Você é aquilo que ama: uma conversa com James K. A. Smith

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A seguinte entrevista foi realizada por Justin Taylor, colunista no site The Gospel Coalition.

James K. A. Smith (PhD, Villanova University [parabéns!]) é professor de filosofia no Calvin College em Grand Rapids, Michigan, onde também ocupa a cadeira Gary e Henrietta Byker em Teologia Reformada Aplicada e Cosmovisão. Ele também é editor da revista Comment.

Seu último livro, Você é Aquilo que Ama: O Poder Espiritual do Hábito (Brazos, 2016) foi lançado hoje.

Segue o sumário e a recomendação feitos por Tim Keller:

“Uma introdução de fácil compreensão para a radical perspectiva agostiniana de que somos moldados mais por aquilo que mais amamos do que por aquilo que pensamos ou fazemos. Se o pecado é o amor desordenado e a virtude é o amor corretamente ordenado e se a única forma de mudar é mudar o que adoramos, isso nos levará a repensar como conduzir nosso trabalho e ministério cristãos. James oferece algumas ideias fundamentais sobre como isso exerce influência em nossa adoração coletiva, em nossa educação e formação cristãs e em nossa vocação no mundo. Uma obra importante e provocativa!”

O dr. Smith foi muito gentil em responder algumas das minhas questões e objeções sobre o livro.

1) Qual a relação entre seu trabalho mais antigo em Desiring the Kingdom (Desejando o Reino, a ser publicado por Vida Nova) e seu novo livro que argumenta que Você é Aquilo que Ama?

Quando escrevi Desiring the Kingdom, pensei que ele fosse um livro de nível popular. Acontece que um filósofo acadêmico é um péssimo juiz acerca daquilo que é “popular”! Acho que as centenas de notas de rodapé por capítulo com referências à filosofia alemã e à neurociência foram considerados obstáculos para a maioria dos leitores. Vivam as figuras!

Ainda assim, o argumento do livro recebeu atenção em um amplo espectro de locais e fui convidado para falar sobre ele para um notável número de audiências. Foi uma experiência alongada e aprendi muito com ela. Nessas palestras eu realmente tentei traduzir as ideias para não especialistas, e pude ver a luz se revelando sobre as pessoas. Recebemos tanto encorajamento – e tantos pedidos – para escrever um livro para “pessoas normais”, que senti que este era um chamado que eu tinha que atender, ainda que fosse um pouco assustador.

Então Você é Aquilo que Ama é realmente um livro novo, partindo de um quadro em branco, a partir do chão, mas revisitando o argumento central acerca do meu projeto de “liturgias culturais”. Tentei pegar as notas das minhas palestras de nível “popular” e reformulá-las com novas metáforas, novas imagens, novas ilustrações. Assim, eu ampliei o argumento para três áreas de aplicação que não tinham recebido atenção em Desiring the Kingdom: agora há um capítulo sobre família, um capítulo sobre crianças e jovens e um capítulo final sobre fé e trabalho.

2) Algum aspecto do seu pensamento ou da sua espiritualidade mudou desde a primeira publicação de Desiring the Kingdom?

Suponho que o que mudou foi a minha percepção do que eu precisava enfatizar e tornar explícito. Por exemplo, quando comecei a trabalhar pela primeira vez sobre os temas de adoração e liturgia, eu “meio que” presumi que as pessoas perceberiam que eu, obviamente, levo o Espírito Santo a sério, dado o fato de que escrevi um livro chamado Thinking in Tongues (Pensando em Línguas, sem publicação em português) a partir de uma filosofia “pentecostal”, e que sempre sou definido como um cristão reformado “carismático”. Mas então eu continuamente era questionado: Você não crê no papel do Espírito Santo? Dessa forma, tentei ser mais explícito sobre a pneumatologia por trás do tema em Você é Aquilo que Ama.

Penso que também tentei tornar mais explícita a fundamentação bíblica, e mesmo o papel das Escrituras na adoração – ainda que isto seja algo que eu sempre presumi, dada sua importância na herança litúrgica reformada da qual faço parte.

3) À primeira vista, alguns leitores podem se enganar pelo título, e posso ouvir alguém questionando: Se uma pessoa ama a Deus, então ele ou ela é Deus? Se alguém ama o pecado, então ele ou ela é pecado? Nos diga o que quis dizer com a ideia agostiniana de que “somos o que amamos”.

Wow! Literalismo está vivo e funcionando, eu acho! Obviamente, a frase funciona mais como “você é aquilo que come”, o que certamente não significa que você se tornará um brócolis. Mas uma pessoa que deseja profundamente brócolis é, geralmente, uma pessoa diferente daquele que deseja profundamente bolinhos fritos. Nossos desejos dizem muito sobre quem nós somos.

A posição agostiniana é de que você é definido pelo que você ama. São seus amores que governam suas ações e buscas. De fato, você é mais definido pelo que você ama do que pelo que você pensa, conhece ou acredita. Esta é a vantagem do argumento agostiniano, capaz de lançar para trás nossas suposições mais racionalistas.

4) Você tem sido um crítico da aproximação intelectualista do cristianismo que enfatiza demasiadamente a transmissão de cosmovisão ao invés da formação espiritual e sabedoria. Você pode explicar as desvantagens, ou ao menos a insuficiência dessa aproximação?

Primeiramente, é importante entender corretamente minha crítica. Muitas pessoas erroneamente afirmam isso como seu eu estivesse criticando a “cosmovisão” em si ou criticando o conhecimento e o pensar. Mas esta seria, com certeza, uma péssima posição para um filósofo assumir – que é precisamente o motivo pelo qual este é um entendimento errôneo da minha posição.

Não é que precisamos menos de cosmovisão; precisamos de mais do que isso. Não é que o conhecimento não seja importante, só não é suficiente. Você não pode se santificar apenas pensando. Se você pudesse, um PhD seria uma rota para a santidade. E acredite: não é.

5) Uma grande parte dos leitores do seu livro parecem ser jovens cristãos que esperam ser agentes do bem, procurando iniciar um grande despertar humano no mundo através do serviço fiel e da busca pela justiça. O que te encoraja e o que te preocupa acerca desses aspirantes a transformadores culturais?

Sou profundamente encorajado pelos desenvolvimentos no meio evangélico entre a geração passada que recuperaram o senso holístico do Evangelho e perceberam que Deus é mais do que um negócio de salvação de almas.

Em certo sentido, isto é algo em que meu amigo Richard Mouw estava trabalhando há quase cinquenta anos. Ele e seus amigos kuyperianos impactaram o jovem Chuck Colson cuja influência alcançou outra geração e então tomou a imaginação de pessoas como Andy Crouch, Gabe Lyons e outros. Ao mesmo tempo, muitos jovens evangélicos passaram a apreciar a ênfase bíblica na justiça; eles se alinharam com a preocupação constante de Deus com as viúvas, órfãos e estrangeiros. Resumidamente, eles são agora tipos de cristãos evangélicos que se dedicam a se engajar, influenciar e “transformar” a cultura.

O que me preocupa é o lado sombrio desta realidade encorajadora. Comumente, na busca pela “transformação” da cultura, acabamos nos assimilando a ela. Ou, em nome da “relevância”, terminamos imitando a cultura dominante.

Sugiro que isto acontece, em parte porque, enquanto entusiasticamente nos “engajamos” com a cultura equipados com uma “cosmovisão” e uma mensagem, nós subestimamos completamente o poder do hábito e o poder (de)formador das práticas culturais. Este é o motivo pelo qual eu chamo essas práticas culturais de liturgias culturais – porque elas são rituais capazes de moldar o coração e definir aquilo que amamos. Assim, o que estou tentando fazer e ajudar as pessoas a perceberem que essas liturgias culturais não são apenas coisas que você faz, mas práticas que produzem efeito em você.

Mas este também é o motivo pelo qual o poder contra-formativo e remodelador do Espírito é necessário. E a reforma produzida pelo Espírito acontece através dos dons de adoração que ele nos deu no Corpo de Cristo. Regeneração pelo Espírito é o que torna isso possível. Mas é a mudança de hábito promovida pelo Espírito na adoração que nos centraliza em Cristo de forma que podemos ser enviados ao mundo de maneira a estarmos fielmente presentes, como James Davison Hunter coloca. Se formos enviados apenas com uma cosmovisão, podemos estar “presentes” na cultura, mas nossa fé será erodida pelos seus rituais deformadores.

O fardo real do meu argumento é ajudar evangélicos protestantes a superarem a alergia ao ritual e liturgia porque, de fato, este é o rio pelo qual o poder renovador do Espírito flui. Em outras palavras, nosso trabalho cultural e nossa devoção à justiça dependem da nossa imersão no corpo de Cristo. Não é adoração ou justiça, mas adoração para justiça.

6) Ao longo do livro você enfatiza “o poder espiritual do hábito” (para citar o subtítulo). Como sua espiritualidade evita os perigos dos hábitos ou liturgias que se tornam meras formulações sem nenhum engajamento do coração (por exemplo, dizendo “Senhor, Senhor” e não sendo conhecido pelo Senhor [Mt 7.21-23], ou adorando ao Senhor com os lábios e não com o coração [Mt 15.8])? Talvez outra forma de questionar seja: é possível formar ou mesmo crescer nos hábitos espirituais sem o Espírito?

Bem, eu não estou totalmente certo do que você quer dizer por “engajamento do coração” aqui. Certamente, Você é Aquilo que Ama argumenta que o coração é o verdadeiro epicentro da personalidade humana. De fato, de diversas formas, eu só tentei trabalhar o conselho chave das Escrituras: Sobre tudo o que se dever guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida (Pv 4.23).

Mas também estou curioso sobre a sua própria interpretação destas passagens. Por exemplo, o alerta de Mateus 7 não associa o fato de chamar “Senhor, Senhor” com mero ritualismo. E o contraste não é feito com algo como “engajamento do coração”. Jesus, pelo menos, certamente não contrasta isto com algum tipo de conhecimento ou crença. De fato, não vejo nenhuma sugestão de que aqueles que clamam “Senhor, Senhor” são culpados de ritualismo vazio. Em todo o caso, eles são contrastados com aqueles que “fazem a vontade do meu Pai”.

De certa forma, separar o joio do trigo é o trabalho do Senhor, certo? Eu não estou confiante de que uma “sinceridade” demonstrada é um critério adequado neste sentido. Uma das grandes ironias da natureza pecadora humana é a nossa habilidade em forjar sinceridade.

Isso não significa que estou advogando em favor do mero ritualismo. Pelo contrário. Minha posição é a de que somos criaturas de hábitos, que Deus sabe disso (já que ele nos criou), e, portanto, nosso gracioso e redentor Deus nos encontra onde estamos ao nos dar práticas habilitadas pelo Espírito, capazes de calibrar o coração, formar os hábitos e corrigir nossos amores. Estes são os meios da transformação promovida pelo Espírito, não uma alternativa a santificação efetuada pelo Espírito. Se não levarmos isso a sério, nós nos entregaremos de forma efetiva a qualquer prática rival formadora de hábitos de nossa cultura.

7) Conforme lia o livro, ficava imaginando como um judeu, um mulçumano ou um mórmon processaria sua proposta. No fim das contas, você não deseja que sua proposta “funcione” para eles? Se sim, isso não é um problema? O Filho encarnado, crucificado e ressuscitado é uma condição necessária para se obter a verdadeira espiritualidade?

É uma boa pergunta. Eu diria duas coisas: Primeiro, meu argumento é de que todos os seres humanos são seres criados por Deus como animais “litúrgicos”. Em outras palavras, ser humano é ser alguém que ama, e ser alguém que ama é ser o único tipo de criatura cujos hábitos do coração são formados por rituais e práticas. Nesse sentido, estou fazendo uma reivindicação bíblica sobre a natureza humana como tal. E dessa forma, sim, judeus ou mulçumanos ou mórmons podem afirmar parte do que estou dizendo, uma vez que argumento que as Escrituras nos dão conhecimento acerca da natureza humana.

Por outro lado, argumento que o que torna a adoração cristã o mecanismo específico de formação cristã não são apenas rituais ou liturgias genéricas, mas as formas específicas de adoração cristã, informadas pelas Escrituras, as quais representam a história de Deus reconciliando o mundo consigo em Cristo. Isso é o que verdadeiramente eu enfatizo continuamente, que a forma de adoração importa – não por conta de uma preocupação com o “estilo”, mas precisamente porque a forma histórica de adoração cristã é cruciforme, ou seja, representa a vida, a morte, a ressurreição e a ascensão de Jesus como o Messias de Israel. É somente em Jesus que aprendemos a ser humanos. Então eu defendo sem remorso que as especificidades da adoração cristã são a “norma” da verdadeira adoração. Este é o motivo pelo qual a Ceia do Senhor tem sido, desde a Igreja Primitiva, a prática culminante de adoração todos os domingos. Comunhão é cristologia tangível.

Por certo, é por conta disso que penso que a adoração cristã histórica é atualmente mais biblicamente robusta que as muitas congregações sem denominação que funcionam mais como grandes salas de aula que focam em pedaços muito restritos do testemunho bíblico.

8) Muitos escritos cristãos negligenciam o papel do lar na formação espiritual. Qual papel o lar exerceu na sua espiritualidade?

Este é um dos temas que eu realmente quis abordar em Você é Aquilo que Ama. Foi uma notória omissão em Desiring the Kingdom e, obviamente, graças à providência, lares e famílias são incubadoras cruciais do amor por Deus. Assim, o capítulo 5 considera as “liturgias do lar”. Agora, por um lado eu enfatizo que todos nossos lares e famílias necessitam se situar em relação à família de Deus, a “primeira família”, que é a igreja. Às vezes, nosso foco na família também pode tornar o corpo de Cristo algo extrínseco aos nossos lares, quando na verdade nossos lares deveriam girar ao redor da igreja. Portanto, uma das decisões mais importantes que uma família deve tomar é onde adorar e esta é, de várias formas, um comprometimento fundamental com a formação espiritual de nossos lares.

Por outro lado, famílias e unidades familiares são espaços para estender e extrapolar as práticas de adoração da igreja em ritmos diários que não apenas nos equipam com conhecimento das Escrituras, mas também recrutam nossa imaginação. Estes não precisam parecer sempre com aquilo que fazemos na “igreja”. Uma das minhas partes favoritas ao escrever este livro foi falar das formas como minha esposa Deanna criou rituais familiares ao redor do jardim e da cozinha que ensinaram aos nossos filhos valores centrados no Evangelho acerca de recepção e hospitalidade.

9) Você se declara como alguém feliz em seguir as pegadas do grande Agostinho. O que deu aos escritos, teologia e espiritualidade de Agostinho um poder de permanência tão incrível? Para aqueles que desejam se aprofundar na espiritualidade agostiniana, onde o leitor pode começar dentro de sua obra tão vasta?

Eu penso que uma das coisas mais importantes que os cristãos podem fazer no Século XXI é cultivar amigos antigos. Quando garimpamos os tesouros da tradição intelectual cristã, nós obtemos sabedoria e tesouros para viver nossa fé nesta era secular. O “amigo” que eu conheci melhor é Santo Agostinho, o qual é incrivelmente contemporâneo (na verdade, já estou trabalhando no meu novo livro para a Brazos, On the Road With Augustine – Na estrada com Agostinho – no qual eu argumentarei que Agostinho é, de várias formas, o santo padroeiro da nossa era pós-moderna).

Grande parte do poder de permanência de Agostinho consiste em seu pensamento presciente e incisivamente psicológico. Nas suas Confissões, ele capta o que significa ser um pecador de maneira honesta e penetrante. Ele também capta a sensação de estar faminto por Deus, de lutar com Deus, de ser perseguido pelo Espírito. Eu penso que é por esta razão também que Agostinho tem sido um parceiro de conversação dos filósofos por quase dois milênios. Certamente, Agostinho tem poder de permanência em nós, não por poucas razões, porque vários dos pensadores mais influentes do Século XX – Heidegger, Arendt, Wittgenstein, Camus, Derrida, Foucault, e muitos outros – todos lutaram com Agostinho punho a punho. Agostinho deixou sua marca em nossa era secular através desses pensadores.

Onde começar? Bem, as Confissões ainda são um dos grandes tesouros da literatura espiritual cristã ocidental (eu recomendo a tradução de Chadwick publicada pela Oxford University Press).

Mas, uma das coisas pelas quais eu sou mais grato em meu trabalho de doutorado em Villanova é que os agostinianos lá me ensinaram a ler o Agostinho “inteiro” – não apenas os tratados filosóficos, mas também as cartas e sermões. Para os pastores, em particular, eu recomendo comprar alguns volumes das cartas e sermões de Agostinho (agora publicados em novas traduções pela New City Press) e começar a incorporá-lo na preparação dos seus sermões. Todos esses volumes possuem índice do uso das Escrituras que vão te ajudar a encontrar os comentários de Agostinho sobre os textos. Você encontrará Agostinho, o pastor, pregador e mentor. Ele fala ainda hoje.

Traduzido por Felipe Wieira e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: You Are What You Love: A Conversation with James K. A. Smith. The Gospel Coalition.

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