Introdução ao amor de Deus: Reflexões, desafios e implicações

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“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna.”1

“O grande amor de Deus para com a humanidade é demonstrado pelo fato de o Filho de Deus não ter vindo à terra como um anjo, e, sim, como homem, o homem Cristo Jesus, tendo a natureza humana como a nossa.”2

“Deus, ao criar o homem, deu uma demonstração de sua graça infinita e mais que amor paternal para com ele, o que deve oportunamente extasiar-nos com real espanto; e embora mediante a queda do homem, essa feliz condição tenha ficado quase que totalmente em ruína, não obstante ainda há nele alguns vestígios da liberalidade divina então demonstrada para com ele, o que é suficiente para encher-nos de pasmo.”3

O desafio de todo estudante cristão em qualquer área do conhecimento é o de submeter mente e coração aos princípios e valores estabelecidos por Deus em sua Palavra. Isso não nos impede de conhecer, analisar, dialogar e discutir com perspectivas teóricas que não se limitam aos horizontes da tradição protestante sob o viés calvinista.
É lógico que as lentes pelas quais avaliamos a realidade são bíblicas, limitando-se a epistemologia reformada. Sendo assim, o nosso desafio neste texto é o de analisar o amor de Deus segundo as Escrituras Sagradas, tendo como referencial teórico a teologia reformada.

 Nos últimos módulos percorremos um agradável caminho quando analisamos a bondade divina e os modos como essa perfeição se revelou na criação e, principalmente, sobre a história de toda humanidade; remetendo-nos a declaração de Paulo e Barnabé, que ao serem tratados como deuses, recusaram e anunciaram o Deus vivo, que “… nas gerações passadas, permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos; contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria.” 4

Deste modo, é importante que definamos logo de início o significado do amor de Deus. Para Turretini (2011), o amor flui “da bondade, pela qual Deus se comunica à criatura e, por assim dizer, quer unir-se a ela e fazer-lhe o bem, mas de modos e graus diversos segundo a diversidade dos objetos. Daí geralmente fazer-se uma tríplice distinção no amor divino: primeira, aquele por meio do qual Ele atende as criaturas, chamado de amor da criatura (philoktisia); segunda, aquele por meio do qual ela abraça os homens, chamado amor do homem (philoanthropia); terceira, aquele que é especialmente exercido para com os eleitos, e é chamado  de amor de eleição (eklektophilia).” 5

Essa definição parte do pressuposto de que o amor é uma das dimensões da bondade de Deus sobre tudo aquilo que Ele criou. Há nEle a livre comunicação de sua generosidade sobre as obras da criação, sobre o ser humano e, de modo especial, sobre àqueles que são alcançados pela sua obra redentora.

Ao analisar os atributos morais de Deus, Bavinck (2012) entende que Criador é o bem supremo para todos os seres e de que na revelação de sua bondade, o amor é uma das formas, quando “não somente comunica certos benefícios, mas o próprio Deus. No Antigo Testamento, referências a esse amor como atributo ainda são relativamente raras, mas não estão totalmente ausentes (Dt 4.37, 7.8,13; 10.15; 23.5; 2Cr 2.11, Is 43.4; 48.14; 63.9; Jr 31.3, Os 11.1, 4; 14.4; Sf 3.17; Ml 1.2). Além disso, na eleição de Deus em sua aliança e em todo o seu relacionamento com Israrel – que é como o relacionamento de um esposo com sua esposa, de um pai com seu filho, de uma mãe com seu bebê –  esse amor é retratado de maneira concreta e gráfica (Sl 103.13; Is 49.15; Os 2). Esse amor é expresso de forma mais vívida no Novo Testamento, agora que Deus deu a si mesmo no Filho do seu amor. … No entanto, em Cristo, aquele que ama e provou o seu amor em seu oferecimento voluntário (Jo 15.13), esse amor não é apenas ao mundo e à igreja em geral, mas também individual e pessoal. De fato, Deus não apenas ama, mas ele mesmo é o amor e seu amor é o fundamento, a fonte e o modelo de nosso amor. Na verdade, é possível falar no amor de Deus às criaturas ou às pessoas em geral (amor de benevolência), mas para isso, a Escritura usa principalmente a palavra bondade e, via de regra, fala do amor de Deus, com a sua graça, somente em relação ao seu povo escolhido ou a igreja (amor de comunhão).6

Nesse sentido, o amor divino pode também ser visto como a própria doação que Deus faz de si mesmo, sendo o maior benefício que os seres humanos caídos podem experimentar. Ele tem sido benevolente quando cuida dos pássaros, ao sustentar tanto a fauna como a flora, dando-nos a prazer de sentir o sabor das frutas, de apreciar a beleza de uma obra de arte, nos emocionar com uma poesia e/ou uma canção.

Entretanto, nada é tão benevolente e generoso como a oferta de si mesmo em Cristo, que graciosamente, “a si mesmo esvaziou assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo qual Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.7

Berkhof (2012) diz que inúmeros cristãos consideram o amor transcendente o atributo mais central em Deus, todavia, não podemos partir dessa interpretação, uma vez que todos os seus atributos divinos são especiais e não há diferença no valor e/ou na importância de cada um, pois todos constituem da maneira perfeita a Trindade. Para o autor, o amor de Deus pode ser visto como seu deleite na contemplação de suas próprias perfeições infinitas e das criaturas que refletem a sua imagem moral. Esse amor pode ser considerado de vários pontos de vista: a) a graça de Deus. Na linguagem específica da Escritura, a graça de Deus é o seu amor imerecido para com os que têm perdido o direito a ele, e estão por natureza debaixo de um julgamento para condenação. É ela a fonte de todas as bênçãos espirituais que são outorgadas aos pecadores indignos ( Ef 1.6-7; 2.7-9; Tt 2.11; 3.4-7). b) A misericórdia de Deus. Outro aspecto do amor de Deus é a sua misericórdia ou terna compaixão. É o amor para com os que sofrem angústia ou aflição, independentemente de seus merecimentos; encara o homem como quem sofre as consequências do pecado, portanto, numa condição lastimável. Esse amor é exercido em harmonia com a mais estrita justiça de Deus, à vista dos merecimentos de Cristo (Lc 1.54,72,78; Rm 15.9; 9.16; Ef 2.4), A longanimidade de Deus. Quando se considera o amor de Deus em suportar os perversos e maus, esse tratamento é chamado de longanimidade ou tolerância. Encara o pecador como quem continua no pecado, não obstante admoestações e advertências repetidas; e manifesta-se especialmente no adiantamento do julgamento merecido (Rm 2.4; IPe 3.20; 2Pe 3.15).

Um novo aspecto teológico pode ser considerado na perspectiva deste autor. O fato de que Deus “deleita em seu próprio ser,” o que envolve a revelação do amor por si mesmo e a exaltação de sua glória, que pode ser refletida na criação, redenção e consumação do universo criado. Ou seja, o amor de Deus, acima de tudo é o seu amor por si mesmo. Campos (2.000) denomina esse conceito como: amor ad intra, “amor demonstrado pelas pessoas da Trindade entre si, ou seja, amor intratrinitário, que é um amor com manifestação interna e eterna, porque é demonstrado antes da fundação do mundo”.8 

Portanto, podemos compreender que não há solidão e nem vazio existencial no Criador, como se de algum modo Ele precisasse dos seres humanos para promover uma relação comunitária e dialógica. Deus não estava incompleto e/ou carente antes da fundação do mundo, pelo contrário, de eternidade a eternidade Ele sempre subsistiu e, continua subsistindo trinitariamente. Nunca houve uma espécie de solidão divina, pois, a Trindade se relaciona de modo perfeito, santo e incompreensível.

Grudem (1999) ao analisar o amor de Deus entende que esse é um atributo em que o próprio Deus “se doa eternamente aos outros. Essa definição interpreta o amor como uma doação de si mesmo em benefício dos outros. Esse atributo de Deus mostra que faz parte de sua natureza doar-se a fim de distribuir bênçãos ou o bem aos outros.” 9
  Movido pela sua bondade o Deus Trino manifestou o seu amor, quando resolveu distribuir bênçãos, beneficiando todo o universo da criação à consumação através de sua providência e redenção em Cristo.

Se faz parte de sua natureza doar-se, como cristãos deveríamos revelar um senso contínuo de gratidão, adoração e humildade, uma vez que existimos e nos movemos por conta de sua graça. Esse conhecimento adquirido acerca de seu amor gracioso e de sua glória servem de base missiológica para promovermos o processo evangelístico no mundo. Todos os dias há o desafio de contar aos outros acerca do grande amor de Deus à humanidade caída.  

Uma vez estabelecida a definição do amor de Deus, podemos também analisar a natureza deste amor e, ao mesmo tempo, questionar o modo como experimentamos e praticamos esse atributo nos relacionamentos intrapessoal e interpessoal.
          
NOSSA REAL CONDIÇÃO

Antes de fazer a análise da natureza do amor de Deus é necessário compreender a condição espiritual de cada ser humano, pois, “a história da raça humana que se apresenta nas Escrituras é primordialmente a história do homem num estado de pecado e rebelião contra Deus e do plano redentor para levar o homem de volta a ele. Antes que fôssemos remidos por Cristo, não só cometíamos atos pecaminosos e tínhamos atitudes pecaminosas, mas também éramos pecadores por natureza.” 10

Aos cristãos de Éfeso o apóstolo Paulo descreve esse estado da seguinte forma: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, – pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” 11

O verbo andar nesta passagem define o modo como a humanidade sem Deus vive e conduz toda a sua história moral. De acordo com o apóstolo andávamos mortos espiritualmente, ou seja, incapazes de perceber esse estado de egoísmo, frieza, rebelião e insensatez. Desta maneira, caminhávamos de acordo com a lógica e os parâmetros de indivíduos sem Deus. Como não conhecíamos Deus de modo salvífico, fazíamos parte de um exército em que o comandante era o príncipe da potestade do ar, já que estávamos com os olhos vendados por conta da cegueira espiritual, e o diabo jamais nos livraria desta escuridão, uma vez que é o príncipe das trevas. 

Finalmente, obedecíamos à natureza caída, em que desejos, pensamentos e atitudes eram conjugados para o nosso próprio deleite, e não a glória de Deus, e vivíamos permanentemente debaixo da ira de Deus, não como filhos, mas, existíamos como criaturas num estado de blasfêmia e frieza espiritual.

Quanto esse estado espiritual, Stott (2001) afirma que “dentro da realidade sombria do mundo atual, Efésios 2.1-10 destaca-se com marcante relevância. Paulo primeiro sonda as profundezas do pessimismo acerca do homem, e depois sobe às alturas do otimismo acerca de Deus. […] o que Paulo faz nesta passagem é pintar um contraste vívido entre o que o homem é por natureza e o que pode vir a ser mediante a graça. […] precisamos saber com clareza que é uma descrição de toda as pessoas. Paulo não está retratando uma tribo particularmente decadente ou um segmento degradado da sociedade, e nem mesmo o paganismo extremamente corrupto do seus próprios dias. Não, este é o diagnóstico do homem caído na sociedade caída em todos os lugares. […] Temos aqui, então, o conceito do apóstolo quanto a todos os homens sem Deus. É um quadro da condição humana universal.”12 

É desta forma que as Escrituras Sagradas descrevem a sociedade sem Deus. Na sua totalidade o homem não se submete e anda de acordo com o código moral estabelecido pelo Altíssimo na criação. Diferente de muitos discursos que veem o ser humano como alguém supremo e autônomo, a perspectiva bíblico-teológica reformada o vê como um ser que necessita de ajuda e salvação.

Consequentemente, os horrores veiculados quase todos os dias na mídia, tais como: assassinatos, ataques terroristas, violência doméstica, corrupção em diversos setores, assédios, egoísmo, traição conjugal, prepotência, mentiras, promoção de si mesmo em detrimentos dos outros, racismo, preconceitos, paixão insaciável pelo dinheiro e sexo, dentre outras práticas, são resultados de uma natureza pecaminosa em estado de perdição, visto que, “… Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz.13

Isso não significa, por exemplo, que este sujeito caído e espiritualmente incapaz de ver as manifestações da existência de Deus como criador e redentor, não seja capaz de realizar e/ou produzir o bem comum. Ao ser criado segundo a imagem do Deus Triuno, o homem recebeu em sua constituição ontológica habilidades especiais que o ajudam na promoção do conhecimento, da arte, da estética, tecnologia, da política e de outros setores importantes no desenvolvimento do mundo.

O que a concepção bíblico-teológico calvinista afirma, é o fato de que os homens estão espiritualmente mortos e são incapazes por si mesmos de reverter esse quadro. Eles podem até criar deuses para suprir as suas necessidades, como: ideologias, lutas humanitárias, labirintos filosóficos, hedonismos científicos, instituições de poder, crenças religiosas utilitaristas e materialistas. Entretanto, a menos que Deus guiado pela sua liberdade e amor, os recrie, não haverá nenhuma mudança no campo espiritual.

 Mas, houve. E é por isso que a conjunção adversativa, “mas”, descrita por Paulo aos cristãos efésios remete-nos ao amor gracioso de Deus para o homem perdido:“… Mas Deus… Estas duas palavras contrapõem à condição desesperadora da humanidade caída a iniciativa graciosa e ação soberana de Deus. Éramos objeto da sua ira, mas Deus… por causa do grande amor com que nos amou teve misericórdia de nós. Nós estávamos mortos, e os mortos não se ressuscitam, mas Deus nos vivificou em Cristo. Éramos escravos, numa situação de desonra e incapacidade, mas Deus nos ressuscitou juntamente com Cristo e nos colocou à sua própria mão direita, numa posição de honra e poder. Deus então agiu para inverter a nossa condição no pecado. É essencial manter unidas as duas partes deste contraste, ou seja: o que somos por natureza e o que somos pela graça, a condição humana e compaixão divina, a ira de Deus e o amor de Deus.” 14

Foi assim que Deus nos viu: caídos. Entretanto, movido pelo seu amor gracioso nos resgatou dessa condição espiritual, e aplicando em nossos corações o princípio da nova vida em Cristo. Para entender a preciosidade do amor de Deus é necessário que tenhamos uma noção clara de quem éramos e como vivíamos, e do que Deus fez. Cientes deste contraste podemos analisar de maneira objetiva a natureza deste amor transcendente.    
  
A NATUREZA DO AMOR DE DEUS

A natureza eterna do amor

“Senhor, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração. Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus.” 15

“Naquele tempo, diz o SENHOR, serei o Deus de todas as tribos de Israel, e elas serão o meu povo. Assim diz o SENHOR: O povo que se livrou da espada logrou graça no deserto. Eu irei e darei descanso a Israel. De longe me deixou ver o SENHOR, dizendo: Com amor eterno eu te amei; por isso, com benignidade te atraí.
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Partimos da condição básica de que Deus não tem princípio nem fim e/ou sucessão de momentos no seu próprio ser. Ele é eterno em sua própria constituição ontológica. O Altíssimo não passou a existir; sempre existiu trinitariamente, deste modo, “Deus é eterno assim como eternos são todos os atributos. O amor não foge a regra. O amor de Deus por nós existe antes de haver mundo e existirá mesmo depois que este mundo for renovado.”17

Um dos aspectos importantes na pregação dos profetas no Antigo Testamento era o de mostrar aos filhos de Israel que o amor de Deus por eles nunca foi temporário e/ou transitório; “a diferença no amor de Deus é a sua qualidade. No hebraico, como no português, não há a mesma riqueza de palavras para expressar amor, como no grego. Provavelmente, a única maneira de expressar o amor de modo diferente, foi dizer que o amor de Deus é duradouro, não muda, permanece para sempre o mesmo, a despeito da infidelidade das pessoas amadas. O amor de Deus não é um amor de simples tolerância com os pecados do povo, mas é um amor cheio de fervor do começo ao fim, por causa da sua natureza santa.” 18

A NATUREZA REDENTORA DO AMOR

“Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros.”19

“… no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência, desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra…” 20

Para promover a libertação do ser humano caído foi necessário que o Filho de Deus encarnasse e assumisse a responsabilidade judicial de todos os nossos pecados e recebesse sobre si a ira justa de Deus Pai. De tal modo, que Ele se ofereceu como sacrifício vivo, santo e agradável promovendo a redenção da nossa vida e apaziguando o estado de guerra e rebelião que tínhamos com Deus. Nesse sentido, “a cruz é a demonstração maior do amor de Deus. A cruz foi o meio de amor que Deus usou para tratar com o problema do pecado humano. Deus derrama o seu amor por pecadores indignos. E esse amor de redenção é  expresso totalmente pelo fato de que Cristo Jesus foi enviado para fazer pelos pecadores aquilo que eles não poderiam fazer por si mesmos. Não é um amor de sentimentalismo, mas, um amor efetivado em obra de entrega do que é mais precioso, para a redenção de pessoas maltratadas e estragadas pelo pecado.” 21

O único que poderia provocar as mudanças necessárias que culminassem em nossa salvação, triunfando sobre o pecado e sobre a morte veio a esse mundo, e assumiu uma natureza semelhante a nossa, ficando conhecido como Jesus Cristo, o Deus encarnado,“os seus sofrimentos se intensificaram à medida que ele se aproximava da cruz. Ele compartilhou com os discípulos algo da agonia que estava vivendo quando disse: “ A minha alma está profundamente triste até à morte” (Mt 26.38). Foi especialmente sobre a cruz que os sofrimentos de Jesus por nós atingiram seu clímax, pois foi ali que ele suportou o castigo pelo nosso pecado e morreu em nosso lugar.” 22

Quando o Pai oferece o Filho como sacrifício Ele doa a si mesmo como o preço do nosso resgate salvífico. A salvação que recebemos pela graça custou um preço muito alto, a morte de um filho. Portanto, “o seu amor é sacrificial: porque Deus escolheu alguém de si mesmo para sofrer a punição. Deus não escolheu alguém fora de si, mas o próprio Filho que é um com ele em essência.”23 

No conselho eterno da Trindade foi estabelecido de maneira mútua, bondosa e livre que a redenção do homem e, todo o cosmos seria efetivada pela obra vicária de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Tal decisão revela o amor do Deus Trino sobre nossa vida.

A NATUREZA ELETIVA DO AMOR

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado…” 24

Uma das questões essenciais quando se discute a doutrina da salvação é a de perceber que todos os homens sem nenhuma distinção estavam caídos, indispostos, responsáveis pelas suas decisões pecaminosas; e, portanto, condenados a viver eternamente longe de uma relação de amor, comunhão e felicidade com Deus.

Entretanto, movido pela sua livre vontade Deus resolveu escolher um povo para si e revelar nestas pessoas de diversas tribos, raças, nações, cores, etnias, culturas e lugares sociais o seu bondoso amor.

Essa perspectiva nos remete ao fato de que Ele é “o Senhor da salvação e, de que a Ele pertence o poder para nos salvar conforme o seu decreto eterno. A salvação é uma prerrogativa única e exclusiva de Deus: Ele tem poder e total liberdade para salvar a quem Ele quiser; a Palavra diz que a salvação pertence a Deus (Hb. 2.10; 5.9, Tg 4.12; Ap. 7.10; 19.1). […] Deus é quem salva, conforme o seu propósito gracioso revelado nas Escrituras Sagradas.”25

Como fomos educados numa perspectiva cultural antropocêntrica, essa verdade bíblico-teológica traz certo incômodo, pois evidencia nossa fraqueza e indisposição de submeter ao caminho designado por Deus para a salvação. O certo é que “Deus se afeiçoa às pessoas por alguma razão nascida nele próprio e não nelas. Deus então resolve amá-las elegendo-as para que sejam salvas das consequências dos seus pecados. A fonte da eleição é o amor de Deus por nós. Deus colocou o seu coração em nós, por isso ele escolheu alguns dentre os membros da raça caída. Qualquer outra noção da nossa eleição que não seja o amor de Deus faz com que mereçamos a nossa salvação. Longe de nós qualquer pensamento similar.” 26

 Deste modo, movido pelo seu livre amor e não sendo condicionado por nada e ninguém a não ser sua própria vontade, podemos afirmar que “eleição é um ato de Deus, antes da criação, no qual ele escolhe algumas pessoas para serem salvas, não por causa de algum mérito antevisto delas, mas, somente por causa de sua suprema boa vontade  e/ou que eleição é o ato eterno de Deus, por meio do qual Ele decretou livre, soberanamente e misericordiosamente salvar em Cristo um determinado número de homens dentre toda raça humana voluntariamente caída aplicando no decorrer da história a sua graça redentora, capacitando-os, pelo Espírito Santo, a responderem com fé à mensagem redentiva de Cristo, sendo preservador assim até o fim.”28

AMOR DE DEUS EM CINCO AÇÕES: busca, encontro, sorriso, pastoreio e paternidade

1. A BUSCA
As Escrituras descrevem através de inúmeras metáforas o modo como Deus revela o seu amor ao ser humano perdido. No evangelho de Lucas vislumbra-se essa verdade quando Cristo diante da murmuração de escribas e fariseus conta uma parábola com três cenas, que ensina acerca do amor gracioso de Deus aos pecadores. O texto sagrado relata que “Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles. Então, lhes propôs Jesus esta parábola: …” 29

Diante da incapacidade dos líderes religiosos em perceber que em Cristo Deus estava transmitindo as boas novas de salvação, Jesus através de três exemplos simples, mostra que o amor do Altíssimo vai em busca dos que estão num estado de alienação espiritual. São três cenas básicas: a de um pastor que tinha cem ovelhas, e perdendo uma, dedica tempo e esforço para encontrá-la, a  estória de uma mulher que tinha dez dracmas e, perdendo uma delas, a procura diligentemente; e a de um pai que tendo dois filhos, não leva em consideração as convenções culturais de seu tempo, mas, busca ambos revelando o seu cuidado especial sobre eles.

Deus é aquele que se importa com o ser humano caído, de tal maneira que dedica pessoalmente a sua atenção a ponto de buscá-lo para uma nova vida. Isso provavelmente soou de maneira estranha aos ouvidos de todos os ouvintes, uma vez que “os líderes religiosos já haviam dado essas pessoas como perdidas. Jesus sabia que elas estavam perdidas, mas ele sabia que elas podiam também ser encontradas – encontradas para trazer regozijo ao coração de Deus; porque ele sabia que haveria mais alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove que não necessitam de arrependimento.”30  Esse conceito pode ser visto em toda história bíblica, quando, por exemplo, Deus foi em busca de Adão, Abrão, da nação de Israel e de Saulo, dentre outros.

2.  O ENCONTRO
Ainda tomando como referência as cenas da parábola contada por Cristo, percebe-se que, os que vão em busca daquilo que se perdeu não voltam com as suas mãos vazias. O pastor encontra a sua ovelha, a mulher encontra a sua dracma, e o pai encontra o seu filho.

Jesus Cristo estava mostrando para aos publicanos, fariseus e a tantos outros personagens, que independente dos pecados cometidos por alguém, da classe social que ela pertença, da linhagem genealógica, dentre outras questões, quando Deus resolve encontrá-los não há nada e ninguém que podem impedi-lo; posto que, “quando Deus se dispõe a salvar alguém, ele tem sucesso nisso. Seu poder  salvador não pode, no final das contas, ser desprezado pela criatura, porque  a graça salvadora é definitivamente irresistível (Jo 6.39). Deus regenera cada  eleito de forma que todos invariavelmente respondem voluntariamente ao  evangelho. A Palavra pregada é sempre acompanhada pela “eficácia da  força do seu poder” no caso dos eleitos (Ef 1.19-20, compare com 1Ts 1.4-6).  Os muitos meios para o fim de salvar cada um dos eleitos são tão eficazes  que terminam sempre em resultados bem-sucedidos. Os meios são infalíveis  porque Deus é infalível. A resistência natural da natureza caída é invariavelmente vencida em todos os casos.”31  

3.  O SORRISO
Nestas três cenas contadas por Jesus Cristo aos líderes religiosos e aqueles que eram excluídos do reino dos céus segundo a lógica farisaica, há um sentimento festivo, de intenso regozijo, de tal maneira que a felicidade é o clímax que define o final de cada estória, evidenciando que Deus fica feliz com a salvação de uma pessoa.

O texto afirma: “E, indo para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida. Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento32. […]  E, tendo-a achado, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque achei a dracma que eu tinha perdido. Eu vos afirmo que, de igual modo, há júbilo diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende33. […] O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos… Entretanto, era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.”34

Há uma celebração festiva do pastor e seus amigos, da mulher e suas vizinhas, do pai e os seus empregados, pois aquilo que estava perdido sem possibilidade alguma de ser encontrado, miraculosamente retorna ao seu convívio e utilização normal.  Kistemaker (1992) afirma que “Deus se alegra mais por um desses proscritos que se arrependem que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. Ele está genuinamente interessado na salvação do pecador. Como um pastor, ele vai a procura do homem que é incapaz de fazer qualquer coisa por si mesmo. Deus vai em busca do homem e não o homem em busca de Deus. Neste ponto, o Cristianismo difere das outras religiões do mundo. Deus encontra o homem que está perdido em pecado. Quando o pecador é encontrado, há júbilo no céu. Naturalmente, há alegria por aquele que faz a vontade de Deus, mas quando um pecador volta para Deus, em arrependimento e fé, é chegado o tempo de celebração. Um filho de Deus, que estava perdido foi achado.”35
    
Poucas são as vezes que refletimos sobre o sorriso de Deus ao ver um filho voltando para casa, como resultado da ação iluminadora do seu Espírito que através do evangelho de Cristo promoveu a regeneração. Talvez, por conta do legalismo que fomos criados e doutrinados não conseguimos construir o conceito teológico de que Deus se alegra com o arrependimento e fé daqueles que retornam para Ele mesmo. Precisamos aprender que a felicidade e/ou o deleite também faz parte do ser de Deus.
 
4. O PASTOREIO

“O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma. Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda. Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre.” 36

Como temos estudado, são inúmeras as figuras utilizadas para representar a natureza e as ações de Deus sobre o seu povo. Esses eram os recursos linguísticos e/ou literários usados para dar ênfase aos atributos divinos, e o modo como os autores bíblicos se sentiam ao deparar com tudo aquilo que Deus é e revela sobre a história.

Deus é considerado nas páginas bíblicas como: “escudo”, “rei”, “cidadela”, “libertador”, “rochedo”, “refúgio”, “rocha”, “fortaleza”, “pai” e, “socorro”, dentre outras metáforas. Agora, no salmo vinte e três escrito por Davi, Ele é apresentado como um pastor.

Boff (2004), ao estudar o simbolismo do pastor afirma que “quem conhece os lugares bíblicos na Palestina e em Israel pode fazer uma ideia do significado do pastor e da migração periódica dos rebanhos, chamada transumância. O céu é profundo, o sol, calcicante, e o calor, estafante. Eis senão quando irrompe o verde. É um oásis, ilha de árvores majestosas, profusão de vida em todas as suas formas, muitas frutas e cereais. E, no meio, uma fonte perene e borbulhante. Água escorre por todos os lados. Todos tomam água diretamente das várias mangueiras de borracha. Mais ainda, deixam-se molhar pelo corpo todo com o líquido vivificante e benfazejo. Essa experiência nos serve de base para entendermos o símbolo-eixo do pastor e dos subsímbolos correlatos. Antigamente, como hoje, havia beduínos seminômades que circulavam pela estepe do deserto com seus rebanhos à procura de passagens. Há duas transumâncias: a da primavera com pastagens verdejantes por causa da umidade abundante, depois do inverso severo, e a do verão. O verdor desaparece e reina seca rigorosa. Os pastores se aproximam das vilas com população sedentária. Pedem licença para aproveitar o que restou da colheita de cereais e legumes para alimentar as ovelhas. O salmo tem como referência a transmigração da primavera. Estamos em pleno deserto. O pastor é tudo para as ovelhas. É guia, companheiro de destino, segurança e proteção.” 37

Essa noção simbólica enriquece a aprendizagem do amor pastoral de Deus, fazendo-nos perceber que em tempos de bonança e, em experiências de dor, ausência, lutas e sofrimentos o Bom Pastor tem nos sustentado e amado de forma incondicional. Nesse sentido, o amor de Deus é maior do que as circunstâncias temporais que envolvem questões políticas, culturais e econômicas. Portanto, sendo Deus nosso pastor, nada nos falta, já temos tudo que necessitamos para viver com qualidade.

Para Calvino (1999), o salmo vinte e três além de várias lições essenciais, nos traz uma, não menos importante: a gratidão em dias pacíficos; uma vez que este “salmo não se acha nem entrelaçado com orações, nem apresenta queixas de misérias com o propósito de se obter o alívio. Contém simplesmente uma expressão de gratidão, à luz da qual evidencia-se que foi composto por Davi quando granjeou a posse pacífica do reino e vivia em prosperidade e no usufruto de tudo quanto pudesse desejar. Portanto, para que não vivesse, no tempo de sua grande prosperidade, como os homens mundanos, os quais, quando parecem viver afortunadamente, sepultam a Deus no esquecimento, e concupiscentemente se precipitam em seus prazeres, Davi se deleita em Deus, o autor de todas as bênçãos de que desfrutava. E não só reconhece que o estado de tranquilidade no qual vive, vem como a intenção de toda e qualquer inconveniência e desventura, eram devidos à benevolência divina, mas também confia que através da divina providência ele continuará feliz mesmo no encerramento de sua vida (terrena), e por isso termina dizendo que poderia gastar-se na prática de seu culto perfeito.” 38

Um coração genuinamente convertido consegue reverenciar de maneira humilde e grata o cuidado e o carinho de Deus em todas as ocasiões, mesmo em tempos festivos. Para alguns parece estranho enaltecer a Deus num período de paz e/ou tranquilidade. Não é estranho, é um sério desafio, pois, são nesses momentos que geralmente nossos corações perdem a noção de quem é o autor e a fonte de todas as bênçãos, e acabam reverenciando a si mesmos ou os outros.

Deus tem revelado amor através do seu pastoreio sobre nossa caminhada neste mundo. Ele tem sido nosso pastor em dias normais, difíceis e futuros, é por isso que Davi “sob a similitude de um pastor, enaltece o cuidado que Deus, em sua providência, havia exercido para com ele. Sua linguagem implica que Deus não tinha menos cuidado para com ele do que um pastor tinha para com as ovelhas que eram postas em sua responsabilidade. Deus, na Escritura, frequentemente toma sobre si o nome e assume o caráter de um pastor, e isso de forma alguma é o emblema de um frágil amor por nós. Visto ser essa uma despretensiosa e familiar forma de expressão, Aquele que se digna descer tão baixo por nossa causa, com certeza nutre uma afeição singularmente forte para conosco.” 39  

A maior expressão deste pastoreio está no fato de que para manifestar o seu pastorado salvífico Deus veio caminhar pessoalmente com os homens; e para isso, assumiu uma natureza humana, e no Filho do seu amor, temos a graça de ouvir, sentir e experimentar as seguintes palavras deste bom pastor: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor. Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai.”40

Em Cristo, através e para Ele, experimentamos o amor divino que conhecendo a nossa natureza caída, indisposta e num estado de completa rebelião entrega espontaneamente a sua própria vida como um gesto de autoridade, carinho e bondade; pois, “Jesus Cristo conhece pessoal e afetivamente suas ovelhas. O conhecimento de Deus em relação a seu povo sempre denota uma relação íntima e amorosa, pela qual ele distingue os seus. Ele conhece os que lhe pertencem (2Tm 2.19). Ele sabe que há ovelhas que ainda não fazem parte deste aprisco, mas, que no momento certo, serão reunidas por ele mesmo, o Bom Pastor (Jo 10.16).”41

5. A PATERNIDADE

Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu…” 42
“Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.”
43

Além de ser o pastor de um imenso rebanho, Deus tem revelado de modo especial a sua paternidade sobre inúmeros filhos e filhas espalhados pela face da terra. Em Cristo fomos adotados antes da fundação do mundo, de tal maneira que nos tornamos herdeiros e coerdeiros com Ele, assumindo e, ao mesmo tempo, experimentando a bênção de ter comunhão com a Trindade. Mas, o que queremos dizer com a expressão paternidade? 

Costa (2002) declara que a paternidade divina pode ser “entendida como um ato de intenso amor para com os homens que se encontravam num estado de total depravação e miséria. (Jo 3.19; I Jo 3.1). Os homens são filhos de Deus, não simplesmente por nascimento natural, mas, sim, por um novo nascimento concedido por Deus, tornando-se assim, seus filhos adotivos. Nossa filiação, olhando por qualquer ângulo, é um ato da livre graça de Deus. Todas as demais bênçãos que recebemos decorre da graciosa adoção divina como sua causa primeira.”44

Livremente Deus revelou sua paternidade sobre os homens caídos, não sendo condicionado por alguma força externa e/ou antevendo a crença que alguns homens revelariam nEle no desenrolar da história. Pelo contrário, desde o Antigo Testamento (Dt 7.6-8; 14.1-2, Sl 103.13, Is 63.15) ao Novo Testamento (Rm 1.7, 1Co 1.2, Gl 1.3, Ef 1.2) Deus vem formando uma comunidade de filhos constituída por tribos, raças e nações, que na multiculturalidade vincula-se a uma só fé, batismo, Espírito e paternidade divina. 

É importante ressaltar que a compressão do que seja a paternidade de Deus não dever vir das experiências culturais, sociais, econômicas, filosóficas e, principalmente, familiares. Por mais que os eventos históricos socioculturais e, as vivências presentes neles sejam importantes, elas não são à base de nossa leitura. As lentes pelas quais enxergamos toda realidade sãos as Escrituras Sagradas. Por isso, para entender a paternidade divina é necessário analisar as sagradas letras e perceber como estas apresentam a natureza desta paternidade, uma vez que “tanto no Antigo como no Novo Testamento, encontramos a revelação de que Deus é Pai de amor, bondade e justiça.” 45

Nestes últimos parágrafos analisamos o amor de Deus em cinco ações específicas: o ato de buscar, encontrar, sorrir, pastorear e de ser pai. Obviamente existem outras ações que não foram o alvo desta reflexão bíblico-teológica, o que nos franqueia campo vasto para a produção de outros artigos sobre a natureza do amor de Deus e as implicações deste atributo divino em nossa prática cristã. Nesse sentido, saber que o amor de Deus tem sido revelado nas ações já estudadas estabelece um desafio missiológico e missionário para igreja.

Portanto, na proclamação do evangelho precisamos ir em busca daqueles que desconhecem o carinho de Deus; e ao encontrá-los, criar uma relação de felicidade, pastoreio, e de filiação familiar; uma vez que somos filhos do mesmo Pai e pertencemos a mesma família, a família de Deus. E nesta família as pessoas não podem ser vistas como números, peças no tabuleiro dos jogos de poder, aliados nos campos teológicos e eclesiásticos. Somos a igreja de Deus que precisa “compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.”46

CONCLUSÃO
Neste ensaio foi analisado a natureza e as ações de amor de Deus sobre toda a sua criação e, principalmente, sobre os seres humanos caídos. Aprendemos que esse amor pode ser visto como uma das dimensões da bondade de Deus, uma vez Ele doa a si mesmo como expressão de sua imensa generosidade.

O ato oferecer a si mesmo envolve a manifestação de suas perfeições nas obras da criação, na história, na constituição ontológica humana, no progresso da revelação especial, e na redenção em Cristo através de seu ministério terreno culminando em sua obra vicária.

Sendo assim, partimos da premissa teológica de que Deus movido pela sua liberdade soberana nos amou com amor eterno, e no conselho eterno da Trindade definiu um plano especial de salvação, pois éramos incapazes de buscá-lo, conhecê-lo, e amá-lo.

Em amor, houve a escolha de um povo que seria formado por diversas tribos, etnias, culturas e inúmeros lugares sociais que seriam alcançados em tempos históricos diferentes pelo Filho de Deus. Para isso, foi necessário que o Deus Filho encarnasse e se tornasse sacrifício vivo, santo e agradável ao Pai.

E foi exatamente isso que aconteceu. O Filho veio ao mundo e ficou conhecido como Jesus Cristo. Ele caminhou com as multidões, alimentou-as, curou-as, libertou-as das obras do mal, ensinou-as, e amou-as até a cruz, promovendo através do seu sangue livre acesso ao Pai. 

Deste modo, essas ações revelam o quanto Deus nos amou; e assim, nos desafiam a amá-lo com toda gratidão, adoração, entendimento, alegria e dedicação. Ao mesmo tempo, precisamos amar uns aos outros sob os critérios de nos doar de maneira livre, generosa e contínua; libertando-nos do egoísmo que tem sido a raiz de todos os  males e a causa da queda humana.

Nossos primeiros pais não levaram em conta e não se importaram com o projeto de amor e felicidade criado por Deus no Éden. Eles pensaram si mesmos, e não nas palavras de amor do Criador.

Quando optaram por criar o seu próprio “projeto de amor”, estabeleceram como parâmetro verdadeiro os seus próprios pensamentos e desejos e não os de Deus. Desde aquele dia, até os acontecimentos trágicos em Paris neste ano, o homem perdeu a noção do que seja bom, verdadeiro e salutar para a sua existência.

Todavia, o evangelho continua convidando cada indivíduo para viver, experimentar e celebrar as dimensões do amor de Deus, posto que “o amor de Deus tem uma conotação ímpar, pois não é encontrado em nenhum outro lugar e em nenhuma outra pessoa. Todos os amores do mundo querem alguma coisa em troca. O amor de Deus é diferente: ele se oferece.” 47

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada. São Paulo/SP. Editora Cultura Cristã, 2012.
BOFF, Leonardo. O Senhor é meu Pastor: consolo divino para o desamparo humano. Rio de Janeiro/RJ. Editora Sextante, 2004.
CALVINO, João. Comentário do Livro dos Salmos, Vol I. São Paulo/SP. Editora Paracletos, 1999.
COSTA, Hermisten Maia Pereira da. Eu Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo. São Paulo/SP. Editora Paracletos, 2002
__________________________________ Breve Teologia da Evangelização. São Paulo/SP. Editora PES, 1996
GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática: atual e exaustiva. São Paulo/SP. Editora Vida Nova, 1999.
HERKLOTS, H.G.G. Publicans and Sinners: a study of the ministry of Jesus. SCM Press, Londres, 1996.
KISTEMAKER, Simon. As parábolas de Jesus. São Paulo/SP. Casa Editora Presbiteriana, 1992.
SOTT, John. A mensagem de Efésios: a nova sociedade de Deus. São Paulo/SP. 6ª Edição, 2001.
TURRETINI, François. Compêndio de Teologia Apologética. São Paulo/SP. Editora Cultura Cristã, 2011.
WRIGHT, K. McGregor. A Soberania Banida. São Paulo/SP. Editora Cultura Cristã, 1998.

______________________________
1Evangelho de João 3.16.
2
OWEN, John, A Glória de Cristo, p.8.
3
CALVINO, João, O Livro dos Salmos, Vol I, p.173-174
4Livros de Atos 14.16-17.
5
TURRETINI, Françouis. Compêndio de Teologia Apologética, p.323.
6BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada, p.221-222.
7Carta aos Filipenses 2.11
8
CAMPOS, Heber Carlos de. O ser de Deus e os seus atributos, p.263.
9GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática, p 145.
10GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática, p.403.
11Carta aos Efésios 2.1-10.
12STOTT, John. A mensagem de Efésios: a nova sociedade de Deus, p.44-45.
13Carta aos Romanos 3.10-17.
14STOTT, John. A mensagem de Efésios: a nova sociedade de Deus, p.53.
15Salmo 90.1-2.
16Jeremias 31.1-3
17CAMPOS, Heber Carlos de. O ser de Deus e os seus atributos, p. 265-266.
18CAMPOS, Heber Carlos de. O ser de Deus e os seus atributos, p. 266.
19 IJoão 4.7-11.
20Carta aos Efésios 1.7-10.
21CAMPOS, Heber Carlos de. O ser de Deus e os seus atributos, p. 265.
22GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática, p. 475.
23CAMPOS, Heber Carlos de. O ser de Deus e os seus atributos, p.265.
24Carta aos Efésios 1.3-6.
25COSTA, Hermisten M.P. Breve Teologia da Evangelização, p. 24-25.
26CAMPOS, Heber Carlos  de. O ser de Deus e os seus atributos, p.264.
27
GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática, p. 560.
28COSTA, Hermisten M.P. Breve Teologia da Evangelização, p. 33.
29Lucas 15.1-3.
30HERKLOTS, H. G.G. Publicans and Sinners, p.36.
31WRIGHT, K. McGregor. A Soberania Banida, p. 110.
32Lucas 15.6-7.
33Lucas 15. 9-10.
34Lucas 15.23-24-32.
35KISTAMAKER, Simon J. As parábolas de Jesus, p.230.
36Salmo 23.
37BOFF, Leonardo.  O Senhor é meu pastor: consolo divino para o desamparo humano, p.33-34.
38CALVINO, João. Comentário dos livros dos Salmos, vol I, p.509.
39Ibid, p.511.
40Evangelho de João 14. 11, 14-18.
41COSTA, Hermisten M.P.  Eu Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo, p.275.
42Mateus 6.9-10
43Romanos 8.14-16
44COSTA, Hermisten M.P.  Eu creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo, p.130
45Ibid. p.129
46Carta aos Efésios 4.18-19
47CAMPOS, Heber Carlos  de. O ser de Deus e os seus atributos, p.267

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