Gente comum com vida incomum: um estudo devocional de Atos 2.42

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A Igreja enche o mundo todo e é peregrina sobre a terra. Ela tem sua origem na graça celestial. Pois os filhos de Deus nascem, não da carne e do sangue, mas pelo poder do Espírito. Eis a razão por que a Igreja é chamada a mãe dos crentes. E, indubitavelmente, aquele que se recusa a ser filho da Igreja debalde deseja ter a Deus como seu Pai. Pois é somente através do ministério da Igreja que Deus gera filhos para si e os educa até que atravessem a adolescência e alcancem a maturidade (João Calvino).
Essencialmente, a igreja é, foi e será uma comunidade de adoração singular, permanentemente unida no santuário verdadeiro que é a Jerusalém celestial, o lugar de a presença de Deus. Nela todos que estão vivos em Cristo, vivos e mortos fisicamente (igreja militante e igreja triunfante) adoram de maneira contínua. No entanto, em outras palavras, essa única igreja, se torna visível na forma de congregações locais, cada uma chamada para cumprir o papel de ser um microcosmo da igreja, como um todo (J.I.Packer).

INTRODUÇÃO

Durante todo o processo histórico-revacional a igreja como povo de Deus tem nos seus limites e virtudes tentando comunicar o evangelho através de suas ações no cotidiano da vida humana. Homens e mulheres que viviam sob o crivo da alienação espiritual tiveram seus sonhos redimensionados pela obra redentora da Trindade.
 
Uma vez transformadas pelo anúncio da verdade evangélica estas pessoas foram chamadas a viver sob um novo paradigma, no qual o modo de vida se constitui como um elemento pedagógico importante na reconstrução da realidade sócio-cultural e no alcance salvífico de outros seres humanos.

Essa nova maneira de viver, por exemplo, envolve questões básicas, tais como: a dignidade da vocação; humildade; mansidão; longanimidade; o amor incondicional; a consciência da unidade e diversidade cristãs; uma série de virtudes, já recomendada pelo apóstolo Paulo aos cristãos efésios no século primeiro.(Ef. 4.1-16).  

Entretanto, além destas qualidades espirituais descritas na teologia paulina, e em outras passagens bíblicas, o evangelista Lucas em Atos 2.42-47 demonstra através de sua narrativa histórica que várias pessoas alcançadas pelo evangelho evidenciaram no dia a dia um modo de vida incomum, dinâmico e sincero como resultado de uma mudança de comportamento realizado pelo poder do Espírito Santo na cidade de Jerusalém. Esse estilo de vida se constitui como uma prática cristã que nos ensina a reavaliar a nossa conduta diante de uma cultura que tem traços narcisistas, relativistas e presentistas. O texto sagrado afirma que
 

[…] então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas. E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos. (Lucas – Atos 2.41-47).

A. O ENREDO HISTÓRICO

Anúncio e arrependimento

A análise dos versículos supracitados não pode alienar-se de todo o enredo histórico descrito pelo evangelista Lucas no capítulo dois do livro de Atos, o que requer desta forma, uma leitura reflexiva dos seguintes temas: o anúncio, o arrependimento e a nova vida em Cristo. No livro de Atos dos Apóstolos encontramos o Espírito de Cristo promovendo mudanças essenciais na vida de indivíduos através proclamação das Escrituras Sagradas. Isso é visível desde a descida do Espírito Santo em Jerusalém, até as viagens promovidas pelo apóstolo Paulo em toda a Ásia Menor.
 
Kistermaker (2006) ao estudar o capítulo dois de Atos estrutura essa porção escriturística, afirmando que o leitor encontrará basicamente as seguintes cenas: o derramamento do Espírito no dia de Pentecoste; a realização de uma reunião de caráter sócio-cultural revelador; a zombaria daqueles que não compreenderam a dimensão do cumprimento da profecia do Antigo Testamento; o sermão expositivo de Pedro no poder do Espírito; o resultado de uma pregação dotada de verdade e a descrição da vida comum da igreja cristã em Jerusalém, como resultado da plenitude do Espírito de Deus na caminhada de pessoas comuns.

Nessas cenas, o anúncio ou discurso promovido pelo apóstolo Pedro foi o veículo pelo qual Deus promoveu a mudanças no coração de cada pessoa. Stott (1994) compreende que os discursos no livro de Atos, se apresentam como canais, pelos quais, Jesus Cristo continua realizando o seu ministério docente através da pregação alimentando os seus discípulos com a suficiência da sua palavra. Quanto a esse discurso Kistemaker (2006) afirma que

[…] depois de enumerar as nações do mundo e descrever a reação do povo ao milagre do Pentecoste, Lucas focaliza a atenção no sermão que Pedro faz nessa manhã. O sermão em si é um modelo para outros sermões e discursos registrados em Atos. Em sua mensagem, Pedro começa explicando o acontecimento propriamente dito e citando a profecia de Joel. Depois pregar o evangelho de Cristo, referindo-se ao sofrimento, morte, ressurreição e exaltação de Jesus. Por último, exorta os presentes a que se arrependam e sejam batizados. (KISTEMAKER, 2006, p.123).  

A exortação produzida pelo apóstolo Pedro fundamentou-se na promessa de caráter profético, de que chegaria um momento específico da história da humanidade, em que o Espírito de Deus realizaria um papel de proporções mais amplas e contínuas sobre a vida de uma variedade de pessoas e culturas, distinguindo desse forma, da atuação temporária e limitada a Israel no cenário veterotestamentário. O resultado da pregação realizada pelo apóstolo pode ser visto no arrependimento genuíno daqueles que foram tocados pelo o poder do Espírito Santo evidenciado nas seguintes palavras: “…ouvindo eles estas coisas, compungiu-se-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos? (Atos 2.37).

Stott (1994) ao analisar esse acontecimento, parte do pressuposto de que a expressão “compungiu-se-lhes o coração” evidencia a convicção de pecado que cada pessoa experimentou, procurando ansiosamente descobrir qual ação deveriam fazer para eliminar aquele sentimento de culpa. Sob esse contexto Pedro os convida ao arrependimento e fé em Jesus Cristo assumindo tal compromisso através do batismo, como uma declaração pública, de que agora, eles vivem submissos ao senhorio do Filho de Deus.

Marshall (1991) compreende que o anúncio de Pedro produziu um choque drástico no coração das várias pessoas que lhes ouviam e de que foram surpreendidas por uma intensa convicção de seus pecados. O autor acredita que diante daquele contexto, o apóstolo Pedro indicou a verdadeira e única possibilidade : o batismo. Desta forma, conduzidas pela fé, homens e mulheres experimentaram o perdão divino, começando uma nova história com Deus em Jerusalém.
 
Boor (2003) na análise desta passagem chega à conclusão de que o discurso de Pedro não sociabilizou nenhuma oferta da graça, nenhum apelo ao coração e aos sentimentos, mas apesar disso, o efeito sobre os ouvintes foi intenso, a ponto de trazer a consciência de culpa ao coração de cada um, sendo ofertada a salvação em Cristo Jesus.

Anúncio e arrependimento são dois elementos importantes que antecedem a narrativa de Lucas quanto ao modo de vida que aqueles cristãos evidenciaram. Desta maneira, ratificamos a verdade teológica de que a pregação das Escrituras Sagradas no poder do Espírito é o meio pelo qual Deus promove mudanças especiais no coração humano. Calvino (1998) corrobora conosco ao afirmar que “a pregação é o instrumento da fé, por isso o Espírito Santo torna essa pregação eficaz.

Num século relativista como o nosso, é necessário que aja um resgate da crença na suficiência da palavra de Deus. Costa (2001) analisando essa convicção escriturística acentua que

[…] para que possamos de fato esperar confiantes na Palavra de Deus, precisamos primeiramente recebê-la como tal. Creio que aqui está um dos problemas vitais da igreja em todos os tempos. Com isto não estou dizendo que a Igreja através da história tenha negado de forma confessional a Palavra de Deus. Antes, o que estamos declarando é que a Igreja tem negado a Palavra de Deus de forma existencial e vivencial. Esta recusa prática tem se caracterizado, como já observamos, na não consideração dos preceitos de Deus em seu caminho. Crer na Palavra significa recebê-la como fundamento e norma do nosso comportamento. Todas as vezes que desconsideramos as Escrituras em nossas decisões, estamos, na realidade, negando a eficácia das promessas de Deus, demonstrando não tê-la recebido como Palavra autoritativa de Deus. (COSTA, 2001, p.15).

O desafio de cada cristão é o de demonstrar no cotidiano de sua vida, nos momentos simples e complexos que os circunda, a certeza de que os seus valores não nascem de uma ética situacionista, mas, como resultado de sua crença na inspiração, poder e eficácia da palavra de Deus em sua história e decisões.

A igreja sendo coluna e baluarte da verdade tem um ministério proclamativo de proporções inimagináveis. Esse anúncio pode ser feito por pessoas comuns, que na rotina da vida cumprem a missão de glorificar a Deus, falando sobre as dimensões do reino de céus aos seres humanos caídos. Mecânicos, padeiros, professores, donas de casa, domésticas, médicos, dentistas, funcionários públicos e outros profissionais cristãos são os missionários que podem provocar mudanças importantes na história de suas ruas, bairros, cidades e estados.

O estilo de vida destes profissionais e de tantos outros cristãos é um elemento didático essencial na execução dessa missão no mundo. Lucas em Atos 2.42-47 oferece-nos uma narrativa vívida de como os primeiros cristãos caminham na cidade de Jerusalém. Essa descrição pode nos ajudar a compreender como Deus agiu através dos valores de uma comunidade cristã, fazendo com que o testemunho de vida desse grupo particular, chamasse a atenção de forma positiva daqueles que ainda não haviam experimentado a nova em Cristo.

B. A VIDA INCOMUM DE UMA COMUNIDADE

Atos 2.42-47 descreve detalhadamente o estilo de vida dos primeiros cristãos na cidade de Jerusalém. Contemplamos a  nova postura comportamental de uma comunidade que vivia sob os paradigmas do reino de Deus. Suas ações revelavam como o Espírito Santo estava agindo na rotina de cada um produzindo uma filosofia cristã de crescimento espiritual visível e permanente.

Kistemaker (2006) ao analisar a comunidade cristã em Jerusalém enfatiza a verdade de que Lucas, numa ação descritiva sociabilizou o crescimento e o desenvolvimento de igreja cristã, relatando em seu texto uma variedade de características, como a espontaneidade, a dedicação e a devoção.

Segundo Stott (1994) Lucas nesses versículos mostra os efeitos do Pentecoste na vida de três mil pessoas, apresentando o relato de uma igreja cheia do Espírito, que por sua vez, não nasceu naquele dia, pelo contrário, a igreja como povo de Deus remonta pelo menos 4000 mil anos. O que aconteceu foi que o remanescente do povo de Deus tornou-se o corpo de Deus cheio do Espírito.

Encontramos em Atos 2.42-47 a vida incomum de uma comunidade cheia do Espírito Santo, que foi traduzida em ações concretas de aprendizagem, oração, temor, adoração contínua, felicidade, simpatia e crescimento. O nosso desafio é de primeiro momento fazer uma reflexão devocional do comportamento destes irmãos tomando como base bíblica apenas o versículo quarenta e dois desta passagem.

Vida incomum conduzida pela aprendizagem

O versículo quarenta e dois afirma que aqueles irmãos “…perseveravam na doutrina dos apóstolos…”. O termo “perseverar” tem como significado básico, os conceitos: conversar-se firme, persistir, ter perseverança, permanecer, continuar e durar. Na língua grega a expressão é “proskarteréo” podendo ser trazida como: “dedicar tempo, energia e esforço a um objetivo específico,” “continuar,” “manter,” “guardar,” e engajar-se com persistência”. Nesse sentido, o verbo transmite a idéia de uma ação contínua, em que há uma dedicação intensa de energia para cumprir um objetivo pré-estabelecido.

Três mil indivíduos que experimentaram a transformação produzida pelo Espírito de Cristo estavam continuamente envolvidos com o processo de aquisição do conhecimento socializado pelos apóstolos. Como testemunhas de todo o ministério terreno de Jesus, estes discípulos tinham a autonomia, autoridade e a responsabilidade de transmitir os valores do reino apreendidos por eles durante todo o período de formação pedagógica, quando caminharam diariamente com o Filho de Deus.

Esse comportamento presente na vida dos primeiros cristãos em Jerusalém nos remete a constatação de que a presença e a plenitude do Espírito Santo não produzem uma espiritualidade divorciada do conhecimento e de todo o processo que envolve a aquisição deste saber.

Para que sejamos governados pelos princípios, valores e ensinos do reino é importante que tenhamos uma relação de aprendizagem com as Escrituras Sagradas, uma vez que o Cristianismo não pode se resumir apenas “na conversão e no conhecimento de que os seus pecados estão perdoados, e, então, contentar-se com isso pelo resto da vida; cristianismo é ingressar e desenvolver-se rumo à medida da estatura da plenitude de Cristo. Precisamos desenvolver nossas mentes e nossas faculdades, se é que desejamos tomar posse disso. Se nos contentamos com menos que isso, não passamos de crianças em Cristo, e somos indignos deste glorioso evangelho.” (LLOYD-JONES, 1992).

Inúmeros cristãos em nosso país estão vivendo num processo de infantilização espiritual. Muitos se governam pelos os rigores de pequenos êxtases religiosos, em que a psicologização da realidade se constitui como elemento vital para a formação humana.

Num outro extremo encontramos cristãos que por aprenderem inúmeros termos técnicos do universo teológico imaginam estão vivendo no ápice do conhecimento de Deus. De tal modo, que se recitarem palavras, como: reformado, calvinista, atributos incomunicáveis, imutabilidade, antropopatismo, revelação geral, dentre outras, comprovam a existência da verdadeira espiritualidade cristã.

O verdadeiro desafio dos filhos de Deus é o de serem governados pelos critérios das Escrituras Sagradas, e nelas, promover uma meditação diária, avaliando a vida a partir dos seus mandamentos, pois, só são dignos estudantes da lei aqueles que se achegam a ela com uma mente disposta e se deleitam com suas instruções, não considerando nada mais desejável e delicioso do que extrair dela o genuíno progresso. Desse amor pela lei procede a constante meditação nela.” (CALVINO,1999)

 
Vida incomum conduzida pela comunhão solidária

O texto ainda nos diz que aqueles irmãos e irmãs estavam entusiasmados eou “perseveravam na comunhão.” Stott (1994) ao analisar essa característica parte da premissa de que o termo grego “koinonia” expressa aquilo que os filhos de Deus compartilham, de modo especial: o vínculo espiritual com a Trindade e a relação afetiva entre aqueles que professam a mesma fé. Tal afetividade pode ser mensurada no modo como os primeiros cristãos compartilhavam suas propriedades e bens uns com os outros, revelando, nesse sentido, cuidado e sensibilidade espirituais.

Essa realidade nos remete a conclusão de Charles Spurgeon, que ao analisar a comunhão cristã chegou à percepção de que “quando o Espírito de Deus está presente, os crentes amam-se uns aos outros e não há lutas entre eles, a não ser a luta que cada um tem, por desejar amar cada vez mais.”

Vivendo sob o prisma do cenário pós-moderno, em que os relacionamentos são marcados pela velocidade narcisista e pela racionalidade técnica, os cristãos do século XXI são convocados a evidenciar laços de uma comunhão solidária verdadeira. Os vínculos interpessoais não podem se resumir apenas nos encontros rotineiros da fé, que é vivenciada tão somente nos templos e na observância da agenda eclesiástica.  
Quando limitamos a comunhão criada pelo Espírito Santo apenas a este quadro funcional do universo religioso, perdemos a chance de conjugar dialeticamente a nossa história com outras histórias e de perceber que na multiplicidade sociocultural presente na igreja de Cristo, Deus nos dá a chance de perceber, rever e resignificar dilemas, crises e felicidades que constituem o nosso caminho.

Vida incomum conduzida pelo o partir do pão

Neste mesmo versículo temos a narrativa de que aqueles irmãos conduzidos pelo poder do Espírito Santo perseveravam no partir do pão. Diante de tal circunstância, qual o significado desta expressão? Como podemos interpretá-la? Quais as implicações deste “partir” para a nossa caminhada cristã?

Marshall (1991) afirma que a expressão utilizada por Lucas (partir do pão), tem o mesmo significado teológico daquilo que Paulo denomina como “Ceia do Senhor”, referindo-se ao ato que dava início a uma refeição judaica, e que, ganhou com o passar do tempo, um sentido especial para os cristãos. Stott ao analisar o partir do pão realizado pelos cristãos no início do primeiro século  (1994) entende que a utilização na língua original dos artigos definidos nas expressões: “o partir do pão e as orações,” confere a essas simples atitudes um caráter sacramental singular, que num processo histórico e litúrgico se constituiriam de um modo diferente daquele que lhes deu a origem.

Desta maneira, partindo do pressuposto teológico de que estamos diante uma refeição em que elementos comuns acabam adquirindo sentidos especiais, por conta do modo como Cristo os tratou e lhes significou, “o partir do pão”, reconhecido também como “Ceia do Senhor”, se estabelece como um alimento espiritual e um sacramento importante para a vida cristã.

Participar desta refeição é um privilégio daqueles que foram alcançados pelo amor sacrificial do redentor revelado na cruz do Calvário. Em Cristo somos dignificados e promovidos ao patamar e de herdeiros e coerdeiros dos benefícios celestiais. Todavia, não podemos imaginar que “a Santa Ceia é simplesmente uma refeição comum partilhada por seres humanos. Quando uma pessoa participa com fé, renovando e fortalecendo a sua confiança na salvação de Cristo, e crendo que o Espírito Santo lhe trará bênçãos espirituais por meio dessa participação, então, certamente é de esperar bênçãos extras. (GRUDEM, 1999).

Existem várias dimensões que poderiam ser discutidas quando se estuda um tema tão importante como a Ceia do Senhor, e me parece que poderíamos compreender que “o partir do pão” tem efeitos espirituais pedagógicos importantes no modo como vivemos a fé no interior de nossas casas. Como partimos o pão nosso de cada dia, de que modo tomamos as nossas refeições que aparentemente são simples, todavia, também possui um caráter sacramental, aliancistico e espiritual.

A espiritualidade e a mística dos ritos eclesiásticos presentes na  santa ceia, no batismo, nas orações, nos cânticos e em tantos outros ritualismos que promovem um sentimento inefável, de consagração, de lamento pelos erros, de alegria pelas conquistas deveriam guiar o nosso comportamento enquanto pais, filhos, maridos, esposas, patrões, empregados e de cidadãos.

Vida incomum conduzida pelas orações

O último elemento importante na história da igreja cristã em Jerusalém foi à oração, de tal modo, que o evangelista Lucas narra que aqueles novos convertidos perseveravam neste tipo de atitude, e ao decorrer do livro de Atos encontramos esse comportamento se repetindo como uma prática comum e importante entre eles.
 
Charles Hodge (1976) ao definir o significado e o papel da oração, afirma que “a oração é a conversa da alma com Deus. Um homem sem oração é totalmente irreligioso. Não pode haver vida sem atividade. Assim como o corpo está morto quando cessa sua atividade, assim a alma que não se dirige em suas ações a Deus, que vive como se não houvesse Deus, está espiritualmente morta.

Quando avaliamos o nosso modo de ser e viver devemos ser francos ao reconhecer, que não conseguimos cultivar uma relação dialógica com o Senhor da existência humana. Muitos cristãos perderam a convicção de que a oração é um meio de graça estabelecido por Deus, a fim de que eles mesmos cresçam e exercitem a sua fé diariamente na providência divina.
 
Somos atravessados por situações adversas que de algum modo conseguem produzir uma espécie de preocupação pecaminosa, fazendo-nos esquecer o princípio, de que todas as coisas nos serão acrescentadas, se buscarmos o reino e a sua justiça em primeiro lugar. Tal prioridade nos remete a observação feita por Martyn Lloyd-Jones (1990), ao declarar que “se quisermos conhecer a Deus e ser abençoados por Ele, precisamos começar as nossas orações pela adoração à Sua pessoa. Precisamos orar, dizendo: ‘santificado seja o teu nome’, dizendo-Lhe que, antes de mencionarmos qualquer preocupação conosco, o nosso mais profundo anelo é que Ele seja conhecido entre os homens.

O segredo para a felicidade cristã tem o seu início, meio e fim numa oração que se comprometa a honrar a Deus e glorificá-lo sobre todas as coisas. Esse tipo de sentimento nos conduz a uma reformulação de nossas prioridades e vontades. Agindo assim, Deus jamais nos deixará sem direção e trilhando sonhos superficiais.

CONCLUSÃO

Podemos definir a Igreja como sendo a comunidade de pecadores regenerados, que pelo dom da fé, concedido pelo Espírito Santo, foram justificados, respondendo positivamente ao chamado divino, o qual fora decretado na eternidade e efetuado no tempo, e agora vivem em santificação, proclamando, quer com sua vida, quer com suas palavras, o Evangelho da Graça de Deus, até que Cristo venha (Hermisten M. P. Costa).

Viver sob o paradigma da graça de Deus evidenciando-a através de uma vida marcada pela aprendizagem, comunhão solidária, orações e pelo partir do pão é o desafio central de todas as pessoas que foram tocadas pelo Espírito Santo e receberam uma nova vida. Como comunidade cristã somos convocados a transformar discursos religiosos e conceitos teológicos em práticas cristãs genuínas, em que o amor a Deus se torne visível aos olhos da sociedade.

A igreja cristã em Jerusalém nos primeiros anos de sua história conseguiu produzir um ritmo de existência teológica que transcendeu as dimensões ritualísticas veterotestamentárias e o obscurantismo das religiões pagãs presentes no Império Romano. Movidos pelo Espírito Santo estes irmãos experimentaram etapas espirituais importantes no modo com se constituíram como comunidade da graça naquele período histórico.

Sendo um organismo vivo e ao mesmo tempo revelando-se como uma organização, a igreja não pode perder a sua simplicidade e afetividade relacional, uma vez que dominados pela tecnolatria, criamos e cultivamos relações virtuais, que às vezes nos impedem vivenciar a fé sob os critérios um abraço amigo.

É certo de que um novo tempo exige a construção de novas categorias, novas maneiras de ser, existir e vivenciar nossas experiências. Entretanto, existem aspectos da vida cristã, que continuarão sob o prisma do processo, do contato humano e das experiências em que a vida humana deve ser sentida de modo tátil e não apenas sob os critérios da lógica cibernética.

Portanto, como gente comum que foi atravessada pelos critérios e valores do reino dos céus temos uma vida incomum. Habitados pelo Espírito de Deus conduzimos a nossa história a partir de uma lógica que é ilógica para aqueles que ainda não foram surpreendidos pela graça irresistível de Jesus.
 
A nossa esperança é a de que essa vida incomum não seja diferente apenas por conta de roupas, sapatos, grifes, músicas, jargões e poesias de uma subcultura evangélica. Somos incomuns porque guiamos a nossa percepção tendo o Filho de Deus como referencial de vida e obra.       

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BOOR, Werner. Atos dos Apóstolos. Carasinho/RS: Editora Esperança, 2003.
CALVINO, João. O Livro dos Salmos. São Paulo/SP: Edições Paracletos, 1999.
COSTA, Hermisten M. P. A Igreja de Deus: origem, característica e missão. São Paulo/SP: 2001. Apostila – material não publicado.
GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: atual e exaustiva. São Paulo/SP: Editora Vida Nova, 1999.
HODGE, Charles. Systematic Theology. Grand Rapids, Michigan, Eerdmans, 1976.
KISTEMAKER, Simon. Atos. São Paulo/SP: Editora Cultura Cristã, 2006.
LLOYD-JONES  D. M. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos/SP: Editora Fiel, 1990.
MARSHALL, I. Howard. Atos: introdução e comentário. São Paulo/SP: Editora Vida Nova, 1991
STOTT, John R. W. A Mensagem de Atos. São Paulo/SP: ABU Editora S/C, 1994.

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