O evangelho e o encorajamento cristão

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Introdução1

Em 12 de novembro de 1660, John Bunyan foi aprisionado, sem acusação formal ou sentença, por pregar o evangelho na Inglaterra do Rei Carlos II.2  Acusado de fazer reuniões sem autorização (sem licença) do governo inglês, e não se conformando com a obrigação de usar a liturgia da Igreja Anglicana, ele permaneceu 12 anos preso, na prisão municipal de Sivler Street, Bedford. Ao ser-lhe oferecida a liberdade, sob a condição de não mais pregar, afirmou: “Se eu for solto hoje, pregarei amanhã.”3 

Bunyan recebeu liberdade no ano de 1672, quando Carlos II emitiu a Declaração de Indulgência Religiosa, em que dava provimento em suspender todas as leis que penalizavam católicos e outros dissidentes religiosos. Porém, poucos anos depois, em 1675, Bunyan foi mais uma vez preso por pregar o evangelho. Nesta segunda ocasião em que esteve preso, duas obras de Bunyan merecem destaque: Saved by Grace, uma exposição de Efésios 2.5, em que Bunyan encorajava os “piedosos a que perseverem na fé, não obstante a perseguição;”4  e a sua mais famosa obra, Pilgrim’s Progress [O Peregrino].5 

Segundo Joel Beeke, “O peregrino um comovente relato alegórico da guerra espiritual experimentada por um caminhante peregrino que viaja da Cidade da Destruição para a Cidade Celestial, no qual Bunyan alegorizava a sua própria experiência religiosa como um guia para outros.”6  Segundo a própria descrição de John Bunyan”,

Quando, no inicio, peguei da pena
A escrever, mal imaginava a cena,
Que fora compor assim um livrete.
Não, pensava em outro motete,
Mas, já quase concluído – por quê, não sei,
Sem me dar conta, a este me atirei.
E assim foi: eu, escrevendo sobre o anelo
e a corrida dos santos nesta era do evangelho.
Súbito vi-me enredado numa alegoria
Sobre sua viagem e o caminho à eterna alegria.
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A Carta de Paulo aos Colossenses

Em Colossenses, estamos também diante de outro prisioneiro: o Apóstolo Paulo. Segundo a tradição, Paulo permaneceu preso em Roma,  por dois anos (c. 59 – 61 d.C).Da prisão em Roma, escreveu quatro epístolas: Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemon.8  Em cada uma delas,  Paulo faz referência à sua prisão (Ef. 3.1; 4.1; 6.20; Fp. 1.17,13,14; Cl. 1. 24; 4.3, 10, 18; Fm. 1.9). Conforme Efésios 3. 1 – 13, Paulo estava preso por causa da proclamação do Evangelho, embora a acusação judaica contra Paulo fosse de cunho religioso-político.

A Igreja de Colossos

A Igreja de Colosso não foi fundada por Paulo (2.1),9 mas por Epafras, segundo estudiosos, um possível habitante da cidade de Colosso (1.7; 4.12). Por ser uma cidade a cerca de 160 quilômetros ao leste de Éfeso e com rota para o Ocidente e Oriente, é razoável concluir de Atos 19.10 e 26 que Epafras fora convertido pelo ministério de Paulo na Ásia.10  Epafras era cooperador e  companheiro de prisão de Paulo(Fm. 1.23). À luz de Colossenses 4.13, Epafras foi bem-sucedido na proclamação do Evangelho, uma vez que outras igrejas haviam sido plantadas nas cidades de Laodicéia e Hierápolois.11

De acordo com Colossenses 1. 21, 27 e 2.13, os cristãos de Colosso eram majoritariamente gentios de origem, com alguns judeus (2.11, 16), relocados por Antioco, o Grande, desde a Mesopotâmia, desde os idos de 223 – 187 a.C. 12 Aqueles irmãos são chamados por Paulo e Timóteo de “santos e irmãos fiéis em Cristo” (1.2), cujo amor pelo Senhor Jesus, e por todos os santos, era notório ao Apóstolo (1.4). Eles eram firmes na fé em Cristo, e por isso foram elogiados por Paulo e Timóteo (2.5). Esses irmãos ouviram pela palavra da verdade do Evangelho, da esperança celestial que estava reservada para eles (1.5). Mas apesar disso, aqueles cristãos estavam em iminente perigo pelas heresias combatidas vigorosamente por Epafras (4.13). De fato essas heresias eram tão perigosas que Epafras recorre ao apóstolo Paulo.(1.17s; 4.12).13 

A heresia colossense

Quais eram os perigos? Não é fácil identificar especificamente aquilo que ficou conhecido na Teologia por “A heresia colossense”. Segundo Wayne House, existem em torno de 44 opiniões sobre o que seria a heresia de Colosso. De acordo com o Rev. Augustus Nicodemus, aquela heresia de Colosso “continua sendo um mistério até hoje” e, entre os estudiosos, “não há unanimidade sobre que tipo de heresia ou falsa religião havia entrado em Colosso”, sendo, portanto, uma “tarefa extremamente difícil” reconstruí-la.”14

Mas, com base no cenário religioso de Colosso, composta por uma miscelânea de crenças gregas e judaicas, bem como pelas indicações de Paulo, pode-se chegar à identificação dos falsos ensinos que, certamente, eram conhecidas pelos destinatários. De acordo com o dr. Moule,15  podemos identificar uma espécie de ecletismo sincrético naquela heresia: 1) elementos característicos, mas não exclusivo do judaísmo puro (2.8 – “tradição dos homens”; 2.16 – “comida, festas, lua nova”); 2) elementos exclusivamente judaicos (2.11 – 13: “circuncisão”; 2.16 – “sábados”); 3) elementos exclusivos, ou ao menos, de predominância  helênica (1.19 – “plenitude”; 2.3 – “conhecimento”; 2.8 – “filosofias”; 2.16 – “bebida”; 2.23 – “ascetismo”). Veja o quando abaixo, segundo Moule:

Elementos da Heresia de Colossos
 

Além disso, estes falsos mestres  estavam rebaixando a natureza de Cristo, confundindo-o com um dos poderes cósmicos na hierarquia angelical (2.8, 15, 18, 20), talvez sendo até o mais alto na hierarquia e, portanto, este falso ensino  estava diminuindo a importância da obra redentora de Cristo. Uma vez que esses falsos mestres  menosprezavam a pessoa de Cristo, Paulo os combate com obelíssimo hino cristológico (1.15 – 19). Ele descreve a natureza de Cristo como divino-humana: Cristo é o Criador de todas as coisas, inclusive dos poderes, tronos, principados e potestades. Cristo não é o mais alto poder na hierarquia cósmica. Ele é o criador de todas as coisas, habitando corporalmente nele toda a plenitude da divindade (1.19; 2.9). Mas ele é distinto da Criação. É esse mistério que interessa aos cristãos, é esse conhecimento de Cristo, em que estão todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, a verdadeira filosofia que se contrapõe às “filosofias vãs” dos hereges de Colosso. Por isso, por Cristo ser Deus Encarnado, pode ele ser o Salvador do seu corpo, a Igreja. Ele pode perdoar pecados e libertar os homens dos poderes das trevas; por  ser o que é, as regras e regulamentos religiosos tais como dias santos, regras alimentícias ou cultos extravagantes aos anjos não são suficientes para dar aquele conhecimento verdadeiro, mas apenas enfeitam e satisfazem a carne, dando apenas aparência de sabedoria, de espiritualidade. “Os hereges de Colossos queriam ser  mais cristãos do que os outros: eles ‘julgavam’(2.16) os seus irmãos na fé,”16  mas seus ensinos eram “rudimentos do mundo, e não segundo Cristo”(2.8).

A Palavra do evangelho em Colossenses

Paulo escreve a epístola aos  Colossenses não apenas para combater os falsos mestres, mas também para encorajar os cristãos colossenses a permanecer firme no evangelho que eles haviam recebido e que havia sido pregado a toda a criatura que há debaixo do céu.   “Se é que permaneceis na fé, fundamentados e firmes, sem vos afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, do qual eu, Paulo, me tornei ministro  ” (1.23; 2.6-16; 3.1). Este evangelho (1.5) é chamado por Paulo como “a palavra da verdade”(1.5); a “tonar conhecida plenamente a palavra de Deus”(1.25); “a palavra de Cristo”(3.16).

Os Cristãos da Igreja de Colossenses, “santos e fieis Cristo”, ouviram “a palavra da verdade do Evangelho”(1.5). Na Carta aos Colossenses, este evangelho é apresentado por Paulo em uma profunda relação de Cristo e sua Obra redentora, são inseparáveis (1.13, 14). Para tanto, Paulo descreve Cristo como o mistério que Deus quis dar a conhecer aos gentios. Esse mistério é “Cristo em vós, esperança da glória”(1.16). É o mistério, agora revelado, que foi anunciado a todos as criaturas (1.23, 28). Paulo fala desse evangelho em termos do “Êxodo” veterotestamentário: “Dando graças ao pai, que vos capacitou a participar da herança dos santos na luz. Ele nos tirou do domínio das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, isto é, o perdão dos pecados.  ”(1.12-13, 14). A terminologia nos v. 13,14 descreve os cristãos como um povo ao qual que Deus escolheu resgatar do “reino das trevas e escravidão” e  transportar para “reino de luz e liberdade”. “A representação de Paulo, portanto, também oferece um conceito paralelo conceitual com a antiga libertação do êxodo […] Paulo não está ecoando uma passagem específica, mas sim o maior evento da história redentiva.”17

A grande parte da primeira metade da Carta destaca ainda muito mais a verdade do evangelho que os Colossenses receberam (1.13 – 22; 2.2, 3, 6, 7, 9 – 15).18  Embora Paulo exponha a tolice da heresia colossense numa pequena parte da carta (2.4, 8, 16 – 23), deduzimos que “as ênfases de Paulo em seu relato do evangelho também estão ali em respostas a esses erros.”19  Em outras palavras, “o apóstolo mostra que, muitas vezes, a melhor maneira de combater um erro ou de confrontar falsos mestres não é apontar as falácias da falsa doutrina, mas ensinar a verdade. Isso porque, uma vez que a verdade é transmitida com clareza, o erro vem à tona com todas as suas cores.”20  Certa vez ouvi, o dr. D. A. Carson em uma de suas palestras afirmar que deveríamos nos tornar “especialistas da verdade”, e não do erro. É exatamente isso o que Paulo  quando  apresenta o evangelho e seu conteúdo: a natureza divino-humana de Cristo Jesus; sua obra para nossa redenção pelo seu sangue, sua morte, sepultamento e ressurreição; a nossa união com Cristo em sua vida, morte, sepultamento e ressurreição (1. 2; 2.7).

 Esse evangelho se contrapõe às religiões pagãs (2.6-10) e ao legalismo (2.11-17), misticismo (2.18, 19) e ascetismo(2.20-23) das religiões, pois  as religiões pagãs  “são inúteis para resolver o problema da carne, da corrupção do coração humano.”21  O que o Senhor Jesus realizou, sendo ele Deus Encarnado, não é apenas é suficiente, mas definitivo para os que o, ouvindo,  creem Nele. “Quando um homem toma conhecimento da obra redentora de Jesus e nela crê, torna-se livre.”22

Os que estão em Cristo (3.1 – 4.9), porém, não estão presos aos rudimentos do mundo. E porque estão unidos a Cristo, os crentes têm nova vida, andando Nele (1.10; 2.6; 3.7; 4.5). Em termos de “ética paulina”, diz-se que a vida de Cristo no crente o faz “andar como filhos da luz”. São as implicações da união com Cristo.

Paulo, portanto, combate a heresia de Colossos demonstrando a ordem correta da mortificação do pecado: não é do “homem para Deus”, mas de “Deus para o homem”. O Indicativo precede o Imperativo. Tendo em vista que Jesus Cristo é supremo sobre toda a Criação, a “esfera da vida Cristã” se fundamenta neste fato e no que ele fez por nós. Por isso, o impacto do evangelho é em todas as esferas da vida: pessoal (3.1 – 7; 4. 1 – 6). Eclesial (3. 8 – 17), familiar (3.18 – 21), social (3.22 – 4.6).
 
Encorajamento pelo evangelho

Embora o tema central da Carta aos Colossenses seja a supremacia absoluta, exclusividade e suficiência de Jesus Cristo para a vida e salvação do homem, Paulo também queria encorajar, confortar e fortalecer aqueles cristãos no combate às heresias.23  O encorajamento é um tema contíguo e dependente ao tema central. É confirmado de diversas formas  maneiras  como  Paulo se dirige aos cristãos colossenses com palavras de exortação ou encorajamento (1.9–10, 23; 2.6–8, 16, 18; 3.1–2, 5, 8–9, 12–17, 18–23; 4.1–3, 5–6, 15–18).24

Além das seções de exortações, o verbo “encorajar” () é encontrado nesta carta de Paulo como uma das finalidade de sua escrita em 2.2 (). A segunda vez que o verbo “encorajar” é usado  na carta, encontra-se em 4.7, 8 ( ).25

Nas duas menções, “encorajar” está ligado ao “coração.” Quando o verbo parakale,w está ligado a “coração”, entende-se tratar-se  de consolação, encorajamento ou fortalecimento (Cf. Ef. 6.22; 2Ts 2.17; tb. Fp. 2.1).26  

Coração nessas referências é compreendido como as afeiçoes, aspirações, decisões, paixões e desejos mais profundos dos homens. É o ponto mais profundo, do qual o homem é guiado e governado, “mostrando sua verdadeira humanidade: tanto em sua susceptibilidade à revelação de Deus como em sua responsabilidade por  pensar, querer e proceder”. Ou seja, é o “sujeito da resposta do homem” à revelação de Deus, “quer seja positiva ou negativa.”27

O evangelho e o encorajamento cristão

“O Coração de toda a atividade pastoral é ser um instrumento nas mãos de Deus para trazer os corações daqueles que têm sido confiados a nossos cuidados e levá-los até o coração de Cristo […] estes corações devem ser fortalecidos para se contrapor aos ataques dos falsos mestres.”28 

Em situações semelhantes as que os cristãos de Colossos passaram, qualquer cristão  cristãos de fato podem ter seus corações desfalecidos ou enfraquecidos.  Provérbios nos diz  que “a esperança adiada desfalece o coração, mas o desejo atendido é árvore de vida”(Pv. 13.12). A Igreja do Senhor Jesus, em sua militância, está envolvida em batalhas contra o Diabo, a Carne e o Mundo. Estamos  rodeados de heresias, antigas e novas. São ensinos que frontalmente se opõem ao evangelho do Senhor Jesus, podem levar o cristão a desanimar diante da  batalha.

Uma das heresias de nosso tempo é o  liberalismo teológico que ressurge com vigor em nosso país. Este ensina que “cristianismo não é doutrina, mas ética” ou que “evangelho não é exposto em proposições, mas em vida”. É moda, em nossos dias, negar a Trindade, a Divindade de Jesus, negar o caráter histórico dos eventos redentivos etc.

O misticismo legalizante e o gnosticismo ascético aparecem em cada esquina, com ensinamentos que perturbam os cristãos; oferecem “supostas novas revelações” aos iniciados como um novo conhecimento apenas obtido pelos mais espirituais, gerando práticas antibíblicas e bizarras. Há também a escravização nas “regras religiosas”, com fins de espiritualidade. “Não há necessidade de uma listagem de normas que ordenem não fazer isso ou aquilo. Não são essas práticas que vão santificá-lo, mas a  sua união com Jesus.”29 

A judaização bate às portas de nossas igrejas. Como diz o cantor João Alexandre: “Estão reconstruindo o que Jesus derrubou / Recosturando o véu que a cruz já rasgou / Ressuscitando a lei pisando na graça / Negociando com Deus.” A terra de Israel tem virado a “Meca de muitos crentes”. As Festas Judaicas são comemoradas em muitas igrejas locais; os apetrechos veterotestamentários têm sido resgatados e introduzidos no Culto Cristão. Há até cursos para ensinar a tocar o shofar! O ápice tem sido a composição de músicas evangélicas em hebraico, com direito a mudança de nomes próprios!

Somos confrontados pelas lutas diárias em todas as esferas da vida. Como enfrentar tudo isso? É preciso que o cristão traga à lembrança a esperança que está reservada nos céus para ele. O meio para essa lembrança reside nas promessas do evangelho. Não creio que haja instrumento mais eficaz de encorajamento ao cristão do que o próprio evangelho. Todo e qualquer outro meio não passa de vãs filosofias e sutilizas segundo a tradição dos homens. Uma vez que em Cristo Jesus estão escondidos todos os tesouros da Sabedoria, segue-se que o que não é segundo Cristo é tolice do mundo.

Paulo, acerca de Cristo Jesus,  em Colossenses faz algumas asserções.30  Ele diz que Cristo é a imagem do Deus invisível (1.15); que Cristo é o primogênito da Criação (v. 15); que Jesus é Criador e Agente da Criação (v. 16) e toda a Criação é para ele (v. 16 – ); por isso , ele é antes da Criação, ou seja, ele é eterno (v. 17); ele sustenta toda a Criação (v. 17); ele é o cabeça da igreja (v. 18); é o primogênito dentre os mortos e tem a preeminência sobre tudo (v. 18); Nele reside toda a plenitude de Deus, e isto corporalmente (2.9), ou seja, ele é completamente Deus e Homem(v. 19); por isso por meio dele todas coisas são reconciliadas (v. 20); ele é o pacificador (v. 20); nele temos a redenção, a remissão dos pecados (v. 14).

Diante da situação da Igreja de Colossos, Paulo não apresentou “novas terapias” ou “conselhos de autoajuda”; Paulo não “amarrou o Diabo” ou os “espíritos territoriais”, nem fez uma “corrente de algumas semanas para libertação”; ele, embora velho, não “transferiu a unção ministerial apostólica para Epafras ou Tíquico”, não! Paulo pregou-lhes o evangelho! Paulo os encorajou, os consolou pela “palavra da verdade de Deus”, “Porque tudo o que foi escrito no pasado foi escrito para nossa instrução, para que tenhamos esperança por meio da perseverança e do ânimo que provêm das Escrituras ”(Rm. 15.4).

“A igreja deveria ser um lugar de esperança, de bom ânimo e encorajamento; o lugar onde outros confirmam as áreas de crescimento em nossas vidas e ajudam-nos no caminho da maturidade; o lugar onde somos fortalecidos para a batalha diária no meio do desespero e desesperança; e o lugar onde fazemos o mesmo pelos outros.”31

Voltando à alegoria da jornada cristã composta por John Bunyan,   Cristão, o peregrino, é acompanhado primeiramente por Fiel, seu irmão, e que é executado na Feira das Vaidades (cap. 13); em seguida, um novo companheiro, Esperançoso (cap. 14). Já próximo ao final da jornada, quando Cristão precisa atravessar o Rio da Morte, Cristão temeroso em se afogar, diz a Esperançoso:

“Cristão – Ah, meu amigo, as angústias da morte me envolveram – disse Cristão. – Não verei a terra que mana leite e mel.
    E grande treva e terror desceram sobre Cristão, tanto que mais nada via à sua frente […].    Esperançoso, portanto, muito se esforçava por manter a cabeça do irmão acima da água. Mas às vezes ele afundava, para depois erguer-se novamente quase morto. Esperançoso também tentava consolá-lo. Dizia:
 Esperançoso – Irmão, já vejo o portão adiante e há homens ali de pé para nos receber. – Mas Cristão respondia:
    – É você, é você que eles estão esperando. Pois tem sido Esperançoso desde que o conheci.
    – E você também – respondeu.
    – Ah, irmão. Se eu tivesse me portado com retidão, certamente ele agora surgiria para me ajudar, mas pelos meus pecados ele me enredou no laço e me abandonou.
    Esperançoso – Meu irmão, você se esqueceu do livro, onde se diz dos ímpios: “Não há tormentos na sua morte, mas sua força é firme; não partilham das canseiras dos mortais, nem são afligidos como os outros homens” (SI.73:4-5) Esses tormentos e aflições que você sofre nessas águas não são sinais de que Deus o abandonou, mas pretendem colocá-lo à prova, para ver se você se lembrará ou não daquilo que até aqui recebeu da sua bondade, confiando nele em meio a toda essa angústia.

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1Exposição realizada por ocasião do 3º Encontro da Fé Reformada Recife, entre 7 e 9 de maio de 2014.
2Carlos II reinou sobre a Inglaterra, Escócia e Irlanda.
3FERREIRA, Franklin. Servos de Deus – espiritualidade e teologia da história da igreja. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2014, p.255s.
4BEEKE, Joel R.; PEDERSON, Randall J. Paixão pela Pureza. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2010, p.177.
5A obra foi produzida em duas partes, na qual a segunda trata de A Peregrina.
6BEEKE, idem, p. 181.
7BUNYAN, John. O Peregrino. São Paulo: Mundo Cristão, 2006, p. x.
8GUNDRY, Robert. Panorama do Novo Testamento. 3ed. Revisada e Ampliada. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 500s.
9CARSON, D.A; MOO, Douglas; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 368.
10GUNDRY, idem, p. 505.
11LOPES, Augustus Nicodemos. A Supremacia e a Suficiência de Cristo – a mensagem de Colossenses para a Igreja de Hoje. São Paulo: Vida Nova, 2013, p.13.
12CONSTABLE, Thomas. Dr. Constable’s Notes on Colossians. Published by Sonic Light, 2014, p. 1. Disponível em: .
 13VIELHAUER, Phillip. História da Literatura Cristã Primitiva. Santo André, SP: Academia Cristã, 2005, p. 223.
14NICODEMUS, idem, p.15.
15MOULE, C.F.D (ed). The Epistles of Paul the Apostle to the Colossians and to Philemon. Cambridge Greek Testament Commentary. New York: Cambridge University Press, 1957, p. 30.
16ZIENER, Georg. A Garantia da Ortodoxia. In: SCHREINER, Josef; DAUTZENBERG, Gerhard. Forma e Exigências do Novo Testamento. 2ed. São Paulo: Ed. Teológica, 2004, p. 373.
17BEETHAM, Christopher. Echoes of Scripture in the Letter of Paul to the Colossians. Leiden, Boston: Brill, 2008, p. 82
18FEE, Gordon; STUART, Douglas. Como ler a Bíblia livro por livro. São Paulo: Vida Nova, 2013, p.424.
19Idem.
20NICODEMUS, idem, p. 30, 31..
21Idem, p.80.
22ZIENER, idem, p.377.
23Cf. FEE; STUART, idem, p. 423, 424. NICODEMUS, p.57.
24HEIL, John Paul. Colossians – Encouragement to Walk in All Wisdom as Holy One in Christ. Atlanta, GA: Society of Biblical Literature, 2010, p.3
25A ARA traduz a primeira ocorrência por “para que o coração deles seja confortado”; e traduz a segundo ocorrência por “expresso propósito de vos dar conhecimento da nossa situação e de alentar o vosso coração.”
26HENDRIKSEN, William. New Testament Commentary: Exposition of Colossians, and Philemon. Grand Rapids, Michigan: Baker Academic, 1964, p. 103.
27RIDDERBOS, Herman. A Teologia do Apóstolo Paulo. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p.127,128.
28HENDRIKSEN, ibidem.
29NICODEMUS, idem, p.79.
30CONSTABLE, idem, p. 22.
31GARLAND, David E. The NIV Application Commentary – Colossians and Philemon. Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1998, p.136.

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