Introdução à Cosmovisão Reformada: Anotações quase aleatórias (6)

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Leia antes a parte 5 aqui

1) TRABALHO, POUPANÇA E FRUGALIDADE
Calvino defendeu três princípios éticos fundamentais: Trabalho, Poupança e Frugalidade.1  Note-se que a poupança deveria ter sempre o sentido social.2  Comentando 2Co 8.15, diz: “Moisés admoesta o povo que por algum tempo fora alimentado com o maná, para que soubesse que o ser humano não é alimentado por meio de sua própria indústria e labor, senão pela bênção de Deus. Assim, no maná vemos claramente como se ele fosse, num espelho, a imagem do pão ordinário que comemos. (…) O Senhor não nos prescreveu um ômer ou qualquer outra medida para o alimento que temos cada dia, mas ele nos recomendou a frugalidade3  e a temperança, e proibiu que o homem exceda por causa da sua abundância.4  Por isso, aqueles que têm riquezas, seja por herança ou por conquista de sua própria indústria e labor, devem lembrar que o excedente não deve ser usado para intemperança ou luxúria, mas para aliviar as necessidades dos irmãos. (…) Assim como o maná, que era acumulado como excesso de ganância ou falta de fé, ficava imediatamente putrificado, assim também não devemos alimentar dúvidas de que as riquezas que são acumuladas à expensa de nossos irmãos são malditas, e logo perecerão, e seu possuidor será arruinado juntamente com elas, de modo que não conseguimos imaginar que a forma de um rico crescer é fazendo provisões para um futuro distante e defraudando os nossos irmãos pobres daquela ajuda que a eles é devida”.5

Calvino também nos adverte quanto ao perigo de transformarmos o nosso trabalho em objeto de avareza justamente pela falta de fé na provisão do Senhor: “O que nos torna mais avarentos do que deveríamos em relação ao nosso dinheiro é o fato de sermos tão precavidos e enxergarmos tão longe quanto possível os supostos perigos que nos podem sobrevir, e assim nos tornamos demasiadamente cautelosos e ansiosos, e passamos a trabalhar tão freneticamente como se devêssemos suprir de vez as necessidades de todo o curso de nossa vida, e afigura-se-nos como grande perda quando uma mínima parcela nos é tirada. Mas aquele que depende da bênção do Senhor tem o seu espírito livre dessas preocupações ridículas, enquanto que, ao mesmo tempo, tem suas mãos livres para a prática da beneficência”.6
 
2) FUNDAMENTOS DA NOSSA ÉTICA

“Se as reformas de Calvino desempenharam um papel central na história do Ocidente, elas o fizeram não por serem princípios de organização que moldaram desenvolvimentos políticos e econômicos, e sim por causa de suas exigências de que os crentes e as congregações conformassem, individualmente, sua vida à Palavra de Deus” –  D.G. Hart.7

Quando há alguns fui consultado sobre a publicação de uma seleção das cartas de Calvino em português,8  entre outras ideias, sugeri que a obra passasse por um trabalho de inserção de notas cruzando as suas cartas com a sua teologia expressa especialmente nas Institutas e em seus comentários bíblicos, à semelhança do que fora feito na edição das Institutas de 1541 publicada em português em 2006.9  Desta forma, teríamos uma aproximação por via inversa: partiríamos de suas cartas para a sua teologia. Não obtive resposta.

As cartas de Calvino bem como os seus sermões revelam uma preocupação eminentemente pastoral bem como uma coerência de pensamento amparada nas Escrituras. A sua fé e prática eram decorrentes de sua compreensão bíblica. Não é de se estranhar de que próximo do final da vida, depois de um ministério profícuo em Genebra (1536-1538; 1540-1564), no leito, tendo os ministros de Genebra à sua volta, despede-se (28/04/1564), e lhes diga o que empiricamente já sabiam por meio de seu convívio: “A respeito de minha doutrina, ensinei fielmente e Deus me deu a graça de escrever. Fiz isso do modo mais fiel possível e nunca corrompi uma só passagem das Escrituras, nem conscientemente as distorci….”.10
 
A ética de Calvino tem como um de seus fundamentos a doutrina da Providência. Crê que é impossível uma vida cristã autêntica sem o descanso proveniente da confiança subjetiva no cuidado de Deus: “Quem quer que não confie na providência divina, bem como não encomende sua vida à fiel diretriz dela, ainda não aprendeu corretamente o que significa viver. Em contrapartida, aquele que confiar a guarda de sua vida ao cuidado divino, não duvidará de sua segurança mesmo em face da morte”.11 

Ele está convencido de que “a regra que devemos observar, quando estamos em angústia e sofrimento, é esta: que busquemos conforto e alívio só na providência de Deus; porque em meio à nossas agitações, apertos e preocupações devemos encher-nos da certeza de que sua função peculiar consiste em prover alívio ao miserável e aflito”.12

A doutrina da Providência propicia ao crente “o melhor e mais doce fruto”13  resultante da compreensão de que tudo está nas mãos de Deus. Nada acontece por acaso: para o cristão não há lugar para o “azar”, “sorte” ou “acaso”. Deus dirige todas as coisas de forma pessoal, sábia e amorosa! “A providência de Deus, qual é ensinada na Escritura, é o oposto da sorte e dos acontecimentos atribuídos ao acaso. (…) Todos e quaisquer eventos são governados pelo conselho secreto de Deus”.14 

A certeza do cuidado de Deus é suficiente para acalmar a nossa ansiedade e a nos alegrar em Deus:

“Não há outro método de aliviar nossas almas da ansiedade, senão repousando sobre a providência do Senhor (…). Nossos desejos e petições devem ser oferecidos com a devida confiança em sua providência, pois quem há que ore com clamor de espírito e que, com inusitada ansiedade e vencido pela inquietação, parece resolvido a ditar termos ao Onipotente? Em oposição a isso, Davi a recomenda como sendo a devida parte da modéstia em nossas súplicas para que transfiramos para Deus o cuidado daquelas coisas que pedimos, e não pode haver dúvida de que o único meio de refrear nossa excessiva impaciência é mediante a absoluta submissão à divina vontade quanto às bênçãos que queremos nos sejam concedidas”.15

Daí a importância de mantermos nossa fé amparada em Deus, que cuida de nós não nos sendo indiferente: “…. Quando nada senão destruição se manifestar ante nossos olhos, para qualquer lado que nos viremos, lembremo-nos de erguê-los em direção do trono celestial, donde Deus vê tudo o que se faz aqui em baixo”.16 

Qual a implicação ética disso tudo? Indiferença? Não. Analisemos este ponto.

A compreensão de Calvino a respeito da direção de Deus sobre todas as coisas, ao contrário do que poderia parecer, não o leva à ociosidade ou a um tipo de perspectiva fatalista afirmando que nada podemos fazer a não ser nos contentar com o que está previamente fixado por uma causa sobrenatural. Pelo contrário,  sua compreensão de providência de Deus inspira-o ao trabalho, consciente de que somos  instrumentos de Deus para a execução do Seu sábio e eterno propósito. Esta doutrina tem, portanto, uma “urgência pragmática” para todo o povo de Deus. O tempo é um recurso precioso que Deus nos concede para o progresso em todas as esferas de nossa vida.17

A ética de Calvino leva em questão duas necessidades básicas:
1) A consideração sobre o drama da existência humana, sujeita ao pecado e à morte. O pecado afetou  a integralidade do homem;18
 2) Explorar as implicações de nossa fé: responsabilidade humana.19 

O pecado tende a anestesiar a nossa consciência nos acomodando à paisagem de miséria cotidiana nas diversas molduras de nossa existência. A Palavra, no entanto, desperta as nossas consciências.

Portanto, a certeza do cuidado de Deus não nos deve conduzir à letargia, antes a nos tornar agentes deste cuidado. Devemos ter em vista que o cuidado de Deus envolve pessoas das quais Ele cuida e, ao mesmo tempo, pessoas por meio das quais Ele assiste. Deste modo, somos agentes ordinários de Deus − ainda que não tenhamos o discernimento constante deste fato em nossas ações − no Seu socorro. Muitas vezes em nossas ações ordinárias estamos sendo agentes de Deus em resposta a orações dos fiéis. Existe ética porque há um Deus providente. A ética cristã é uma resposta à certeza do cuidado de Deus.  Somos responsáveis diante de Deus por levar adiante o que nos compete, dentro de nossa esfera: “Se o Senhor nos confiou a proteger a nossa vida, que a cerquemos de cuidados; se oferece recursos, que os usemos; se nos previne de perigos, a eles não nos arrojemos temerariamente; se fornece remédios, não os negligenciemos”.20

A Lei de Deus revela o nosso pecado, evidenciando a sua gravidade21  e, aponta-nos o caminho proposto por Deus. Conforme já citamos, a Lei Moral permanece: “…. A lei moral de Deus é a verdadeira e perpétua regra de justiça, ordenada a todos os homens, de todo e qualquer país e de toda e qualquer época em que vivam, se é que pretendem reger a sua vida segundo a vontade de Deus. Porque esta é a vontade eterna e imutável de Deus: que Ele seja honrado por todos nós, e que todos nós nos amemos uns aos outros”.22  A Lei, portanto, nos conduz à graça que brilha de forma magnífica na face de Cristo.23

A ética cristã é fortemente marcada pela certeza de que a nossa salvação é por graça; pertence totalmente a Deus e, ao mesmo tempo, pela consciência da necessidade de sermos obedientes à Lei de  Deus: “Um cristão medirá todas as suas ações por meio da lei de Deus, seus pensamentos secretos estarão sujeitos à sua divina vontade”.24

A salvação é totalmente pela graça, contudo, esta salvação, libertação do domínio do pecado, não nos conduz a uma ética anomista (sem lei),25  antes a um compromisso de fé, de busca de coerência entre o crer, fazer e ensinar, na certeza de que somos agentes da providência de Deus, convictos de que temos a responsabilidade de viver a altura de nossa  fé no Senhor Jesus Cristo, moldando a nossa ética pela Palavra de Deus. Em outras palavras: a santificação se reflete em nossa ética.

3) O COMPORTAMENTO CRISTÃO NA RIQUEZA E NA POBREZA

Calvino, interpretando Hb 13.16, entende que os benefícios que prestamos aos homens se constituem parcialmente em culto a Deus, sendo isto uma grande honra que Deus nos concede. Não amar ao nosso próximo constitui-se numa ofensa a Deus e às pessoas. Por outro lado, o nosso auxílio recíproco revela a unidade do Espírito em nós.

“Embora Deus não possa receber de nós nenhum benefício, no entanto considera nosso ato de invocar seu Nome como Sacrifício; aliás, como o principal dos sacrifícios, que supre a falta de todos os demais. Além disso, sejam quais forem os benefícios que façamos pelos homens, Deus os considera como feitos a Ele próprio, e lhes imprime o título de sacrifício, para que fique evidente que os elementos da lei são agora não apenas supérfluos, mas até mesmo nocivos, uma vez que nos desviam da genuína forma de sacrificar.

“Em suma, o significado consiste em que, se porventura queremos oferecer sacrifício a Deus, então devemos invocar seu Nome, fazer conhecida sua munificência através de ações de graça e fazer o bem aos nossos irmãos. Esses são os verdadeiros sacrifícios com os quais os verdadeiros cristãos devem comprometer-se; e não sobra nem tempo nem lugar para qualquer outro.26

“Não é uma honra trivial o fato de Deus considerar o bem que fazemos aos homens como sacrifício oferecido a Ele próprio, e o fato de valorizar tanto nossas obras, que as denomina de santas. Portanto, onde nosso amor não se manifesta, não só despojamos as pessoas de seus direitos, mas também a Deus mesmo, o qual solenemente dedicou a Si o que ordenou fosse feito em favor dos homens”.27

“‘Repartir com os outros’ tem uma referência mais ampla do que fazer o bem. Inclui todos os deveres pelos quais os homens se auxiliam reciprocamente; e é um genuíno distintivo do amor que os que se encontram unidos pelo Espírito de Deus comunicam entre si”. 28

Seguem alguns princípios apresentados e vivenciados por Calvino, concernentes ao uso dos bens concedidos por Deus. Pode-se perceber em suas orientações a fundamentação teológica de sua prática.

Sobre a vida exemplar de Calvino, escreve André Biéler:

“…. a pregação do reformador é o prolongamento de sua ação. A modéstia em que vive com seus colegas é proverbial e toca as raias da pobreza.29  Suas providências em favor dos deserdados são constantes. Importuna persistentemente os conselheiros da cidade para que tomem medidas de atendimento aos pobres. Depois da chacina dos protestantes em Provence, em 1545, organiza pessoalmente uma coleta geral, subindo as escadarias dos edifícios repletos de refugiados30  para recolher a esmola de todos”.31

Vejamos, agora, alguns dos princípios estabelecidos nas Institutas.

A. Em tudo devemos contemplar o criador, e dar-lhe graças

“Assim também não deixemos passar nenhum tipo de prosperidade que nos beneficie, ou que beneficie a outros, sem declarar a Deus, com louvor e ação de graças, que reconhecemos que tal bênção provém do Seu poder e da Sua bondade” − João Calvino.32

“Ao executarem o que Deus lhes determinou, os homens devem começar sempre com oração, invocando o nome de Deus e oferecendo-Lhe seus labores, para que Ele os abençoe” − João Calvino.33

A ingratidão para com Deus é resultado, em parte, de nossa não consideração de Seus feitos:34  “…. a desconsideração quase universal leva os homens a negligenciarem os louvores a Deus. Por que é que tão cegamente olvidam as operações de sua mão, senão justamente porque nunca dirigem seriamente sua atenção para elas? Precisamos ser despertados para este tema”.35 Portanto, devemos cultivar o tipo de sensibilidade espiritual que nos faça enxergar com gratidão e louvor os atos de Deus em nossa existência, a fim de não sermos injustos para com Ele: “…. Quando Deus, em qualquer tempo, nos socorre em nossa adversidade, cometemos injustiça contra seu nome se porventura esquecermos de celebrar nossos livramentos com solenes reconhecimentos”.36  “Deus é o autor de todo bem, segue-se que devemos receber tudo como vindo de Sua mão, e com incessante ação de graças. Reconheçamos igualmente que não haverá nenhuma boa maneira de fazer uso dos benefícios que generosa e abundantemente Ele derrama sobre nós, se não Lhe estivermos dando constante louvor, com ações de graças”.37

A gratidão, portanto, é resultado da compreensão de que tudo que temos, foi criado por Deus a fim de que reconhecêssemos o seu autor, rendendo-lhe, assim, graças. “Às vezes pensamos que podemos alcançar facilmente as riquezas e as honras com nossos próprios esforços, ou por meio do favor dos demais; porém, tenhamos sempre presente que estas coisas não são nada em si mesmas, e que não poderemos abrir caminho por nossos próprios meios, a menos que o Senhor queira nos prosperar”.38 

Os recursos de que dispomos devem ser um estímulo a sermos agradecidos a Deus por sua generosa bondade:

“À luz desse fato aprendemos, também, que os que são responsáveis pelo presunçoso uso da bondade divina, se aproveitam dela para orgulhar-se da excelência que possuem, como se a possuíssem por sua própria habilidade, ou como se a possuíssem por seu próprio mérito; enquanto que sua origem deveria, antes, lembrá-los de que ela tem sido gratuitamente conferida aos que são, ao contrário, criaturas vis e desprezíveis e totalmente indignas de receber algum bem da parte de Deus. Qualquer qualidade estimável, pois, que porventura virmos em nós mesmos, que ela nos estimule a celebrarmos a soberana e imerecida bondade que a Deus aprouve conceder-nos”.39

B. Usemos deste mundo como se não usássemos dele
Devemos viver neste mundo com moderação, sem colocar o coração nos bens materiais, pois, tais preocupações nos fazem esquecer a vida celestial e de “adornar nossa alma com seus verdadeiros atavios”.40  Comentando o Salmo 30.6 – quando Davi reflete a sua momentânea confiança no sucesso adquirido –, diz: “…. Davi reconhece que havia sido justa e merecidamente punido por sua estulta e precipitada confiança, ao esquecer-se de sua mortal e mutável condição de ser humano, e ao pôr demasiadamente seu coração na prosperidade”.41  Em outro lugar, fazendo menção da mesma passagem, escreve: “Davi afirma que a prosperidade havia obnubilado de tal forma seus sentidos, que deixou de pôr seus olhos na graça de Deus, da qual deveria depender continuamente. Em vez disso, creu que poderia andar por suas próprias forças e imaginou que não cairia jamais”.

Portanto, devemos usar nossos bens com moderação:

“…. ainda que a liberdade dos fiéis com respeito às coisas externas não deva ser limitada por regras ou preceitos, sem dúvida deve regular-se pelo princípio de que deve regalar-se o mínimo possível; e, ao contrário, que temos que estar mui atentos para cortar toda superfluidade, toda vã ostentação de abundância – devem estar longe da intemperança! –, e guardar-se diligentemente de converter em impedimentos as coisas que se lhes há dado para que lhes sirvam de ajuda”.43  (Jo 15.19; 17.14; Fp 3.20; Cl 3.1-4; Hb 11.16; 1Jo 2.15).

Devido aos nossos desejos incontrolados, devemos rogar a Deus que nos dê moderação, “pois a única forma de agir com moderação própria é quando Deus governa e preside nossos afetos”.44

Para que não nos ensoberbeçamos, Deus que nos conhece perfeitamente, preventivamente, para que não sejamos tentados, equilibra a abundância com a amargura:

“Deus modera a doçura da riqueza com amargura; e não permite que a mente de Seu servo fique encantada em demasia com isto. E sempre que uma estimativa enganadora de riquezas nos impulsiona a desejá-la imoderadamente, porque nós não percebemos os grandes prejuízos que trazem junto com elas; deixa a lembrança desta história [Abraão e Ló] ajudar a conter tal imoderada fixação. Além disso, tão frequentemente o rico ache qualquer dificuldade que surja da sua riqueza; faz com que aprenda a purificar a sua mente por este medicamento, que eles não podem se tornar excessivamente devotados às coisas boas da presente vida. E verdadeiramente, a menos que o Senhor ocasionalmente ponha rédea nos homens, a que profundidades não cairiam quando abundassem em sua prosperidade? Por outro lado, se nós somos oprimidos com pobreza, faz-nos saber, que, por este método também, Deus corrige os males ocultos de nossa carne. E por fim, permite que aqueles que têm abundância lembrem-se de que estão rodeados de espinhos e tomem muito cuidado para não ser picados”.45

C. Suportemos a pobreza; usemos moderadamente da abundância
Seguindo o que Paulo disse aos Filipenses: “Tanto sei estar humilhado, como também ser honrado….” (Fp 4.12), comenta:

“Quem sofre a pobreza com impaciência, mostra o vício contrário na abundância. Quero dizer com isso que quem se envergonha de andar pobremente vestido, se vangloriará de ver-se ricamente ataviado; que quem não se contenta com a mesa frugal, se atormentará com o desejo de outra mais rica e abundante”.46

“O pobre deveria aprender a ser paciente sob as privações, para não se encontrar atormentado com uma excessiva paixão pelas riquezas”.47

“Devemos aprender a superar a pobreza quieta e pacientemente, e desfrutar da abundância com moderação”.48

“Para assegurarmos que a suficiência [divina] nos satisfaça, aprendamos a controlar nossos desejos de modo a não querermos mais do que é necessário para a manutenção de nossa vida”.49

O nosso desejo incontrolado nos coloca em oposição direta à vontade de Deus: “Todo aquele que se permite desejar mais do que lhe é necessário, francamente se põe em direta oposição a Deus, visto que todas as luxúrias carnais se lhe opõem diretamente”.50

A tendência é de nos envaidecermos com a abundância e nos deprimir com a carência. Para muitos de nós, não se ensoberbecer com a riqueza pode ser mais difícil do que não se desesperar com a pobreza.51  “Aquele que é impaciente sob a privação manifestará vício oposto quando estiver no meio do luxo”.52  Paulo sabia, por experiência própria, agir de modo santo em ambas as circunstâncias. Em tudo Paulo era agradecido a Deus (1Ts 5.18), sabendo que em Cristo poderia suportar e vencer qualquer situação. Calvino observa que temos que usar moderadamente dos recursos que Deus nos deu, para que não caiamos na torpeza do excesso, da vanglória e da arrogância (Rm 13.14).53  “Os bens terrenos à luz de nossa natural perversidade, tendem a ofuscar nossos olhos e a levar-nos ao esquecimento de Deus, e portanto devemos ponderar, atentando-nos especialmente para esta doutrina: tudo quanto possuímos, por mais que pareça digno da maior estima, não devemos permitir que obscureça o conhecimento do poder e da graça de Deus”.54

Calvino insiste no ponto de que aqueles que não aprenderem a viver na pobreza, quando ricos, revelarão a sua arrogância e orgulho. O apóstolo Paulo constitui-se num exemplo de simplicidade em qualquer situação (Fp 4.12).

Ele também entende que na pobreza é que tendemos a nos tornar mais humildes e fraternos. Devemos aprender a repartir e, também, a ser assistidos pelos nossos irmãos:

“Todas as pessoas desejam possuir o bastante que as poupe de depender do auxílio de seus irmãos. Mas quando ninguém possui o suficiente para suas necessidades pessoais, então surge um vínculo de comunhão e solidariedade, pois que cada um se vê forçado a buscar empréstimo dos outros. Admito, pois, que a comunhão dos santos só é possível quando cada um se vê contente com sua própria medida, e ainda reparte com seus irmãos as dádivas recebidas, e em contrapartida admite ser também assistido pelas dádivas alheias”.55

Aos pastores e aos crentes em geral, Calvino apresenta uma recomendação:

“Os ministros devem viver contentes com uma mesa frugal, e devem evitar o perigo do regalo e do fausto. Portanto, até onde suas necessidades o requeiram, que os crentes considerem toda a sua propriedade como à disposição dos piedosos e santos mestres”.56

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1É interessante notar que em 1513, N. Maquiavel (1469-1527), na sua obra O Príncipe, dedicada a dedicatória a Lorenzo II de Médici (1492-1519), diz: “…. um príncipe deve gastar pouco para não ser obrigado a roubar seus súditos; para poder defender-se; para não se empobrecer, tornando-se desprezível; para não ser forçado a tornar-se rapace; e pouco cuidado lhe dê a pecha de miserável; pois esse é um dos defeitos que lhe dão a possibilidade de bem reinar” (N. Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. IX), 1973, p. 72). (grifos meus).
 2Veja-se por exemplo, J. Calvino, As Institutas, III.7.5-6; III.10.4-5; Idem., Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Edições Paracletos, 1995, (2 Co 8), p. 165ss.; André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 643; Hermisten M.P. Costa, João Calvino 500 anos, São Paulo: Cultura Cristã, 2009). Quanto à ação prática dos conceitos de Calvino em Genebra, Vejam-se, entre outros: W. Fred Graham, The Constructive Revolutionary: John Calvin & His Socio-Economic Impact, Richimond, Virginia: John Knox Press, 1971, p. 97ss.; Ronald S. Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, passim; Alderi Souza de Matos, Amando a Deus e ao Próximo: João Calvino e o Diaconato em Genebra: In: Fides Reformata. São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 2/2 (1997), p. 69-88; William C. Innes, Social Concern in Calvin’s Geneva, Pennsylvania: Pickwick Publications, 1983.
3“A Igreja Romana, afirmava-se, por intermédio do exemplo de seus governantes encorajara o luxo e a ostentação; os membros da Igreja Reformada devem ser econômicos e modestos. (…) O Calvinismo, em suma, significava não apenas nova doutrina teológica e governo eclesiástico, mas nova escala de valores morais e novo ideal de conduta social” (R.H. Tawney, A Religião e o Surgimento do Capitalismo, São Paulo: Editora Perspectiva, 1971, p. 116).
4Referindo-se ao texto de Tt 2.11-14, Calvino comenta:     “O apóstolo resume todas as ações da nova vida em três grupos: sobriedade, justiça e piedade. Indubitavelmente a sobriedade significa castidade e temperança, como também o uso puro e frugal das bênçãos temporais, incluindo a paciência na pobreza” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 33. Do mesmo modo: As Institutas, III.7.3). “Tudo quanto extrapola o uso natural é supérfluo. Não que algum uso mais liberal de possessões seja condenado como um mal em si mesmo, mas a ansiedade em torno delas é sempre pecaminosa” (João Calvino, As Pastorais, (1Tm 6.8), p. 169). Vejam-se também: João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 75; Idem., As Institutas, III.10.4.
5João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 8.15), p. 177. Veja-se também, João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 45. Em outro lugar: “As Escrituras exigem de nós e nos advertem a considerarmos que qualquer favor que obtenhamos do Senhor, o temos recebido com a condição de que o apliquemos em benefício comum da Igreja.
 “Temos de compartilhar liberalmente e agradavelmente todos e cada um dos favores do Senhor com os demais, pois isto é a única coisa que os legitima.
    “Todas as bênçãos de que gozamos são depósitos divinos que temos recebido com a condição de distribuí-los aos demais” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 36).
6João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, (2Co 8.2), p. 167-168. Calvino entende que durante todo o curso da vida humana, “os homens não conseguem nada por sua própria vigilância  e diligência, exceto se Deus os abençoar de cima” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker,  1981 (Reprinted), (Vol. II/1), (Dt 8.17), p. 401).
 7D.G. Hart, O Reformador da Fé e da vida. In: Burk Parsons, ed., João Calvino: Amor à devoção, doutrina e glória de Deus, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2010, p. 77.
 8João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009.
 9João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, 4 Vols.
10Calvin, Textes Choisis par Charles Gagnebin, Paris: LUF Egloff, © 1948, p. 42-43. Veja-se: Hermisten M.P. Costa, João Calvino 500 anos, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 26-27; 122.
11João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 31.5), p. 16.
12João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 10.1), p. 205.
13João Calvino, As Institutas, I.17.6.
14João Calvino, As Institutas, I.16.2. “Faz parte de seu [de Davi] propósito também exortar os fiéis a uma consideração da provi-dência de Deus, para que não hesitem em lançar sobre ela toda a sua preocupação” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.5), p. 222).
15João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 55.22), p. 488-489. “O Deus que governa o mundo por sua providência o julgará com justiça. A expectativa disto, devidamente apreciada, terá um feliz efeito na disposição de nossa mente, acalmando a impaciência e restringindo qualquer disposição ao ressentimento e retaliação em face de nossas injúrias” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 62.12), p. 584). “Os crentes gozam de genuína riqueza quando confiam na providência divina que os mantém com suficiência e não se desvanecem em fazer o bem por falta de fé. (…) Ninguém é mais frustrado ou carente do que aquele que vive sem fé, cuja preocupação com suas posses dilui toda a sua paz” (João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, (2Co 9.11), p 193-194).
16João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 9.6), p. 184.
 17Veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Fortuna e a Providência: Maquiavel e Calvino, dois olhares sobre a História e a Vida: In: IV Congresso Internacional de Ética e Cidadania – Filosofia e Cristianismo, 2008, São Paulo: Mackenzie, 2008. Vol. IV, p. 6-9.
 18Vejam-se: João Calvino, As Institutas, II.1.9,12 II.3.5; O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431; (Sl 62.9), p. 579; Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 2.1), p. 51; (Ef 2.2), p. 52; (Ef 4.17), p. 134-135. “Por causa do coração, totalmente embebido com o veneno do pecado, o homem nada pode gerar além dos frutos do pecado” (João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003, Cap. 5, p. 16).
19Veja-se : Erich Fuchs, L’Éthique de Calvin: Calvinisme et Capitalisme: In: Martin E. Hirzel; Martin Sallmann, eds., Calvin et le Calvinisme, Genève: Labor et Fides, 2008, p. 223ss.
20João Calvino, As Institutas, I.17.4. Veja-se: também, As Institutas, I.17.9.
 “Aquele que limitou a nossa vida, confiou-nos também a solicitude por ela, o cuidado dela; deu-nos os meios para preservá-la; e nos habilitou a prever os perigos, para que não nos surpreendam, dando-nos ao contrário remédios para capacitar-nos a preveni-los.
    “Agora se vê qual é o nosso dever. Se o Senhor nos dá a nossa vida para que dela cuidemos, que a preservemos; se nos dá os meios para fazê-lo, que os utilizemos; se Ele nos mostra os perigos, que não nos atiremos loucamente e sem propósito; se Ele nos oferece remédios, que não os menosprezemos” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, Vol. 3, (III.8), p. 77).
21Veja-se: João Calvino, As Institutas, II.7.6.
22João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, Vol. 4, (IV.16), p. 160.
23Veja-se: João Calvino, As Institutas, II.7.8.
24João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 31
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“Não pense que o Evangelho que o liberta da maldição da lei é uma licença para você desprezar e ignorar a lei” (R.C. Sproul, Oh! Como amo a tua lei. In: Don Kistler, org. Crer e Observar: o cristão e a obediência, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 14).
26João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 13.16), p. 394.
27João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 13.16), p. 394.
28João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 13.16), p. 395. 
29Vejam-se André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 229-230. O testemunho de Farel também é elucidati-vo. Ver: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 229.
30A grande quantidade de refugiados abrigados em Genebra, contribuiu para modelar determinadas ênfases em sua vida econômica e enriquecimento de diversas profissões. (Vejam-se alguns exemplos: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 216ss.).
31André Biéler, O Humanismo Social de Calvino, p. 45; André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 230.
32João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, Vol. 3, (III.9), p. 136.
 33João Calvino, Salmos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, Vol. 4, 2009, (Sl 127.2), p. 377.
34 “Pois jamais somos devidamente sensibilizados do quanto somos devedores a Cristo nem avaliamos suficientemente sua munificência para conosco, até que a extrema infelicidade de nosso estado seja por ele posta diante de nossos olhos” (João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, p. 16).
35João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 66.5), p. 624.
36João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 66.13), p. 630.
37João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, Vol. 3, (III.9), p. 110.
38João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 40-41.
39João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 8.4), p. 165-166.
 40Juan Calvino, Institución de la Religión Cristiana, Rijswijk, Países Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1967 (Nueva Edición Revisada), III.10.4.
 41João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 30.6), p. 631.
42João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 47.
43J. Calvino, Institución de la Religión Cristiana, III.10.4.
44João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, Vol. 3, (Sl 106.14), p. 678.
45John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis, Grand Rapids, Michigan: Eerdamans Publishing Co., 1996 (Reprinted), Vol. 1, (Gn 13.5), p. 369.
46Juan Calvino, Institución de la Religión Cristiana, III.10.5. Conforme já citamos, Calvino entendia que: “Quando depositamos nossa confiança nas riquezas, na verdade estamos transferindo para elas as prerrogativas que pertencem exclusivamente a Deus” (João Calvino, As Pastorais, (1Tm 6.17), p. 182).
 47João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 74.
48João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 73.
49João Calvino, As Pastorais, (1Tm 6.8), p. 169.
50João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 3, (Sl 106.14), p. 678.
51Veja-se: John Calvin, Commentary on the Epistle to the Philippians, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996, (Calvin’s Commentaries, Vol. XXI), (Fp 4.12) p. 124.
 52João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 74.
 53Juan Calvino, Institución de la Religión Cristiana, III.10.3.
 54João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 48.3), p. 355-356.
55João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 12.6), p. 430.
 56João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 6.6), p. 181.

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