Abominação desoladora

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Monte das Oliveiras, Israel.

INTRODUÇÃO[1]

Os evangelhos[2] são geralmente classificados como literatura narrativa porque fazem o relato da história de Jesus. Eles são as boas novas da salvação, de como Deus cumpriu sua promessa do Messias Salvador ao seu povo. Eles contam a história de como Cristo nasceu, viveu, morreu e ressuscitou, e finalmente foi assunto ao céu, e registram a revelação que ele deixou a nós através de seus ensinos e sinais.

A erudição conservadora, que utiliza o método histórico-gramatical-teológico, compreende que os evangelistas escolheram criteriosamente seu material narrativo e organizaram da forma que melhor comunicasse o conteúdo da mensagem de Cristo. As narrativas são historicamente precisas, embora também se reconheça que tenham uma dimensão literária e estética que contribui para um propósito teológico geral.

O DISCURSO DE JESUS NO MONTE DAS OLIVEIRAS

O sermão no Monte das Oliveiras está registrado em Marcos 13:1-37, Mateus 24:1-51, 25:1-46 e Lucas 21:5-38. Os evangelistas usam o discurso como uma ponte entre a controvérsia de Jesus com os líderes de Israel e a consequente crucificação de Jesus Cristo.

Trata-se de um texto particularmente difícil. Primeiro, por tratar simultaneamente de assuntos diferentes. Segundo, pela dificuldade textual quanto à relação entre a literatura apocalíptica judaica e o texto canônico do evangelho. Terceiro, pelas decisões críticas concernentes ao caráter e função deste material, seu arranjo estrutural e sua autenticidade essencial. William L. Lane afirma: “As questões suscitadas pela forma e conteúdo do capítulo e pela sua relação com o evangelho como um todo são complexas e difíceis e ocasionaram uma extensa literatura”.[3]

Os registros desse sermão são resultado do trabalho editorial dos evangelistas elaborado com base nas tradições disponíveis. Pode-se atestar isto pelo fato de que Marcos 13.9b-12 não é reproduzido em Mateus 24, mas é encontrado em Mateus 10.17-21, no discurso missionário dirigido aos doze apóstolos. O dito proferido por Jesus em Mateus 24.26-28 parece ser muito semelhante ao material proveniente do hipotético documento Q[4], aparecendo também em Lucas 17.23-24[5].

Os comentaristas se dividem em quais versos Jesus está tratando da parousia e em quais está se referindo à destruição do templo de Jerusalém. Neste artigo, pretende-se defender a tese de que o discurso no Monte das Oliveiras se refere somente à destruição de Jerusalém e aos eventos de sua geração. Esta interpretação pode ser considerada como preterista parcial e tem sido defendida por diversos intérpretes ao longo dos séculos.[6]

A DESTRUIÇÃO DO TEMPLO

O templo em Jerusalém havia se tornado o símbolo da esperança de Israel. Ele representava o amor exclusivo de Deus por Israel, a estabilidade e a presença de Deus no meio do seu povo. Era um dos grandes santuários da antiguidade. Seu complexo formava o centro do judaísmo.

A destruição do templo de Jerusalém é o sinal de que caiu a velha ordem e que a nova havia começado. Assim como os profetas da igreja do Antigo Testamento, Jesus denunciou a estrutura pecaminosa representada pelo templo. Em sua pregação, Jesus demonstrou como as estruturas se pervertem — como no caso dos vendilhões do templo e da aliança da elite religiosa de Israel com o poder romano. O ódio dos religiosos se somou ao pavor dos governantes. Cristo repreendeu o povo quanto às condições sociais e advertiu sobre a iminência do cativeiro, da destruição da nação pecaminosa.

O historiador romano Tácito[7] e o historiador judeu Josefo[8]  descrevem a destruição do templo como uma catástrofe de dimensões sobrenaturais. Houve comoções nacionais e calamidades públicas. Fomes, epidemias, terremotos e guerras são descritas como princípios das dores de parto, (Mc 13.8). Houve violentos conflitos entre os judeus e os habitantes de Alexandria, Síria e Babilônia. No reinado de Calígula, inúmeras prisões foram realizadas na Judeia, resultantes dos conflitos com os romanos, em consequência da proposta do imperador de colocar sua própria estátua no templo de Jerusalém. No reinado do imperador Cláudio (41-54 d.C.) houve grande escassez. O preço dos alimentos subiu tanto que levou muitos habitantes da Judeia a morrer de fome. Ocorreram terremotos durante os reinados de Calígula e Cláudio.

William Lane assim explica: “Jesus utilizou uma frase técnica da literatura rabínica para descrever o intenso sofrimento que precederia a libertação messiânica”.[9]

ABOMINAÇÃO DESOLADORA

Jesus profetizou diversos episódios que ocorreram durante os quarenta anos seguintes. A natureza do sinal indicando a iminência da destruição do templo foi descrita por Jesus como sendo a abominação desoladora situada onde não deveria estar (Mc 13.14).

Os discípulos seriam perseguidos ao proclamarem as boas-novas do Reino nas sinagogas e nos sinédrios. Isto lhes daria oportunidades para testemunho. O próprio Cristo toma a responsabilidade de dar a seus discípulos o auxílio divino de que precisam para fazerem sua defesa e darem seu testemunho. Eles seriam traídos e odiados e alguns deles até sofreriam o martírio, mas seriam guardados se aguentassem tudo isso pacientemente.

Pode-se comprovar isso analisando a referência ao mistério do “Abominável da Desolação”, conforme tradução da ARA, ou como tenho traduzido, “Abominação Desoladora”.

A expressão τό βδέλυγμα της ερημώσεως encontra-se no Antigo Testamento, na profecia de Daniel (12.11): “Depois do tempo em que o sacrifício diário for tirado, e posta a abominação desoladora, haverá ainda mil e duzentos e noventa dias” (11.31, ARA). “Dele sairão forças que profanarão o santuário, a fortaleza nossa, e tirarão o sacrifício diário, estabelecendo a abominação desoladora” (9.27, ARA). “Ele fará firme aliança com muitos, por uma semana; na metade da semana, fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares; sobre a asa das abominações virá o assolador, até a destruição, que está determinada, se derrame sobre ele”.

Esta frase misteriosa constitui parte do vocabulário apocalíptico. Trata-se, portanto, de um símbolo de uma afronta inominável à santidade do templo e ao próprio Deus. Este quadro está profundamente radicado na profecia veterotestamentária e na literatura apocalíptica judaica. Encontra-se alusões em diversas passagens.[10] Diversas interpretações desta passagem foram propostas, entre as quais temos: normas imperiais, a imagem de Calígula que seria posta no Templo, um sumo sacerdote despreparado do grupo dos zelotes, a invasão dos romanos liderados por Tito, uma estátua pagã exposta no Templo, um ser humano declarando ser divino e moedas imperiais sendo usadas no Templo.[11]

Rikki Watts advoga que a melhor interpretação proposta é a seguinte: se Jesus é a pedra angular no novo templo de Deus, então crucificá-lo é certamente o supremo ato de profanação do templo. Assim, o véu que se rasga na morte de Cristo é o sinal profético da morte do templo. Como aquela geração não aceitou a presença divina em Jesus, Deus dá a entender que abandonou sua Casa e Jerusalém[12].

No entanto, o peso sobre a investida do exército romano é ainda tão forte que, na afirmação correspondente no versículo de Lucas (Lc 21.20), é caracterizado como “Jerusalém rodeada de exércitos”. Quando os discípulos vissem exércitos reunindo-se em torno da cidade, deveriam então fugir, pois o julgamento há tanto anunciado sobre Israel estaria para cair e a sujeição aos gentios por um longo tempo estava para ter início. Diante de tamanho suplício, os seguidores de Cristo, alertados por suas palavras, fugiram da Judeia. É digna de nota, a famosa declaração de Eusébio[13]:

Também o povo da igreja de Jerusalém, por seguir um oráculo enviado por revelação aos notáveis do lugar, receberam a ordem de mudar de cidade antes da guerra e habitar certa cidade da Pereia chamada Pella. Tendo os que creram em Cristo emigrado até lá desde Jerusalém, a partir deste momento, como se todos os homens santos tivessem abandonado por completo a própria metrópole real dos judeus e toda a região da Judeia.

A chave para a compreensão para o Discurso do Monte das Oliveiras está na afirmação: “Eu lhes asseguro que não passará esta geração até que todas estas coisas aconteçam”, (v. 30). Em seguida, ao narrar a Parábola da Figueira, Jesus endossou com a declaração intensamente solene do v. 31, afirmando (com o uso de uma expressão idiomática hebraica) que até se céu e terra passarem, suas palavras jamais passarão. Tudo, portanto, o que Jesus predisse até esse ponto no seu discurso, seria uma declaração do que se cumpriria durante os quarenta anos seguintes (entendendo a palavra “geração” no seu sentido normal e natural); e de fato se cumpriu.

R. T. France afirma: “O senso natural das palavras, usadas no contexto judaico, é de uma linguagem poética que se refere às grandes transformações que ocorreram quando Jerusalém e seu templo foram destruídos.”[14] Portanto, o texto não é sobre um colapso universal, mas sobre o fim da antiga ordem, que será substituída pelo novo regime de Jesus.

O texto analisado consiste em uma parênese. Não é um discurso de informações esotéricas, mas promove a fé e a obediência no tempo de aflição e convulsão social. Com uma profunda preocupação pastoral, Jesus prepara seus discípulos e a Igreja para um futuro período de perseguição. O reino do Deus continua na realização de sua plenitude na medida em que judeus e gentios crentes são adicionados à comunidade dos redimidos, a Igreja, em cada geração.

Pode-se concluir que as palavras registradas se referem à Grande Tribulação e esta precedeu a destruição do templo.

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[1] A não ser que seja indicada, a tradução dos versículos de Marcos 13 foi realizada pelo pesquisador. Buscou-se preservar a metrificação do texto.

[2] A este respeito, ver a importante contribuição de BLOMBERG, Craig. Jesus e os Evangelhos. São Paulo: Vida Nova, 2009. Especialmente o capítulo quatro onde o autor trata da crítica histórica dos evangelhos.

[3] LANE, William L. The Gospel according to Mark. Grand Rapids: Eerdmans, 1974, p. 444.

[4] Essa hipótese está exposta de forma bastante clara em: MANSON, T. W. O ensino de Jesus. São Paulo: ASTE, 1965, p. 41-61.

[5] LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2003, p. 261.

[6] A este respeito, ver: SPROUL, R.C. Os últimos dias segundo Jesus. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

[7] TACITUS. Histories. Cambridge, Mass: Harvard University; London: W. Heinemann, 1998 (The Loeb Classical Library), 2v, p. 5-6.

[8] VV.AA. Flávio Josefo: Uma testemunha dos tempos dos apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1986.

[9] LANE, William, op. cit. p. 458.

[10] Cf. Am. 5.18; Jl. 2.2, 31; 3.15; Ez. 32.7; Mq. 3.6. Cf. também Mt. 24.29; Lc. 21.25; Ap. 8.12. Além de textos da literatura apocalíptica judaica II Esdras 5:5; Assunção de Moisés 10:5 e I Enoch 80:4-7.

[11] CARSON, D.A. & BEALE G.K. Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 280-281.

[12] CARSON, op .cit. p. 281.

[13] EUSEBIUS OF CAESAREA. The ecclesiastical history. Cambridge, Mass: Harvard University; London: W. Heinemann, 1998 (The Loeb Classical Library), 2v. p. 119-200.

[14] FRANCE, R. T. The Gospel of Mark: a commentary on the Greek text. Grand Rapids: Eerdmans, 2000, p. 533.

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