Vigilância: uma leitura textual-temporal-canônica de Cantares 2.15

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“Agarre para nós as raposas, as pequenas raposas, antes que as vinhas sejam destruídas pois elas já estão com flor”. [Tradução nossa]

Introdução

A ideia de vigilância é um tema muito frequente na Sagrada Escritura. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento encontramos reflexões sobre a importância de um vigia e a prudência de vigiar. Em um dos textos proféticos, por exemplo, observamos o profeta Isaías (Isaías 21.6,8-9a, NVI) usando a figura de um vigia para comunicar ao povo a supremacia de Deus sobre todas as nações[1]:

Assim me diz o Senhor: Vá, coloque um vigia de prontidão para que anuncie tudo o que se aproximar. […] Então o vigia gritou: Dia após dia, meu senhor, eu fico na torre das sentinelas; todas as noites permaneço em meu posto. Veja! Ali vem um homem num carro com uma parelha de cavalos.

Para Ortlund (2005, p. 134) Isaías estava prevendo, por meio de uma visão, que: “O fim da Babilônia se encontrava visível”. Mas o que gostaríamos de destacar aqui é a obediência e o compromisso do vigia que dia após dia se mantinha operante (עמד: ficar de pé): “Dia após dia, meu Senhor, eu fico na torre das sentinelas” (v.8). Qual seria a tarefa do vigia? Avistar qualquer aproximação. Ou seja, qualquer movimentação humana seria o suficiente para acreditar na destruição da Babilônia. Foi por meio destes termos, que “Isaías enxergou Deus governando no futuro a Babilônia” (ORTLUND 2005, p. 134). Portanto, um vigia produtivo foi a figura central para a compreensão do futuro fracasso dos babilônios e só seria possível descobrir este fracasso se houvesse alguém que se dedicasse a cumprir os comandos de manter-se atento.

No Getsêmani Jesus disse aos seus discípulos: “Vigiem e orem para que não caiam em tentação” (Marcos 14.38, NVI). Neste texto, ao contrário do vigia da visão de Isaías que havia se comprometido com a tarefa, Simão, um seguidor de Jesus, preferiu se render as suas necessidades físicas ao invés de vigiar. Isso fica claro na fala de Jesus: “Você está dormindo? Não pôde vigiar nem por uma hora?” (Marcos 14.37, NVI). Segundo Stein (2008, p. 663): “Enquanto o vigiai em Marcos 14:37 envolvia vigiar no sentido de compartilhar a agonia e o tumulto de Jesus o vigiai e orai em 14:38 refere-se à necessidade de os discípulos vigiarem e orarem por si mesmos”. Sendo assim, é possível concluir que Jesus não estava reclamando de uma necessidade real do descanso corpóreo, mas sim da falta de interesse do seu discípulo em manter-se firme, acordado e vigilante.

Parece que Simão, também conhecido por Pedro, aprendeu a lição do Getsêmani. Ou seja, ele captou a importância da vigilância e do compromisso de engajar-se com o apelo de notar, avistar e permanecer olhante. Assim disse Pedro aos seus leitores (1Pedro 5.8, NVI): “Estejam alertas e vigiem. O Diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem possa devorar”. Ao comentar este trecho Jobes (2005, p. 379) comentou que: “Pedro queria que seus leitores aceitassem os tempos difíceis que estavam enfrentando, mas que ainda assim estivessem em guarda contra o desejo maligno do diabo de tirar proveito das circunstâncias para sua própria destruição”. Portanto, tanto a figura do vigia (em Isaías) quanto a prudência de vigiar (Marcos 14.37-38; 1 Pedro 5.8) são reflexões que os cristãos deveriam pensar, autoavaliar e viver até que Cristo venha (Atos 1:9-11).

Há diversos outros textos das Escrituras que poderíamos usar aqui[2]. Porém, por motivos de espaço, buscamos por meio dos trechos acima mostrar que a vigilância é um elemento central no qual todo cristão precisar praticar. Sendo assim, este artigo buscará trabalhar esta temática refletindo sobre o trecho de Cantares 2.15. Basicamente, o nosso objetivo será responder a seguinte questão: uma vez que o verbo vigiar não aparece no verso citado, como poderíamos destacar a ideia de vigilância nele?

Para construir uma resposta responsável, será exposto de forma objetiva aquilo que Richard Lints (2022, p. 310-326) chamou de: “três horizontes da interpretação”. O contexto textual (visão geral do livro e comentário exegético) temporal (como os principais temas foram interpretados ao longo da história) e canônico (correlacionaremos a ideia central de Cantares 2.15 com a temática da vigilância). Espera-se, portanto, que este texto contribua com a temática e que também fomente outras pesquisas sobre o assunto.

  1. Uma proposta de unidade no livro de Cantares

Para compreender qualquer texto há pelo menos duas formas:[3] A sintática onde você considera o todo para interpretar melhor as suas partes e a analítica onde você estuda as partes sem perder de vista o todo. Nesta pesquisa partiremos de uma parte e correlacionaremos com o contexto canônico. Inicialmente faremos uma análise dentro do livro de Cantares e concluiremos propondo as suas conexões com o Cânon.

É importante destacar que todo trecho bíblico tem um contexto. Ou seja, nenhum parágrafo é uma ilha (sem conexão, vazio etc.). Com isso em mente, no sentido prático, para entender um verso é preciso captar o que foi trabalhado antes e o que foi desenvolvido depois. O contexto da passagem é fundamental porque da mesma forma que não existe ser humano sem uma história, não existe versículo sem um contexto. Nesta seção o propósito será refletir sobre o livro no seu todo. Na seção seguinte, o foco será olhar as suas partes.

Ao refletir sobre o livro na sua forma total, Murphy (1990, p. 62) levantou uma questão importante, a saber: “Existe um arranjo coerente das unidades poéticas individuais que compõem o Cântico?” Para alguns estudiosos o texto foi definido como uma coleção “solta de amor” (MURPHY, 1990, p. 62), já outros, levando em consideração as características que supostamente unem as principais unidades do livro, defenderam que a canção era um drama que poderia ser resumido em cenas centrais e por meio delas uma possível unidade ligando-as[4].

É possível fazer a mesma pergunta de Murphy no campo da teologia? Para responder, Longman e Dillard (2006, p. 253) concluíram que o principal objetivo do livro é “exaltar o amor sexual entre um homem e uma mulher”. Ao disserem isso eles tinham em mente o contexto moderno da adoração ao sexo. Diante desta anomalia, o texto de Cantares teria, segundo os autores, muito a contribuir pois longe de promover uma bandeira hedonista, o texto fomentaria uma prática sexual ordenada (parametrizada pela Sagrada Escritura) e litúrgica (para a glória de Deus). Sobre esta última os autores chegaram a dizer que: “Embora a referência principal seja a sexualidade humana, o livro ensina sobre a nossa relação com Deus. […] Deus tem uma aliança com o seu povo e ela é muito parecida com a aliança do casamento” (LONGMAN; DILLARD, 2006, p. 254).

Portanto, no que se refere a unidade do texto de Cantares, este pesquisador defenderá que o pano de fundo que conecta toda a carta (aqui concordamos com Exum) é a intenção divina de mostrar como o eleito (seja a igreja ou o cristão) deve se relacionar com o Deus-trino (concordando com Longman e Dillard).

  1. A sugestão de estrutura do livro de Cantares

O livro de Cantares pode ser dividido em pelo menos seis partes. A primeira inicia-se no capítulo 1.1 e termina no 2.7. A segunda inicia-se no capítulo 2 verso 8 e vai até 3.5. A terceira parte inicia-se no capítulo 3 verso 6 e vai até 5.1. A quarta inicia-se no capítulo 5 verso 2 e finaliza no capítulo 6 verso 3. A penúltima parte inicia no capítulo 6 verso 4 e se encerra no capítulo 7 verso 13. Por fim, a última parte se encontra no capítulo 8.

Embora esta pesquisa considere a estrutura acima, isso não significa que todos os estudiosos concordem com ela. Por exemplo, Tremper Longman III (2001) dividiu o livro de Cantares em 28 poemas. Michael Fishbane (2015) assim como Elizabeth Huwiler (1999) separou em 8 blocos. Roland E. Murphy (1990) trabalhou o livro em 11 temáticas. Por fim, Richard S. Hess (2005) com pouquíssimas exceções pareceu concordar com a estrutura adotado nesta pesquisa.

A estrutura adotada nesta pesquisa será do americano Edward Curtis (2013, p. 226, 237, 250, 265, 275, 290) que dividiu o texto em 6 grandes blocos:

 

Parte Tema geral Ideia geral Temas chaves
1.1-2.7 Paixão, louvor e deleite O amor de um homem e uma mulher traz paixão e prazer – Os amantes se deleitam um com o outro.

– Os amantes elogiam um ao outro.

– O louvor tem o poder de mudar as pessoas.

2:8-3:5 O meu amado é meu, e eu sou dele O compromisso mútuo é a chave para um relacionamento que funciona de acordo com a ordem de Deus. – Estar junto produz entusiasmo, expectativa e prazer.

– A separação produz frustração e medo.

– O amor deve se desenvolver naturalmente e sem coerção, e a intimidade física plena deve esperar o momento certo, o lugar certo e a pessoa certa.

3.6-5.1 Você é linda, meu amor: Deleite e consumação O amante elogia sua amada. – O amante elogia a beleza extraordinária de sua amada.

– Com os olhos do amor, ele não vê nenhum defeito nela.

– Seu deleite com ela aumenta sua paixão e desejo por ela.

– Ele a respeita e espera que ela participe voluntariamente de suas relações sexuais.

5:2-6:3 O que há de tão especial em seu amado? A hesitação da mulher leva a um desejo frustrado e a uma busca obstinada

 

– A resposta tardia às necessidades ou desejos de um amante pode causar a separação.

– A valorização da pessoa amada motiva a reconciliação.

– A confiança no compromisso mútuo traz confiança em tempos difíceis.

6:4-7:13 As delícias espetaculares do amor. O elogio regular e repetitivo contribui significativamente para o desenvolvimento do amor – Impressionados e dominados pelo amor, os amantes veem a beleza e a excelência de seu amante como algo que supera todos os outros.

– Os amantes têm prazer em se entregar um ao outro.

– Viver de acordo com a ordem de Deus reduz a disfunção que resulta de ignorar essa ordem.

8:1-14 O incrível poder do amor. O amor é caracterizado por um poder impressionante e uma persistência feroz. – O relacionamento entre um homem e uma mulher não pode ser forçado; ele deve se desenvolver à sua própria maneira e em seu próprio tempo.

– As fronteiras e os obstáculos sociais podem frustrar o amor.

– O amor deve ser dado livremente; não pode ser comprado.

– O amor é tão poderoso e irresistível quanto a morte.

 

A luz do trabalho de Curtis, é possível identificar que o contexto em que o verso 15 do capítulo 2 se encontra é de uma relação íntima e profunda onde a separação corroboraria em frustação e medo, mas o estar juntos produziria um entusiasmo, uma esperança e prazer. É iluminado por este cenário que encontramos o seguinte verso (Cantares 2.15, NAA): “Peguem as raposas, as raposinhas, que devastam os vinhedos, porque as nossas vinhas estão em flor”.

  1. Comentário exegético

Nas seções anteriores, foi exposto uma visão geral do livro de Cantares bem como uma visão das suas partes. A partir de agora, será visto com cuidado o significado de cada signo em seu idioma hebraico objetivando sua interpretação.

אֶֽחֱזוּ־לָ֙נוּ֙ שֽׁוּעָלִ֔ים שֽׁוּעָלִ֥ים קְטַנִּ֖ים מְחַבְּלִ֣ים כְּרָמִ֑ים וּכְרָמֵ֖ינוּ סְמָדַֽר[5]         Cantares 2.15

Ao olhar para o texto hebraico é possível notar o primeiro verbo אחז (qal) na sua forma imperativa. O curioso é que este verbo está conjugado na segunda pessoa do plural. Com isso, a quem a noiva estaria se referindo? De outra forma, quem seria o agente desta ação? Na seção 4 esta questão será respondida. Neste momento, é preciso pontuar que o significado da palavra “Qal” é agarrar, no sentido de segurar com firmeza. Por fim, este verbo não está na condição de arbitrariedade, ou seja, o que precisa ser agarrado, será agarrado, quando o agente da ação quiser. Pelo contrário, o seu sentido é de ordem. Portanto, não há escolha para não agarrar. Ou agarra ou agarra.

Seguido da palavra agarrar (qal) encontra-se no texto uma preposição que indica a pessoa (ou pessoas) que será (ou serão) beneficiada pela paralização do objeto. אָ֙נוּ֙ (anachnuw), portanto, nos traz a ideia de que a ação de agarrar deve ser feito para (preposição) alguém (pronome) e este “alguém” representa “nós”. Sendo assim, a tradução mais provável seria: “agarre para nós”. O pronome se encontra na primeira pessoa do plural o que implica em perguntar: o que se entende por “nós”? É a noiva ou são os leitores que lerão e refletirão sobre isso? Será que não poderia ser a noiva e o noivo? Na seção 4 veremos as respostas neste momento o propósito é identificar os significados e refletir sobre eles.

O próximo signo a ser estuda é o substantivo שֽׁוּעָלִ֔ים (shual). Esta palavra pode significar raposa e “talvez chacal” (BROW; DRIVER; BRIGGS, 1906, s/n). Na sua forma sintática, o vocábulo se encontra na terceira pessoa do plural, o que nos leva a concluir que havia duas ou mais raposas na mente do autor quando ele registrou esta palavra. Adiante é possível perceber que a expressão “raposa” se repete, mas neste segundo momento, ela é acompanhada do adjetivo קְטַנִּ֖ים (qatán) que expressa o sentido de pequeno ou jovem. Portanto, é possível defender até aqui a seguinte tradução: “Agarre para nós as raposas. As pequenas raposas”.

A terceira parte do versículo inicia com o verbo חָבַל (piel). Ele aparece no plural e representa destruir ou exterminar. O significado desta palavra já ajuda na reflexão da razão pela qual as informações anteriores foram ditas. Ou seja, há raposas ou pequenas raposas e alguém está pedindo para que elas sejam agarradas antes que suas ações resultem em destruição.

Quem destrói, destrói alguma coisa. Diante disso, é preciso perguntar: que coisa é esta que ao deixar as raposas livres, sem dúvida será destruído? O alvo das raposas se encontra no signo כרם (kerem) e significa vinha. No versículo esta palavra se encontra no plural o que resulta em traduzi-las por vinhas. Conectando essas novas informações (destruir e vinha) é possível organizar o versículo da seguinte forma: “Agarre para nós as raposas, as pequenas raposas, antes que as vinhas sejam destruídas”.

Por fim, o objetivo agora será estudar a última frase do verso. O primeiro movimento será dizer que a palavra כרם (kerem) aparece novamente, porém o objetivo não é destacar o que será destruído, mas sim dizer os motivos pelos quais ela deveria ser protegida. Com isso em mente, chegamos ao segundo movimento que é descobrir o signo que destaca a importância de manter a vinha intacta. A palavra, portanto, é סְמָדַֽר (tzítz) que significa flor. Sendo assim, as vinhas deveriam ser protegidas porque ela já se encontrava com flores. Com os últimos signos analisados, a tradução que usaremos nesta pesquisa será: “Agarre para nós as raposas, as pequenas raposas, antes que as vinhas sejam destruídas pois elas já estão com flor”.

Antes de avançarmos, se faz necessário esclarecer o que tínhamos em mente quando trabalhamos esta seção. Buscamos seguir dois conselhos dado pelos autores Stuart e Fee. O primeiro foi atender ao seguinte apelo “uma exegese é um estudo analítico completo de uma passagem bíblica, feito de tal forma que se chega a uma interpretação[6] útil” (STUART; FEE, 2008, p. 23). Com esse conselho em mente, buscamos analisar cada vocábulo degustando um por um a fim de chegarmos a uma interpretação (hermēneúo) razoável: “Agarre para nós as raposas, as pequenas raposas, antes que as vinhas sejam destruídas pois elas já estão com flor”. O segundo e último conselho gira em torno do seguinte apelo: “procure certificar-se de que a passagem que escolheu para fazer exegese é de fato uma unidade completa independente (às vezes, chamada de perícope)” (STUART; FEE, 2008, p. 31). Mesmo diante de um versículo, de acordo com alguns estudiosos, este trecho respeita as características apontadas pelos autores, ou seja, este verso é uma perícope.

Uma vez estudado o contexto textual, passemos agora para uma proposta de explicação deste texto. Esse será o movimento da próxima seção.

  1. Comentário temporal

Na seção anterior buscamos interpretar o texto objetivando a sua tradução. Ou seja, partindo do texto hebraico degustamos todos os signos e refletimos sobre as suas conexões. Agora, buscaremos interpretar o texto objetivando a explicação. De outra forma, será respondido a seguinte pergunta: como poderíamos explicar esse texto, tendo em vista a ideia central de Cantares, o contexto imediato e sua a tradução? Para dar conta do propósito, pediremos ajuda aos estudiosos que ao longo da história refletiram sobre esse texto.

Estruturaremos a seção em duas subseções: a primeira que envolve a frase “Agarre para nós as raposas, as pequenas raposas”; e a segunda, “antes que as vinhas sejam destruídas pois elas já estão com flor”.

4.1. Comentários iniciais

Algumas perguntas foram feitas na seção 3 e gostaríamos de iniciar esta serie de subseções respondendo-as. O motivo de fazê-las se deu, pois, alguns estudiosos demonstraram certa dificuldade com este verso (2.15). Segundo alguns, este trecho é um fragmento “solto e de difícil interpretação” (ALTER, 2015, p. 33). Outros confessaram a dificuldade do texto, mas não defenderam que o verso se encontrava solto sem um objetivo autoral. Para eles: “O versículo era muito difícil na interpretação do seu contexto” (MURPHY; HUWILER, 1999, P. 259). Hess (2005, p. 91) pareceu concordar com Murphy e Huwiler quando disse que: “O versículo 15 não dá nenhuma dica sobre se ele pertence ao discurso do homem ou da mulher”. Em contrapartida, aos refletir sobre a mesma questão, Longman III (2001, p. 363) afirmou o seguinte: “Na superfície a imagem que o versículo evoca é bastante fácil de entender”.

Exum (2005, p. 130) pareceu seguir a mesma linha de Longman III. Ao comentar sobre o trecho ele disse que: “A interpretação se encaixa com a imagem geral que o texto de Cantares nos dá, ou seja, de uma sociedade na qual a liberdade de movimento do homem é maior do que a da mulher, bem como sua imagem do amor como algo que as mulheres dão e os homens recebem”. Embora discordemos do pano de fundo geral (mais social do que teológico) destacado por Exum, seu comentário apontando para uma conexão do verso com a imagem geral de Cantares é digno de nota. Portanto, já que há conexão da perícope (2.15) com o contexto do livro de Cantares, passemos agora a resposta das perguntas.

A primeira pergunta que fizemos foi: A quem o autor estaria se referindo quando escreveu: Agarre? Quem seria o agente desta ação? Segundo alguns estudiosos, esta expressão foi dita de forma retórica: “É mais provável que a noiva as diga. O imperativo masculino plural “agarre as raposas” é provavelmente um imperativo retórico, dirigido a ninguém em particular” (GLEDHILL, 1994, p. 231). Já Barbiero (2011, p. 116), ao comentar sobre o verbo hebraico אחז (Gal) concordou com o artificio retórico, mas seu objetivo foi mostrar que a noiva é a responsável por agarrar as raposas: “Se é a mulher que está falando, por que ela usa o plural? […] Seria possível, entretanto, entender o plural como uma forma retórica para o singular”. Adotaremos a posição de Barbiero. Conforme exposto na seção 2, há uma conexão entre os versos 14 a 16. Eles estão dentro da temática do compromisso mútuo, compromisso esse que é a chave para um relacionamento que funciona de acordo com a ordem de Deus.

A segunda e última pergunta que ficou em aberto foi: O que se entende por “nós”? É a noiva, o noivo ou os leitores que lerão e refletirão sobre isso? Tendo como base a grande temática que abrange e inclui o verso 15, poderíamos responder que “nós” significa o Noivo e a noiva. Uma das razões do porquê defendemos isso é que segundo Hess (2005, p. 91) a expressão “agarre” foi dita tanto pela noiva quanto pelo Noivo: “O versículo 15 não dá nenhuma dica sobre se ele pertence ao discurso do homem ou da mulher. […] Portanto, parece melhor anexar isso às palavras do casal, um intermezzo que ambos cantam”. Com isso, se ambos participam do coro que defende a prisão das raposas, o signo “nós” está estritamente ligado ao casal.

4.2 Agarre para nós as raposas, as pequenas raposas

A luz do que vimos até agora parece seguro dizer que as palavras “raposas” e “vinhas” são centrais para compreender o verso. Nesta subseção estudaremos as raposas e suas implicações. Na próxima, finalizaremos refletindo sobre as vinhas.

O que as raposas representam? Embora pareça uma pergunta fácil afinal, raposa representa raposa, veremos que ao longo da história houve diversas sugestões interpretativas. Do ponto de vista judeu, por exemplo, o rabino Berekhiah (Apub FISHBANE, 2015, p. 77) chegou a dizer que as raposas eram “os quatro impérios[7] (Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma) que subjugaram os judeus na antiguidade”. Já o estudioso Alobaidi (2010, p. 198) concluiu que as raposas designavam “os hereges judeus que havia abandonado o judaísmo”. Hess (2005, p. 92) afirmou que é possível encontrar “as raposas vilãs em poemas egípcios” o que nos leva a concluirmos que tanto os judeus quanto os egípcios defendiam que era necessário ter cuidado com as raposas.

Avançando um pouco na história, a palavra raposa ganhou outros significados. Gregório de Nissa (2012, p. 177), por exemplo interpretou como diabo, ou seja, como aquele que: “era o grande dragão, o apóstata, o governador das trevas que tem o poder da morte”. Curtis (2012, p. 241), parece ter se concentrado no enredo maior de Cantares quando concluiu que as raposas representavam aqueles homens mulherengos que poderiam atrapalhar a relação entre o noivo e a noiva. Com suas palavras: “As raposas podem ser os mulherengos[8] que poderiam atrapalhar o relacionamento por meio de suas intenções imorais em relação à moça. Certamente o relacionamento poderia ser afetado negativamente se o amante dela estivesse envolvido em tal comportamento”. Por fim, Murphy e Huwiler (1999, p. 259) concordaram com Curtis e interpretaram as raposas da seguinte forma: “As raposas – gramaticalmente masculinas – sugerem uma ameaça dos homens (ou talvez da sexualidade masculina) à sexualidade feminina ainda não frutífera”.

Conforme vimos nos comentários iniciais da seção 4 adotamos uma posição que tanto o noivo quanto a noiva haviam discursado a importância de agarrar as raposas. Nesta subseção descobrimos as razões pelas quais o casal havia conclamado por atenção, afinal, seja o diabo, o herege, a sociedade ou os mulherengos, a raposa tinha uma intenção. Falaremos mais sobre isso na próxima subseção.

4.3 Antes que as vinhas sejam destruídas pois elas já floresceram

Literalmente, o próprio texto já responde a intenção da raposa: elas querem destruir as vinhas. Mas o que se entende por vinha e por consequência por flor? A grande parte dos comentaristas defendem que a vinha significa “o ato sexual”[9], ou seja, os próprios corpos quando se relacionam intimamente e a flor nada mais é do que “o amor presente”[10] nesta relação. Fishbane (2015, p. 77), por exemplo, chegou a classificar esse casal como figura publica: “O casal é público em seu amor e compartilha de um vinhedo (de um relacionamento)”.

Curtis (2012, p. 241) concluiu falando que as raposas (como mulherengos) poderiam atrapalhar o relacionamento pois suas intenções giravam em torno dos desejos imorais objetivando, portanto, um: “problema no relacionamento dos noivos”. Mas as vinhas não possuem apenas um significado do ato em si, mas também da aliança que lhe é inerente. Ao dizer isso, temos em mente a fala do teólogo Delitzsch (2014, 60-70) que disse: “Os vinhedos belos indicam a aliança de amor; e as raposas indicam todos os grandes e pequenos inimigos e circunstâncias adversas que ameaçam roer e destruir o amor em flor”.

Embora por meio da flor as raposas pudessem saber que aquela vinha contém uva, a intenção delas era exatamente destruir o amor (flor) para ficar com aquilo que a vinha (o ato ou a aliança) produz, a saber o seu fruto. Foi assim que Barniero (2011, p. 116,119) concluiu: “As raposas são ávidas pelas uvas e não pela flor […] elas são provavelmente os rivais do amado que está no processo da corte e, sem dúvida, anseiam em perturbam o amor do casal”. Por gostarem de uvas, Clarke (1997, p. 1996) contribuiu dizendo que quando as raposas são vistas muito gordas, isso é sinal de que elas “comeram as uvas”.

Portanto, esse era o desejo dos inimigos dos noivos, eles queriam adentrar entre eles para destruí-los. Eis aqui a importância de vigiar. Mas, como seria possível se proteger do inimigo? Esse será o assunto da próxima seção.

  1. Comentário canônico

Antes de mais nada é importante resgatar o que vimos no terceiro e quarto parágrafo da subseção 4.1. Ali deixamos claro que defenderíamos que a perícope (2.15) não está solta mais pertence a uma história maior do livro de Cantares e envolve uma vivência entre duas pessoas. Também dissemos que (veja a página 8): “se ambos participam do coro que defende a prisão das raposas, o signo “nós” estaria, portanto, estritamente ligado ao casal”.

Talvez os futuros leitores deste artigo perguntem por que reforçamos isso. Longe de queremos ser prolixos, na verdade defenderemos que para nos proteger dos inimigos que buscam afetar o nosso relacionamento com Jesus, precisamos estar nele ou seja no evangelho. Note que nas seções anteriores nos concentramos na interpretação do texto. Por isso, grosso modo, poderíamos dizer que o verso 2.15 ensina a igreja universal a vigiar em seu relacionamento com Jesus pois os dias são maus e muitos querem destruir este relacionamento. Sendo assim, tanto os leitores da época de Salomão quanto os leitores [pós] modernos precisam vigiar.

Mas antes de finalizarmos de forma prática, é mister compartilhar como os comentaristas aplicaram o verso que estamos estudando. Segundo Pope (1977, p. 403), a igreja sempre sofreu com perseguições: “Ela nunca teve falta de inimigos raivosos internos ou externos para estragar a vinha aos quais esse versículo poderia ser aplicado”. Como proposta prática, Pope (ibidem, p. 403) foi até mais otimista com os perseguidores e claramente, ao nosso ver, já tinha em mente a obra da redenção: “O pedido do casal não foi de matá-los, nem mesmo de expulsá-los, mas sim de apanhá-los, ou seja, de convencê-los dos seus erros e convertê-los”.

Fishbane (2015, p. 77) não só buscou aplicar o texto, mas também contribuiu com o nome[11] deste artigo pois, segundo ele, o texto nos leva a refletir sobre o: “amadurecimento que deve ser nutrido dentro do casal e a vigilância espiritual que deve ser adquirida e mantida”. Indo na mesma direção, Griffiths (2011, p. 247) concluiu que a intenção de Salomão foi mostrar que a noiva tinha e tem tarefas a fazer diante desta relação com o noivo: “Essa leitura nos mostra a amada como cooperadora do Senhor, como alguém que tem um trabalho a fazer no mundo”. É importante também dizer que, acertadamente, Griffiths (ibidem, p. 250) defendeu que o compromisso da noiva era “ser luz para as nações”. No entanto, ser luz para as nações demanda, nos termos de Salomão apanhar as raposas que tem devastado os povos vizinhos, levando-os a adorar os deuses que eles mesmo fabricavam. Ser luz é manter as vinhas protegidas com suas uvas intactas e a flor embelezando o empreendimento da vigilância.

Outro estudioso que concluiu o verso 2.15 como um ensinamento da vigilância foi Duguid. Segundo ele (2016, p. 81): “A sabedoria bíblica falava da pureza como a vigilância das flores em um vinhedo. Cuidar de um vinhedo é um processo longo que demanda paciência, espera e observação no qual um fracasso pode resultar na destruição”. Ryken (2019, p. 57), em certo sentido, concordou com Duguid quando disse que: “Todo relacionamento romântico precisa de proteção. Os relacionamentos iniciantes precisam ser protegidos dos muitos ataques que Satanás faz”. Portanto, segundo os comentaristas, ficou claro o destaque dado no que se refere ao cuidado e a vigilância.

Se ampliarmos o nosso olhar a respeito da importância de vigiar, encontraríamos diversas passagens no enredo bíblico. No contexto pós-redenção, o Apóstolo Paulo alerta a igreja de corinto sobre os falsos apóstolos: “Porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo” (2 Coríntios 11:13). O autor de Hebreus chegou a dizer que a própria comunidade cristã deve vivenciar um contexto de apoio comunitário, com o objetivo de levar os cristãos a protegerem diariamente os seus relacionamentos com o Noivo: “Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado; Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim” (Hebreus 3.13-14).

Assim como para manter o relacionamento amoroso os noivos precisaram clamar juntos por socorro – vimos na seção 4, assim deve ser a vida de todo cristão moderno. Pelos méritos de Cristo podemos nos relacionar com Iavé (Efésios 1.1-14) e nos manter pela obra do seu Espírito. Portanto, a pergunta a ser feita é quem se colocará como aquele vigia do texto de Isaías (13.1-27)? Ou quem, em nossos dias, seguirá o conselho de Simão (1Pedro 5.8)? Ainda hoje, a raposa continua e continuará buscando atacar a vinha. Os inimigos sempre buscarão romper – com suas sugestões naturais, o nosso relacionamento com Deus. “O secularismo sempre buscará atacar o cristianismo”[12]

Portanto, mesmo que o verbo “vigiar não apareça no verso 2.15, a ideia de agarrar pode, ao nosso ver, representa o empreendimento da vigilância. Ao afirmar isso, pressupomos que para agarrar é necessário notar que há raposas. Ao notar, é como se estivéssemos no lugar daquele vigia da visão de Isaias. Sendo assim, como instou o Cristo (Marcos 14:37): “vigiemos!”. Atentemo-nos as raposas que nos cercam pois em Cristo as vinhas estão em flor.

  1. Considerações finais

Atualmente, a igreja universal se encontra num contexto em que a flor já está sobre a vinha. Temos o Evangelho (a expressão inefável do amor) e por meio dele podemos nos relacionar (vinhas) com Deus. Porém, ainda existem raposas que visam destruir as vinhas e roubar as uvas[13]. Portanto, finalizaremos este artigo propondo um olhar para aquilo que chamaremos de “raposa moderna”[14].

Na seção 4 vimos que ao longo da história as raposas foram interpretadas como (p. 8): “o diabo, o herege, a sociedade ou os mulherengos”. Em nossos dias, gostaríamos de propor uma nova raposa, a saber: o coração. Ao pensar nesses termos, estamos seguindo os conselhos dados por Jerry Bridges (2023, p. 231): “Para vigiar contra a tentação, precisamos estar cientes de suas fontes e seu modo de agir”. Madureira (2017, p. 219) concordando com Anthony Hoekema disse que: “O coração é o centro do mundo interior”. Aplicando isso ao tema desse artigo, o que estamos querendo dizer é que os cristãos modernos precisam se autovigiar. Explicaremos.

Nem sempre as raposas estarão fora de nós. Diariamente é preciso também olhar para o coração e apanhar as raposas oriundas da sua deliberação. “Por mais perigosos que seja o mundo e o diabo, nenhum deles é o nosso maior problema. Nossa maior fonte de tentação reside em nós mesmos” (BRIDGES, 2023, p. 232). O filósofo dinamarquês Soren Kiergaard (Apub, KELLER, 2014, p. 18-19) afirmou que: “É normal o coração humano criar suas identidades em torno de algo que não seja Deus”.

Em termos práticos, como poderíamos visualizar essas raposas, pequenas raposinhas? Na sua obra: Na estrada com Agostinho, James K. A. Smith (2020, p. 17-19) citou alguns exemplos:

Pode ser a juventude. Pode ser o seu complexo de inferioridade. Podem ser os seus anseios dos antepassados, cujo desejos penetraram em seus ossos, forçando você a seguir em frente. Pode ser a solidão. Pode ser sua atração inexplicável por garotas rebeldes o a euforia ainda desconhecida da transgressão e a esperança de sentir algo. Pode ser autodepreciação que sempre esteve estranhamente ligada a um desejo espiritual. […] Partimos porque estamos procurando. Por algo. Por alguém. Partimos porque desejamos alguma outra coisa, algo a mais. Partimos para buscar um pedaço de nós que está faltando. Ou caimos na estrada para abandonarmos nós mesmos e reformular quem somos. […] Estamos sempre mudando, inquietos, buscando vagamente algo em vez de focarmos em um destino.

Obviamente que não podemos reduzir as raposas do mundo interior neste diagnóstico feito pelo Smith.  Mas também não podemos fingir que ele seja falso. Só há um elemento que pode manter o nosso relacionamento com Deus: o Evangelho. Quando, pelos méritos de Cristo, apanhamos as raposas, evidenciamos para o mundo exterior e interior que amamos o Evangelho. Sobre a obra do Espírito Santo caminhamos com Deus rumo ao destino. Mas as raposas continuam em nós.

Portanto, essa simples provocação não pode se esgotar aqui. Há muito para se pensar a respeito da raposa moderna. Aqui fica um barbante solto para futuras pesquisas. Finalizamos rogando para que os cristãos tenham a humildade de reconhecer que todos nós podemos ser essas raposas que precisam ser apanhadas. Mas sendo as raposas, o diabo, o mundo, os hereges ou a si mesmo: “Agarre para nós as raposas, as pequenas raposas, antes que as vinhas sejam destruídas pois elas já estão com flor”. De outra forma, vigiemos, pois o nosso coração quer nos roubar.

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Referências bibliográficas

 

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[1] É importante dizer que a ideia da supremacia de Deus sobre todas as nações representa o contexto da passagem conforme podemos ver quando lemos os Is 13.1-27.13. Dentro desse contexto, se encontra o capítulo 21 mostrando a atuação do vigia como uma ferramenta importante para a compreensão desta intenção maior de Deus na história de Israel.

[2] A palavra vigiar, tomar cuidado, estar alerta no grego é γρηγορέω. É possível localizá-la nos seguintes textos: Mateus 24.42-43; 25.13; Atos 20.31; 1Coríntios 16.13; 1Tessalonicenses 5.6; Apocalipse 3.2-3.

[3] Para saber mais sobre isso, veja o texto: VOS, Howard. Métodos de Estudo bíblico. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 25-38.

[4] J. Cheryl Exum é um importante estudioso que defendeu esta ideia da unidade por meio da observação das características. Em sua opinião, essa estrutura sofisticada exclui a possibilidade de que o Cântico possa ser considerado uma coleção aleatória de poesia de amor. In: A Literary and Structural Analysis ofthe Song of Songs. N˚ 85, Union Theological Seminary, New York: Zeitschr. f.alttcstameatl. Wiss, 1973 p. 49.

[5] The Lexham Hebrew Bible. Versão Logos. Bellingham, WA: Lexham Press, 2012. No que se refere a forma literária: “O verso é refinado em sua construção, em quatro partes. A primeira e a segunda estrofes, assim como a terceira e a quarta, são unidas por anadiploses. Anadiploses é uma figura retórica que consiste na repetição – no início de um verso ou frase – de uma palavra que conclui o verso ou frase anterior. As palavras šûʿālîm [“raposas”] e kerāmîm [“vinhedos”] são repetidas. Além disso, cinco das nove palavras terminam com a forma plural -îm, formando um jogo de rima e assonância. In: BARBIERO, Gianni. Song of Songs. A Close Reading. Leiden, Biston: BRILL, 2011, p. 116.

[6] A palavra interpretação significa três movimentos: traduzir, explicar e interpretar (como um ator). Para saber mais, veja: AGOSTINHO, A doutrina cristã. São Paulo: Paulus, e PALMER, Richard. Hermenêutica. Lisboa, Portugal: Edições 70. Neste caso, estamos usando a ideia de tradução.

[7] O argumento de Berekhiah reflete exatamente o que pode ser encontrado no Midrash: “O Midrash Rabbah interpretou de forma semelhante as raposas como vários inimigos de Israel, os egípcios, os assírios, os amorreus, os edomitas” in: (Apub POPE, 1977, p. 403). O próprio contexto canônico nos traz uma ideia de raposos/chacais como povos vizinhos: “Porque o monte Sião está desolado; os chacais andam por ele de um lado para outro” (Lamentações 3.15). Ameaçado pelo contexto externo, Jesus classifica o opositor como raposa: “Naquela mesma hora, alguns fariseus aproximaram-se de Jesus e lhe disseram: “Saia e vá embora daqui, pois Herodes quer matá-lo”. Ele respondeu: “Vão dizer àquela raposa: Expulsarei demônios e curarei o povo hoje e amanhã e no terceiro dia estarei pronto” (Lucas 13.31-32).

[8] Segundo Akhenaten “Na antiga poesia de amor egípcia a raposa ou especialmente a jovem raposa é uma metáfora para um grande amante ou mulherengo. Em uma dessas canções egípcias, a jovem diz: “Meu coração ainda não está satisfeito com seu amor, minha pequena raposa”. In: Apub KEEL, Othmar. The Song of Songs. Minneapolis: Fortress Press, 1986, p. 247.

[9]“A vinha é uma metáfora do corpo da mulher, bem como uma imagem de sua união amorosa”. In: HESS, Richard S. Song of Songs. Grand Rapids, MI: Baker Publishing Group, 2005, p. 92. Veja também p. ex: MURPHY, Roland E; HUWILER, Elizabeth. Grand Rapids: Baker Publishing Group 1999, p. 259; FISHBANE, Michael. The JBS Bible Commentary. Sons of Sons. Philadelphia: The Jewish Publication Society, 2015, p. 77-78; NOWELL, Irene. Song of Songs, Ruth, Lamentations, Ecclesiastes, Esther. Collegeville, Minnesota: Liturgical Press, 2013, p. 28.

[10] Veja p. ex: HESS, Richard S. Song of Songs. Grand Rapids, MI: Baker Publishing Group, 2005, p. 92.; KEIL, C. F; DELITZSCH, Franz. Commentary on Song of Solomon. Kindle: 2014, p. 69-70.

[11] Foi após a leitura do seu texto que decidimos escrever sobre a vigilância a luz do verso de Cantares 2.15.

[12] Para saber mais, veja: KELLER, Timothy. Deus na era secular. Como céticos podem encontrar sentido no cristianismo. São Paulo: Vida Nova, 2018. KELLER, Timothy. Pregação. Comunicando a fé na era do ceticismo. São Paulo: Vida Nova, 2017, p.115-140.

[13] É importante destacar que a flor que está sobre as vinhas, a saber, o evangelho, é indestrutível. Tudo ao seu redor poder sofrer alterações, mas o Evangelho continua e continuará o mesmo.

[14] Para entender um pouco do contexto da raposa moderna, veja a obra: ALLEN, Scott David. Por que a justiça social não é a justiça bíblica. Um apelo urgente aos cristãos em tempos de crise social. São Paulo: Vida Nova, 2022.

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