Pessoas comuns versus elite: um conflito que não pode ser ignorado

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Deixe em suspenso qualquer possível ligação com político ‘a’ ou ‘b’ e seus partidos. Atualmente há uma agenda populista que está sendo pautada pelo cidadão contra as elites e que excede o espectro ideológico. Com o advento das redes sociais, o povo está se fazendo notar como um conjunto de pessoas reais e pretende não mais permitir o uso de seu nome como um ente abstrato que justifica medidas arbitrariamente determinadas por políticos e burocratas da administração pública. O populismo é um fenômeno sociológico que transcende épocas e instituições. No Brasil muito se analisa o seu vínculo com as personalidades políticas e pouco se fala de sua relação com seu principal alvo de interesse, a pessoa comum. Contudo, em uma sociedade livre pessoas comuns exigirão respeito aos seus direitos. Elas procurarão quem represente seus valores e esteja atento às suas necessidades mais elementares.[1] Ao longo deste artigo vamos considerar alguns fatos do mundo atual e da história enquanto analisamos sua relação com o que está ocorrendo em nosso país.

Nos Estados Unidos o movimento do Tea Party tornou-se o principal catalisador das insatisfações do average citizen, o cidadão médio. Apesar de ser fundamentalmente apontado como um movimento de dentro do Partido Republicano, sua ligação com o Tea Party foi de inchar os números deste grupo porque abriga mais conservadores patriotas do que o seu rival Democrata. Para se ter uma ideia, em 2008, alguma coisa entre 1/4 e 1/3 de seus membros haviam votado por Barack Obama.[2] Mas há uma coisa que os uniu:  são pessoas que trabalham duro para pagar suas contas e que acharam um meio de se organizar na luta contra os altos impostos e o inchaço do Estado que fazem a vida da average family mais difícil. É revelador o desabafo desse homem de 56 anos de idade, proprietário de um pequeno negócio, que dá o título à obra “Mad as Hell – How the Tea Party Movement Is Fundamentally Remaking Our Two-Party System”:

Eu não sou um Republicano, eu não sou um democrata, eu sou americano. Eu estou aqui porque eu acredito que precisamos fazer algo sobre o que está acontecendo em nosso país. E eu percebo que milhões de pessoas ao redor do país querem isso também. Toda vez que eu venho a um comício, eu pergunto às pessoas, “Você já esteve em comício político antes? Você já saiu para se levantar por sua família e país e dizer: Eu preciso ser ouvido!”, e todas as vezes, aproximadamente 90 por cento diz que não. Não somos racistas ou intolerantes, não somos marionetes, e não somos zelotes de direita marginalizados. Nós somos apenas americanos trabalhadores ordinários que amamos nosso país, mas que estamos zangados como o inferno![3]

Independente dos rumos que o Tea Party tomou na última década – e discute-se após a eleição de Trump se ainda é viável ou necessária sua continuidade, ele foi a manifestação de uma forte tendência que se concretizou durante os últimos anos no mundo todo. A rebelião contra as elites é uma ocorrência global. Na Europa, o populismo tem se manifestado em diversos países, cada qual com as peculiaridades que dizem respeito à sua nação. Na França a revolta dos Coletes Amarelos começou como um protesto contra a alta dos impostos sobre os combustíveis e acabou incorporando um sentimento anti-establishment. No Reino Unido a vitória do Brexit foi um duro golpe contra a União Europeia e seu projeto de unificação econômica e política do continente. O novo populismo tem se revelado essencialmente nacionalista. E engana-se quem tenta relacioná-lo ao nacionalismo fascista do século passado, que centralizava suas esperanças na liderança do Estado (“tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado”). O nacionalismo deste século ergue-se pelos valores tradicionais que construíram cada povo e está alinhado com o sentimento de preservação da cultura. Define-se pela ideia de uma sociedade livre das amarras de um Estado que não deveria jamais interferir na liberdade e direitos fundamentais de seus cidadãos. Grita contra um mundo globalizado que custa caro ao cidadão comum com suas fronteiras enfraquecidas e a consequente perda de empregos para mão-de-obra barata de imigrantes que entram com poucos critérios em seus países, bem como pela transferência de suas indústrias para outras localidades.

Steve Turley, escritor, educador e comentarista político, ao falar sobre a decisão de Elon Musk de desobedecer a decisão do Condado de Alameda, onde a principal planta da Tesla está localizada na Califórnia, afirma que a resistência à imposição dos lockdowns por conta do coronavírus está apenas aumentando os sentimentos populistas de desconfiança contra a elite que já existia muito antes da pandemia. Turley faz uma análise do quadro norte-americano e global ao trazer dados e informações muito interessantes:

Parece que Musk está acordando para o que centenas de milhões de pessoas têm se despertado no mundo inteiro: o que um número de acadêmicos está chamando de uma insurreição populista em massa. Os pesquisadores Scott Rasmussen e Doug Schoen estavam à frente da curva quando publicaram seu livro Mad as Hell lá atrás em 2010. Rasmussen e Schoen encontraram dados substanciais aqui nos Estados Unidos que mostraram uma importante mudança de paradigma  ocorrendo no eleitorado americano, em que a velha divisão política entre esquerda versus direita ou progressistas versus conservadores estava morrendo: uma divisão entre a classe política versus o povo, os governantes e os governados.

Os acadêmicos políticos Matthew Goodwin e Eric Kaufmann chegaram à mesma conclusão. Suas análises do bem sucedido referendo do Brexit e da campanha de Trump em 2016 descobriram que as velhas divisões de rico versus pobre que caracterizou a política do século 20 deu lugar a preocupações sobre nação, cultura e identidade. O terremoto político do Brexit e Trump foram seguidos por uma série de choques posteriores que viram o tombo de governos globalistas de esquerda na Bulgária, Moldávia, Áustria, Itália, Estônia, República Tcheca e Eslovênia na Europa, e Brasil, Colômbia, Paraguai, Guatemala e El Salvador na América Latina.

No coração dessa insurreição está a noção de que a classe política não mais representa as preocupações da vasta maioria dos cidadãos. Matthew Goodwin cita estudos que revelaram que entre Lyndon Johnson em 1964 e Barack Obama em 2012, a porcentagem de pessoas que sentia que o governo estava sendo administrado para o benefício de todos caiu de 64% para 19%, enquanto a porcentagem dos que suspeitavam que estava sendo administrado em favor de alguns poucos grandes interesses voou de 27% para 79%. Um colapso comparável de confiança na classe política permeia a Europa também.

Além disso, há um sentimento esmagador de que a classe política não está meramente desinteressada das preocupações da população, mas está, na verdade, desdenhado-as. Seja em desprezar o controle de fronteiras e imigração como xenofobia, ou o advogar proteção econômica como algo obtuso, ou a ansiedade por causa das mudanças culturais como intolerante e racista, a classe política mal consegue esconder sua hostilidade às preocupações populistas.[4]

Turley também explica que essa elite que acabou por se tornar antagonista do povo não é só compreendida como sendo formada por políticos profissionais, mas também pela mídia, intelectuais acadêmicos e Hollywood.[5] Sobre a hipocrisia da elite artística, aliás, vale lembrar o discurso do comediante britânico Ricky Gervais debochando de sua classe na abertura do último Globo de Ouro: “Se vocês ganharem um prêmio hoje, não usem isso como plataforma para fazer um discurso político, certo? Vocês não estão em posição de dar lição ao público sobre nada. Vocês não sabem nada sobre o mundo real. A maioria de vocês passou menos tempo na escola do que Greta Thunberg!”[6]

Luiz Felipe Pondé já percebera essa ruptura de prioridades com clareza após a eleição de Trump em 2016: “As pessoas reais não estão nem aí para discussões de classe, de gênero (…). As pessoas reais estão preocupadas com janta, escola de filho (…) e, incrivelmente, o Trump conseguiu falar com essas pessoas”.[7] A análise do filósofo brasileiro aplica-se aos resultados das eleições no Brasil em 2018. Para se ter uma ideia da realidade desse quadro dentro de nosso país, uma análise do cenário de competitividade de 137 economias, publicada pelo Índice de Competitividade Global 2018, demonstrou que o Brasil é o lugar no mundo em que menos se confia nos políticos.[8] De fato, o novo inimigo identificado pelos eleitores é a classe política.

O populismo, porém, não é restrito à política moderna. Como foi mencionado no início deste artigo, é um fenômeno sociológico, que diz respeito aos padrões humanos da vida em sociedade. As circunstâncias narradas na Bíblia da divisão dos hebreus em dois reinos é uma antiga história que expõe isso. Roboão subiu ao trono após o falecimento de seu pai, Salomão. O primeiro grande desafio do novo rei foi lidar com o pedido de alívio do pesado jugo que seu pai havia imposto ao povo a fim de tornar realidade a construção do templo e outros projetos que deveriam ser símbolos da unidade nacional. Roboão, no entanto, não deu ouvidos ao conselho dos anciãos, que lhe sugeriram deferir o pedido de diminuir o jugo sobre aquele povo, e preferiu ouvir os amigos que com ele cresceram de ser ainda mais pesado do que havia sido Salomão. Israel reagiu dizendo: “Cada homem à sua tenda, ó Israel! Cuida, agora, da tua casa, ó Davi!”[9] A resolução foi a cisão com a dinastia de Davi. Roboão falhou miseravelmente em compreender as necessidades de seu tempo em seu país, o que acabou inaugurando uma nova era na geografia política de Israel e Judá com sua irreversível divisão. História antiga, do século X a.C., mas que reflete a incapacidade universal e atemporal da elite política de lidar com a realidade do homem comum. Não há nada novo debaixo do céu.

O movimento da Reforma protestante, um dos mais significantes em termos de mudanças sociais na história do Ocidente, é outro exemplo que merece ser destacado. O grande trunfo dos reformadores se deu com um paralelo bem atual: o acesso a meios de comunicação em massa que fogem ao controle da elite. Hoje as redes sociais rivalizam com a imprensa tradicional, assim como a imprensa de Gutemberg proporcionou que os escritos de Lutero se espalhassem entre as pessoas mais simples e humildes da Alemanha desafiando o status quo da Igreja de Roma, e depois em outros países e com mais obras de outros reformadores.

Nos dias atuais, é a grande mídia que está ofuscada, perdida e desacreditada, pois não tem mais o monopólio da opinião e da doutrinação. E com ela anda atordoada a elite política, que por muito tempo controlou as fontes de informação. Exatamente da mesma maneira que a Igreja Católica tentou fazer com os reformadores, as acusações de Fake News de hoje nada mais são do que a elite do poder gritando “hereges!” aos novos comunicadores da massa que atuam em suas redes sociais, desafiando dogmas e narrativas.

Leandro Narloch captou bem como esse fenômeno está se desdobrando no Brasil. Em seu texto ele cita o livro The Revolt of the Public, de Martin Gurri (escrito antes da vitória de Donald Trump, de Jair Bolsonaro e do Brexit) segundo o qual, as mudanças políticas causadas pela internet estão só começando:[10]

No século 20, diz Gurri, a autoridade das instituições se nutria do controle do fluxo de informações. Quando perderam esse controle, perderam também a legitimidade. No sistema de informações disperso e descentralizado de hoje, o tema predominante é o fracasso das elites. ‘Desmoralizadas, sabendo que cada falha, cada um de seus erros será exposto sem fim na internet, as elites que tocam o sistema vivem um sonho reacionário de voltar ao século 20’, diz o autor. Parece que ele está falando do STF, não?[11]

De tempos em tempos os movimentos populares ensinam às elites que seus ideais ideológicos e políticos não podem ter vida longa às custas da população. A dignidade da pessoa humana bate à porta dos que pensam ter o poder de controlar a vida alheia. Os cenários mudam e ditam onde o povo irá depositar seus sacrifícios pessoais, seja pelo bem coletivo – lutar pela liberdade, focar na construção do próprio país, investir no bem-estar social, até chegar ao ponto de esgotamento do indivíduo de viver em função do Estado e da coletividade. Quando aquilo que está sendo exigido da população não parece mais ser uma necessidade óbvia proporcional ao sacrifício demandado, a centralização de esforços em torno de uma elite que dirige a consecução do possível bem coletivo torna-se um peso sem razão de ser suportado.

O início do século XXI tem ficado marcado pela inquietação popular (no sentido literal, não ideológico), diante de uma elite política e intelectual que insiste em viver desconectada da realidade da maioria da população. Por mais que o desabafo das pessoas comuns possa vir com uma aparência de brigas ideológicas, tal análise acaba sendo simplista, pois a sociedade é muito mais complexa do que pode ser definido pelo espectro político. Os tempos atuais deixam isso ainda mais nítido. Tal agitação retrata, na verdade, o anseio humano atemporal por justiça e liberdade que se expressa em movimentos que eclodem do cansaço de quem tem de se doar diariamente para garantir a própria sobrevivência na vida em sociedade. E sendo expressão de um clamor universal, tem, assim, consequências diretas no tempo em que vivemos.

Enfim, esta década se apresenta como um pico alto de tensão populista contra as elites, o que está, inegavelmente, afetando o panorama político. “Nós, o povo” tem manifestado seu lado mais genuíno e ousado. O “Estado para o povo” não mais convence, enquanto o cidadão comum não enxerga os seus governantes alinhados na prática com as preocupações comuns de pessoas comuns vivendo suas vidas comuns. Análises do espectro ideológico e a interpretação das escolhas de eleitores pela ótica das ideias de esquerda e direita não são mais suficientes para compreender o momento da história. Quem não aceitar esse enunciado, será incapaz de fazer uma leitura integral do que está a ocorrer no Brasil e no mundo. As pessoas comuns atrás de suas telas conectadas à internet tornaram-se um importante agente político a ditar, a partir de seus próprios valores, o rumo e o ritmo dos acontecimentos.

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[1] No dicionário Webster, o populista é definido como “1: um membro de um partido político reivindicando representar as pessoas comuns”; e “2: alguém que crê nos direitos, na sabedoria, ou nas virtudes das pessoas comuns”. (Tradução minha). Disponível em: https://www.merriam-webster.com/dictionary/populism. Acesso em: 31 de maio de 2020.

[2] Rasmussen, Scott; Shoen, Dougual. Mad as Hell – How the Tea Party Movement Is Fundamentally Remaking Our Two-Party System. Introdução. 2010, HarperCollins e-books. Kindle Edition. Interessante saber que um autor desta obra é republican e o outro democrata, o que confere mais credibilidade à sua pesquisa.

[3] Idem.

[4] Disponível em: https://www.turleytalks.com/blog-summary/elon-musk-and-the-growing-populist-revolt. Acesso em 08 de junho de 2020 (Tradução minha). Importante sublinhar que “liberals” nos EUA designa progressista, por isso traduzi como “progressitas versus conservadores”.

[5] Ver também comentário no canal do autor: https://www.youtube.com/watch?v=1rcbzcJBzGU. Acesso em 04 de junho de 2020.

[6] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NqAwkfhfJrQ . Acesso em: 04 de junho de 2020.

[7] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pQ1hVmRo8VU. Acesso em 31 de maio de 2020.

[8] Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/por-que-o-brasil-e-o-pais-no-mundo-que-menos-confia-nos-politicos-2rxp0c6scuo9304qkpvh1hn2r. Acesso em 31 de maio de 2020.

[9] II Crônicas 10.16

[10] Síntese da coluna de Leandro Narloch na Revista Crusoé segundo o site O Antagonista. Disponível em: https://www.oantagonista.com/brasil/leandro-narloch-e-a-elite-contra-a-internet/?desk. Acesso em 31 de maio de 2020.

[11] Ibidem.

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