Os congregacionais no Brasil (1855 – 2015)

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160 anos de história e bênçãos

I – Definição:
“O regime de governo eclesiástico conhecido como Congregacional é um sistema onde cada congregação local é autônoma e independente”

II- Antecedentes Históricos:
A Fundamentação Bíblica da Forma de Governo:
a) A Escolha dos diáconos ficou sob a responsabilidade da igreja e não dos apóstolos: “Mas, irmãos, escolhei, dentre vós (At 6.3);

b) A decisão conciliar de Jerusalém obtém apoio da igreja: “Então, pareceu bem aos apóstolos e aos presbíteros, com toda a igreja” (At 15.22);

c) A Disciplina Eclesiástica ensinada por Jesus Cristo considera o parecer da igreja: “E se ele não os atender, dize-o à igreja, e se recusar também ouvir à igreja, considera-o como gentio e publicano” (Mt 18.17);

d) A Disciplina Eclesiástica ensinada por Paulo considera o parecer da igreja: “Em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus de Jesus nosso Senhor, entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor” (1Co 5.4 e 5);

III – O Congregacionalismo na Inglaterra:
a) O Movimento Puritano- Movimento de Reforma que tentou purificar a Igreja Anglicana (1534) dos “trapos do papismo”. Grupos de pastores defendiam a autonomia das congregações (congregacionais ou independentes).

b) Em 1561 uma Declaração de Fé exortando à igreja de Jesus Cristo a uma forma congregacional de comunidade de fé;

c) Em 1567 e 1568 comunidades com tais manifestações surgiram;

d) Richard Fityz é considerado como o mais antigo pastor de uma igreja congregacional (1570);

e) Robert Browne é considerado o primeiro teórico do congregacionalismo. Fugiu para Holanda por causa da perseguição religiosa e ao lado de Robert Harrison, fundou comunidades independentes. Tais igrejas ficaram conhecidas como brownistas. Morreu em 1633 ligada a Igreja Anglicana;

f) Em 1606 John Smith abandona o pedobatismo e batizando a si próprio e alguns amigos começa, na Holanda, a linhagem histórica dos batistas;

g) Em 1616 é fundada em Londres uma Capela Congregacional tendo com seu pastor Henri Jacob. Esta foi a primeira igreja congregacional da Inglaterra que mantém suas portas abertas.

h) Em 1620 – Um Grupo imigrou para O Novo Continente (EUA), fundando a primeira comunidade congregacional na América.

i) Congregacionalismo institucionalizado tem sua origem na Inglaterra e exerceu importante influência nos Estados Unidos da América. No Brasil, não houve, na origem, qualquer relação Denominacional com o congregacionalismo de outras partes do mundo, mas apenas conceitual, pois este se deve muito mais a um modelo de governo implantado nas Igrejas Kalleyanas do que a qualquer outra relação. O próprio do Dr. Kalley não empregará o termo “congregacional”. As igrejas fundadas por ele receberiam apenas o nome de “Evangélicas” (exemplos da Igreja Evangélica Fluminense e da Igreja Evangélica Pernambucana).

IV – Dr. Robert Kalley e o Congregacionalismo Brasileiro:
a) Robert Reid Kalley nasceu em Monte Floridan (Escócia) em 08 de setembro de 1809 (filhos de Robert Kalley e Jane Raid Kalley);

b) De família presbiteriana, foi batizado com apenas 38 dias de nascido;

c) Perdeu seu pai com 10 meses de vida e sua mãe com 6 anos;

d) Na adolescência e juventude torna-se ateu;

e) Aluno brilhante, com 16 anos de idade ingressou na Universidade de Medicina e Cirurgia de Glasgow;

f) Aos 18 anos já tornara – se farmacêutico e, em 1829, aos 20 anos de idade, diplomou-se em Farmácia e Cirurgia na Faculdade de Medicina e Cirurgia de Glasgow (Escócia);

g) Em 1835 – A experiência com uma anciã enferma, porém piedosa abala seu ateísmo;

h) Em 1836- Deseja ser missionário, mas foi rejeitado pela Junta de Missões;

i) Em 1838 casou-se com Margareth Crawford;

j) Em 1838 torna-se doutor em Medicina (aos 29 anos de idade);

l) Em 27 de setembro de 1838 partiu com a esposa para a Ilha da Madeira (tratamento de saúde);

m) Foi ordenado ministro do Evangelho em 1839; fundou escolas bíblicas e nas consultas orava pelos atendimentos e colocava textos bíblicos nas receitas médicas;

n) Promoveu uma obra filantrópica, educacional, médico, hospitalar e farmacêutica;

o) Perseguição em 1841 – Iniciada por empregadores e médicos, despertando a atenção da Igreja Católica;

p) Prisão em 1843-1844 e Expulsão em 1846;

q) Em 1850 morre sua esposa em Beirute (Líbano);

r) Em 1852 conhece Sarah Poulton em Beirute e se casam;

s) Em 1853 muda-se para os EUA e pastoreia uma igreja presbiteriana de língua portuguesa;

t) Durante os anos de 1853-1854 tem acesso ao livro de Daniel Kidder e toma conhecimento, então do Brasil (pág 102.).

u) Chegam ao Brasil (Rio de Janeiro) em 10 de Maio de 1855;

v) Mudam para Petrópolis em 07 de junho de 1855.

x) Ministram a primeira aula em 19 de agosto de 1855. Marco do início da Escola Dominical no Brasil;

z) Batizam o primeiro brasileiro, Pedro Nolasco de Andrade, em 11 de julho de 1858. Fundação da Igreja Evangélica Fluminense (considerada a primeira igreja evangélica brasileira e núcleo das Igrejas Evangélicas Congregacionais em nosso país. Está localizada na Rua Camerino, número 102, no centro da cidade do Rio de Janeiro).

V – Destaques no mundo:
a)    “Os Pais Peregrinos”, como ficaram conhecidos nas muitas levas de ingleses que refugiaram nas colônias americanas e fundaram os Estados Unidos da América, eram congregacionais calvinistas em sua expressiva quantidade;

b)    John Owen (1616 – 1683) – Conhecido como o “Príncipe dos Puritanos”. Teólogo, com destacado papel na literatura teológica protestante inglesa, no Parlamento e na Universidade de Oxford.

c)    Jonathan Edwards (1703 – 1758) – Conhecido como “teólogo do avivamento” e autor do conhecido sermão “Pecadores nas mãos de um Deus irado”, foi pastor da Igreja Congregacional em Northampton (Massachussetts).

d)    Peter Taylor Forsyth (P.T. Forsyth. 1848 – 1921). Teólogo nascido na Escócia. Foi pastor das Igrejas Congregacionais de Manchester, Leicester e Cambridge.

e)    Charles Harold Dodd (C.H. Dodd. 1884 – 1973)- Nascido no País de Gales. Teólogo e pastor congregacional em Warvick (Inglaterra) e professor da Universidade de Cambridge. Dirigiu os trabalhos da equipe de tradução da Nova Bíblia Inglesa.

f)    Organizaram instituições de ensino que se tornaram importantes centros acadêmicos. As mais famosas são as Universidades de Harvard e Yale.

g)    John Harvard (1607 – 1638) – Cujo nome ficou associado à prestigiada Universidade de Harvard foi pastor da Igreja Congregacional nos Estados Unidos da América.

h)    No Brasil, Robert Reid Kalley, conseguiu diante das autoridades, o direito à celebração de casamentos e sepultamentos em liturgias protestantes. Foi um marco dos direitos fundamentais e constitucionais dos que viviam no Brasil na época do Império e não professavam a fé católica.

i)    Também ministrava aulas em classes mistas (brancos e negros) nas décadas de 1850/ 60 (mais de 20 anos antes da abolição da escravatura em 1888) e proibia que os membros da Igreja Evangélica Fluminense fossem senhores de escravos.

j)    Sarah Poulton Kalley editou em 1861 os “Salmos & Hinos”, a primeira coletânea de canções para serem usadas no culto público no Brasil, influenciando enormemente a liturgias das demais igrejas protestantes que passaram também a ser servirem do cancioneiro. A importante obra de Antônio Gouveia Mendonça, “O Celeste Por Vir: Inserção do Protestantismo No Brasil”, considerado um clássico dos estudos do protestantismo brasileiro, tem seu título baseado em uma dos hinos mais populares de “Salmos & Hinos”.

k)    Manoel da Silveira Porto Filho (1908 – 1988) – Pastor Congregacional em Campo Grande (RJ). Traduziu diversos hinos para os “Salmos & Hinos” (hinário congregacional brasileiro), além dos de sua autoria. Presidiu a prestigiada Confederação Evangélica Brasileira, uma das mais importantes instituições paraeclesiásticas do protestantismo brasileiro no século XX.

l)    Henriqueta Rosa Fernandes Braga (1909- 1983) – Membro da Igreja Evangélica Fluminense. Musicista, regente, doutora em música. Autora do compêndio “Música Sacra Evangélica no Brasil”, uma referência para os estudos da hinódia evangélica brasileira (teses, dissertações, monografia em universidades brasileiras e outras publicações sobre a história da música cristã foram escritas tendo a obra de Henriqueta Rosa como referencial teórico). Foi a primeira mulher diplomada em música no Brasil pela Universidade do Brasil (1934 – atual UFRJ) e a primeira evangélica com assento na Academia Nacional de Música e a primeira congratulada com a medalha ASTER / ARTES da Academia Brasileira de Letras. Ganhou a medalha “Silvio Romero”, entregue pela prefeitura do Distrito Federal, ainda nos tempos em que a capital do Brasil era o Rio de Janeiro.

VI – Contribuições dos Congregacionais:
a)    Democracia Eclesiástica

b)    Prática do Exercício do Sacerdócio Universal dos Santos

c)    Valorização da diversidade carismática

d)    Autonomia absoluta da congregação

e)    Contínua prestação de contas

Referências Bibliográficas:
Igreja Evangélica Fluminense. Escola Dominical / Histórico 1855 – 1932. Rio de Janeiro: Igreja Evangélica Fluminense, 1932.
BERNARDINO FILHO, M. Manoel da Silveira Porto Filho. Poeta, Pastor e Mestre. Rio de Janeiro: UNIGEVAN, 2006.
CARDOSO, Douglas Nassif. Robert Reid Kalley: Médico – Missionário e Profeta. São Bernardo do Campo: Edição do Autor, 2001.
CARREIRO, Vanderli Lima. Curso de História Denominacional (Apostila). Rio de Janeiro: Seminário Teológico Congregacional do Rio de Janeiro [s.d].
———————————– Sarah Kalley: Missionária Pioneira na Evangelização do Brasil. São Bernardo do Campo: Edição do Autor, 2005.
DA ROCHA, João Gomes da Rocha. Lembranças do Passado. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013.
FORSYTH, Willian B. Jornada do Império. São José dos Campos: FIEL, 2006.
LLOYD – JONES, David Martyn. Os Puritanos: Suas Origens e Seus Sucessores. São Paulo: PES, 1999.
LÈONARD, Èmile. O Protestantismo Brasileiro. São Paulo: ASTE, 2002.
PORTO FILHO, M. Congregacionalismo Brasileiro. Rio de Janeiro: DERP, 1997.
MENDONÇA, Antônio Gouvêa. O Celeste Porvir: Inserção do Protestantismo no Brasil. São Paulo: Edusp, 2008.
REILY, Duncan Alexander. História Documental do Protestantismo no Brasil. 3ª edição. São Paulo: Aste, 2003.
SANCHES, Jesús Hortal. E haverá um só rebanho. São Paulo: Edições Loyola, 1989.
SANTANA FILHO, Manoel Bernardino. 100 Anos de Ensino Teológico: História e Missão do Seminário Teológico Congregacional do Rio de Janeiro (1914 – 2014). São Gonçalo: Editora Contextualizar, 2014.
SANTOS, Lyndon de Araújo (org.). Fiel é a Palavra: Leituras históricas dos evangélicos protestantes no Brasil. Feira de Santana: UEFS Editora, 2011.

1 COMENTÁRIO

  1. Foi bom ter um historico dos congregacionais. Sou professor de historia e apaixonado pelo estudo do protestantismo brasileiro. Tinha pouco material sobre os congregacionais e a bibiografia ser  de grande valia para futuras pesquisas. Agradeço ao pastor Idauro pelo texto esclarecedor . Que venham mais estudos sobre os protestantismos brasileiros ( assim mesmo no plural).

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