O poder da confissão – Parte 2

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Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria. Purifica-me com hissope, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve. Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que gozem os ossos que tu quebraste. Esconde a tua face dos meus pecados, e apaga todas as minhas iniqüidades. Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto. Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo. Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores a ti se converterão. Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha língua louvará altamente a tua justiça. Salmos 51.6-14

Por esses dias, lembrei-me da seguinte lenda: mestre e seu discípulo faziam uma viagem a pé, quando perceberam que a noite já se aproximava. Estavam cansados, com sede e fome. De repente, perceberam que estavam próximos de uma grande fazenda, rica em plantação e gado. O sábio ordenou que seu discípulo fosse à fazenda e pedisse ao dono um lugar para dormir e água para matar a sede. O discípulo foi e recebeu um “não” do rico fazendeiro.

O discípulo contou ao mestre sobre a recusa do fazendeiro em ajudá-los. Então continuaram andando. Caminharam muito até que encontraram outra fazenda. Ao contrário da primeira, a fazenda era pobre, com uma casinha velha, sem plantação. O mato estava por todos os lados, e de animal, apenas uma vaca. Atendendo à ordem do mestre, o discípulo dirigiu-se até a pequena casa e pediu guarida aos donos. João e Raimundo, moradores do lugar, atenderam ao pedido e, além de cama e pão, ofereceram leite.

À noite, conversaram e contaram aos visitantes que moravam ali desde a morte do pai. Eram pobres e sobreviviam apenas do leite que tiravam da única vaca. Pela manhã, mestre e discípulo levantaram-se cedo, antes mesmo dos donos da casa. Subiram um pequeno morro e viram a vaca magra que alimentava os dois rapazes. O mestre disse:

— Vá e mate aquela vaca.

O discípulo ficou perplexo. Não entendeu a ordem. Vendo a hesitação do discípulo, o mestre repetiu a ordem. Contrariado e sem entender, o discípulo seguiu em direção ao animal e cumpriu a ordem: matou a vaca e foi embora com o mestre, de volta ao casebre rústico. Naquele dia, o discípulo não mais conversou com seu mestre. Não entendia como um homem que falava tanto de coisas belas podia prejudicar justamente aqueles que os socorreram em hora difícil.

Alguns anos se passaram. Um dia, o mestre e seu discípulo faziam uma longa caminhada. Observando o lugar, o discípulo reconheceu a região onde um dia matou uma vaca. Recordou-se de todo o episódio. Enquanto caminhavam, tentava localizar a fazenda onde dormiram, mas não conseguiu. Viu a fazenda do rico fazendeiro, onde as plantações sumiam de vista, mas não achou as terras pobres de João e Raimundo. Dirigiu-se ao mestre:

— Senhor, vejo que estamos na região onde há alguns anos fomos acolhidos por dois jovens pobres. Mas não consigo identificar a casa deles.

— Está um pouco adiante, disse o mestre.

Caminharam mais um pouco e quando chegaram ao local, o discípulo ficou surpreso. Onde havia um lugar pobre e abandonado, vislumbrava-se agora uma vasta plantação, com diversas culturas e muito gado. O discípulo não acreditava no que estava vendo. Imaginando que novas pessoas moravam ali, procurou saber quem eram os donos do local. Perguntou a um empregado da fazenda e ficou sabendo que se tratavam dos mesmos rapazes que um dia os abrigaram. Confuso, o discípulo procurou seu Mestre:

— Mestre, o que aconteceu com aqueles pobres homens? Ficaram ricos? A fazenda abandonada ao mato se transformou uma propriedade rica, cheia de plantação e gado. O que houve?

Com o semblante tranqüilo, o mestre continuou sua caminhada e disse:

— Quando mandei que matasse aquela vaca foi para que seus donos não se acomodassem em viver apenas do pouco leite que tiravam daquele animal. Sem a vaca, eles foram obrigados a buscar outro meio de sobrevivência e descobriram no trabalho a fonte de suas riquezas. Sábio é o homem que não se acomoda diante da vida.

A história acima nos mostra o quão é importante a busca da verdade e da sabedoria para vivermos uma vida de qualidade e não nos contentarmos com soluções provisórias. Nesse trecho de seu salmo de confissão, Davi certamente nos mostra a importância que dava à sabedoria, tanto que incutia esse respeito e essa consciência no seu filho, Salomão, que virou uma lenda contada até os dias de hoje por sua sabedoria. Vamos atentar mais profundamente ao texto.

No entender de Girard (1992, 24), podemos esquematizar esse trecho da seguinte maneira:

Etapa – Breve explicação – Símbolo

Esperança – Confiança de que o problema se resolva – Verde

Intervenção divina – Recado profético ou teofania simbólica – Amarelo

Experiência de libertação – Desenlace efetivo do drama – Branco
 

Mas depois do arrependimento verdadeiro, não apenas somos perdoados, mas restituídos à pureza. Nosso pecado é removido, apagado, como as letras anotadas em um livro. Davi usa de metáforas como “mancha” e “neve” para denotar o seu desejo de purificação. O desejo da intervenção divina não é aleatório, pelo contrário, ele se funda numa esperança muito concreta de que Deus irá atender a esse desejo. E essa esperança está pautada, aparentemente, num conhecimento profundo de Deus e em experiências libertadoras anteriores de Davi.

Por maior que seja, entretanto, a convicção que possamos ter da graça divina, isso não nos priva da necessidade de confissão e reiteração do pedido por reconciliação. O fato, diz Calvino, é que somente aquele que tem plena convicção da obtenção do perdão é que saberá pedir adequadamente por perdão. E não há nenhuma contradição entre esses dois lados de uma mesma moeda. Ele destaca ainda que a “lavagem com hissope lembra que devemos ter sempre em foco e mira o ato sacrificial de Cristo e seu derramamento de sangue por nós, como frisado em Hebreus 9.22.

Como se sabe, hissope, como bem lembra Agostinho, é uma planta medicinal, uma espécie de esponja, apta para curar problemas ligados ao pulmão. O inchaço no pulmão é uma analogia à soberba – portanto, trata-se de uma analogia à purga do pecado capital do orgulho. Kidner sugere que essa metáfora possa remeter ao episódio da purificação do leproso com esse recurso (Levítico 14.6-7). Ou então, Davi pode ter lembrado ainda que se usa esse recurso no ritual de purga das pessoas que tiveram contato com mortos. Para o autor, o apelo para que ele aprenda a “ouvir” e a expressão “exultem” ou “gozem os ossos que tu quebraste” representa o clímax do salmo. Como se pode ver em todo o Antigo Testamento e nas parábolas de Jesus, particularmente a do semeador, saber ouvir é uma virtude cristã das mais sublimes.

Nos versículos seguintes, 10 a 12, Calvino nota que há uma mudança de assunto do pecado para a santificação, que Davi busca ansiosamente, dada a sua perda dos dons espirituais que lhe eram tão caros. Quando ele usa o verbo “criar”, está evocando um verdadeiro milagre na sua vida. Ele deseja que Deus aja poderosamente no seu coração no sentido de uma reforma completa, como se fosse algo completamente novo para ele, pelo que não é o seu livre arbítrio, mas somente a graça de Deus entra em foco.

Kidner ressalta que “tanto a história anterior de Davi quanto a linguagem de 11b e 12a mostram que este não é um pedaço de um homem não regenerado: é uma oração em prol da santidade (cf.. 11b). Abrange, por assim dizer, todos os sete dias da Criação, e não apenas o primeiro” (Kidner, 1992, 213).

Kidner comenta que quando Davi associa o seu nascimento ao pecado, ele estava provavelmente lembrando do caso do próprio Saul, de quem a Bíblia diz que o espírito havia se afastado (I Samuel 16.14). De minha parte, prefiro não especular sobre o que Deus pode ou não pode fazer, já que isso será sempre um mistério para nós. Duas coisas são certas e ficam evidentes nessa parte do salmo: por um lado, Deus é soberano e onisciente, o que faz com que possa fazer tudo. Por outro, Davi, na sua condição humana e pecaminosa, humilhada e profundamente arrependida, tem o sagrado direito, senão o dever, de externar os seus sentimentos de forma criativa e artística, até como forma de terapia. É por isso provavelmente que John Stott, quando fala da misericórdia divina, particularmente no verso 17, contrapõe o salmo 51 ao salmo 46, que fala da soberania de Deus.

E Davi é incapaz de imaginar uma situação pior do que a perda do Espírito e seus dons. O horror de imaginar tal situação o faz lembrar de seus inimigos e transgressores, não no sentido de condená-los ou vingar-se deles, mas de ensiná-los e fazê-los retornar a Deus, como ele mesmo estava pronto para fazer naquele momento mesmo – motivo pelo qual pedia restauração da sua alegria da salvação (não necessariamente a própria salvação, portanto), e que conservasse a sua liberdade de espírito. Aqui novamente percebemos a mente brilhante do artista que não quer se ver perturbado por nenhuma ansiedade ou peso na consciência, mas quer voltar a gozar da plenitude da alegria e liberdade no Espírito. Tanto que, se Deus a restaurasse, seu desejo seria de compartilhá-la até mesmo com os seus inimigos.

Nesse sentido, Kidner destaca quanto ao “espírito voluntário” desejado por Davi que “um espírito assim é o antídoto que Deus supre como cura da tentação: é aquele deleite positivo na sua vontade” (40:8). O próprio salmo é a resposta mais rica à oração, sendo que mostrou a gerações de pecadores o caminho para casa muito tempo depois que se acharam além da possibilidade de restauração” (Kidner, 1992, 214).

Para Stott, os versos 14 e 15 são de compromisso, diante de Deus, com a sociedade, particularmente os que, como ele, pecaram, no sentido de educá-los para saírem dessa sua situação e de sacrifícios dignos para com Deus. Resumidamente, embora o Espírito Santo de Deus tenha sido universalizado para todos os crentes no Pentecostes, vemos aqui a sua poderosa atuação na vida de pessoas especiais e em momentos especiais do AT. Na vida de Davi, esses momentos coincidem com os de maior inspiração poética. Daí o pavor do poeta só de imaginar a perda desses dons e o desejo de que Deus volte a tocar a sua língua.

Como cristãos, muitas vezes vivemos como os fazendeiros, do leite de uma vaca, e não percebemos que Deus quer nos cobrir dos mais preciosos dons. Tornamo-nos meros igrejeiros não apenas alienados de toda realidade ao redor, principalmente da arte e cultura, mas também vendo-nos como bravos combatentes de tudo o que não leva o carimbo cristão em favor de um purismo que Jesus certamente dispensaria. Lembremos que Jesus compartilhou da mesa de publicanos e cobradores de impostos, e era amigo de prostitutas. Em Hebreus 5.13, lemos: “Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança.” E o processo de se tornar adulto muitas vezes é bem doloroso.

Nesse sentido, Lenz César comenta muito apropriadamente:

Perdão e purificação são bênçãos indispensáveis, porém acidentais. Elas se tornam necessárias depois de alguma rebelião contra Deus. As outras bênçãos são o pão nosso de cada dia – medidas preventivas para evitar ou tornar mais difíceis outros escorregões. Para não voltar a adulterar, nem a assassinar os maridos traídos, precisamos de alegria interior, de coração puro, de renovação, de sustento e da presença contínua do Espírito dentro de nosso ser! (2003, 123).

Muitos usam esse versículo para fundamentar a depravação total e a nossa completa dependência da graça de Deus. É nesse espírito que o salmista repete a sua petição no versículo seguinte, em que ele pede pela continuidade da graça da adoção na sua vida, pelo que poderá continuar desfrutando da condução pelo Espírito Santo. Quem sabe esse acontecimento na vida de Davi tenha sido um marco da passagem de uma criança, ainda que um rei, para um homem de Deus adulto e amadurecido. Davi certamente já conhecia os dons do espírito e da arte, tanto que ficou desesperado somente em pensar na idéia de perdê-los. Mas agora ele quer que Deus mesmo os coloque sobre a sua língua.

A certa altura de seu comentário, Girard (1992, 40-41) faz as seguintes perguntas interessantes:

Quais seriam as condições para que a nossa comunidade cristã ficasse “mais branca do que a neve” (51,9)?
Quais os sinais de que uma comunidade tenha um “espírito firme, santo e generoso” (51, 12-14)?
Sentimos responsabilidade coletiva e ativa para fazer a nossa sociedade tomar consciência do seu estado de pecado (ver 51,15)?
Fica aqui o desafio para que você se associe à petição de Davi por livramento e restauração, mas principalmente ao grito “de alguém cuja consciência o levou a calar-se, envergonhado” (Kidner, 1992, 215). Reúna a família, os irmãos da igreja, de preferência do pequeno grupo, e crie espaços criativos para que os dons do espírito possam ser manifestos de modo edificante e enriquecedor não apenas para as pessoas envolvidas, mas para toda a sociedade.

Referências:

AGOSTINHO, Santo. Comentários aos salmos . São Paulo: Paulus, 1998 (Coleção Patrística).

CALVINO, João. Comentário aos salmos , disponível em www.ccel.org/c/calvin/ (20/3/2006).

GIRARD, Marc. Como ler o Livro dos Salmos (2ª ed.) São Paulo: Paulus, 1992.

KIDNER, Derek. Salmos 1-72 (3ª reimpressão). São Paulo: Vida Nova, 1992.

LENZ CÉSAR, Elben M. Refeições diárias com o sabor dos salmos. Viçosa: Ultimato, 2003.
STOTT, John, Salmos favoritos. São Paulo: Abba Press, 1997.

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