Pluralismo religioso e fé

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Muito se fala sobre pluralismo religioso nos meios educacionais brasileiros, em que o ensino religioso voltou a se tornar obrigatório quanto à oferta, mas sem cobrança de presença ou “nota”. Se considerarmos que a religião, da mesma forma que os mitos e as narrativas imaginárias como os contos de fada, têm uma função cultural essencial para a formação da identidade de um povo, certamente a dessincretização e, no caso, a descatolização das religiões que vieram ao Brasil são importantes. Entretanto, vejo uma diferença fundamental entre religião ou religiosidade e cultura, por um lado; e religião, ritos e narrativas religiosas e fé pessoal em um Deus ou profissão dessa fé.

Quando esses limites são desrespeitados acontece precisamente o que aconteceu no Brasil: não apenas um sincretismo religioso, mas uma forte influência da igreja católica sobre coisas que são de cultura, à semelhança do que ocorre quando se há uma indistinção entre outras duas instituições: o Estado e Igreja. Quando o colonizador ou mesmo o missionário chega ao país em questão para satanizar as práticas religiosas existentes e impor não apenas uma religião estrangeira, mas uma nova cultura a ela atrelada, normalmente surte o efeito contrário, ou seja, a resistência e luta pela liberdade religiosa. Em casos como esse, fica difícil realmente distinguir cultura e religião, porque a primeira é solapada pela segunda, representando uma ameaça à identidade nacional do cidadão.

Acredito, sim, que a dessincretização e a descatolização sejam importantes por três motivos: o respeito à liberdade religiosa; o respeito à pessoa humana; e o resgate da identidade de um segmento da população. O que acontece muitas vezes com missionários, por exemplo, que adotam essa visão quando vão a campo, é encontrarem mentes mais abertas para aceitar ou não a sua proposta. E os que a aceitam acabam até aproveitando algumas coisas da cultura diversa, para seu próprio benefício e de seu povo. Está certo que o cristianismo muitas vezes trouxe a reboque o capitalismo, a exploração e algumas doenças. Mas ele também trouxe o avanço em questões de convívio e a busca de uma espiritualidade fraternal e até em conhecimentos, como os da escrita e da medicina, que, afinal de contas, devem muito à visão de mundo cristã.

Você já deve ter ouvido falar nos irmãos Grimm que foram estudiosos da língua alemã e historiadores politicamente engajados. Do início a meados do séc. XIX, eles sentiram a necessidade de recolher histórias que eram contadas não apenas na Alemanha, mas em toda a Europa e escrevê-las como forma de preservação dessa memória e imaginário coletivos. Para isso, não foi necessário negarem a sua fé cristã, impô-la ou fazer proselitismo dela. Tanto que poucos até hoje sabem da profissão cristã desses e de muitos outros cientistas e pensadores que marcaram a história. Ambas as condições (de cristão e de pesquisador respeitoso da cultura e da verdade) não entraram em conflito, e com isso eles muito contribuíram ao patrimônio cultural da humanidade.

Todas as culturas, quer sejam consideradas cristãs ou não, tendem à dispersão e à renovação do pensamento e das práticas de tempos em tempos (como vimos na reclamação de uma mãe de santo em um dos vídeos do youtube, sobre a perda dos costumes “corretos” de antigamente e introdução de novas “modas” nos terreiros).

Assim, as culturas já trazem embutida a preocupação com a preservação da identidade cultural e a resistência à mudança. Daí se verifica a importância dos rituais que preservam a identidade e o sentimento de pertença, pois, para além das mudanças, há outra tendência, a da sobrevivência daqueles valores mais simples e resistentes ao teste do tempo.

A diferença é que, em algumas culturas, a mudança se dá de forma mais veloz, como as culturas altamente influenciadas pela tecnologia, e em outras, de forma tão lenta que se torna quase imperceptível. Não podemos, nesse esforço por preservação, condenar qualquer cultura a seguir os mesmos padrões de vida de centenas de anos atrás. Muitas vezes, nem elas desejam isso. Podemos observar esse fenômeno nas aldeias indígenas do Brasil e das Américas em geral, que tenderam a se “ocidentalizar”, com o contato com o homem branco e sua cultura. Mas até as culturas milenares, como as orientais, sofrem o mesmo processo de transformação.

É somente nessa perspectiva mais ampla do que há de essencial e universalizável no imaginário e na memória que o “resgate” faz sentido. Do contrário, não passa de mais uma “moda educativa” que, ao invés de inclusão, provocará o contrário, a perda do direito de usufruto dos benefícios do progresso e da ciência de uma minoria.

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