piada perto do que eles realmente vão ter de baixar seu nível de vida pra de fato pagar a divida. Ainda assim, este pequeno gostinho de realidade j  deu toques bem claros de fascismo a tal republica. Era só isso que eu tinha a dizer, democracia ‚ um arranjo tempor rio. A defesa de um ou outro modelo politico j  ‚ uma discussão bem mais longa.

  27. Marcus, obrigado pela interação. Note que eu não disse que o modelo republicano seja o único compatível com o cristianismo. De qualquer forma, de uma olhada nos meus textos publicados aqui: (1) Espectro político, mentes cativas e idolatria (2) Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho (3) A relação entre a igreja e o estado. Você descobrir  alguns pontos de convergência entre nossas posiçäes.

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