A missão de educar filhos

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Todas as vezes que leio as estórias infantis da pequena personagem Mafalda do escritor argentino Quino ou analiso os vários livros que tratam da construção da personalidade da criança, e principalmente quando lanço aos meus olhos nas instruções do texto sagrado, percebo que a missão de caminhar com nossos filhos é muito mais difícil do que imaginamos.

Contemplamos diariamente milhares de pais batalhando em seus empregos, sacrificando sonhos, acordando cedo, lutando de maneira aguerrida, a fim de dar condições dignas, para que os seus filhos desfrutem de uma realidade econômica tranquila e, a partir desse contexto, alcancem possibilidades concretas do sucesso. Por isso, podemos ver meninos e meninas consumidos por uma rotina estafante, (aulas de inglês, francês, computação, balé, escolinha de futebol e etc.) preparando-se para a disputa que o mercado de trabalho nos impõe nessa era de darwinismo social.

É nesse contexto de rotina intensa que o relacionamento entre pais e filhos perde a sua verdadeira essência.  Ao focalizar apenas a preparação profissional para disputa capitalista no futuro, muitos pais acabam esquecendo-se de investir na formação espiritual e emocional de seus filhos. A ausência dessa formação que se dá na história social de cada indivíduo, tem produzido seres humanos instáveis e imaturos. Pessoas que apesar de possuir a formação intelectual nas várias áreas do conhecimento, não foram educadas para conviver numa relação alteritária com o mundo e com as derrotas que enfrentaremos em nossa peregrinação espiritual traçada pelo nosso Redentor.

O segredo para o êxito de nossos filhos passa pela transformação e valorização de algumas atitudes que nós pais esquecemos por conta do nosso ativismo. Ações que ficarão gravadas nos corações daqueles que são guiados pela nossa voz e que não serão apagadas com o tempo. Dentre elas citamos algumas:

A habilidade de contar histórias. Crianças são seres marcados pela ficção, pelo o faz de conta e por isso amam ouvir estórias, onde podem visualizar e criar mundos repletos de personagens, castelos, ruas, princesas, dragões, lobos e reis. Infelizmente,  pouquíssimas vezes, os pais tiram tempo suficiente para ler com seus filhos. Existem estórias incríveis na literatura secular que poderiam ser utilizadas pedagogicamente, e além desse recurso advindo da graça comum, temos a beleza, a singularidade, a infalibilidade e a suficiência encontradas na Escritura Sagrada, que nos conta histórias reais e incríveis de homens, mulheres, animais, florestas, montanhas, reis, rainhas, guerreiros, apóstolos, tempestades, crianças e de Jesus, como o Deus que se vestiu de sentimentos e natureza humana, tornando-se o nosso bom pastor. Através das histórias bíblicas podemos ensinar princípios, que aos poucos contagiarão nossos filhos, e iluminados pelo Espírito Santo conhecerão a Jesus Cristo, como salvador e se tornarão cidadãos do reino, dispostos a amar a Deus sobre todas as coisas e serem instrumentos na transformação sóciocultural deste mundo que revela a glória do Altíssimo.  

A habilidade de brincar. Por incrível que pareça, uma grande parcela de pessoas ainda não compreende a importância do lúdico ou do ato de brincar na vida dos seres humanos.  Através dos jogos, cantigas, recortes, cirandas e tantas outras ações lúdicas, criamos elos que lançam limites, responsabilidades, sendo de liberdade e dinamismo; princípios que ajudarão na construção de homens e mulheres saudáveis no campo da felicidade.

Diante dessa constatação, contemplamos a verdade de que muitos pais não encontram tempo em suas agendas para correrem nas praças, recortarem revistas, cantarem canções, jogar futebol, soltar pipas ou fazer qualquer outra atividade que crie pequenos vínculos com seus filhos, que serão fundamentais na construção de um relacionamento mais próximo, amigável, onde as sementes do companheirismo darão com toda certeza frutos na relação familiar.

A imagem do adulto seguro, racional, impessoal, dotado de profissionalismo e objetividade, elimina qualquer caminho a um passado próximo, onde esses adultos positivistas, não passavam de meninos e meninas em busca da felicidade conquistada em coisas simples e efêmeras. É necessário que os pais ressuscitem os meninos e meninas da “Terra do Nunca”, que para que eles consigam compreender o valor e benefícios de uma gargalhada infantil, e voltem a ter o gosto pelo lúdico, e brinquem mais com os seus filhos, e não coloquem as babás para brincarem com eles, terceirizando, mais uma vez suas funções. 

A habilidade de crer. É impressionante como existe uma parcela muito grande de pais, que não se preocupa com a espiritualidade de seus filhos. O ceticismo familiar habitado em muitos lares cristãos tem prejudicado o exercício da fé na história do mundo. Por isso, encontramos casamentos, famílias e consequentemente igrejas que perderam a consciência da dimensão do reino de Deus. Parece estranho afirmar isso aos cristãos, mas é de suma importância entender que além de um ser racional, social, cultural, educacional, histórico e biológico, o homem também é um ser espiritual, e como tal, possui carências que transcendem as explicações racionalistas de uma geração consumida pelo ateísmo.

A história da humanidade tem demonstrado que o senso do divino e a semente da religião estão plantados na alma humana. E que independente do que evolucionistas, ou discípulos de Richard Dawkins possam afirmar, nunca conseguiremos apagar a espiritualidade humana, pois ela é inata à alma daqueles que foram criados pelas mãos do Criador.

Desta forma, a maioria dos pais precisa entender que apenas o investimento social, educacional, intelectual não são suficientes para o sucesso de seus filhos é necessária a formação espiritual. Investir na verdadeira espiritualidade é o grande segredo para a formação de seres humanos conscientes, que amam a Deus e o próximo. A verdadeira espiritualidade nasce daqueles que foram recriados pela ação de redentora de Cristo, e uma vez justificados, são habitados pelo Espírito Santo nos produz a verdadeira espiritualidade a luz da Palavra de Deus. Precisamos, como pais cristãos, resgatar a importância de crer em Deus e criar momentos específicos para a edificação dessa história espiritual com nossas crianças.

Diante do que falamos até agora, ratificamos o que todos nós todos já sabemos e experimentados: caminhar com os nossos filhos é uma missão muito difícil, requer de todos nós a habilidade e a humildade de compreender, que algumas atitudes desvalorizadas por nós mesmos, falam muito mais alto, do que os investimentos realizados apenas na formação profissional e intelectual de nossas crianças.

 O problema começa em nós e o resultado mais desastroso desse processo é que indivíduos educacionalmente disformes irão gerar outros indivíduos símiles, como que em cadeia produtiva, visto que um ser ontologicamente mal formado tende a produzir em cadeia outros seres com o mesmo caráter.

O nosso desafio é o de romper com toda uma estrutura criada por vários pressupostos que continuam regendo a concepção familiar contemporânea e ter a coragem de reconhecer que talvez, os clássicos da psicologia, pedagogia, psicanálise, sociologia e filosofia falharam em alguns aspectos, e isso é natural, pois não existe nenhuma ciência absoluta e perfeita, elas se renovam a cada dia. 
 
Por isso, comecemos a mudança em nossa vida contando histórias da Palavra de Deus, brincando e acreditando intensamente que, apesar dos nossos erros, falhas e medos Deus nos ajudará em nossa missão. Ele sabe muito mais do que nós, como é difícil cuidar de filhos que facilmente se esquecem de valores simples, mas importantes para construção de um novo céu e uma nova terra.

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