O prólogo joanino e o Logos cristão

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O presente estudo aborda de modo introdutório alguns aspectos da doutrina do Logos cristão, mais precisamente a partir do prólogo de João. Veremos que o respectivo assunto foi muito abordado no início da cristandade, em especial na chamada literatura patrística.

 Introdução

O estudo sobre a temática cristológica passa necessariamente pelo prólogo de João. Tal necessidade não deve ser considera um empecilho ou exagero, sobretudo se levarmos em consideração a riqueza análogo-imagética contida na respectiva narrativa. O texto canônico possui como ponto cardeal a figura de Jesus de Cristo como o revelado do Pai, na universalidade da história e num mundo dos homens. Isto é, o prólogo de João é uma espécie de história que narra como Deus se volta para os seres humanos, pois dirigir a palavra a alguém significa voltar-se para essa pessoa. Portanto, pela instrumentalidade do Logos Cristológico no processo encarnacional de seu Filho (Jo 1.14), Deus volta-se para os seres humanos (SCHNELLE, 2017, p. 878).

A encarnação do Logos Cristológico permitiu o estabelecimento de uma nova realidade salvífica. Essa nova realidade ocorre no tempo. Segundo se lê nas Escrituras: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14). A temporalidade histórica do Logos Cristão reverbera de maneira extraordinária, na capacidade de Deus estampar sua autorevelação de forma misteriosa e absoluta, pois o Logos entrou de modo real no tempo e na história, sem se confundir com ela (SCHNELLE, 2017, p. 881). Dessa maneira, o próprio Deus torna-se sujeito da existência humana real. Nesse sentido, o grande mistério reside no fato que: “a encarnação não significa o abandono da divindade de Jesus; ao contrário, no Prólogo de João, a humanidade de Jesus passa a ser um predicado de sua divindade” (SCHNELLE, 2017, p. 881-2).

A narrativa joanina procura deixar claro que no processo encarnacional Jesus tornou-se um ser humano e, ao mesmo tempo, continuou a ser Deus. Portanto, Deus no modo da encarnação. Ele se tornou ser humano sem distância e sem diferença, ou seja, um segundo Adão, um ser humano entre seres humanos. Ao mesmo tempo, ele é o Filho de Deus, que, em relação ao Pai, encontra-se sem distância e sem diferença (SCHNELLE, 2017, p. 882). Proporcionalmente, a encarnação é a afirmação de que Deus se fez história e faz caminhada concreta com o povo. A encarnação é apropriação não apenas de uma natureza humana completa, mas também de uma história de vida humana (FIORENZA; GALVIN, 1997, p. 416).

No prólogo, veremos também a presença latente de outro conceito central da cristologia joanina, a saber: a preexistência do Logos. Isto é, João não se interessa em situar Jesus nas mesmas perspectivas dos sinóticos. O início do quarto Evangelho é peculiar. Enquanto Marcos começa com a pregação de João Batista, Mateus e Lucas que partem do nascimento de Jesus, o apóstolo João remonta à preexistência eterna do Cristo como Logos junto de Deus, numa temporalidade que ultrapassa também o início da Bíblia (MORESCHINI; NORELLI, 2014, p. 126). O Logos existe antes mesmo do messianismo de Matheus (Mt 1.1-17); do princípio adâmico de Lucas (Lc 3.38); e do pragmatismo de Marcos (Mc 1.14). Sua preexistência o remete ao “princípio” absoluto de todas as coisas (CULLMANN, 2002, p. 327). Na eternidade do Logos, João vai buscar a origem da fé de sua comunidade. Tal origem vai além dos antepassados apontados pelos sinóticos como Adão, Abraão, Moisés etc.

É por isso que mais tarde a literatura patrística vai se apropriar dessa verdade bíblica para forjar o conceito de Logos Spermátikos (sementes do Verbo). Trata-se da tentativa de exemplificar a preexistência do Logos Cristológico para além da tradição judaico-cristã, perpassando-se, por meio de diversos testemunhos de amplitude “parcial”, deixados por Deus em outras culturas. Em certa medida defende-se que as sementes do Verbo divino teriam também se “revelado”, iluminando assim: gregos e bárbaros. Vejamos.

  1. O que Jerusalém tem a ver com Atenas?

Na origem do cristianismo, a Igreja existia junto e contextualmente diante de culturas anteriores. Refiro-me as culturas judaico-grego-romana. Não podemos nos esquecer, que, embora participemos de uma eclesiologia divina, a Igreja é formada por seres humanos. Nesse sentido, os homens são “seres culturas”: herdeiros e testadores de comportamentos subjacentes, visto que ninguém começa culturalmente no ponto zero ou absolutamente neutro (SCHILLEBEECKX, 2012, p. 113). Qualquer instituição se estabelece dentro de um contexto histórico. Em geral, a história é um processo de aprendizagem, transmissão e cultura, e ao mesmo tempo planejamento; assim, ela é tanto tradição quanto experimentação. Tal fenômeno tem como estrutura primordial a memória. A estrutura de memória ou recordação acentua-se aí: nossa ação ou omissão se deixam codeterminar pela dialética entre o presente e o futuro; entre o que é e o que vir-a-ser. Isto é, memória e esperança, tradição e profecia (SCHILLEBEECKX, 2012, p. 113). Portanto, o homem não é necessariamente determinado apenas por seu passado, mas também impõe à história seus desejos e anseios, criando assim tradições.

Dentro da nossa temática, é imprescindível dar-se conta disso para compreender todo o alcance da afirmação joanina de que: “O Logos se fez carne”. Começamos por lembrar que o título Logos ocorre já na mais antiga filosofia grega, a de Heráclito, e, mais tarde, especialmente no estoicismo (CULLMANN, 2002, p. 330). Entretanto, em termos pastorais e eclesiásticos é necessário fazer as devidas distinções. Na cultura helênica, o Logos é uma espécie de “lei suprema” do mundo que rege o universo e que, ao mesmo tempo, está presente na razão humana. Trata-se, pois, de uma abstração, não uma hipóstase. Consequentemente, ao falar do Logos, e mesmo que se postule acerca dele que “era desde o princípio” (Jo 1.1), esta alma impessoal e panteísta do mundo, de que fala o estoicismo, é coisa muito distinta do Logos joanino (CULLMANN, 2002, p. 330).

Entretanto, buscando estabelecer o diálogo, o primeiro movimento apologético que procurou “minimizar” a distância entre o logos grego e os princípios de autorevelação divina, foi realizado em meados do século 1 d.C., pelo teólogo judeu Fílon de Alexandria. Ele é considerado inclusive o iniciador de empreender a tarefa de casar a religião judaica com a filosofia helenística (LADD, 2003, p. 358). Embora preservou a atitude judaica para com o Antigo Testamento como a Palavra inspirada de Deus; mas, por meio de sua interpretação alegórica, descobriu supostos conceitos filosóficos nas escrituras veterotestamentárias.

Em Fílon, o logos grego é aparentado como certo grau de equivalência como a chamada Sabedoria Judaica. A consequência imediata e evidente deste enfoque repousa em relação à consideração filosófica — que jamais prescinde do surgimento das questões no interior da própria obra atribuída a Moisés —, da fé com relação à intelectualidade (MORAES, 2017, p. 55). Nesse contexto, é importante notar que, embora o empreendimento argumentativo do judeu alexandrino não seja de tudo aceito em sua totalidade, sobretudo em alguns círculos mais rígido, veremos de fato adiante, que sua originalidade e legado serão indiscutivelmente sentidos especialmente na chamada literatura patrística.

  1. Da sabedoria judaica ao Logos Cristológico

A exclusividade da manifestação do Logos Cristão é um milagre. Por isso, o processo encarnacional de Jesus Cristo só pode ser compreendido em sua totalidade pela instrumentalidade de elementos que “transcendem” a cognição humana. Assim como a doutrina da Trindade, a encarnação enquanto doutrina cristã também é catalogada como fenômeno que excede a razão. Segundo a fé cristã — mais precisamente nas palavras de Tomás de Aquino: “das obras divinas, a Encarnação é a que mais excede a nossa razão, pois nada de mais admirável se pode pensar como tendo sido realizado por Deus, do que o verdadeiro Filho de Deus, fazer-se verdadeiro Filho do homem (TOMÁS DE AQUINO, 2017, p. 663). Subentende-se então, que, embora seja de fato reconhecido que do ponto de vista teológico exista uma revelação messiânica do Antigo Testamento esta ainda se encontrava em um estado parcial e embrionário.

Diante disso, é preciso entender, contudo, que embora a despeito de certas semelhanças, é que estamos tratando de conceitos distintos. Portanto, nem a ideia do logos helenístico nem a da Sabedoria Judaica, se aproximam em absoluto da verdade canônica de que João enuncia por meio de sua doutrina do Logos Cristão. Ora, o logos de Fílon é algumas vezes hipostasiado e personificado, mas jamais é personalizado; assim como também não o é a Sabedoria Judaica (LADD, 2003, p. 359). Teologicamente, o conceito de logos de Fílon é utilizado para promover os interesses de uma suposta cosmologia dualista, que remove Deus do contato imediato com a Criação, ao passo que no prólogo de João, o Logos nos é apresentado para introduzir Deus, em Cristo, diretamente na concretude de sua criação (LADD, 2003, p. 359).

O Logos Cristão apresentado no prólogo de João possui especificidades salvíficas diferenciadas. Dentre elas, destaca-se: Preexistência e Eternidade (Jo 1.1a); economia da Trindade e o relacionamento com Deus (Jo 1.1b); revelador supremo da Divindade (1.18); participação no processo de Criação (Jo 1.3); encarnação e esvaziamento (Jo 1.14); participação e relacionamento com a humanidade (Jo 1.4b). Nesse sentido, é preciso afirma que o Logos Cristológico se relaciona com Deus, apresentando-se assim, como o revelador da divindade, da qual dele emana para a Criação e encarnação. O seu testemunho foi dado por meio de João Batista, o enviado de Deus. O mundo, porém, o rejeitou, mas o Logos continua sendo a luz da humanidade e a gloriosa vitória sobre a escuridão.

  1. As “sementes do verbo” ou o Logos Spermátikos

A noção do Logos Spermátikos (sementes do Verbo) nada mais é do que uma tentativa confessional forjada na literatura patrística voltada de forma exclusiva a indicar que, embora o Logos Cristológico tenha se manifestado em sua plenitude, só recentemente na temporalidade do processo encarnacional de Jesus Cristo (Jo 1.14) sua presença, influência e ação efetiva é teologicamente considerada muito mais antiga. Na história da teologia, apologistas tais como Justino, Clemente e Orígenes da Alexandria defendiam veementemente essa ideia. O primeiro admite, sem hesitar, que os antigos filósofos gregos que conheceram e praticaram a verdade, tais como Platão e os estoicos, tiveram um contato parcial com o logos; contudo, eles não o possuíram integralmente. (BOEHNER; GILSON, 2012, p. 29). Diferente dos cristãos cujo prólogo joanino apresenta-nos o Logos em sua absoluta plenitude. Justino Afirma: “[…] os filósofos participaram do Logos, pois tudo quantos filósofos e legisladores descobriram e proclamaram de acertado: todos os conhecimentos e descobertas eles os conquistaram trabalhosamente na medida em que tiveram parte dos Logos (JUSTINO DE ROMA, 2013, p. 98-9). Nesse sentindo, o cristianismo enquanto religião mostra-se mais sublime do que todo ensinamento humana, pela simples razão de possuirmos o Verbo inteiro, que é Cristo, mas manifestado por nós, tornando-se corpo, razão e alma (JUSTINO DE ROMA, 2013, p. 100).

Seguindo a mesma linha de raciocínio, Clemente de Alexandria explica: “[…] Se, de fato, os gregos entreviram, melhor que os outros, alguns sinais do Logos divino e entenderam certos laivos da verdade, confirmaram, pois, com seu testemunho, que força da verdade não estava oculta […] agora eu creio que parece claro a todos que, fazer ou dizer alguma coisa sem Logos da verdade, é algo completamente semelhante a andar sem ter pés (CLEMENTE DE ALEXANDRIA, 2013, p. 141). Dito de outra forma, para Clemente, o Logos se revelou definitivamente no cristianismo, mas, atuou de forma preparatória para a vinda de Cristo por meio da Lei dada aos judeus e da filosofia obtida pelos gregos. Tanto a lei quanto a filosofia participaram deste processo da pedagogia de Deus a fim de preparar os homens para receberem o Logos encarnado que é Cristo (SOUZA; PEREIRA, 2017, p. 89).

Finalizando temos os argumentos de Orígenes. O apologista nos informa que Deus criou um mundo espiritual, inteligível e que este mundo procede de Deus desde a eternidade e Cristo, que é o Logos, faz parte deste mundo (SOUZA; PEREIRA, 2017, p. 90). Orígenes acreditava que o Logos é eterno e independente, nunca houve tempo em que ele não existisse. Assim, o Filho tem a mesma essência do Pai e está subordinado a Ele. Foi Orígenes que cunhou o conceito de homooúsios (mesma natureza) e subordinação (SOUZA; PEREIRA, 2017, p. 90). Proporcionalmente, o autor tem a mesma concepção de pedagogia divina defendida por Clemente. Com isso, informa que para o mundo inteligível, os espíritos imateriais, criados por Deus, viviam em perfeita harmonia, mas, depois que o mal penetrou nesta esfera, esses seres sofreram a queda, surgindo então, os homens, os anjos e os demônios (WALKER, 2006, p. 112). Deus criou o cosmos visível a fim de ensinar a estes seres a retornarem à sua glória original. Neste processo entra a ideia da pedagogia de Deus que culmina na encarnação do Logos. Portanto, para Orígenes, “o Logos aproxima-se dos seres humanos decaídos através da mediação da única criatura racional que não caiu: o ser humano que é Jesus” (WALKER, 2006, p. 112-3).

Considerações finais

Mesmo que seja breve, a respectiva reflexão aqui elaborada é importantíssima. Como podemos constatar o prólogo de João foi determinante para conclusão interpretativa do dogma da encarnação de Jesus Cristo. Ao longo da história, os desdobramentos e frutos gerados pela doutrina sempre produziram resultados positivos, independentemente das várias fases e facetas em que ela esteja inserida. Subentende-se que por meio das diversas fontes bibliográficas pesquisadas tenha ficado evidenciado, que os Pais da Igreja não se curvaram diante das heresias presentes no contexto em que viveram, mas, com ousadia e coragem defenderam a divindade de Cristo de forma categórica. Embora algumas defesas apresentassem contradições pontuais, o teor geral da mensagem foi mantido, fato que culminou nos grandes Concílios, contribuindo para a sistematização da fé na divindade da Pessoa de Cristo.

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Referências bibliográficas

BOEHNER, P; GILSON, E. Filosofia Cristã (Petrópolis: Vozes, 2012).

CLEMENTE DE ALEXANDRIA. Exortação aos Gregos (São Paulo: É-Realizações, 2013).

CULLMANN, O. Cristologia do Novo Testamento (São Paulo: Custom, 2002).

FIORENZA, F; GALVIN, J. P. Teologia Sistemática (São Paulo: Paulus, 1997). vol. 1.

JUSTINO DE ROMA. I e II Apologias/ Diálogo com Trifão (São Paulo: Paulus, 2013).

LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2003).

MORAES, M. O Logos em Fílon de Alexandria.

MORESCHINI, C; NORELLI, E. História da Literatura Cristão Antiga Grega e Latina (São Paulo: Loyola, 2014). vol. 1.

ORÍGENES. Tratado Sobre os Princípios (São Paulo: Paulus, 2012).

SCHILLEBEECKX, E. História Humana: Revelação de Deus (São Paulo: Paulus, 2012).

SCHNELLE, U. Teologia do Novo Testamento (São Paulo: Academia Cristã Paulus, 2017).

SOUZA, J. H; PEREIRA, S. A Doutrina do Logos na Perspectiva Patrística: um estudo a partir de João 1.1. Teologia e Espiritualidade. vol. 4, no 08, Curitiba, Dez/ 2017, p. 73-9.

TOMÁS DE AQUINO. Suma Contra os Gentios (São Paulo: Ecclesiae, 2017).

WALKER, W. História da igreja Cristã (São Paulo: ASTE, 2006).

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