Introdução à cosmovisão reformada: anotações quase aleatórias (5)

0
138

Leia antes a parte 4 aqui

3) O Homem e o Trabalho

A) ALGUMAS PERSPECTIVAS HISTÓRICAS E FILOSÓFICAS
Aqui temos que ter cautela para não incorrermos no equívoco generalizante de tomar um pensamento aqui e outro ali e presumir termos uma amostragem característica do pensamento grego. Nem sempre, por exemplo, os pensamentos de Sócrates, Platão e Aristóteles representam o modo habitual dos gregos verem a realidade.1

Tomando o cuidado necessário, podemos observar que dentro do ideal grego de reflexão e serenidade, não há espaço para pensar em “trabalho braçal”. Daí a visão grega do trabalho ser extremamente negativa, sendo considerado algo inferior.2 A vida contemplativa é a mais valiosa, nos assemelhando aos deuses.3 Mesmo Hesíodo reconhecendo que “o trabalho não é vergonha alguma, mas a preguiça é!”,4 na descrição que faz da Idade de Ouro,5 os deuses viviam sob o domínio de Cronos em perfeita paz, sem preocupações, alegrando-se nas festas, usufruindo dos bens produzidos espontânea e generosamente pela terra; ou seja: na ociosidade celestial e terrena.6
       
No mundo romano, apesar de todo o seu empreendimento, filósofos como Cícero (106-43 a.C.) e Sêneca (c. 4 a.C.-65 d.C.) e o historiador Tito Lívio (59 a.C.-17 d.C.), exaltavam o ócio em detrimento do trabalho, olhando com desprezo o trabalho do artesão.7
       
Na perspectiva judaica, o trabalho manual era altamente estimado; sendo profundamente respeitados aqueles que o praticavam, pois esse talento é considerado uma dádiva de Deus.8 Aliás, Deus é apresentado, no primeiro verso de Gênesis, trabalhando, criando todas as coisas (Gn 1.1) e, nas páginas do Antigo Testamento, com frequência somos desafiados a contemplar a criação de Deus e nos maravilharmos com ela (Jó 37.14-15; Sl 8.3,6; 19.1-6; 28.5; 86.8; 92.4-5; 104.24; 111.2; 139.14; 145.9,17, etc).
       
O trabalho faz parte do propósito primevo de Deus para o homem e revela a sabedoria divina (Gn 1.28; 2.15; Ex 20.9; Sl 104.23; Is 28.23-29). Os rabinos, como exemplo desta perspectiva, além do estudo metódico da Lei, aplicavam-se ao trabalho manual para suprir às suas necessidades (ver Mc 6.3 e At 18.3). No entanto, com o passar dos anos, foi criada uma dicotomia entre o sagrado e o profano. No Talmude,9 há uma oração (séc. 1º) feita pela perspectiva do escriba, que diz o seguinte:

Eu te agradeço, Senhor, meu Deus, porque me deste parte junto daqueles que se assentam na sinagoga, e não junto daqueles que se assentam pelas esquinas das ruas; pois eu me levanto cedo, eles também se levantam cedo; eu me levanto cedo para as palavras da Lei, e eles, para as coisas fúteis. Eu me esforço, eles se esforçam: eu me esforço e recebo a recompensa, eles se esforçam e não recebem recompensa. Eu corro e eles correm: eu corro para a vida do mundo futuro, e eles, para a fossa da perdição.10       

No Novo Testamento encontramos uma perspectiva semelhante a do Antigo Testamento, sendo o trabalho visto com naturalidade nas parábolas de Jesus (Mt 20.1,2,8; 21.28; 25.16; Mc 13.34),11 evidenciando ser o trabalho algo comum em nossa vida cotidiana (Jo 6.27; Jo 9.4),12  inclusive instando com os seus discípulos no sentido de orarem ao Pai, senhor da seara, por mais trabalhadores (Mt 9.37-38).13
      
Em duas declarações lapidares de Jesus vemos a sua perspectiva teológica: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17). “…. as obras que o Pai me confiou para que eu as realizasse, essas que eu faço testemunham a meu respeito de que o Pai me enviou” (Jo 5.36).
       
Há também outro grupo de palavras que realçam a visão cristã a respeito do serviço. O termo “diácono” e suas variantes, provêm do grego διάκονος, διακονία e διακονεω, palavras que significam respectivamente, “servo”, “serviço” e “servir”. Essas palavras apresentam três sentidos especiais, com uma pesada conotação depreciativa: a) Servir à mesa; b) Cuidar da subsistência; c) Servir: No sentido de “servir ao amo”.
       
Para os gregos, servir era algo indigno. Os sofistas chegavam a afirmar que o homem reto só deve servir aos seus próprios desejos, com coragem e prudência. Partindo da compreensão grega de que nascemos para comandar, não para servir, Platão (427-347 a.C.) e Demóstenes (384-322 a.C.), um pouco mais moderados, admitiam que o serviço (διακονία) só tinha algum valor quando prestado ao Estado. Portanto, “a ideia de que existimos para servir a outrem não cabe, em absoluto, na mente grega”.14
       
Jesus Cristo deu uma grande lição aos seus ouvintes ao verbalizar a sua missão. Ele apresenta um contraste evidente com o conceito grego e, ao mesmo tempo, eleva de forma magnífica o pensamento judeu: “…. O Filho do homem, que não veio para ser servido (διακονεω), mas para servir (διακονεω)….” (Mt 20.28). Terminada a série de tentações satânicas desferidas contra o Senhor Jesus, Mateus registra “….e eis que vieram anjos e o serviram (διακονεω)” (Mt 4.11/Hb 1.14).
       
Paulo demonstra que “O ministério (διακονία) do Espírito” (2Co 3.8) que opera de forma eficaz por meio do Evangelho é glorioso. Ele se declara diácono do Evangelho: “Se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro (διάκονος)” (Cl 1.23). Bem como, diácono da Igreja: “24 Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja; 25 da qual me tornei ministro (διάκονος) de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus” (Cl 1.24-25). É, como também Apolo, instrumento de Deus para que os homens creiam no Evangelho: “Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos (dia/konoj) por meio de quem crestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um” (1Co 3.5).
       
Vemos, portanto, como o conceito de trabalho demonstrado por Jesus Cristo e pelos apóstolos está longe de ser irrelevante ou humilhante, antes, tem uma nova conotação que ultrapassa em muito a visão predominante. O Apóstolo Paulo trabalhava como fazedor de tendas (At 18.3),15 não sendo o seu trabalho fácil, quer nesta ou em outra atividade (1Co 4.12).16 Mesmo se valendo de uma figura comum declarando que o trabalhador é digno de seu salário (Rm 4.4), lutava para não ser pesado a ninguém ainda que isso não fosse ilegítimo como pregador da Palavra (1Tm 5.17-18/Mt 10.10).17 À igreja de Tessalônica onde, ao que parece, alguns por motivos pretensamente escatológicos eram inclinados a abandonar o trabalho, Paulo insiste em lembrar a estes “piedosos preguiçosos” o seu testemunho e ratificar seus ensinamentos: “8Nem jamais comemos pão à custa de outrem; pelo contrário, em labor e fadiga [um trabalho de difícil execução], de noite e de dia, trabalhamos, a fim de não sermos pesados a nenhum de vós; 9não porque não tivéssemos esse direito, mas por termos em vista oferecer-vos exemplo em nós mesmos, para nos imitardes.10Porque, quando ainda convosco, vos ordenamos isto: se alguém não quer trabalhar, também não coma.18 11Pois, de fato, estamos informados de que, entre vós, há pessoas que andam desordenadamente, não trabalhando; antes, se intrometem na vida alheia.12A elas, porém, determinamos e exortamos, no Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando tranquilamente, comam o seu próprio pão. 13E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem” (2Ts 3.8-13). “Porque, vos recordais, irmãos, do nosso labor e fadiga; e de como, noite e dia labutando para não vivermos à custa de nenhum de vós, vos proclamamos o evangelho de Deus” (1Ts 2.9). “E a diligenciardes por viver tranquilamente, cuidar do que é vosso e trabalhar com as próprias mãos, como vos ordenamos (1Ts 4.11).
       
O cristão, justamente por ser cristão, deve ser um trabalhador exemplar.19  É curioso que Paulo sempre desafiava os crentes que conviveram com ele a considerarem o seu testemunho, o seu passado em sua companhia. Considerando que ele tinha a Cristo como modelo supremo, procurava de forma coerente se tornar o modelo (tu/poj) daquilo que ele mesmo ensinava (2Ts 3.9/1Co 10.6; Fp 3.17). Sustentava que isso era uma característica indispensável aos mestres (1Tm 4.12; Tt 2.7). Do mesmo modo entendia Pedro (1Pe 5.3).
       
Certamente como reflexo desses ensinamentos, encontramos no segundo século, o Didaquê (c. 120 A.D.), capítulo XII,20 instruindo:

1. Acolha todo aquele que vier em nome do Senhor. Depois, examine para conhecê-lo, pois você tem discernimento para distinguir a esquerda da direita.
2. Se o hóspede estiver de passagem, dê-lhe ajuda no que puder. Entretanto, ele não deve permanecer com você mais que dois ou três dias, se necessário.
3. Se quiser se estabelecer e tiver uma profissão, então que trabalhe para se sustentar.
4. Porém, se ele não tiver profissão, proceda de acordo com a prudência, para que um cristão não viva ociosamente em seu meio.
5. Se ele não aceitar isso, trata-se de um comerciante de Cristo. Tenha cuidado com essa gente!21  

Retornando ao Novo Testamento, vemos Paulo instruindo àquele que no seu antigo modo de vida furtava, mas agora, convertido ao Senhor, deve, em novidade de vida, se sustentar com o fruto de seu trabalho, tendo também uma preocupação social: “Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos22 o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado” (Ef 4.28/At 20.34; 28.10; Rm 12.13;23 Fp 4.16). É curioso e emblemático que Paulo use neste texto (Ef 4.28) o verbo κοπιάτω ordenando ao convertido que trabalhe árdua, intensa e exaustivamente para se manter e ainda ter como suprir as necessidades eventuais de seus irmãos. Vejo aqui um princípio pedagógico. É como se ele dissesse: aprenda na prática como é difícil obter licitamente o sustento. Faça isso com perseverança. Ainda mais: você que subtraiu de outros no passado o produto de seu trabalho, se esforce agora por ajudar os que necessitam.
       
Paulo dá uma dimensão teológica ao trabalho, mostrando que todo e qualquer trabalho deve ser feito para a glória do Senhor (Cl 3.23). Timóteo deveria se esforçar por se apresentar a Deus como obreiro aprovado que manejava bem a Palavra da verdade: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15).
       
Contrastando a isso e, ao mesmo tempo, refletindo aspectos da compreensão de seu tempo, no século XIII, o poeta francês Rutebeuf (c. 1245-1285), formado na Universidade de Paris, proclama com orgulho: “Não sou trabalhador manual”.24 Na Idade Média — entre duas tradições antagônicas: a greco-romana que desprestigia o trabalho e a cristã que o valoriza25 —, há de certa forma, um retorno à ideia grega, considerando o trabalho — no sentido manual, “arte mecânica” — algo degradante para o ser humano,26 e inferior ao ócio, descanso, repouso, à vida contemplativa e ociosa, por um lado, e à atividade militar pelo outro.27 Aliás, é possível que esta perspectiva tenha contribuído para que os gregos não tivessem desenvolvido uma ciência empírica.28
      
Na visão de São Tomás de Aquino (1225-1274), o trabalho era, no máximo, considerado “eticamente neutro”.29 Contudo, perpetuou a sua preferência para com a vida contemplativa.30 Segundo a Igreja romana, “a finalidade do trabalho não é enriquecer, mas conservar-se na condição em que cada um nasceu, até que desta vida mortal, passe à vida eterna. A renúncia do monge é o ideal a que toda a sociedade deve aspirar. Procurar riqueza é cair no pecado da avareza. A pobreza é de origem divina e de ordem providencial”, interpreta Pirenne.31
      
Ainda na Idade Média, especialmente a partir do século XI, a posição ocupada pelo trabalho era regida pela divisão gradativa de importância social: Oradores (oratores) (eclesiásticos), Defensores (bellatores) (guerreiros) e Trabalhadores (laboratores)32 (agricultores, camponeses).33 Desta forma, os eclesiásticos, no seu ócio e abstrações “teológicas” é que tinham a prioridade, ocupando um lugar proeminente.
       
Deste modo, a ordem social estava tão bem estabelecida — supostamente amparada no modelo da sociedade celestial com seus arcanjos e anjos que, se por um lado tentar ascender socialmente seria um sinal de orgulho, por outro, decair socialmente era um pecado vergonhoso. Portanto, “o dever do homem medieval era permanecer onde Deus o tinha colocado”.34
       
O trabalho manual era imposto ao monge apenas como castigo e penitência.35 Mesmo para designar o trabalho, como acentuam Le Goff e Truong, há duas palavras distintivas: Opus e Labor. Opus “é o trabalho criador, o vocábulo do Gênesis que define o trabalho divino, o ato de criar o mundo e o homem à sua imagem. Desse termo derivará operari (criar uma obra) operarius (aquele que cria)”.36 Labor, por sua vez, refere-se ao trabalho laborioso, “está do lado do erro e da penitência”.37
       
Biéler comenta: “O trabalho, especialmente o trabalho criador de bens e riqueza, o trabalho manual, se não decaíra mais até o nível do trabalho servil da Antiguidade, foi, todavia, considerado como uma necessidade temporal desprezível com relação aos exercícios da piedade. E aqueles que se dedicavam às atividades econômicas e financeiras, os negociantes e banqueiros, eram particularmente desconsiderados”.38
       
No próprio currículo das universidades medievais era explícita a visão desprivilegiada do trabalho: “…. as disciplinas ‘mecânicas’ ou ‘lucrativas’, vítimas do duplo preconceito dos antigos contra o trabalho manual e do cristianismo contra o dinheiro e a matéria, eram banidas da escola, deixadas para os leigos pecadores e ‘iletrados’ (illiteratus quer dizer aquele que ignora o latim, que não estudou as artes liberais)”.39

B) A PERSPECTIVA DE CALVINO

“A liberdade está na obediência ao nosso chamado” Charles Colson; Harold Fickett.40

“Que tragédia quando grande quantidade dos homens de um país procura cargos, em lugar de vocações” John Mackay.41

Não nos cabe aqui analisar a história da filosofia do trabalho, contudo, devemos mencionar que a Reforma resgatou o conceito cristão de trabalho, fazendo uma crítica fundamental à concepção monástica medieval, eliminando, por exemplo, a distinção entre vida activa representada por Marta e a vida contemplativa representada por Maria (Lc 10.38-42),42 sendo este o modelo do caminho monástico.43
       
Biéler, resume: “Calvino, fundamentando-se nas Escrituras, é um dos raros teólogos a pôr em evidência, com tanta clareza, a participação do trabalho do homem na obra de Deus. Dessarte, conferiu ele ao labor humano dignidade e valor espirituais jamais vistos na escolástica, nem, por mais forte razão, na antiguidade. Este fato terá grandes repercussões no desenvolvimento econômico das sociedades calvinistas”.44
       
Em relação à ética do trabalho, Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564) estavam de acordo quanto à responsabilidade do homem de cumprir a sua vocação por meio do trabalho. Não há lugar para ociosidade. “Quando quis Deus, escreve Calvino, que o homem se aplicasse a cultivar a terra, na pessoa do homem condenou Deus a ociosidade e a indolência. Portanto, nada é mais contrária a ordem da natureza, que consumir a vida comendo, bebendo, e dormindo….”.45 Com isto, não se quer dizer que o homem deva ser um ativista, mas sim, que o trabalho é uma “bênção de Deus”. Lutero teve uma influência decisiva, quando traduziu para o alemão o Novo Testamento (1522), empregando a palavra beruf para trabalho, em lugar de arbeit (palavra derivada do latim arvus,46 terreno arável). Beruf — com toda a dificuldade de encontrar um equivalente em nossa língua — acentua mais o aspecto da vocação do que o do trabalho propriamente dito. As traduções posteriores, inglesas e francesas, tenderam a seguir o exemplo de Lutero. A ideia que se fortaleceu é a de que o trabalho é uma vocação divina.47
       
Como vimos, Calvino afirma com firmeza: “Se seguirmos fielmente nosso chamamento divino, receberemos o consolo de saber que não há trabalho insignificante ou nojento que não seja verdadeiramente respeitado e importante ante os olhos de Deus”.48 Em outro lugar, combatendo a interpretação clerical medieval que estimulava à ociosidade e especulações inúteis, diz: “É um erro que aqueles que fogem dos afazeres do mundo e engajem-se em contemplação estão vivendo uma vida angelical. (…) Sabemos que os homens foram criados para ocuparem-se com o trabalho e que nenhum sacrifício é mais agradável a Deus do que quando cada um atende ao seu chamado e procura viver completamente em prol do bem comum”.49
    
O amor ao próximo faz com que o nosso honesto trabalho não se limite a satisfazer as nossas necessidades, mas, também, a ajudar aos nossos irmãos: “O amor nos leva a fazer muito mais. Ninguém pode viver exclusivamente para si mesmo e negligenciar o próximo. Todos nós temos de devotar-nos à ação de suprir as necessidades do próximo”.50
       
Entende que “a indolência e a inatividade são amaldiçoadas por Deus”.51 Em outro lugar: “Moisés acrescenta agora que a terra foi outorgada ao homem com esta condição: que se ocupasse em cultivá-la, de onde se segue que foram os homens criados para empregar-se em fazer alguma coisa e não para estarem ociosos e indolentes. Verdade é que esse labor era bem alegre e agradável, longe de todo aborrecimento e cansaço; todavia, quando Deus quis que o homem se afizesse a cultivar a terra, na pessoa dele condenou todo repouso indolente”.52 Todavia, a graça de Deus atenua a severidade de punição, anexando ao labor humano uma dose de satisfação que deveria caracterizar primariamente o trabalho.53
       
Além disso, o trabalho está relacionado com o progresso de toda a raça humana, logo, a um crescimento sustentável:

Há modos diferentes de se trabalhar. Para quem ajuda a sociedade dos homens pela indústria, ou regendo sua família, ou na administração pública ou em negócios privados, ou aconselhando, ou ensinando ou de qualquer outra maneira, não será considerado entre os inativos. Paulo censura aqueles zangões preguiçosos que querem viver pelo suor dos outros, não contribuindo assim com nenhum serviço em comum para ajudar a raça humana.54

O ganho ilícito, por meio do qual o patrimônio de nosso próximo é dilapidado, é, na realidade — independentemente do nome que se dê, já que o ser humano é pródigo em adjetivar a maldade com termos nobres —, não um sinal de inteligência, mas de iniquidade: é, portanto, uma forma de furto.55 Mais tarde, o grande teólogo genebrino Francis Turretini (1623-1687), interpretando o pensamento de Calvino, diria que receber salário por um trabalho mal feito é uma forma de roubo.56 Portanto, retornando ao próprio Calvino, “não se deve fazer um uso pervertido dos labores que outras pessoas empreendem em seu próprio benefício”.57
       
Ainda que o dinheiro emprestado a juros seja permitido58 — prática tão comum na Europa há muitos séculos antes de Calvino59 —, o trabalho honesto, fruto do nosso labor, é que deve ser a fonte de recursos para a manutenção de nossa família. Não devemos nos aproveitar das necessidades alheias, vivendo simplesmente de transações financeiras. Um princípio justo é que em todas as negociações, haja benefícios para ambas as partes.

Fazendo uma digressão, observamos que no Salmo 15 o salmista faz uma pergunta sobre habitar na Casa do Senhor e, antes mesmo que possamos tentar esboçar uma resposta, ele apresenta uma série de requisitos. Aliás, deve ser dito que a pergunta não se dirige a nós, mas a Deus. A resposta mais completa já fora dada pelo Senhor na sua Lei.60 Portanto, a resposta é uma forma de destacar aspectos da Lei a fim de serem atualizados em nossas mentes e corações.

Inclino-me a pensar que este Salmo, mais do que algo apenas litúrgico; um preparativo para entrar no Santuário,61 descreve um solilóquio no qual o salmista, alegre e ao mesmo tempo compenetrado, indaga a respeito desta habitação, ou seja, desta comunhão com Deus e, à luz da própria Lei de Deus, apresenta a resposta.
       
Os princípios éticos aqui descritos positiva e negativamente — longe de serem completos ou meritórios — são atinentes àqueles que já foram regenerados, integrando à família da fé.62 Portanto, aqui não se está tratando da doutrina da justificação.63 Neste Salmo temos uma descrição de nossa impossibilidade de cumprir as exigências divinas e, ao mesmo tempo, de nossa responsabilidade como filhos da Aliança. Por isso, as instruções, ao invés de serem apenas ritualísticas, demandam um exame de consciência.64 “O primeiro fato que nos chama a atenção é que num cântico destinado ao culto não se faz nenhuma menção de coisas cúlticas, como sacrifícios, ofertas, ritos de purificação, mas só de exigências morais. Toda a ênfase recai nesses requisitos. É da essência do culto da aliança que a ‘obediência’ é mais importante que os sacrifícios”.65

Especificando as exigências divinas, escreve o salmista: “O que não empresta o seu dinheiro com usura (neshek) (= interesse, morder,66 mastigar67)….” (Sl 15.5). Aqui o que se tem em vista, ao que parece, é a cobrança extorsiva sobre o bem emprestado. O empréstimo dentro da visão bíblica, não fazia parte simplesmente da esfera financeira, mas dentro de um princípio teológico havia uma perspectiva social: diminuir a pobreza.68 “Os que afirmam estar em uma relação de pacto com Deus têm a obrigação moral de evitar práticas exploratórias, refletindo a compaixão divina, mostrando bondade para com os companheiros menos afortunados e protegendo o direito do pobre quanto às necessidades básicas da vida”.69
       
O princípio estabelecido na Lei não obrigava o cidadão a emprestar seu dinheiro, contudo, ao emprestar, havia condições básicas contra a usura, inclusive, no que diz respeito à prática permitida do penhor: “Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como credor (nashah) que impõe juros (neshek)” (Ex 22.25; Lv 25.36-37; Dt 24.6,10-13). O princípio não se restringia ao dinheiro: “A teu irmão não emprestarás com juros (neshek), seja dinheiro, seja comida ou qualquer coisa que é costume se emprestar com juros (neshek)” (Dt 23.19). Ao estrangeiro poderia ser emprestado com juros: “Ao estrangeiro emprestarás com juros (neshek), porém a teu irmão não emprestarás com juros (neshek), para que o SENHOR, teu Deus, te abençoe em todos os teus empreendimentos na terra a qual passas a possuir” (Dt 23.20). Se considerarmos que este preceito visa a apenas equilibrar as relações comerciais, fica mais fácil entendê-lo. O estrangeiro cobrava juros naturalmente. Desta forma, para que houvesse um equilíbrio econômico, era permitido ao judeu cobrar juros de tais pessoas.70
       
Não devemos nos esquecer de que a prática de juros era comum na Antiguidade sendo que os juros praticados eram altíssimos, chegando a 50% ao ano.71 À luz do Antigo Testamento, os juros cobrados aos estrangeiros certamente não seriam extorsivos visto que isso quebraria os próprios princípios da Lei. Além disso, os credores não deveriam cobrar juros adicionais no pagamento da dívida, o que inviabilizaria a sua quitação.72 É possível que os juros praticados em Israel após o cativeiro não passasse de 1% ao mês (Ne 5.11),73 contudo, temos dificuldades com o texto e a sua melhor tradução.74
       
Quando Deus fala sobre a responsabilidade de cada um perante ele, ilustra alguns comportamentos que deveriam ser rejeitados devido à pecaminosidade de tais atos. O povo de Judá, por exemplo, estava colhendo os frutos, no cativeiro, de seus próprios pecados. Entre os preceitos de Deus que foram quebrados, lemos: “Não dando o seu dinheiro à usura (neshek), não recebendo juros (tarbiyth) (= acréscimo, aumento),75 desviando a sua mão da injustiça e fazendo verdadeiro juízo entre homem e homem” (Ez 18.8). Mais à frente: “Emprestar com usura (neshek) e receber juros (tarbiyth), porventura, viverá? Não viverá. Todas estas abominações ele fez e será morto; o seu sangue será sobre ele” (Ez 18.13). “No meio de ti, aceitam subornos (shachad)76 para se derramar sangue; usura (neshek) e lucros (tarbiyth) (= acréscimo, aumento) tomaste, extorquindo-o; exploraste o teu próximo com extorsão; mas de mim te esqueceste, diz o SENHOR Deus” (Ez 22.12).
       
Quem tais coisas pratica não será abençoado por Deus. A sua riqueza será agregada ao que acode misericordiosamente o necessitado: “O que aumenta os seus bens com juros (neshek) e ganância (tarbiyth) ajunta-os para o que se compadece do pobre” (Pv 28.8). “Quem se compadece do pobre ao SENHOR empresta, e este lhe paga o seu benefício” (Pv 19.17).
       
Há uma relação gramatical entre a atitude do agiota e o agir com impiedade e falsamente.77 Fisher, seguindo Speiser,78 comenta que na prática antiga de empréstimos “descontavam-se os juros normais e que a ‘usura’ consistia numa segunda taxa de juros cobrada depois que o devedor inadimplente era preso como escravo”.79
       
Comentando o Sl 15.5, Calvino faz uma longa explanação sobre isso:

Neste versículo Davi prescreve aos santos a não oprimirem seu próximo com usura, nem a forçá-lo a aceitar suborno em favor de causas injustas. (…) Lembremo-nos, pois, de que toda e qualquer barganha em que uma parte injustamente se empenha por angariar lucro em prejuízo da outra parte, seja que nome lhe damos, é aqui condenada. (…) Aconselharia meus leitores a se precaverem de engenhosamente inventar pretextos, pelos quais tirem proveito de seus semelhantes, e para que não imaginem que qualquer coisa pode ser-lhes lícita, quando para outros é grave e prejudicial.

Com respeito à usura, é raríssimo encontrar no mundo um usurário que não seja ao mesmo tempo um extorquidor e viciado ao lucro ilícito e desonroso. Consequentemente, Cato desde outrora corretamente colocava a prática da usura e o homicídio na mesma categoria de criminalidade, pois o objetivo dessa classe de pessoas é sugar o sangue de outros. É também algo muito estranho e deprimente que, enquanto todos os demais homens obtêm sua subsistência por meio do trabalho, enquanto os cônjuges se fatigam em suas ocupações diárias, os operários servem à comunidade com o suor de sua fronte, e os mercadores não só se empenham em variados labores, mas também se expõem a muitas inconveniências e perigos, os agiotas se deixam levar por vida fácil sem fazer coisa alguma, recebendo tributo do labor de todas as outras pessoas. Além disso, sabemos que, geralmente, não são os ricos que são empobrecidos por sua usura, e, sim, os pobres, precisamente, que deveriam ser aliviados.80

____________________________________________________________________________________________________

1Devo esta observação a Forrester. (W.R. Forrester, Christian Vocacion: Studies in Faith and Work, London: Lutterworth Press, 1951, p. 121).
2Vejam-se: Platão, República, 369ss.; Aristóteles, Política, 1328b; Idem., Metafísica, I.1. Vejam-se também, a interpretação    do conceito grego, feita por Ferrater Mora. (Trabajo: In: José Ferrater Mora, Diccionario de Filosofia, 5. ed. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1969, Vol. II, p. 819-822; Alan Richardson, Work: In: Alan Richardson, ed.  A Theological  Word Book of the Bible, 13. ed.  London: SCM Press, 1975, p. 285).
3Veja-se: Aristóteles, Ética a Nicômaco, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, Vol. IV), 1973, X.7-8.
4Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias, 3. ed. São Paulo: Iluminuras, 1996, Verso 310. (O texto é bilingue. Optei por fazer a tradução).
5Em Hesíodo encontramos o exemplo característico da interpretação linear da História que apresenta um processo finito e pessimista. Ele entendia que a História se move partindo da idade do ouro, passando pela da prata e de bronze até chegar finalmente à de ferro (Veja-se: Otto A. Piper, A Interpretação Cristã da História, São Paulo: Coleção da Revista de História, 1956, 18).
6Ver: Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias, 3. ed. São Paulo: Iluminuras, 1996, Versos 115-120. Para um análise deste conceito, veja-se: W.R. Forrester, Christian Vocacion: Studies in Faith and Work, London: Lutterworth Press, 1951, p. 121-126.
7Vejam-se: W. Wrade Fowler, Social Life at Rome in the Age of Cicero, cap. II (Consultado em http://www.readcentral.com/chapters/W-Warde-Fowler/Social-life-at-Rome-in-the-Age-of-Cicero/003) (Acessado em 25.04.13); Battista Mondin, O Homem, Quem é Ele?, São Paulo: Paulinas, 1980, p. 193; W.R. Forrester, Christian Vocacion: Studies in Faith and Work, London: Lutterworth Press, 1951, p. 127-128.
8Vejam-se: J.I. Packer, Carpinteiro: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Vol. I, p. 364-365; Paul Johnson, História dos Judeus, 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1989, p. 174.
9Talmude, cujo nome significa “instrução”, consiste numa coleção de leis rabínicas com seus comentários interpretativos a respeito das leis de Moisés, compilada entre o ano 100 e 500 da Era Cristã. (Vejam-se, entre outros: W. White Jr., Talmude: In: Merrill C.Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, Vol. 5, p. 738-744; C.L. Feinberg, Talmude e Midrash: In: J.D. Douglas, ed. ger. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: SP:  Junta Editorial Cristã, 1966, Vol. III, p. 1560-1561.
10Apud Joachim Jeremias, As Parábolas de Jesus, 3. ed. São Paulo: Paulinas, 1980, p. 144.
11Porque o reino dos céus é semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar trabalhadores para a sua vinha. 2E, tendo ajustado com os trabalhadores a um denário por dia, mandou-os para a vinha. (…) 8Ao cair da tarde, disse o senhor da vinha ao seu administrador: Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos, indo até aos primeiros” (Mt 20.1,2,8). “E que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Chegando-se ao primeiro, disse: Filho, vai hoje trabalhar na vinha” (Mt 21.28). “O que recebera cinco talentos saiu imediatamente a negociar com eles e ganhou outros cinco” (Mt 25.16). “É como um homem que, ausentando-se do país, deixa a sua casa, dá autoridade aos seus servos, a cada um a sua obrigação, e ao porteiro ordena que vigie” (Mc 13.34).
12“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (Jo 6.27). “É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (Jo 9.4).
13 37“E, então, se dirigiu a seus discípulos: A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos.  38 Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara” (Mt 9.37-38).
14Hermann W. Beyer, Servir, Serviço: In: G. Kittel, ed. A Igreja do Novo Testamento, São Paulo: ASTE, 1965, p. 275. Vejam-se também: J. Stam, Diácono, Diaconisa: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, Vol. 2, p. 151.
15“Depois disto, deixando Paulo Atenas, partiu para Corinto. 2Lá, encontrou certo judeu chamado Áquila, natural do Ponto, recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se retirassem de Roma. Paulo aproximou-se deles. 3E, posto que eram do mesmo ofício, passou a morar com eles e ali trabalhava (o modo imperfeito do verbo sugere que Paulo passou algum tempo neste trabalho), pois a profissão deles era fazer tendas (também: “artesão de couro”) (At 18.1-3).
16 11“Até à presente hora, sofremos fome, e sede, e nudez; e somos esbofeteados, e não temos morada certa,12 e nos afadigamos, trabalhando com as nossas próprias mãos. Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos” (1Co 4.11-12). O verbo κοπιάτω e o substantivo correlato descrevem um trabalho estafante, difícil, árduo, trabalhar até à exaustão. Curiosamente, Paulo é quem mais utiliza esta palavra para se referir ao seu ministério: “….em tudo recomendando-nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos….” (2Co 6.4-5).(Vejam-se: At 20.35; 2Co 11.23,27).
17“Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra  e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário” (1Tm 5.17-18).
18Hesíodo escreveu algo parecido relacionando a preguiça à fome: “Mas tu, lembrando sempre do nosso conselho, trabalha, ó Perses, divina progênie, para que a fome te deteste, e te queiras a bem coroada e venerada Deméter [Deusa da agricultura], enchendo-te de alimentos o celeiro; pois a fome é sempre do ocioso companheira….” (Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias, 3. ed. São Paulo: Iluminuras, 1996, Versos 298-302).
19Vejam-se: William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1973, Vol. 11, (2Ts 3.6-18), p. 226-227. Da mesma forma, com uma visão mais crítica, William Hendriksen, 1 e 2 Tessalonicenses, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, (2Ts 3.10), p. 299-300 e I. Howard Marshall, I e II Tessalonicenses, São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão,1984, (2Ts 3.10), p. 259-260.
20Documento anônimo amplamente aceito, devido a sua pretensão de ter sido redigido pelos apóstolos, daí o seu nome completo: Didaquê: Ensino do Senhor Através dos Doze Apóstolos.
21Texto completo em http://www.monergismo.com/textos/credos/didaque.htm (Acessado em 25.05.13). Para uma tradução diferente, veja-se: Didaquê, XII: In: O Didaquê,  J.G. Salvador, ed. São Paulo: Imprensa Metodista, 1957, p. 74.
22Literalmente: “trabalhe arduamente com as próprias mãos” .
23“Compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade” (Rm 12.13).
24Citado  por  Jacques Le Goff, Trabalho: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru, SP./ São Paulo, SP.: Editora da Universidade Sagrado Coração/Imprensa Oficial do Estado, 2002, Vol. 2, p. 570.
25Cf. Jacques Le Goff, Trabalho: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Vol. 2, p. 566; Jacques Le Goff, Para um Novo Conceito de Idade Média, Lisboa: Editorial Estampa, 1980, p. 88ss. Na Antiguidade, “O exercício das habilidades manuais é socialmente depreciado: elas arruínam a alma e o corpo e aviltam aqueles que a elas se dedicam” (Catherine Larrère, Trabalho: In: Monique Canto-Sperber, org. Dicionário de Ética e Filosofia Moral, São Leopoldo, RS.: Editora Unisinos, 2003, Vol. 2, p. 718).
26βάναυσος, está associada à “vida e hábitos de um mecânico” (βάναυσοι); metaforicamente é aplicada à “mau gosto” e “vulgaridade”. (Veja-se: Liddell & Scott, Greek-English Lexicon, Oxford: Clarendon Press, 1935, p. 128b). Ver por exemplo: Aristóteles, A Política, Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint, (s.d.), V.2.1-6. p. 141-143.
27“A Escolástica (contribuiu) para despojar de todo prestígio e de todo valor espiritual as atividades profissionais pela precedência que dava à contemplação sobre a ação” (André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 539).
28Nancy R. Pearcey; Charles B. Thaxton, A Alma da Ciência, São Paulo: Cultura Cristã, 2005, p. 22.
29Veja-se: Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, São Paulo: Pioneira, 1967, p. 52ss. Havia na realidade opiniões divergentes entre as ordens eclesiásticas a respeito do valor do trabalho manual. (Ver: Jacques Le Goff, Trabalho: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Vol. 2, p. 568-570).
30Cf. Leland Ryken, Redeeming the Time: A Christian Approach to Work and Leisure, Grand Rapids, MI.: Baker Books, 1995, p. 75. Veja-se também: Jacques Le Goff, Trabalho: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru, SP/São Paulo, SP.: Editora da Universidade Sagrado Coração/Imprensa Oficial do Estado, 2002, Vol. 2, p. 570.
31H. Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, 6. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1982, p. 19. 
32“A partir do século VIII, os termos originários da palavra labor, como labores, que designam mais os frutos do trabalho do que castigo, são os signos tangíveis de uma valorização do trabalho agrícola e rural” (Jacques Le Goff; Nicolas Truong, Uma História do Corpo na Idade Média, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 66).
33Ver: Jacques Le Goff, Trabalho: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Vol. 2, p. 568-569; José Ferrater Mora, Trabalho: In: Dicionário de Filosofia, São Paulo: Loyola, 2001, Vol. 4, p. 2901b; Jacques Le Goff; Nicolas Truong, Uma História do Corpo na Idade Média, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 66-67.
34Jacques Le Goff, O Homem Medieval: In: Jacques Le Goff, dir. O Homem Medieval, Lisboa: Editorial Presença, 1989, p. 29. Do mesmo modo: R.H. Tawney, A Religião e o Surgimento do Capitalismo, São Paulo: Editora Perspectiva, 1971, p. 72. Walzer escreveu: “Cria-se que esta hierarquia social não só se refletia no corpo humano, como também no cosmos, no universo de Deus: assim como a cabeça governa o corpo — argumentavam os escritores medievais —, Deus governa o mundo, e o rei governa a organização política; assim como os anjos estão abaixo de Deus em nove gamas e ordens, as partes nobres do corpo político estão abaixo do rei, e os sacerdotes do corpo de Cristo, abaixo de Cristo. A desigualdade, portanto, defendia os padrões estabelecidos de obediência e deferência que faziam a atividade política independente tão difícil na prática como inconcebível na teoria” (Michael Walzer, La revolución de los santos: Estudio sobre los orígenes de la política radical, Buenos Aires: Katz Editores, 2008, p. 21).
35Cf. Jacques Le Goff; Nicolas Truong, Uma História do Corpo na Idade Média, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 66.
36Jacques Le Goff; Nicolas Truong, Uma História do Corpo na Idade Média, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 64-65.
37Jacques Le Goff; Nicolas Truong, Uma História do Corpo na Idade Média, p. 65.
38André Biéler, A Força Oculta dos Protestantes, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 118. Veja-se: Jacques Le Goff, Mercadores e Banqueiros da Idade Média, São Paulo: Martins Fontes, 1991, passim.
39Jacques Verger, Universidade: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Vol. 2, p. 574.
40Charles Colson; Harold Fickett, Uma boa vida, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 41.
41John A. Mackay, O Sentido da Vida, 2. ed. São Paulo: Imprensa Metodista, 1971, p. 27.
42“Indo eles de caminho, entrou Jesus num povoado. E certa mulher, chamada Marta, hospedou-o na sua casa. Tinha ela uma irmã, chamada Maria, e esta quedava-se assentada aos pés do Senhor a ouvir-lhe os ensinamentos. Marta agitava-se de um lado para outro, ocupada em muitos serviços. Então, se aproximou de Jesus e disse: Senhor, não te importas de que minha irmã tenha deixado que eu fique a servir sozinha? Ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me. Respondeu-lhe o Senhor: Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada” (Lc 10.38-42).
43Cf. Ulrich H. J. Körtner, Calvinisme et Capitalisme: In: Martin E. Hirzel; Martin Sallmann, eds., Calvin et le Calvinisme, Genève: Labor et Fides, 2008, p. 252.
44André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 538-539.
45John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishing Co., 1996 (Reprinted), Vol. 1, (Gn 2.15), p. 125.
46Arvus significa “arável”. Arvum significa “terra lavrada”, “campo”, “terreno”
47Vejam-se, Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, p. 52 (e notas correspondentes); André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 628; Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, 21. ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1989, p. 114; Alain Peyrefitte, A Sociedade de Confiança: Ensaio sobre as origens e a natureza do desenvolvimento, Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p. 344ss.
48João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 77. Contudo: “Como há muitas ocupações que pouco valem para socorrer os homens em seus deleites lícitos, o apóstolo recomenda-lhes que escolham aquelas que tragam benefício a si e a seu próximo. Nem precisamos admirar-nos disso, pois se aquelas classes voluptuosas de ocupações que só podem trazer corrupção eram denunciadas pelos pagãos, dentre eles Cícero, como sendo em extremo vergonhosas, um apóstolo de Cristo as incluiria para que figurassem entre as ocupações lícitas recomendas por Deus” (João Calvino, Efésios, (Ef 4.28), p. 146).
49John Calvin, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark, and Luke, Grand Rapids, Michigan: Baker, (Calvin’s Commentaries, Vol. XVI/2), 1981, (Lc 10.38), p. 142,143.
50João Calvino, Efésios, (Ef 4.28), p. 146.
51John Calvin, Commentaries on the Second Epistle to the Thessalonians, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries, Vol. XXI), 1996 (reprinted), (2Ts 3.10), p. 355.
52John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishing Co., 1996 (Reprinted), Vol. 1, (Gn 2.15), p. 125.
53“A aspereza desta pena é ainda atenuada pela clemência de Deus, de sorte que por entre os labores dos homens há certa alegria misturada, para que não sejam de todo ingratos….” (John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishing Co., 1996 (Reprinted), Vol. 1, (Gn 3.17), p. 174).
54John Calvin, Commentaries on the Second Epistle to the Thessalonians, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries, Vol. XXI), 1996 (reprinted), (2Ts 3.10), p. 355.
55Cf. John Calvin, Commentaries on The Four Last Books of Moses, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishing Co., 1996 (Reprinted), Vol. 3, (Ex 20.15), p. 110-111.  Veja-se também:  John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker,  1981 (Reprinted), (Vol. XII/1), (Ez 18.5-9), p. 219-228.
56François Turretini, Compêndio de Teologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, Vol. II, p. 161-162.
57João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998 (1Tm 5.18), p. 149.
58“O lucro que obtém alguém que empresta seu dinheiro no interesse lícito, sem fazer injúria a quem quer que seja, não está incluído sob o epíteto de usura ilícita. (…) Em suma, uma vez que tenhamos gravada em nossos corações a regra de equidade que Cristo prescreve em Mateus: ‘Portanto, tudo quanto quereis que os homens vos façam, fazei-lhes também o mesmo’ (7.12), não será necessário entrar em longa controvérsia em torno da usura” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 15.5), p. 299). Calvino fazia uma distinção importante entre o “empréstimo de consumo ou de assistência” e o “empréstimo de produção ou de aplicação”. Aquele visava socorrer aos necessitados, sendo improdutivo para o devedor. Este, o devedor, com o seu trabalho poderia adquirir uma ampliação desses recursos. Os juros neste caso seriam legítimos (Veja-se, por exemplo: John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), Vol. XII, (Ez 18.5-9), p. 225-228; Vol. III/1 (Ex 22.25); p. 126-133.  Inspirado em Calvino, argumenta Turretini: “É justo que aquele que recebe benefício do dinheiro de outro o faça também participante dele, de cujo auxílio ele ganha este benefício, como uma compensação devida” (François Turretini, Compêndio de Teologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, Vol. II, p. 165). (Ver: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 588; Ronald S. Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 79-80). Alguns princípios de Calvino a respeito deste tema foram expostos em uma carta (07/11/1545), escrita em resposta às indagações de seu amigo Claude de Sachin. Biéler analisa esta carta e outras passagens nas quais Calvino se posiciona sobre o assunto (Ver: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 585ss). Em 1580, Beza, juntamente com outros pastores, opõem-se veementemente à criação de um Banco em Genebra, entendendo que as riquezas trazem consigo implicações indesejáveis, tais como o luxo, frivolidades, amor ao prazer, etc., todas incompatíveis com Genebra, que deseja preservar a já conhecida moderação dos costumes (Ver: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 239-240; 663 (nota 1636); André Biéler, O Humanismo Social de Calvino, p. 66-67; André Biéler, A Força Oculta dos Protestantes, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, especialmente, p. 132-134; R.H. Tawney, A Religião e o Surgimento do Capitalismo, São Paulo: Editora Perspectiva, 1971, p. 124). Quanto às lutas de Genebra lideradas por Beza quanto à prática de juros extorsivos, trapaça nos negócios (tecelão que vende o tecido com uma polegada mais estreita) e preços exorbitantes (alfaiates e dentistas que cobram preços muito elevados pelos seus serviços), vejam-se: Eugène Choisy, L’ État Chrétien Calviniste a Genève au Temps de Théodore de Bèze, Genève: Ch. Eggimann & Cie Éditeurs, [s.d.], especialmente, p. 436ss. Ainda que Choisy tenha muitas informações importantes, sendo elogiado por Tawney que confessa sua dívida para com ele (R.H. Tawney, A Religião e o Surgimento do Capitalismo, São Paulo: Editora Perspectiva, 1971, p. 122), Biéler, com razão, faz críticas recorrentes a algumas de suas interpretações (Ver: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, como por exemplo, na página 185).
59A Igreja Católica sempre condenou o lucro, ainda que a sua prática     não se harmonizasse com a sua teoria, sendo, ela mesma, extremamente rica. “O empréstimo a juros (…) sempre foi proibido ao clero; a Igreja conseguiu, a partir do século IX, que se tornasse proibida também aos leigos, e reservou o castigo desse delito à jurisdição de seus tribunais” (H. Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, p. 19). Pirenne (1862-1935) continua: “É evidente que a teoria dista muito da prática: os próprios mosteiros, amiúde, infringiram os preceitos da Igreja. Não obstante, esta impregnou tão profundamente o mundo com seu espírito, que serão necessários vários séculos para que se admitam as novas práticas que o renascimento econômico do futuro exigirá, e para que se aceitem, sem reservas mentais, a legitimidade dos lucros comerciais, da valorização do capital e dos empréstimos com juros” (H. Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, p. 19-20). (Veja-se uma anedota bastante ilustrativa do conflito da Igreja, In: Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, p. 32-33). Aldo Janotti, comentando a respeito da superioridade intelectual e riqueza da Igreja romana na Idade Média, observa que: “A preponderância econômica se manifestava tanto através da riqueza agrária quanto da monetária: possuía a Igreja inúmeros domínios, superiores em extensão aos da aristocracia laica, como também em organização, pois só ela tinha homens habilitados para estabelecer polípticos, ter registros de contas, calcular entradas e saídas e, por consequência, poder equilibrá-las” (Aldo Janotti, Origens da Universidade: A Singularidade do Caso Português, 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992, p. 31). Curiosamente, os maiores defensores dos mercadores  — associados no imaginário eclesiástico à usura (Vejam-se: Jacques Le Goff, A Bolsa e a Vida: A Usura na Idade Média, 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 17ss.; Jacques Le Goff, Mercadores e Banqueiros da Idade Média, São Paulo: Martins Fontes, 1991, p. 73ss.)  —, foram as Ordens Mendicantes (franciscanos e dominicanos), constituindo-se no século XIII, “nos instrumentos de justificação ideológica e religiosa do mercador” (Jacques Le Goff, Mercadores e Banqueiros da Idade Média, p. 98). Notemos que os membros dessas Ordens  — tão defensoras dos interesses papais  —, em geral eram provenientes de famílias abastadas, muitos, de famílias de mercadores. (Cf. Jacques Le Goff, Mercadores e Banqueiros da Idade Média, p. 98). Para a questão da prática dos juros na Idade Média, especialmente estimulada entre os judeus, vejam-se: Jerry Z. Muller, Os Judeus e o Capitalismo Mundial: o que Explica o Sucesso Judaico nas Sociedades Capitalistas? São Paulo: Editora Saraiva, 2011; Jacques Attali, Os Judeus, o Dinheiro e o Mundo. 5. ed. São Paulo: Futura, 2005; Jacques Le Goff, A Bolsa e a Vida: A Usura na Idade Média, 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989; Léon Poliakon, De Cristo aos Judeus da Corte, São Paulo: Editora Perspectiva, 1979, especialmente, p. 61ss. Para uma história mais panorâmica incluindo as relações da Igreja com os usurários e as suas incoerências, bem como a situação e valores dos mercadores envolvendo a sua religião e seus fantasmas — como escreve Le Goff: “Eis o grande combate do usurário entre a riqueza e o Paraíso, o dinheiro e o Inferno” (Jacques Le Goff, A Bolsa e a Vida: A Usura na Idade Média, 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 15), vejam-se:  André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 237ss.; Jack Mclver Weatherford, A História do Dinheiro: do arenito ao cyberspace, São Paulo: Negócio Editora, 2000; Jacques Le Goff, A Bolsa e a Vida: A Usura na Idade Média, 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989; Jacques Le Goff, Mercadores e Banqueiros da Idade Média, São Paulo: Martins Fontes, 1991; Jacques Le Goff, Para um Novo Conceito de Idade Média, Lisboa: Editorial Estampa, 1980, p. 43-73; Philippe Wolff, Outono da Idade Média ou Primavera dos Tempos Modernos?, Lisboa: Edições 70 (1988); Aron J. Gurevic, O Mercador: In: Jacques Le Goff, dir. O Homem Medieval, Lisboa: Editorial Presença, 1989, p. 165-189; H. Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, 6. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1982; Georges Duby, Economia Rural e Vida no Campo no Ocidente Medieval, Lisboa: Edições 70, (1987-1988), 2 Vols.; Pierre Monnet, Mercadores: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru, SP/São Paulo/SP: Editora da Universidade Sagrado Coração/Imprensa Oficial do Estado, 2002, Vol. 2, p. 183-196; R.H. Tawney, A Religião e o Surgimento do Capitalismo, São Paulo: Editora Perspectiva, 1971, p. 31-77. Quanto à acusação apaixonada de Pascal contra a igreja católica, especialmente na França, de praticar a usura valendo-se de subterfúgios, veja-se: Blaise Pascal, Las Cartas Provinciales, Buenos Aires: Librería “El Ateneo” Editorial, (1948), especialmente a Carta 8, p. 589ss. Para uma visão da concepção e prática em Portugal, ver: José Calvet de Magalhães, História do Pensamento Econômico em Portugal: da Idade-Média ao Mercantilismo. Coimbra: Coimbra Editora, 1967, 537p.
60Cf. Frans Van Deursen, Los Salmos, Países Bajos: Fundacion Editorial de Literatura Reformada, 1996, Vol. 1, p. 173.
61Aliás, inclino-me a considerar uma mera especulação a associação feita com frequência deste salmo com as indagações do adorador ao sacerdote antes de adentrar ao lugar sagrado. (Vejam-se, por exemplo: Peter C. Craigie,  Psalms 1-50, 2ª ed. Waco: Thomas Nelson, Inc. (Word Biblical Commentary, Vol. 19), 2004, (Sl 15), p. 150; James M. Boice, Psalms: an expositional commentary, Grand Rapids, MI.: Baker Book House, 1994, Vol. 1, (Sl 15), (notas) p. 368-369).
62“Claro que essas características não criam cidadãos do Reino, mas são necessárias para a manutenção da boa postura diante do Senhor” (Eugene H. Merrill, Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Shedd Publicações, 2009, p. 560).
63Cf. James M. Boice, Psalms: an expositional commentary, Grand Rapids, MI.: Baker Book House, 1994, Vol. 1, (Sl 15), p. 122.
64Cf. Derek Kidner, Salmos 1-72: introdução e comentário, São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1980, Vol. 1, p. 97. “O primeiro fato que nos chama atenção é que num cântico destinado ao culto não se faz nenhuma menção de coisas cúlticas, como sacrifícios, ofertas, ritos de purificação, mas só de exigências morais. Toda a ênfase recai nesses requisitos. É da essência do culto da aliança que a ‘obediência’ é mais importante que os sacrifícios” (Artur Weiser, Os Salmos, São Paulo: Paulus, 1994, p. 118).
65Artur Weiser, Os Salmos, São Paulo: Paulus, 1994, p. 118. Uma hipótese comum, obviamente não conclusiva, é de que este Salmo teria sido escrito por Davi quando trouxe com alegria a Arca da Aliança para Jerusalém (2Sm 6.12ss; 1Cr 15.25-16.6). (Vejam-se, entre outros: Ernst W. Hengstenberg; John Thomson, Commentary on the Psalms, Tennessee: General Books, © 1846, 2010 (Reprinted), Vol. 1, (Sl 15), p. 149; W.S. Plumer, Psalms, Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, © 1867, 1975 (Reprinted), (Sl 15), p. 199; C.F. Keil; F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament, Grand Rapids, MI: Eerdmans, (1871), Vol. V, (I/III), (Sl 15), p. 210-211; E. Calvín Beísner, Psalms of Promise: Celebrating the Majesty and Faithfulness of God, 2. ed. Phillipsburg, NJ.: P. & R. Publishing, 1994, p. 143-144; Allan Harman, Comentário do Antigo Testamento — Salmos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, (Sl 15), p. 107).
66Gn 49.17; Nm 21.6,8,9; Pv 23.32; Ec 10.8,11; Jr 8.17; Am 5.19; 9.13.
67“Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo e que clamam: Paz, quando têm o que mastigar (neshek), mas apregoam guerra santa contra aqueles que nada lhes metem na boca” (Mq 3.5).
68Cf. Walter P. Gorman III. Crédito: In: Carl Henry, org. Dicionário de Ética Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 146. Da mesma forma: J. Barton Payne, Usura: In: Ibidem, p. 591. “A razão para a proibição é que, presumivelmente, o pobre pedira dinheiro emprestado na hora da necessidade. O empréstimo é considerado assistência ao próximo, e tomar-lhe dinheiro na hora da necessidade seria um ato imoral” (R. Alan Cole,  Êxodo: introdução e comentário, São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, [1979], (Ex 22.25), p. 169).
69Robin Wakely, ns’: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, Vol. III, p. 178.
70No século XII, teólogos cristãos concluíram que a palavra “irmão” aplicava-se a todos os homens. Deste modo, consideraram que o empréstimo de dinheiro com juros é sempre um ato pecaminoso. (Cf. Jerry Z. Muller, Os Judeus e o Capitalismo Mundial: o que explica o sucesso judaico nas sociedades capitalistas?, São Paulo: Editora Saraiva, 2011,  p. 34).
71Cf. G.L. Archer, Juros: In: M.C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008., Vol. 3, p. 806; John W. Baigent, Salmos (1-72). In: F.F. Bruce, ed. ger., Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 2009, (Sl 15), p. 777; R. de Vaux, Instituições de Israel no Antigo Testamento, São Paulo: Editora Teológica/Paulus, 1993, p. 207. Na Idade Média, os judeus praticavam  taxas de juros anuais que podiam variar entre 33 a 60 por cento ao ano (Cf. Jerry Z. Muller, Os Judeus e o Capitalismo Mundial: o que Explica o Sucesso Judaico nas Sociedades Capitalistas?, São Paulo: Editora Saraiva, 2011,  p. 38).
72Cf. E.A. Speiser, Oriental and Biblical Studies: Collected Writings of E. A. Speiser, edited by J.J. Finkelstein and Moshe Greenberg, Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1967, p. 131-135; 140-141; R. Laird Harris, Nashak: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1011.
73“Restituí-lhes hoje, vos peço, as suas terras, as suas vinhas, os seus olivais e as suas casas, como também o centésimo do dinheiro, do trigo, do vinho e do azeite, que exigistes deles” (Ne 5.11).
74Vejam-se: Derek Kidner, Esdras e Neemias: introdução e comentário, São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1985, (Ne 5.11), p. 106; R. de Vaux, Instituições de Israel no Antigo Testamento, São Paulo: Editora Teológica/Paulus, 1993, p. 207.
75A palavra sugere juros exorbitantes (Veja-se: William White, Raba: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, especialmente, p. 1394).
76Esta palavra seria usada no século XIX por Karl Marx para identificar os judeus como prontos para regatearem, barganharem, fazerem qualquer negócio (Veja-se: Jerry Z. Muller, Os Judeus e o Capitalismo Mundial: o que Explica o Sucesso Judaico nas Sociedades Capitalistas?, São Paulo: Editora Saraiva, 2011,  p. 51-52). É muito instrutiva a obra de John T. Noonan, Jr, Subornos, Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1989. Para os nossos propósitos, destaco a leitura do tópico, ainda que não exclusivamente, “A Moral dos Cristãos”, p. 73-109.
77Veja-se: Milton C. Fisher, Nasha: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1007-1010.
78E.A. Speiser, Oriental and Biblical Studies: Collected Writings of E. A. Speiser, edited by J.J. Finkelstein and Moshe Greenberg, Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1967, p. 140.
79Milton C. Fisher, Nasha: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1008.
80João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 15.5), p. 297-298. Calvino repete este argumento em texto já indicado (Calvin’s Commentaries, Vol. XII, (Ez 18.5-9), p. 225-228). Este mesmo conceito é encontrado posteriormente em Turretini (François Turretini, Compêndio de Teologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, Vol. II, p. 164).

continue lendo

FAÇA UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here