A estrutura pactual da doutrina da perseverança dos santos

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Jesus cura o homem cego, 2008. Brian Jekel.

“A perseverança dos santos é um dom de Deus, pelo qual os eleitos, que foram justificados e santificados pela graça de Cristo são selados pelo Espírito Santo, de modo que nunca se afastam completamente dessa graça.”[1]

INTRODUÇÃO

Marcelo foi criado em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. Com seis anos de idade começou a frequentar uma igreja presbiteriana. Seus pais se converteram e começaram a levar os filhos à igreja. Ele amava a igreja, era aluno da escola dominical e participava dos acampamentos, gostava de ler a Bíblia e falava de Cristo aos seus colegas na escola.

Com 19 anos, foi cursar engenharia em Belo Horizonte. Frequentava uma igreja recomendada pelo seu pastor, pastoreada por um amigo e ex-colega de seminário. No primeiro ano continuou firme na igreja, no entanto, a pressão dos amigos, os valores materialistas ensinados pelos professores e uma namorada que não era cristã, levaram-no a esfriar em sua fé.

Visitando sua família durante o período de férias, seus pais demonstraram preocupação com sua vida espiritual. Sua mãe declarou que estava orando por ele. Por sua vez, seu pai o convidou para fazer alguns serviços e tiveram oportunidade de ter uma longa conversa. Após muitos impasses, Marcelo repensou sua vida e retomou os caminhos do Senhor.

De volta à capital, ele tinha uma nova postura. Não aceitava mais os constantes convites para as festas com os amigos da faculdade, reforçou seus conhecimentos doutrinários e conseguiu contemplar a fragilidade dos argumentos materialistas de seus professores. Além disso, terminou o namoro com a moça ímpia. Agora, segue firme na igreja como professor da escola dominical, além de liderar um grupo de estudos bíblicos na faculdade.

A caminhada espiritual de Marcelo ilustra a doutrina da Perseverança dos Santos. Louis Berkhof resume a doutrina da seguinte maneira: “Pode-se definir a perseverança como a contínua operação do Espírito Santo no crente, pela qual a obra da graça divina, iniciada no coração, tem prosseguimento e se completa. É porque Deus nunca abandona a sua obra que os crentes continuam de pé até o fim”.[2] Aqueles que são regenerados podem enfraquecer, cair em pecado e estar sob “o paternal desagrado” de Deus. Quando isso ocorre, o Espírito Santo os convence do seu pecado, os compele a arrepender-se e são, assim, restaurados.

A ESTRUTURA PACTUAL DA DOUTRINA DA PERSEVERANÇA DOS SANTOS

Pode-se apresentar a seguinte definição das alianças entre Deus e o homem nas Escrituras: “Uma aliança é um acordo imutável e divinamente imposto entre Deus e o homem, que estipula as condições do relacionamento entre as partes.”[3]

Deus se fez conhecido na relação pactual buscando um povo como sua possessão exclusiva. De fato, toda a teologia reformada tem seu núcleo central na teologia da aliança. Do início ao fim, a Escritura Sagrada mostra que Deus estabeleceu relacionamentos com os homens através de pactos. A noção de aliança é um dos conceitos-chave da Bíblia, os Pais da Igreja utilizaram a palavra latina testamentum para se referir às duas alianças da Bíblia: a antiga aliança entre Deus e Israel (Êx 19.5) e a nova aliança de Jeremias 31.31-34, que foi mediada por Jesus para a igreja (Hb 8.1-13).

Deus estabeleceu um pacto com seu povo lançando mão de mediadores a começar com Adão (Gn 3.14-21), sendo sucessivamente renovado ou restabelecido ao longo da história da redenção com Noé (Gn. 9.1-17), Abraão (Gn 15.12-21), Moisés (Êx 24.1-8) e Davi (2Sm 7.1-17). Todas essas alianças apontavam para um pacto perfeito e definitivo, celebrado por meio de Jesus, pacto do qual ele é o Deus Filho, o mediador homem e a própria vítima pactual cujo sangue foi vertido para aplacar a ira de Deus. O reverendo Onézio Figueiredo afirma: “O pacto que Deus fez com cada servo eleito por meio de seu Filho amado foi de caráter irrevogável. A permanência dos eleitos no pacto é providência divina, sendo os sacramentos e a Palavra meios e forças alimentadores e sustentadores indispensáveis.”[4]

A Bíblia diz em 2Timóteo 2.19: “Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo: o Senhor conhece os que lhe pertencem”. Jeremias 31.3, por sua vez, diz: “De longe se me deixou ver o Senhor, dizendo: com amor eterno eu te amei; por isso, com benignidade te atraí.” A expressão “conhecer” significa conhecimento em aliança. Os termos bíblicos para conhecer, tanto no Antigo como no Novo Testamento, abrangem diversas dimensões. Não se trata somente do aspecto intelectivo, mas compreende também o sentimento e o querer: “expressam uma relação pessoal entre o que conhece e o que é conhecido.”[5]

Portanto, a doutrina da Perseverança dos Santos faz parte do Pacto de Deus. O teólogo reformado anglicano James I. Packer resume bem a relação pactual de Deus, ao escrever que:

“A estrutura da aliança compreende a inteira administração da graça soberana de Deus. O ministério celestial de Cristo continua a ser o de Mediador de uma nova aliança (Hb 12.24). A Salvação é a salvação da aliança; a justificação, a adoção, a regeneração e a santificação são as misericórdias da aliança; a eleição foi a escolha que Deus fez dos futuros membros da comunidade de sua aliança, a Igreja; o batismo e a Ceia do Senhor, correspondendo à circuncisão e à Páscoa, são ordenanças da aliança; a lei de Deus é a lei da aliança, e sua observância é a expressão mais verdadeira de gratidão pela aliança da graça e de lealdade ao nosso Deus da aliança. Pactuar com Deus em resposta à sua aliança conosco deve constituir um exercício devocional regular para todos os crentes, seja na privacidade ou na Mesa do Senhor. Uma compreensão da aliança da graça guia-nos do começo ao fim e ajuda-nos a apreciar as maravilhas do amor salvífico de Deus.”[6]

A aliança da graça constitui o âmago da soteriologia reformada e afirma que a salvação, quer no Antigo quer no Novo Testamento, é pela graça somente mediante a fé em Jesus Cristo. A doutrina reformada histórica ensina que Deus tem um povo que é representado pelos crentes da era do Antigo Testamento e do Novo Testamento, para o qual ele tem um plano em todas as eras desde Adão: reunir esse povo em um só corpo. As Escrituras afirmam nitidamente que não há mais distinção entre judeus e gentios perante o Senhor. “Não há diferença entre judeus e gentios, pois o mesmo Senhor é Senhor de todos e abençoa ricamente todos os que o invocam” (Rm 10.12; veja Cl 3.11).

A perseverança até o fim é uma condição da aliança da graça. Consequentemente, se como condição da aliança a perseverança também é uma condição da justificação, então nenhuma pessoa pode ser justificada enquanto está neste mundo.

“Pois” — afirmou John Owen —, “uma condição suspende a existência de algo até que se satisfaça a condição necessária para sua existência”. Como consequência, ele não equaciona o ingresso na nova aliança com a justificação nem torna a salvação coextensiva com a justificação. A perseverança — a promessa de que aqueles que são eficazmente feitos participantes da aliança da graça perseverarão até o fim — também é uma bênção da aliança da graça.[7]

CONCLUSÃO

Portanto, encontra-se nas Escrituras Sagradas o plano da redenção que toma a forma de um pacto, não só entre Deus e o seu povo, como também entre as várias Pessoas dentro da Trindade, de maneira que há, por assim dizer, uma divisão de tarefas, cada Pessoa tomando, voluntariamente, determinada fase da obra.

Ao Pai atribui-se, em primeiro lugar, a obra da Criação, assim como a eleição de certo número de indivíduos que ele deu ao Filho. Ao filho atribui-se a obra da Redenção, para o cumprimento da qual se encarnou, tomando a natureza humana, de forma que, como representante de seus eleitos, assume a culpa do seu pecado para resgatá-los da morte. Ao Espírito Santo são atribuídas as obras de Regeneração e de Santificação, ou a aplicação aos corações dos indivíduos da expiação objetiva que Cristo realizou. Ele faz isto renovando espiritualmente os corações, operando neles a fé e o arrependimento. E glorificando-os finalmente no céu.

A redenção é, pois, um assunto da graça soberana, planejada antes da fundação do mundo, apresentada na forma de um pacto ou aliança. Não é um plano departamentalizado, dispencionalizado ou repartido, mas é uma ação global que envolve toda a Pessoa da Trindade. Ela é planejada pelo Pai, comprada pelo Filho, e aplicada pelo Espírito Santo.

O conhecimento que Deus tem do seu povo nas Escrituras implica um relacionamento especial de escolha por amor (Gn 18.19). Romanos 8.29 e 11.2 (conforme 1Pedro 1.2, 20) indicam não só o conhecimento antecipado que Deus tem, mas também a escolha antecipada que Deus faz do seu povo. Pecadores só escolhem a Cristo porque Deus os escolheu primeiro e levou-os a essa escolha pela renovação de seu coração mediante a graça.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEEKE, Joel R.; JONES, Mark. Teologia puritana: doutrina para vida. São Paulo: Vida Nova, 2016.

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. 3a ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

BROWN, Colin (Org.) Novo dicionário internacional de teologia do novo testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018.

FIGUEIREDO, Onézio. Confissão de fé de westminster: texto e comentário. São Paulo: Edição do autor, [s.d.].

GRUDEM, Wayne A. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.

PACKER, J. I. Teologia concisa. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

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[1] WOLLEBIUS, Johannes. Compêndio de teologia cristã. Eusébio/CE: Peregrino, 2020, p. 257.

[2] BERKHOF, Louis. Teologia sistemática, 3a ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 502.

[3] GRUDEM, Wayne A. Teologia sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 425.

[4] FIGUEIREDO, Onézio. Confissão de fé de westminster: texto e comentário, p. 52.

[5] VERBRUGGE, Verlyn D. Novo dicionário internacional de teologia do novo testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 398.

[6] PACKER, J. I. Teologia concisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 82-83.

[7] BEEKE; Joel R.; JONES, Mark. Teologia puritana: doutrina para vida. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 706.

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