O governo de si e dos outros: do apóstolo Paulo a Foucault, e de volta

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Vivemos dias de excessiva atenção voltada para os “corpos”. Basta ligar a televisão, ou passar os olhos nos jornais e revistas de maior circulação do país, para percebermos como os corpos estão presentes nas notícias e, principalmente, nas propagandas. Muitas vezes uma publicidade nada mais é do que um corpo somado a uma mercadoria de marca famosa. É claro que este corpo precisa ser escultural e caprichosamente modelado na academia, razão pela qual cria-se no imaginário popular que não basta ter uma roupa de determinada grife. É preciso amoldar meu corpo para que ele fique bem com aquele traje – nem que para isso eu precise fazer uma ou duas cirurgias plásticas. Dessa forma, a multiplicação vertiginosa de receitas para emagrecimentos, procura por operações plásticas e demandas por academias de ginástica, é um sintoma de um fenômeno social contemporâneo: a busca pelo corpo perfeito.

Este fenômeno de preocupação excessiva em torno das questões do corpo, entretanto, contrasta com outro fato social atual bem menos percebido, mas igualmente presente: a desvalorização de nossos corpos que ocorre porque, ainda que a preocupação e atenção que os corpos recebem na sociedade ocidental sejam extremas, eles são vistos apenas como meros consumidores de bens e serviços. Ele não é valorizado em si mesmo, mas apenas como meio de se inserir em outras relações sociais – de estética voltada ao consumo das marcas, de performance voltada ao entretenimento, ou de saúde voltada ao medo de adoecer e envelhecer. Em síntese, quando mais se falou, se mostrou e se investiu nos corpos, menos se deu lugar a um corpo livre das amarras e expectativas sociais. Maior investimento, maior controle. Como explicar este paradoxo?

Podemos nos lembrar que na história do pensamento ocidental, o ser humano sempre teve dificuldades de olhar claramente e sem preconceitos para o seu próprio corpo. Influenciados por um dualismo de origens gregas – que foi assimilado e convertido ao cristianismo pelo escolasticismo medieval, tendo seu cume na pessoa e obra de Tomás de Aquino (1225-1274) – sempre encaramos os aspectos mais elevados, verdadeiros e até divinos da existência humana desligados do corpo, o qual era encarado como a prisão do espírito que precisava ser devidamente reprimido e controlado através de uma série de dietas de caráter ascético que persistem ainda em nossa sociedade contemporânea em sua versão secularizada e mercadológica, deixando assim de ser o espaço constitutivo de encarnação da existência humana. A modernidade chegou ao absurdo deste equívoco quando René Descartes, em seu projeto filosófico racionalista de duvidar de tudo aquilo que não poderia ser provado pelo usa da razão, duvidou da existência do corpo, e definiu o “eu” humano como “eu que pensa” – o famoso “penso, logo existo”. Desde então, o caminho de afastamento de uma visão positiva de nossos corpos no Ocidente foi progressivo.

Diante de tudo isto, nos perguntamos: o que as Escrituras têm a dizer a respeito do corpo? Qual é a teologia bíblica que poderíamos formar a partir do texto sagrado? É claro que discorrer a respeito deste tema à luz de todo o relato bíblico é uma tarefa que extrapola os objetos do presente artigo. Contudo, no texto paulino de 1Tessalonisenses 4.3-8 temos um condensado de intenções do apóstolo a respeito deste tema que nos são muito esclarecedoras em tempos de captura e controle dos corpos. Algumas das lições que podemos retirar do presente texto não só questionam uma caricatura dominante atribuída ao cristianismo em relação ao corpo, como também nos provê condições de inteligibilidade crítica dos discursos atuais sobre o meu e o seu corpo. Vejamos o texto:

A vontade de Deus é que vocês sejam santificados: abstenham-se da imoralidade sexual. Cada um saiba controlar o próprio corpo de maneira santa e honrosa, não com a paixão de desejo desenfreado, como os pagãos que desconhecem a Deus. […] Portanto, aquele que rejeita estas coisas não está rejeitando o homem, mas a Deus, que lhes dá o seu Espírito Santo (1Ts 4.3-8).

O apóstolo orienta os tessalonicenses a viver de forma santificada, ficando fora de qualquer tipo de imoralidade sexual (greg. porneias). Ou seja, trata-se do mesmo apelo pela utilização cristã dos nossos corpos. Além disso, ele diz: cada um saiba controlar seu corpo (grg. ktaomai; trad.: possuir seus corpos), de maneira santa e honrosa, ou seja, não procedendo como aqueles que desconhecem a Deus. E qual é a marca com que ele caracteriza estes que desconhecem a Deus? A rendição de si mesmo à paixão de desejos desenfreados (grg. mē em pathei epithumias). Em outras palavras, trata-se de dizer: a vontade de Deus para seus filhos é que eles tenham domínio de si, não deixando que nenhuma outra força exerça controle sobre eles, seja algo externo ou algum descontrole interno.

Esta temática do “governo de si” pode parecer estranha aos nossos ouvidos pós-modernos, mas era totalmente familiar à cultura helênica tardia dos dias de Paulo. Mesmo os filósofos contemporâneos que buscaram recuperá-la precisaram ir até a Grécia para encontrar subsídios de uma ética do governo de si. Este é o caso, por exemplo, do francês Michel Foucault. Em busca de uma nova dimensão para seu pensamento ético-político que se encontrava, ao final de sua vida, em algumas aporias difíceis de solucionar, Foucault recorreu às formas gregas de usar o poder que eram muito diferentes das relações de poder as quais estamos habituados. Era totalmente descabido alguém ocupar uma posição de destaque – por exemplo, o governo de uma grande propriedade, ou até mesmo o exercício do governo das cidades gregas – sem que fosse reconhecidamente senhor e governador de si mesmo. Para os gregos assegurar o governo e a direção de si mesmo, a gestão de sua casa e participar no governo da cidade, eram três práticas da mesma natureza que não poderiam acontecer abrindo mão uma da outra. Dentre estas três, sem dúvida alguma, a mais difícil era a primeira: o governo de si – afirmamos isso tendo em mente a lembrança histórica dos vários administradores públicos que ficaram famosos por seus descontroles pessoais que, em muitos casos, levaram seus governos à ruina. Neste sentido, diante de tal dificuldade, e da necessidade do governo de si para o bom desempenho da gestão de sua casa e do governo da cidade, os gregos desenvolveram a relação a si:

a encrateia, a relação a si enquanto domínio, é um poder que se exerce sobre si mesmo no poder que se exerce sobre os outros (como poderíamos pretender governar os outros se não governássemos a nós mesmos?), de modo que a relação a si se torna princípio de regulamentação interna relativamente aos poderes constituintes da política, da família, da eloquência e dos jogos, e até da virtude (FOUCAULT apud DELEUZE, 2012, p. 135).

Trata-se do esforço em fazer com que as relações de poder, que caracterizam nosso modo de existir com outras pessoas, dobre essa força sobre nós mesmos para darmos lugar a outros tipos de relações – as mais virtuosas. A possibilidade de recuperação contemporânea desta ética foucaultiana não é uma exclusividade do âmbito filosófico. Podemos dizer sem medo que o apóstolo Paulo era plenamente consciente dessa dinâmica por dois aspectos: (1) é esta a sua recomendação para os oficiais da igreja nascente: alguém de virtudes (governo de si), que administre bem sua casa (governo da família) para que possa governar bem a igreja (governo dos outros) (cf. 1Tm 3.1ss; 3.12ss; Tt 1.6ss)1; (2) o apóstolo Paulo utiliza a mesma palavra para se referir a esta relação a si que é recuperada por Foucault: o termo grego enkrateia.

Os gregos tinham duas palavras para se referir à relação de alguém consigo mesmo: a akrasia e a enkrasia. A primeira diz respeito a alguém que “age por causa de seu estado afetivo, sabendo que o que faz é reprovável” (ARISTÓTELES, 1996, VII, 1145b12), ou seja, o bêbado que sabe que precisa parar de beber, mas não para; o diabético que sabe que não pode ingerir doce, mas não consegue parar de fazê-lo, etc são exemplos de pessoas acráticas. Segundo um dos bons intérpretes da obra de Aristóteles, “não há dúvida de que é a epithumia que impede o acrático de efetuar a inferência do bom silogismo e que permite ou incita o acrático a fazer o mau silogismo e a inferir a má conclusão” (DESTRÉE, 2004, p. 145). Vale ressaltar que a epithumia é o mesmo termo utilizado pelo apóstolo Paulo para se referir àqueles desejos que precisam ser controlados pelo cristão quando se tornam desenfreados (1Ts 4.3-8). Neste sentido, o diálogo do apóstolo Paulo, recuperado contemporaneamente por Foucault – em âmbitos divergentes, mas não contraditórios –, a respeito do governo de si, nada mais é que uma temática conhecida entre os gregos antes mesmo de Sócrates. A diferença, e grande contribuição do apóstolo para este assunto, é que ele não só acusa a akrasia alheia, mas também fala para controlar estes desejos (epithumias) exacerbados. A pergunta que surge à essa altura da argumentação é: como eu as controlo? O apóstolo nos responde no mesmo momento que exige este controle: “Cada um saiba controlar o próprio corpo […] aquele que rejeita estas coisas não está rejeitando o homem, mas a Deus, que lhes dá o seu Espírito Santo” (1Ts 4.3-8). O mesmo Deus que exige controle sobre nossos corpos é Aquele que dá as condições de possibilidade de controlá-lo: seu Espírito Santo habitando em nós.

Dizer que nosso corpo é local de habitação do Espírito Santo significa, dentre outras coisas, que nosso corpo já não precisa mais ser regido e controlado pelos apetites ou forças externas a nós. Podemos ter controle de nós mesmos através do poder do Espírito Santo que atua em nós. Na verdade, para ser mais preciso, a enkrateia grega é um dos aspectos do fruto do Espírito, traduzido para o português justamente por “domínio próprio” (grg. enkrateia) (Gl 5.23; At 24.25; 2Pe 1.6), ou seja, o que o apóstolo está propondo é tudo aquilo que a filosofia grega e alguns da contemporaneidade estão buscando; o governo de si, que gera a virtude necessária para gerir nossa vida, nossa casa e agirmos de forma apropriada no mundo, é um fruto do Espírito Santo. É algo que tão somente o Espírito de Deus pode produzir em nós. A teologia política que a Bíblia nos apresenta é de mulheres e homens que governam a si e os outros motivados e potencializados pelo Espírito Santo de Deus que habita em seus corpos.

A forma de superarmos nossas incapacidades e descontroles emocionais (akrasia) é através do domínio próprio (enkrateia), produzido em nós pelo Espírito de Deus. Esta produção, entretanto, não acontece magicamente a partir do momento que alguém entrega sua vida a Cristo. Não nos tornamos pessoas controladas nem passamos a estar plenamente no exercício do governo de nossas vidas só porque confessamos que Jesus é o nosso Senhor. Existe uma parcela de esforço sobre nós mesmos para que este fruto do Espírito amadureça em nossas vidas. No ambiente da vida cristã este esforço se chama disciplinas espirituais. Quanto a isso, o apóstolo Paulo nos diz o seguinte:

Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito, falando entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor, dando graças constantemente a Deus Pai por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo (Efésios 5.18-20).

Neste texto – em que as pessoas só conseguem enxergar a proibição de ingerir bebidas alcoólicas – o apóstolo Paulo nos mostra que o modo de sermos cheios do Espírito, isto é, de sermos espirituais e produzirmos em nossas vidas o fruto do Espírito, é através das chamadas disciplinas espirituais; conhecendo e recitando as Escrituras, compondo e cantando músicas a Deus, fazendo orações de súplica e ações de graça por todos os motivos, mantendo-se em comunhão com outras pessoas que estão envolvidas nas mesmas atividades, etc. Neste sentido, mas em outras palavras, o nosso corpo é o lugar onde exercemos força e disciplina para dar lugar a outra forma de vida, caracterizada não mais pela regência e controle alheios a nós, mas antes, marcada pela dinâmica do Espírito Santo que agora habita em nós. Liberdade e controle de si estão diretamente ligados com disciplina e força sobre nós mesmos, ao invés de uma vida despreocupada e libertina – como tradicionalmente o tema foi tratado e reduzido. Não é possível criar uma existência autêntica, autônoma e virtuosa sem disciplinas espirituais. Mais do que isso, não é possível experimentar uma existência corporal verdadeira se não for através e pelo poder do Espírito Santo.2

Tudo isto muda consideravelmente as percepções que são padrão em nossa sociedade, mas que carecem de crítica. Alguém considerado livre e senhor de seu corpo, hoje em dia, é aquele que o usa de maneira despreocupada e licenciosamente. Contudo, à luz do raciocínio desenvolvido até aqui, uma forma de vida e genuíno uso livre e virtuoso de seu corpo é de uma ordem totalmente diferente. Perguntamos então como pretendemos desenvolver um discipulado holístico, que leve em fina consideração a importância de nossos corpos, se não dedicamos tempo, força, dinheiro e habilidade às disciplinas espirituais? Como pretendemos gerir nossa vida, nossa família e sermos ativos na vida pública se estamos ocupados demais assistindo novela ou atualizando o facebook, ao invés de estarmos separando tempo para leitura e meditação bíblica, oração, jejum, comunhão e serviço com os outros? Se nossas igrejas são conhecidas pelos seus vexames políticos e sua irrelevância social, é porque seus membros e sua liderança não estão exercendo o governo de si adequadamente. Não existe mais valorização das disciplinas bíblicas que são o único meio de conseguirmos gerar em nós o fruto do Espírito, isto é, de sermos verdadeiramente espirituais em nossos corpos.

A espiritualidade bíblica dos corpos só é possível porque o Espírito Santo habita em nós, fornecendo condições de possibilidade de termos domínio próprio sobre nós mesmos e desencadearmos uma vida virtuosa, tanto na vida pública quanto na vida privada. Neste sentido, podemos terminar com as exortações do apóstolo Pedro a respeito da necessidade de empenho e esforço na espiritualidade cristã:

empenhem-se para acrescentar à sua fé a virtude; à virtude o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio (enkrateia); ao domínio próprio a perseverança; à perseverança a piedade; à piedade a fraternidade; e à fraternidade o amor. Porque, se essas qualidades existirem e estiverem crescendo em suas vidas, elas impedirão que vocês, no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, sejam inoperantes e improdutivos. Todavia, se alguém não as tem, está cego, só vê o que está perto, esquecendo-se da purificação dos seus antigos pecados. Portanto, irmãos, empenhem-se ainda mais para consolidar o chamado e a eleição de vocês, pois se agirem dessa forma, jamais tropeçarão, e assim vocês estarão ricamente providos quando entrarem no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2 Pedro 1.5-11).

Referências bibliográficas
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda, 1996.
DELEUZE, Gilles. Foucault. Trad. Pedro Elói Duarte. Lisboa: Edições 70, 2012, p. 135.
DESTRÉE, Pierre. Acrasia entre Aristóteles e Sócrates. In: Analytica: revista de filosofia. Rio de Janeiro: UFRJ. Seminário de Filosofia da linguagem, 2004 – vol. 8, n. 2, p. 145.

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1Cabe ressaltar aqui que, nem Foucault, muito menos o apóstolo Paulo, estão dizendo que se alguém é um bom governante de sua casa será um bom governante político ou eclesiástico (teológico-político). É justamente o contrário. Para citar um exemplo histórico apenas – o mais extremo – podemos nos lembrar da argumentação de Hannah Arendt a respeito da banalidade do mal presente nos oficiais nazistas na segunda guerra mundial. Segundo a filósofa, o que caracterizou o modo de proceder daqueles homens não foi a monstruosidade moral, mas sim a banalidade do mal. Na maioria das vezes, os oficiais responsáveis pelas mortes de centenas de habitantes dos campos de concentração e extermínio eram bons pais de família, membros fieis de igreja e pessoas que poderíamos julgar serem “boas” em seus afazeres privados. Contudo, isso não foi suficiente para que eles se mostrassem virtuosos no seu exercício político (veja mais em: Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém, Companhia das Letras). O que tanto Foucault, quanto Arendt e principalmente o apóstolo Paulo estão argumentando a favor é o que faltou a estes “bons homens” que oficiaram no regime nazista:  não basta virtude para gerir sua casa, pois as virtudes que o exercício público exigem (tanto na igreja quanto na política) é de outra ordem. Por isso, aquele que visa ser um oficial da igreja (um agente público de prática política) precisa ser alguém que gere bem sua casa, mas também alguém que dobre sobre si força de domínio e controle para dar lugar a uma ética virtuosa que se reverte em prática política adequada. Ter uma não é consequência necessária da outra, ainda que o projeto é ter as duas em mútua consequência e retroalimentação.
2Uma abordagem que também aproxima de forma muito profícua a perspectiva foucaultiana com a teologia bíblica reformada é a do professor James K. A. Smith, do Calvin College. Em seu livro Who’s Afraid of Postmodernism?: Taking Derrida, Lyotard, and Foucault to Church (Baker Academic: Grand Rapids, 2006) ele não só nos apresenta uma elucidativa introdução ao pensamento do filósofo francês, como também perspectivas adequadas para utilizarmos as contribuições de sua filosofia em nossos projetos de discipulado bíblico, principalmente no que diz respeito às disciplinas espirituais.

1 COMENTÁRIO

  1. Texto encorpado nas argumentaçäes. Com texturas teológicas, morais e político-sociais visando atitude como resposta ao proposto. parabéns ao autor. Que degustamos o saboroso fruto do Espírito (domínio próprio {enkrateia}), a este não h  contra-indicação.

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