O lugar das controvérsias na teologia cristã

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Escrevo este artigo no dia 22 de janeiro de 2016. Quatro dias após a publicação de uma nota eletrônica onde alguns pastores, teólogos e líderes das tradições calvinista e arminiana no Brasil, pedem pela paz, diálogo e respeito nas redes sociais entre os adeptos de ambas as escolas teológicas.

A nota, que está disponível e circula livremente pela internet,1 foi assinada por pensadores de prestígio, tais como Augustus Nicodemus Lopes, Franklin Ferreira, Solano Portela, Paulo Romeiro, Zwinglio Rodrigues e outros, despertando reações das mais diversas, inclusive, contrárias à própria proposta de paz, curiosamente! Entretanto, a aprovação foi incomparavelmente maior e mais sonora, haja vista que um basta na falta de respeito precisava mesmo ser dada pelos produtores de teologia e de conteúdo cristão em blogs, sites e outras mídias na web.

Nas minhas aulas no Seminário Teológico Congregacional de Niterói, onde tenho o prazer de lecionar Teologia Histórica, por mais de uma vez conversei com os meus alunos sobre como via com preocupação e resistência a crescente falta de moderação nos debates virtuais entre calvinistas e arminianos. Muito desse debate travado por jovens encantados com as descobertas dos tesouros da Reforma Protestante e incapazes de compreender que há na fé cristã espaço saudável para outras formas de interpretação além das cristalizadas pelos grandes reformadores. Zelo pela verdade, afinal, não pode ser confundido com intolerância. Sem dúvida, uma forma de ignorância!

A nota, embora importante e oportuna, revela, contudo, um problema: a nossa enorme dificuldade (quase incapacidade) de lidarmos com as controvérsias. Não sabemos trabalhar com as distintas opiniões e, tampouco, conviver pacificamente com quem pensa diferente. E, especialmente, temos uma postura radical demais quando tratamos do pensar teológico. Mesmo nos itens onde a exclusividade não é exigida. É fato, pois, que na Teologia Cristã há as afirmações que poderiam ser chamadas de “cláusulas pétreas”. São marcos teológicos irremovíveis. Estes podem ser elencados, porquanto não são muitos, a saber: Trindade (Deus Pai, Filho e Espírito Santo), Dupla Natureza de Cristo (divina e humana), a vida – sacrifício/morte – ressurreição e ascensão de Jesus Cristo, a salvação eterna mediante a obra redentora do Senhor e outros. Ou seja, ninguém pode se dizer cristão se não acreditar em tais afirmações. Contudo, há na reflexão teológica campo suficiente para compreensões e saberes em que não são exigidas a singularidade ou exclusividade, sendo arrogância dos adeptos de uma escola a reivindicação de autoridade sobre determinada interpretação. Neste exemplo entram as discussões escatológicas com suas distintas escolas acerca do Milênio, da Grande Tribulação e da Segunda Vinda de Cristo e também as intermináveis disputas soteriológicas, tentando dominar a compreensão de como Deus salva (predestinando? Apenas chamando e respeitando o livre arbítrio? A salvação é para todos? Ou apenas os eleitos antes da fundação do mundo? A salvação já é eterna aqui ou agora? Ou tal eternidade é apenas pós – morte? Isto é, salvos para sempre, a partir do encontro com Cristo ou podemos perder a nossa salvação enquanto ainda estivermos por aqui?).

Como dito acima, apesar de reconhecer a importância da Nota Pública, pois coloca “água na fervura”, a mesma só foi elaborada em face do espírito faccioso e sectário de muitos internautas, sendo uma triste demonstração de nossa incapacidade quanto aos debates sérios e construtivos. E detalhe: pode ser confundida como um chamado ao fim do contraditório, o que não é verdade, não sendo a intenção de seus proponentes,2 pois alguns dos que a assinaram são sérios e apaixonados pesquisadores da teologia e da História da Igreja e que sabem por prática do ofício que a pesquisa é movida pelo questionamento. E só há questionamento quando se há discordância. Do contrário, a pesquisa não avança, pois somente se  questiona o que está estabelecido e garantido. É na pesquisa (seja ela biológica, astronômica, física, histórica ou teológica) que novas ideias e avanços são conquistados, permitindo uma compreensão mais lata da realidade. E isto é uma bênção, sem dúvida! 

Temos na riquíssima história do cristianismo seguidos exemplos de controvérsias que produziram grandes encontros, debates, textos e argumentos e que legaram à fé cristã todo um conjunto de afirmações que construíram durante anos a fio o edifício chamado Teologia Cristã.
Podemos, por exemplo, mencionar as clássicas tensões entre Paulo e os discípulos de líderes como Pedro e Apolo na Igreja de Corinto e que muito exigiram do apóstolo dos gentios as admoestações e orientações que estão registradas em sua primeira epístola à igreja grega e que se transformaram em verdadeiros tesouros da eclesiologia. Isto sem mencionar a Carta aos Gálatas que não existiria se não houvesse os debates teológicos sobre os limites e alcances da lei na vida cristã.

As próprias controvérsias cristológicas3  nos primeiros séculos da era pós – apostólica e a gravidade daquelas questões em uma época em que ainda estava sendo pavimentados os caminhos do saber teológico foram importantíssimas, pois foram com elas e através delas com a bênção de Deus que a busca pelo pensamento preciso sobre a obra trinitariana avançou muitíssimo. Nem todos os Pais da Igreja concordavam com todos os pontos em discussão (Epa! Uma longa pausa para reflexão neste ponto!) e por isso mesmo um verdadeiro oceano teológico foi formado nos primeiros seis séculos da igreja, tão profundo e magnífico. É impossível estudar seriamente os Pais Apostólicos,4 os Apologetas5  e os Polemistas6  sem experimentar um duplo sentimento de encanto e frustração. Encanto, pois foram gigantes intelectuais em uma fase tão incipiente de nossa história cristã. E frustração, porquanto mais de quinze séculos depois não somos capazes de produzir nada parecido com o que eles fizeram (verdadeiras pérolas de grande valor) mesmo tendo hoje tantas academias, compêndios e ferramentas de análise.7 Benditas controvérsias cristológicas! Revelaram ao mundo Atanásio, Tertuliano, Policarpo, Orígenes, Irineu, Justino, Agostinho, Eusébio, Gregórios (de Nissa e Nazianzeno), Basílio! Seus esforços e explicações nos ajudaram a compreender melhor o mistério da encarnação do Verbo, a pessoa do Espírito Santo e a Obra de Cristo em nós! Louvado seja Deus!

O que poderíamos falar dos Reformadores? Suas distintas ênfases ajudaram a expandir o todo teológico do movimento iniciado nas portas do Castelo de Wittenberg. Quantas questões discordavam Lutero, Calvino e Zwinglio? E os arminianos com os calvinistas, no século XVII? Sem as tensões típicas das diferentes escolas soteriológica não teríamos talvez hoje a Remonstrância8  e os Cânones de Dort!9 Não teríamos sequer os famosos Cinco Pontos do Calvinismo! Sem a controvérsia o avanço nessas nesses campos seria mais moroso, certamente.

Hoje em dia muito se fala das contrariedades amistosas entre Wesley e Whitefield, mas, na verdade, havia as mesmas dentro do próprio campo wesleyano, uma vez que os próprios irmãos Charles e Samuel discordavam de João em algumas ênfases. Além disso, Wesley também teve seus embates com a comunidade morávia, tão cara em sua experiência do “coração aquecido”, mas que em determinado período passou a seguir as orientações de Philip Henry Molther, com quem Wesley discordava acerca do “quietismo”. As explicações de ambos os lados renderam a família metodista uma compreensão mais lata acerca da piedade cristã.10

Paulo e os cristãos judaizantes. Pais da Igreja e os críticos e sectários. Humanistas e Reformadores. Luteranos e Pietistas. Arminianos e Calvinistas. Anglicanos e Puritanos. Anglicanos e Metodistas. Ortodoxos e Liberais. Progressistas e Fundamentalistas. Neo-ortodoxos e Evangelicais. Conservadores e Modernistas. Tradicionais e Pentecostais. Cessacionistas e Contemporanistas. Neopentecostais e missionais. Denominacionalistas e desigrejados. Quem irá negar o fato que foi dessas ambivalências que a teologia cristã foi construída paulatinamente?

Até mesmo o polêmico e controvertido liberalismo teológico alemão que é herético em muito de suas premissas, trouxe contribuições, pois exigiu um reposicionamento da igreja em afirmar pontos fundamentais da fé e que seriam importantíssimos diante de todo um cenário de caos, desesperança e cinismo que assolariam o mundo no século XX. Se com a couraça da ortodoxia e do fundamentalismo a igreja sofreu importantes baixas com o advento da pós-modernidade, imaginemos o que aconteceria sem estes movimentos e suas variações. Sem saber, e sem querer, o liberalismo ajudou a teologia conservadora a se preparar para o mundo moderno que se aproximava na aurora do século XX.

Mais respeito então com as distintas escolas teológicas. Mais apreço às tradições que compõem o belíssimo cenário da fé cristã. Mais reconhecimento da riqueza e diversidade de nossa herança intelectual. E, sobretudo, mais atenção ao lema:

In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas “.11

Ou seja,

“Nas coisas essenciais unidade; nas não essenciais, liberdade; Em todas as coisas, amor”.

É o que desejo, de coração!

Soli Deo Gloria!

Referências
CAMPOS, Idauro. Desigrejados – teoria, história e contradições do niilismo eclesiástico. São Gonçalo: Editora Contextualizar, 2015.
GONZALEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
HEITZENRATER, Richard P. Wesley e o Povo Chamado Metodista. São Bernardo do Campo: Editeo, 2006.
LOPES, Augustus Nicodemus Lopes. Uma Igreja Complicada. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
MACHEN, J. Gresham. Cristianismo e Liberalismo. São Paulo: Shedd Publicações, 2012.
OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Vida, 2001.
PORTELA, Solano. Os Cinco Pecados que Ameaçam os Calvinistas. São Paulo: PES, 1997.
WEB:
http://voltemosaoevangelho.com/blog/2016/01/nota-publica-sobre-debates-teologicos-entre-calvinistas-e-arminianos/.

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Notas
1
http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=478.
2A nota somente foi publicada porque se chegou a um grau absurdo de intolerância e desrespeito.
3Sequência de debates acerca da natureza de Jesus Cristo. Quatro grandes concílios foram convocados pela igreja em um período de 451 anos (Niceia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia) para tratar da problemática. O resultado foi a construção e consolidação de uma consistente teologia trinitariana.
4Primeiros líderes das igrejas após o fim da Era Apostólica.
5Defensores da fé cristã que resistiram aos ataques do Império Romano.
6Teólogos da igreja que explicavam e defendiam a fé contra as heresias.
7Já foi dito, por exemplo, que após a vida de Agostinho de Hipona, muito do que se produziu em termos de teologia “não passou de nota de rodapé”. Exagerada ou não a afirmação aponta para a grandeza intelectual dos Pais da Igreja. O gigantismo dele de outros se revelou em contextos de grandes debates.
8Documento produzido pelos arminianos em 1610 em que apresentavam suas proposições soteriológicas.
9Documento produzido pelos calvinistas na cidade holandesa de Dort em 1619 e em resposta à Remonstrância.
10HEITZENRATER, Richard P. Wesley e o Povo Chamado Metodista. São Bernardo do Campo: Editeo, 2006. p. 106 – 124.
11Rupertus Meldenius (1562 – 1651). Teólogo luterano.

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