O ministério pastoral na literatura

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C.S Lewis salientou que a literatura cristã apela para a imaginação, como uma ferramenta de devoção para com o cristianismo (LEWIS, P.113-114). A ideia é também um resgate da “arte cristã” (LEWIS, Ibid). Por um tempo, na história do pensamento ocidental, a Teologia foi chamada de “A Rainha das ciências” e ocupou um lugar de destaque.

Com o modernismo e o processo de secularização da sociedade, a Teologia foi sendo colocada como um saber voltado para religião ou a particularidade de um grupo, não devendo fazer parte da vanguarda de pensamento. E a Igreja Cristã acaba por cair em uma armadilha e não dar mais importância à arte como ferramenta para expressão cultural.

Por outro lado, alguns se adaptam a cultura de tal forma que abrem mão da transcendência divina para tornar a fé cristã apenas uma manifestação cultural em detrimento de uma fé revelada. Por exemplo, Ribeiro salienta que a “possibilidade do diálogo entre a literatura e a teologia é fundamental (…) para compreender os povos em meio aos quais são elaboradas e a quem são dirigidas” (RIBEIRO, p. 73).

Não que o pressuposto esteja errado. Ao estudar o personagem Riobaldo do Grande Sertão de Guimarães Rosa, o artigo salienta a teologia como uma experiência universal, não só dos crentes. Há verdade nisso, pois todos pensam em Deus e fazem perguntas a respeito do mesmo e de si mesmo enquanto seres humanos. O problema se dá, quando submete a fé revelada a apenas uma experiência cultural.

Para pensar uma metodologia cristã de diálogo com a literatura, evoca-se a doutrina da graça comum, ou seja, o entendimento de que Deus se revela na criação (Salmo 19:1-6). Essa revelação pode ser acessada por toda a humanidade e não apenas os remidos, embora ela não seja salvadora.

Santos escreve sobre a carência de método quando aborda a questão da literatura com a teologia (Santos, p. 30). A problemática do método se dá quando não se compreende a teologia como, nas palavras de Anselmo, Fides Quaeres Intellectus, a fé em busca de compreensão, ou no pressuposto de Agostinho, Credo ut Intelligam, creio para compreender. Se a fé não for um pressuposto para a teologia, ela irá para o cativeiro cultural.

Ramlow usa a expressão Mandato Cultural, usada pela Tradição Reformada, para salientar o cuidado com a privatização da fé (Ramlow, P. 128). O Mandato Cultural pode ser observado na Escritura Sagrada em Gênesis capítulos 1 e 2 (Ibid. P. 130) o que leva a articulação de uma Teologia da Criação (Ibid. P. 133).

O prof. Caldas chama tal método de estética positiva (CALDAS, P.5) como um reconhecimento de que há valor, beleza, verdade e bondade na tradição humana, dentro da perspectiva reformada. A tradição reformada salienta que o dualismo sagrado e profano deve ser evitado.

Dentro do eixo metodológico da tradição reformada, a literatura tem um valor positivo para apelar a imaginação do leitor em relação a experiência humana. Este ensaio, dentro da metodologia proposta irá abordar o ministério pastoral, uma atividade essencialmente teológica (fazer a ponte entre a Palavra de Deus, servindo-a, para a comunidade, servindo-a, acima de tudo glorificando a Deus), dentro da literatura.

Para tal análise, duas literaturas serão usadas, a saber, Diário de um Pároco da Aldeia, escrito por George Bernanos, e Gilead, escrito por Marilynne Robinson. Ambos têm em comum a atividade pastoral como vocação do personagem central, sendo o primeiro um padre católico e o segundo, um reverendo congregacional.

Em ambos os livros são descritas as convicções teológicas dos autores e suas perguntas referentes a fé que professam. Mas, também, há nos personagens as contradições ontológicas da experiência humana, suas dúvidas e temores. Os personagens demonstram vacilos e esperança, trazendo duas lições ao leitor.

A primeira, salientado no primeiro livro é que tudo é pela graça. Graça é uma palavra exclusiva e chave da fé cristã. A ideia de que não há mérito para ser aceito por Deus. Mesmo assim Ele aceita pecadores em Cristo. O segundo livro trás a ideia de perseverança e terminar bem. Mesmo em meio a dúvidas, temores, vacilos, medos, o cristão deve perseverar, continuar em frente, em toda sua caminhada até seu dia final.

Tudo é graça”: A lição de um Diário de um Pároco de Aldeia para pastores

Diário de um Pároco de Aldeia foi escrito por George Bernanos, publicado em 1936. Bernanos foi um escritor conservador, crítico da revolução que trouxe a secularização ao seu país (França) e se espalhou pelo Ocidente. Em 1950, este romance foi premiado como um dos melhores do século.

Em 1951, Robert Bresson adaptou o livro ao cinema, dirigindo o romance em um filme com o mesmo nome.

O livro conta a história de um jovem padre católico recém-chegado a uma paróquia no norte da França, na região de Ambricourt. A história é dividida em três partes. O jovem padre sofre muito de dores no corpo, mantém uma dieta limitada (se alimenta de pão e vinho), sofre com a falta de fé da população e tem fortes crises emocionais.

Na primeira parte, o jovem padre chega a sua paróquia compreendendo a tensão entre o bem e o mal. Mesmo assim, ele sofre com as experiências com o próprio povo, outros padres e diz “que me dá vontade de chorar. Minha paróquia é devorada pelo tédio, eis a palavra.” (BERNANOS, P. 7)

Ele tinha uma percepção de que nada poderia fazer por ela, entendia que o mundo “é devorado pelo tédio” (IBID, P. 8) pois o mundo se familiarizou com o mesmo e que “o tédio é a verdadeira condição do homem.” (IBID. P.8) Diante as situação, ele separa um diário e busca calcular as possibilidades de seu trabalho dar certo e ele não enlouquecer, porém, diante de sua humanidade, percebe-se que “não se joga contra Deus” (IBID. P. 11) já articulando sua percepção teológica.

Ao ser mentoreado pelo veterano vigário de Torcy, ele percebe um homem enérgico, vigoroso e convicto, o que lhe traz admiração. Ele percebe o quanto a cristandade é carente de graça, que o padre nunca será amado e que seu trabalho não lhe trará alegria. A primeira parte mostra sua chegada e seu contato com a pobre população.

A segunda parte mostra essa relação com a população. Ele percebe sua paróquia cheia de pessoas vacilantes, duvidosas e quiça, incrédulas. Mesmo frágil em sua saúde mental, por conta do árduo trabalho, suas convicções saltam em seu diário, “as verdades do Evangelho nunca piscam o olho.” (IBID. P. 50)

“Contentava-se em saber que o cristianismo legara ao mundo uma verdade, que ninguém haveria de deter, porque tinha, antes, penetrado no mais profundo das consciências. (…) Deus salvou cada um de nós e cada um de nós vale o sangue de Deus.” (IBID. P.51)

“Não sou um embaixador do Deus dos filósofos, sou um servo de Jesus Cristo. E o que me teria vindo aos lábios, temo-o poderia ter sido uma argumentação muito forte, sem dúvidas, mas tão fraca também, que, desde muito, convenceu-me, sem me dar a paz de espírito. Só Jesus Cristo é a paz.” (IBID. P. 83).

Seu duro trabalho tem o ápice quando procura convencer a Condessa sobre a existência de Deus, tendo êxito apenas quando ela está muito doente a beira da morte. Ela muda a posição um dia antes de morrer. Eis uma parte do diálogo com a Condessa.

“Todos os pecados se parecem; há um só pecado. Não lhe falo em linguagem obscura. Essas verdades estão ao alcance do mais alto humilde cristão, desde que ele se digne recebê-las de nós. O mundo do pecado está perante o mundo da graça, como uma paisagem perante sua própria imagem refletida em uma água negra e profunda. Há uma comunhão dos santos; há também uma comunhão dos pecadores. No ódio, no desprezo que os pecadores têm uns pelos outros, eles se unem, se abraçam, se misturam, se confundem; e um dia aos olhos do Eterno, não serão mais que este lago de lama sempre viscoso sobre o qual passa e repassa, em vão, a imensa maré do amor divino, o mar de chamas vivas e rugidoras que fecundou o caos.” (IBID. P. 133).

Com a Condessa, aborda a falta de amor do próximo, a realidade do inferno, e seu sofrimento na lide com pecadores enfurecidos.

Na terceira parte, seu enfraquecimento em sua saúde que leva a sua morte. Uma auto avaliação de si mesmo lidando com seus limites o leva a uma frustração e ódio de si mesmo. Mas, ao mesmo tempo, uma percepção e vislumbre da graça de Deus. Ele compreende que no final “tudo é graça” (IBID. P. 285).

Esta literatura se tornou um clássico tanto literário, quanto ministerial. O conhecido teólogo Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) quando liderava o seminário da igreja confessante (igreja clandestina do Estado, militante contra o Nazismo), exigia de seus alunos a leitura deste livro como parte da bibliografia ministerial.

O importante é terminar bem. A lição de Gilead aos pastores.

Gilead conta a história do Reverendo John Ames, que ao final de sua vida, escreve cartas ao filho com quase sete anos de idade. A história ocorre no ano de 1956 e o Rev. Ames conta na época com setenta e seis anos. Esse filho veio de um segundo casamento, uma vez que ele era viúvo e primeira esposa, na juventude de ambos, morreu após o parto da filha e a recém nascida morreu logo depois.

Ames conta a sua história e a história de seu pai e seu avô, o primeiro, pacifista radical, e o segundo, um abolicionista que lutou a Guerra Civil ao lado de John Brown e pregava com arma e camisa suja de sangue.

Ames, nas cartas para o filho, recheia de citações teológicas, como por exemplo, o filósofo ateu, Ludwig Feuerbach e o livro A essência do cristianismo a quem devotava um certo respeito, apesar de saber de sua negação da fé cristã (ROBINSON, P. 34). Cita constantemente Agostinho (P. 54), Jonathan Edwards (P. 108), mas somente por ocasião de seu irmão Edward (recebeu o nome em homenagem ao teólogo, porém tirou o “s” quando foi estudar na Europa) que perde a fé quando vai estudar em Gottingen, na Alemanha.

Constantemente, cita as Institutas da Religião Cristã de João Calvino e as vezes cita Calvino sem saber a referência, fazendo-o com a memória e cita bastante Karl Barth e o comentário da Carta aos Romanos. Isso evidencia suas lutas teológicas para crer e compreender a fé cristã em meio a secularização.

Por outro lado, suas memórias são recheadas de história da Guerra Civil e do meio-oeste Norte Americano, de detalhes familiares, sua paixão pelo Baseball, suas dificuldades em conciliar suas questões particulares com a dureza do ofício pastoral. Um exemplo é sua rivalidade com um jovem, de quem Ames tem muita raiva e ao mesmo tempo sabe lá no fundo que deve perdoar.

Gilead ensina sobre perseverança em meio aos desafios externos e internos, lutas com uma pluralidade de ideias e até mesmo “diferentes” interpretações do cristianismo. Ensina também sobre perseverar em meio aos dramas humanos, lidando com a própria humanidade do pastor e suas contradições.

Referências bibliográficas

BERNANOS, Georges. Diário de um Pároco da Aldeia. Tradução de Edgar de Godoi da Mata Machado. – São Paulo: É Realizações, 2011.

FILHO, Carlos Ribeiro Caldas. Teologia e Cultura: Uma Introdução a Estética Filosófica em Perspectiva da Teologia Reformada, com ênfase em Literatura. São Paulo: Fides Reformata 6/1, 2001.

LEWIS, C. S. Cristianismo e Literatura. Tradução: Gabrielle Greggersen. São Paulo: Revista Caminhando Vol. 8 n. 1, 2003.

RAMLOW, Rodomar Ricardo. O Mandato Cultural na Teologia da Criação: fé, compromisso e ação. São Leopoldo: Protestantismo em Revista, Vol. 33. 2014.

RIBEIRO, Antonio Carlos. Prolegômenos: diálogo entre teologia pública e literatura. São Leopoldo: Protestantismo em Revista, Vol. 25. 2011.

ROBINSON, Marylinne. Gilead. Tradução: Maria Helena Rouanet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

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