Qual o momento do batismo com o Espírito Santo?

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Pentecostes (Juan Bautista Maino, c. 1612-1614)

Cresci ouvindo o tradicional apelo, especialmente em retiros, “quem quer ser batizado com o Espírito Santo, venha à frente”. Algumas vezes eu fui, até que um dia percebi que já era batizado com o Espírito Santo, mesmo que eu não falasse em línguas estranhas. Antes de qualquer coisa, preciso salientar a importância fundamental na crença viva no Espírito Santo e na sua livre atuação. O Espírito Santo é uma das pessoas da Trindade e é basilar para a fé cristã. Nosso único ponto de discussão neste breve ensaio será quanto ao momento em que o recebemos e, absolutamente, nada mais.

Então, afinal de contas, podemos ser batizados com o Espírito Santo? E, se sim, quando ocorre? Evidentemente que não temos a pretensão de sermos paladinos da verdade, então nossas conclusões não são absolutas. O fato é que os textos das Sagradas Escrituras possuem apenas uma interpretação. Desta forma, o problema sempre está no exegeta, ou seja, em nós mesmos. Nossa oração é para que Deus nos capacite e nossa exegese se aproxime daquela pretendida pelo Espírito.

Respondendo à pergunta: sim, mais que podemos, somos todos batizados com o Espírito Santo, tão logo somos alcançados pela superabundante graça, por intermédio de Cristo Jesus — pelo menos esta é a minha crença fundamentada na exegese que segue. Quando nascemos de novo e somos inseridos na família cristã, recebemos o selo, a marca da Trindade. Esta marca é o batismo com o Espírito Santo. Somos regenerados com o Espírito Santo e separados por Cristo. O batismo não é pelo, mas é com. Quem nos batiza com o Espírito é o próprio Cristo, como João Batista ensinava e consta nos registros do Evangelho de Mateus: “Eu os batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar as suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo” (3.11).

É o batismo com o Espírito Santo que nos une ao corpo místico de Cristo e da Igreja. Colocar o batismo em outro momento distinto da conversão é (com o devido respeito) um anacronismo: somos convertidos, todavia não pertencemos ao corpo de Cristo? A carta paulina aos Efésios deixa claro que o batismo com o Espírito Santo é o penhor da nossa herança e o selo desta promessa: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (1.13,14). E a primeira carta de Pedro afirma que somos propriedade exclusiva de Deus e um povo separado do mundo: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (2.9).

Jesus Cristo é quem nos batiza com o Espírito Santo quando de nossa conversão para que possamos, por meio dele, ser guiados em toda a verdade e convencidos dos nossos pecados para arrependimento e salvação de nossas almas (Jo 16. 7-9 e 13; Mt 1, 21), porque todos pecamos e necessitamos de um encontro pessoal e real com Jesus Cristo, pois nele há salvação e perdão de pecados (Rm 3.23, 6.23, e Ef 1.7). É por meio da ação do Espírito Santo que compreendemos as verdades de Deus revelada nas Escrituras. Se não somos batizados com o Espírito quando da conversão, como podemos compreender a revelação geral de Deus aos homens? Não podemos, é ele que nos guia e permite nosso entendimento e compreensão. Vejam o que Paulo fala em sua primeira carta aos Coríntios, sobre os dons espirituais: “Portanto, vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo” (12.3). Somente podemos dizer (e compreender sua dimensão) que Jesus é o nosso Senhor, por meio do Espírito Santo que testifica esta verdade em nós! Quem é convertido e não foi batizado com o Espírito não pode dizer e/ou compreender isto? Evidente anacronismo.

Outro anacronismo consequente da crença que o batismo com o Espírito Santo acontece em outro momento, como uma segunda benção, é a diferenciação das pessoas no corpo de Cristo. Para Deus não há acepção de pessoas, todos pecamos e necessitamos da graça divina (Rm 2.11-13 e At 10.34), como seria então um corpo em que alguns convertidos possuem o selo da promessa e outros ainda não?! Ou alguns são “melhores” porque possuem o selo, enquanto outros são mais fracos ou piores, porque não conseguem o selo. Esta interpretação gera ansiedade, tristeza, baixa autoestima e, não poucas vezes, depressão. Será esta a vontade do Espírito Santo? Creio que não. Contudo, o leitor pode agora estar pensando: “e as passagens de Atos?” Bem, vamos a elas.

ATOS 8.14-17: OS SAMARITANOS[1]

Em primeiro lugar, é importante destacar que, nesta passagem, os samaritanos já eram convertidos. De outra banda, o texto indica a surpresa do provável autor do livro de Atos, Lucas, pelo fato dos samaritanos receberem o batismo pelo Espírito em momento diverso do batismo das águas (depois). O espanto é verificável nas expressões “somente” e “ainda”[2], e esta surpresa se dá exatamente pelo fato de que o Espírito completa o ato batismal, sendo o fato descrito na passagem a exceção à regra.

Outro aspecto importantíssimo, muitas vezes deixado de lado, é o fato de que o povo judeu e o samaritano possuíam uma rixa antiga e apenas um fato como este (recebimento do Espírito), testemunhado pelos apóstolos de Cristo, Pedro e João, poderia impedir um cisma logo no início da formação da Igreja. Ensina Michael Green que “Judeus e Samaritanos eram inimigos implacáveis, e isso havia séculos”[3], o que é confirmado pela fonte primária, o historiador que viveu na época de Cristo, Flávio Josefo:

“Esses novos habitantes da Samaria, […] eram de cinco nações diferentes, que tinham cada uma um deus particular e eles continuaram a adorá-los, como faziam em seu país. […] Esses povos, que os gregos chamam de samaritanos, continuam ainda hoje na mesma religião. Mas eles mudam com relação a nós, segundo a diversidade dos tempos, pois, quando a nossa situação é boa, eles protestam que nos consideram como irmãos, porque sendo uns e outros descendentes de José, nós temos nossa origem de um mesmo ramo. Quando a sorte nos é contrária, eles dizem que não nos conhecem e que não são obrigados a nos amar, pois tendo vindo de um país tão afastado para se estabelecer naquele em que habitam, nada têm de comum conosco.”[4]

Ou seja, se não houvesse um testemunho ocular pelos próprios apóstolos, que possuíam credibilidade dentro da Igreja que estava nascendo, provavelmente os samaritanos não seriam reconhecidos como parte da Igreja de Cristo e, logo no nascedouro, teríamos um enorme cisma, o que prejudicaria o próprio avanço do evangelho. Também não podemos esquecer das palavras do Cristo ressurreto em Atos 1.8: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra” (grifo nosso). Tratava-se de uma ordem imperativa de Cristo: ser testemunha do recebimento (batismo) do Espírito Santo em Samaria. E, assim foi.

“Se o Espírito Santo tivesse sido concedido imediatamente por meio da profissão de fé e batismo aos samaritanos, esse antigo cisma poderia ter continuado e teria havido duas igrejas sem comunhão uma com a outra. Atos 15 mostra como uma ruptura decisiva entre o cristianismo judeu e gentílico foi cuidadosamente evitada pelos primeiros cristãos. Atos 8 parece salientar que uma cisão semelhantemente desastrosa foi evitada em Samaria. Deus não concedeu seu Espírito Santo (ou, talvez, a manifestação sobrenatural do Espírito em línguas e profecia?) aos samaritanos imediatamente: não até que representantes de Jerusalém desceram e expressaram sua unidade com os neófitos através da oração por eles e impondo suas mãos sobre eles. Depois disso eles receberam o Espírito; […] Isto não foi tanto uma autorização de Jerusalém ou uma extensão da igreja de Jerusalém, quanto um veto divino no cisma da igreja ainda não desenvolvida, um cisma que poderia ter passado quase despercebido na comunidade cristã, tendo os convertidos dos dois lados da ‘cortina samaritana’ encontrado Cristo sem encontrarem uns aos outros.”[5]

ATOS 10.44-48: O PENTECOSTES DOS GENTIOS

Nesta passagem bíblica ocorre exatamente o inverso da primeira: o Espírito Santo desce aos gentios antes mesmo de serem batizados nas águas. Esta passagem, assim como a do capítulo 8.14-17, demonstra o pensamento dos apóstolos e de toda igreja primitiva de que o batismo nas águas e o dom do Espírito Santo estão intimamente ligados.

Alguns versículos antes desta passagem, especificamente o v. 28a diz: “E disse-lhes: Vós bem sabeis que não é lícito a um homem judeu ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros”, ou seja, os judeus não podiam nem ao menos reunir-se ou associar-se a um não judeu. Desta forma, mesmo com diversas ordens expressas de Jesus, como um judeu poderia considerar um gentio seu irmão? Apenas de maneira sobrenatural, testemunhado por um dos apóstolos, o preconceito poderia ser removido e, novamente (como no caso dos samaritanos), a Igreja que estava nascendo não teria sua unidade quebrada. Ensina Alexandre Vieira:

“O episódio em Cesareia, conhecido como o “pentecostes gentílico”, deve ser encarado como uma exceção à regra também pelo fato de ser “a única ocasião na qual o derramamento do Espírito precedeu o batismo”. E isto aconteceu, como vimos, para que fosse removido todo preconceito e exclusivismo de dentro do povo de Deus, a fi m de que pela aceitação dos gentios a Igreja se tornasse verdadeiramente universal. Atos 10, além de outras coisas, nos ensina a belíssima verdade de que a incorporação dos gentios à Igreja sem submetê-los à lei não foi uma iniciativa de Paulo, nem de Pedro, mas do próprio Deus.”[6]

ATOS 19. 1-6: OS DISCÍPULOS EFÉSIOS 

Os discípulos efésios eram propriamente discípulos de quem? A passagem bíblica demonstra que Paulo tinha esta dúvida quando pergunta “Recebeste o Espírito Santo ‘quando crestes’?” A verdade é que tais discípulos ainda estavam “no meio do caminho” para se tornarem discípulos de Cristo, pois apenas tinham sido batizados no batismo de João Batista e não sabiam que o Espírito Santo já estava presente, ou seja, eles eram crentes da velha aliança e não da nova. Assim, os discípulos efésios não eram cristão genuínos, tornaram-se apenas quando “receberam o batismo cristão juntamente com o dom do Espírito”.

“Por isso, quando informado de que aqueles efésios não tinham recebido o Espírito Santo, Paulo simplesmente pergunta (v. 3): ‘Em que, pois, fostes batizados?’ Paulo pensou que se eles não tinham o Espírito Santo, a causa provável era um batismo diferente daquele ‘em nome de Jesus’. E ele estava certo. Diagnosticado o erro, o apóstolo Paulo imediatamente lhes falou a respeito da fé em Jesus. Depois disso o texto diz que eles foram batizados e, na sequência, receberam o Espírito Santo.”[7]

Como percebemos, os referidos textos em Atos não trazem outra mensagem senão a intenção de nosso Deus de que sua palavra seja levada a toda criatura, não obstante preconceitos de raça ou etnia (caso samaritanos e gentios) ou pela falta de conhecimento (caso discípulos efésios). Quando Jesus ascendeu aos céus, ele ordenou que fôssemos suas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da Terra. As passagens demonstram o trabalho do Espírito Santo em unir a Igreja que estava nascendo e o cumprimento desta ordem.

Para arrematar quaisquer dúvidas, Paulo, ao falar sobre os dons do Espírito Santo, sentencia: “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” (1Co 12.13, grifo nosso). Pois todos somos batizados em um Espírito! Você tem certeza de salvação? Se sim, você faz parte do corpo místico de Cristo e é batizado com o Espírito Santo. Por isso, glorifique de pé! E, quem sabe, se for da vontade de Deus, você falará em línguas estranhas! Deus o abençoe.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GREEN, Michael. Baptism: Its Purpose, Practice & Power. Downers Grove: Inter-Varsity, 1987.

GREEN, Michael. I believe in the Holy Spirit. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1975.

JOSEFO, Flavio. História dos Hebreus. Traduzido por Padre Vicente Pedroso. São Paulo: Editora das Américas, [S.d.]. v. 3.

VIEIRA, Alexandre Teixeira. O batismo no Espírito Santo conforme o livro de Atos. Igreja Luterana – Revista Semestral de Teologia / Seminário Concórdia, Volume 74, nov/2019, número 2.

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[1] Recomendo entusiasticamente o artigo de Alexandre Teixeira Vieira intitulado “O Batismo no Espírito Santo Conforme o Livro de Atos”. Ele foi a referência bibliográfica para estas passagens de Atos. VIEIRA, Alexandre Teixeira. O batismo no Espírito Santo conforme o livro de Atos. Igreja Luterana. Revista Semestral de Teologia/Seminário Concórdia, Volume 74, nov/2019, número 2. Disponível em: http://www.seminarioconcordia.com.br/seminario_novo/media/attachments/2018/07/11/revista-luterana-2015-2.pdf

[2] O normal seria que, ao serem batizados, todos recebessem o Espírito Santo, mas os samaritanos somente estavam batizados; o Espírito ainda não havia caído sobre nenhum deles.

[3] GREEN, Michael. Baptism: It’s Purpose, Practice & Power. Downers Grove: Inter-Varsity, 1987, p. 131-132.

[4] JOSEFO, Flavio. História dos Hebreus. Traduzido por Padre Vicente Pedroso. São Paulo: Editora das Américas, [S.d.]. v.3. p. 219-220.

[5] GREEN, Michael. I believe in the Holy Spirit. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1975. p. 167-16.

[6] VIEIRA, op. cit., p. 49.

[7] VIEIRA, op. cit., p. 53.

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