“Imago Quem”? Os relacionamentos de Deus e os relacionamentos humanos

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Duas movimentações paralelas, e em diversos momentos conjuntas, têm sido feitas nas últimas décadas por pensadores e teólogos dos mais variados espectros do Cristianismo. A primeira é o chamado avivamento da doutrina da Trindade, ao ponto de alguns dizerem que “provavelmente, mais livros e artigos acadêmicos sobre a Trindade foram publicados nos últimos 30 anos do que nos 100 anos anteriores.”1

O fogo desse avivamento é alimentado, em grande medida, pelo entendimento de que a Trindade teria se tornado uma “tecnicalidade teológica obscura e complexa, um conceito matemático celestial impossível de entender e de pouca relevância para a vida do cristão comum”2. O teólogo alemão Karl Rahner chegou a dizer que “se a doutrina da Trindade fosse descartada como falsa, grande parte da literatura religiosa poderia muito bem permanecer virtualmente inalterada”3. Aceitos ou não o diagnóstico terminal e suas possíveis causas e desdobramentos4, a verdade é que muito tem sido produzido nos últimos anos a respeito desta doutrina por cristãos das mais variadas vertentes da fé.

Entre o resgate e a relevância

Em certa medida, a demanda dos pensadores cristãos contemporâneos parece buscar corrigir ou seguir os desdobramentos causados por filósofos seculares e/ou teólogos do passado. Fred Sanders chama essa noção de “Mito da Queda”5, em que há uma clara linha de progressão: uma era de ouro seguida por uma queda e então um avivamento da doutrina no tempo presente. O consenso entre os pensadores só descansa em uma dessas etapas: a última, ou seja, eles seriam os portadores da heroica tarefa de avivar a doutrina trinitariana – ou até mesmo, na visão de alguns, de corrigi-la. Para as duas outras etapas precedentes, porém, as constatações variam drasticamente: o século de ouro para uns seria o momento da queda para outros, e assim por diante.

Uma segunda motivação6 para o avivamento da doutrina da Trindade, muito próxima de seu diagnóstico generalizado, seria a necessidade de torná-la relevante para o cristão comum. Essa seria uma espécie de meio termo entre a academia e o púlpito, um caminho que não é linear e muito menos homogêneo. Apesar de se diferenciarem diametralmente em suas conclusões, a medida adotada entre os teólogos, no entanto, segue mais ou menos uma linha de abordagem similar, isto é, uma visão social ou relacional da Trindade. A ideia seria basicamente a seguinte:

Se a Trindade pode ser vista como uma comunidade perfeita ou como uma sociedade bem estruturada, então a maneira de tornar essa doutrina relevante seria aperfeiçoar as nossas próprias comunidades criadas e ordená-las corretamente de maneira que reflitam a igualdade, harmonia, mútua doação, e assim em diante, que existem na vida de Deus. Como a tríplice estrutura acima de nós nos céus é a expressão máxima da vida em conjunto, nos é dito que devemos modelar nossas próprias vidas juntas na Terra segundo o seu padrão.7

Onde as estradas se cruzam

Dois entendimentos são cruciais para as doutrinas que se desenvolvem a partir dessa visão: a noção de pessoa e a noção de relacionamento8. As ênfases são particulares de cada autor, mas segue-se o destaque aos dois conceitos de forma relativamente homogênea, apontando para uma abordagem da Trindade em seu contexto imanente, ou seja, não apenas como se revela à humanidade no plano de redenção, mas como se relaciona em si mesma por meio das pessoas da divindade (Pai, Filho e Espírito).

É nesse contexto que somos apresentados à movimentação paralela ao avivamento da Trindade e nos deparamos com as discussões sobre sexualidade e gênero. Parafraseando Sanders, mais livros e artigos acadêmicos sobre gênero foram publicados nos últimos trinta anos do que nos 100 anos anteriores. No Brasil, a segunda movimentação sem dúvidas tem mais proeminência do que a primeira9. Basta conferir os catálogos das editoras cristãs para perceber o crescente número de discussões sobre masculino e feminino em livros que exploram as Escrituras, a sociedade e a história, com ênfases variadas entre “pessoa” e “relacionamento”, dependendo da conclusão a que desejam chegar. É inclusive a partir de muitos desses livros que os conceitos trazidos pelo avivamento da doutrina da Trindade têm chegado aos lares dos “cristãos comuns”, já que “a vida interna de Deus é apresentada como tendo implicações positivas para aquilo que não é Deus” 10. As “implicações positivas”, no entanto, seriam dependentes de estar sendo feitas a partir do “lado certo” da discussão, caso contrário, a doutrina trinitariana errada seria responsável por entendimentos equivocados sobre sociedade, política, relações de gênero, etc. Conforme é possível perceber a seguir, “teóricos influenciados por diferentes teorias sociais encontram exatamente o oposto na sociedade celestial trina”11.

 E onde elas se dividem

De um lado, teríamos nomes como Jürgen Moltmann, considerado fundador da Teologia da Esperança e de grande influência para a Teologia da Libertação latino-americana. A seu ver, o entendimento ocidental tradicional da Trindade falhou ao ser usado para justificar ou legitimar formas de governo opressoras, do Império Romano às monarquias. Para Moltmann, a doutrina da trindade seria “a verdadeira doutrina da liberdade”. A analogia social ou relacional da Trindade também embasaria, para autoras como Patricia Wilson-Kastner, a teologia feminista e a visão igualitarista das relações de gênero, “porque o feminismo identifica a inter-relação e a mutualidade – relações iguais, respeitosas e carinhosas – como a base do mundo como ele realmente é e deveria ser, não podemos encontrar melhor entendimento e imagem do divino do que aqueles do relacionamento perfeito e aberto de amor”12 que estariam presentes nas relações intra-trinitarianas (perichoresis). “Nas mãos desses pensadores”, escreve Karen Kilby, “a alegação que Deus por meio de três é ainda assim um torna-se uma fonte de insight metafísico e um recurso para combater o individualismo, o patriarcado e formas de organização política e eclesiástica opressiva”13.

Ainda em uma perspectiva relacional da Trindade, mas com conclusões totalmente opostas ao que seria a “imagem do divino”, podemos encontrar teólogos complementaristas como Wayne Grudem e Bruce Ware14. Para eles, relacionamentos eternos de autoridade e submissão estariam presentes na Trindade e informariam os relacionamentos entre os gêneros sexuais.

 Quando a ideia de autoridade e submissão começou, então? A ideia de autoridade e submissão nunca começou! Ela sempre existiu na eterna natureza do próprio Deus. E no mais básico de todos os relacionamentos de autoridade, esta não é baseada em dons ou habilidade (pois Pai, Filho e Espírito Santo são iguais em atributos e perfeições). Simplesmente está ali. Autoridade pertence ao Pai, não porque ele é mais sábio ou um líder mais habilidoso, mas só porque Ele é o Pai. Autoridade e submissão entre o Pai e o Filho, e entre o Pai, Filho e Espírito Santo é uma diferença fundamental (ou provavelmente a diferença fundamental) entre as pessoas da Trindade. Eles não se diferenciam em quaisquer atributos, mas apenas em como se relacionam uns com os outros. E esse relacionamento é um de liderança e autoridade, por um lado, e submissão voluntária, solícita e alegre a essa autoridade, por outro lado.15

No Brasil

Essa é uma das correntes mais populares entre os leitores brasileiros, e tem informado os cristãos comuns tanto sobre as relações de gênero como sobre a Trindade. De fato, para muitos crentes, o entendimento que têm sobre o ser de Deus acaba por ser informado em grande medida por obras cujo principal tema não é a Trindade, mas outros, como as relações de gênero (feminilidade/masculinidade). A citação de Grudem, acima, por exemplo, também pode ser encontrada em uma recente e popular publicação intitulada Feminilidade Radical – Fé Feminina em um Mundo Feminista, de Carolyn McCulley. Para a autora, “O que muitas mulheres negligenciam é que a submissão é parte do caráter divino da Trindade. (…) É meio difícil contestar o conceito de submissão quando você o vê como um pilar da Trindade, não é?” 16.

Para Stephen Rees, em seu artigo no livro Homens, Mulheres e Autoridade – Servindo Juntos na Igreja, “agora estamos em condições de considerar a relevância da doutrina da Trindade para o debate sobre os papéis dos homens e das mulheres. Podemos resumir o ensino bíblico numa frase: a relação de homem e mulher visa refletir a relação de Pai e Filho dentro da Trindade” 17.

Em outra obra, intitulada Mulher: sua verdadeira feminilidade (Vol. 1), e também muito consumida especialmente entre grupos de estudos femininos, as escritoras Mary Kassian e Nancy DeMoss procuram explicar a perspectiva relacional da Trindade nos seguintes termos: “O primeiro relacionamento [referindo-se a Adão e Eva] espelhou a imagem de Deus. Na Trindade, seres distintos e individuais são unidos em inseparável unidade. Os membros individuais (Pai, Filho e Espírito) são unidos como parte do todo coletivo (Deus). Em seu relacionamento, o ‘eu’ não é o foco tanto quanto o ‘nós'” 18.

As autoras seguem a posição de Grudem e Rees de que as mulheres teriam sido criadas para refletir a responsividade e submissão do Filho e os homens para refletir a autoridade e liderança do Pai ao ponto de afirmarem que “você poderia até mesmo argumentar que Jesus é do tipo que cozinha, limpa e cuida de bebês. Foi sua obediência submissa ao Pai que forjou os ingredientes da redenção, nos purifica e produz bebês espirituais para a família de Deus”19. Para além dos óbvios problemas da frase acima, deve-se prestar especial atenção ao tipo de linguagem escolhida por Kassian e DeMoss para se referir à Trindade como “parte do todo coletivo” em que “membros individuais” ou “seres distintos e individuais” são unidos. Compare essa afirmação com a definição dada por Allister McGrath para a heresia do triteísmo:

O triteísmo nos convida a imaginar a Trindade como constituída por três seres iguais, independentes e autônomos, cada um dos quais é divino.20

“Seres” ou “membros individuais” de um “todo coletivo” parece se aproximar muito mais da definição herética acima do que de documentos históricos como o Credo de Anatásio ou a Confissão de Fé de Westminster:

 Mas no Pai, no Filho e no Espírito Santo há uma mesma divindade, igual em glória e co-eterna majestade. 7. O que o Pai é, o mesmo é o Filho, e o Espírito Santo. (…) 11. Contudo, não há três eternos, mas um eterno. 12. Portanto não há três (seres) não criados, nem três ilimitados, mas um não criado e um ilimitado. (…) 15. Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus. 16. Contudo, não há três Deuses, mas um só Deus (…) 19. Porque, assim como compelidos pela verdade cristã a confessar cada pessoa separadamente como Deus e Senhor; assim também somos proibidos pela religião universal de dizer que há três Deuses ou Senhores. (…) 24. E nessa Trindade nenhum é primeiro ou último, nenhum é maior ou menor. 25. Mas todas as três pessoas co-eternas são co-iguais entre si; de modo que em tudo o que foi dito acima, tanto a unidade em trindade, como a trindade em unidade deve ser cultuada. 26. Logo, todo aquele que quiser ser salvo deve pensar desse modo com relação à Trindade.21

 “Na unidade da Divindade há três pessoas de uma mesma substância, poder e eternidade – Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo, O Pai não é de ninguém – não é nem gerado, nem procedente; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito Santo é eternamente procedente do Pai e do Filho.”22

A polêmica continua

Para além da terminologia empregada por Kassian e DeMoss, teólogos trinitarianos têm contestado23 as posições defendidas por Grudem, Ware e outros sobre a submissão eterna do Filho ao Pai por chocarem-se com relevantes princípios da ortodoxia histórica, como os da simplicidade e unicidade de Deus. Ao posicionarem os conceitos de autoridade e submissão na “natureza do próprio Deus”, eles passam do entendimento comum de que Cristo se submete ao Deus Pai no plano de redenção (na Trindade econômica ou nas ações ad extra de Deus) e os colocam como o elemento-chave de caracterização ou diferenciação entre as pessoas da divindade em suas relações ad intra eternas, até então diferenciadas primordial e tradicionalmente pela “geração” do Filho, a “procedência” do Espírito e o Pai como “fonte”, como vale mais uma vez lembrar do Credo de Atanásio:

  1. O Pai não foi feito de ninguém, nem criado, nem gerado. 21. O Filho procede do Pai somente, nem feito, nem criado, mas gerado. 22. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, não feito, nem criado, nem gerado, mas procedente. 23. Portanto, há um só Pai, não três Pais, um Filho, não três Filhos, um Espírito Santo, não três Espíritos Santos. 24. E nessa Trindade nenhum é primeiro ou último, nenhum é maior ou menor.

Mark Jones, em dois de seus vários artigos sobre o debate gerado em 2016 pela posição de Grudem, também questiona:

 “Como o Filho pode submeter-se eternamente ao Pai se a simplicidade de Deus é verdade, o que significa, portanto, que Deus possui uma essência e um arbítrio que é idêntico à sua essência? Como isso é possível de acontecer no arbítrio necessário [de Deus]? As pessoas estão fazendo saltos, mas eu não sei como elas estão chegando lá sem trazer às relações pessoais necessárias [de Deus] outro arbítrio. Seria a submissão do Filho tão axiomática para nosso entendimento da Trindade como a geração do Filho ou o Pai como a fonte da deidade? A geração não requer uma forma de subordinação, nem requer outro arbítrio. Mas eu temo que a submissão requer um desses ou ambos, e isso simplesmente não pode ser.”24

E ainda:

“Eles estão afirmando que há uma submissão ad intra eterna do Filho ao Pai. Isso, para mim, necessariamente rompe a unidade divina e leva a uma rejeição do entendimento ortodoxo da vontade (arbítrio) de Deus. A eterna submissão necessariamente postula duas vontades em Deus. A simplicidade vai pela janela; e, além disso, a unicidade de Deus (una essentia) é comprometida.”25

Surpreendentemente, a percepção de que essa posição seria diferente de grande parte do entendimento histórico da Trindade não é uma constatação feita apenas por seus opositores. Kyle Claunch, em um artigo publicado no livro One God in Three Persons (Um Deus em três pessoas, sem tradução ao português), e editado por Bruce Ware, declarou que:

 “Uma característica frequentemente ignorada de tal proposta [da eterna submissão do Filho ao Pai conforme articulada por Wayne Grudem e Bruce Ware] é que esse entendimento de relacionamento eterno entre Pai e Filho parece implicar um comprometimento com três vontades distintas na Trindade imanente. Para que o Filho se submeta voluntariamente à vontade do Pai, os dois precisam possuir duas vontades distintas. Essa forma de entendimento da Trindade imanente contraria a tradição pró-Nicéia, assim como as tradições medievais, da Reforma Protestante e tradições reformadas do período pós-Reforma. De acordo com a teologia trinitária tradicional, a vontade (arbítrio) é predicada da única essência indivisível de maneira que há apenas uma vontade divina na Trindade imanente. Ao argumentarem por autoridade e submissão eternas na divindade, Ware, Grudem e outros não estão abandonando todas as categorias trinitárias tradicionais. Em vez disso, baseando-se na distinção entre a essência divina única e as três pessoas divinas (uma distinção que é básica para a ortodoxia trinitária desde suas primeiras expressões maduras), eles estão fazendo uma escolha consciente e informada de conceber a vontade como uma propriedade da pessoa ao invés da essência. O modelo de uma Trindade com três vontades, então, fornece a base para a convicção de que estruturas de autoridade e submissão realmente servem como um dos meios de diferenciar as pessoas divinas”.26

 Não apenas “um dos meios” de diferenciação, mas como lemos anteriormente em Grudem, a “diferença fundamental” entre Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito.

Os riscos da projeção

O tipo de abordagem relacional ou social utilizada tanto por complementaristas como Grudem, quanto por feministas como Wilson-Kastner, também apresenta outras dificuldades para a doutrina da Trindade, entre elas o da constante projeção ou “espelhamento” empregado por esses autores em suas descrições teológicas. Para Fred Sanders, “não é algo que a Bíblia nos direcione a fazer. ‘Sejam trinos como eu sou trino’ não é fraseologia escriturística. Além do mais, não há controle sobre o que nós podemos achar em Deus para imitar. A simples riqueza contraditória e diversa de opções sugere que as pessoas estão apenas encontrando na Trindade o que elas mesmas esconderam ali em primeiro lugar”27. Além disso, Jason Sexton lembra que “se a doutrina trinitariana fosse decidida em bases puramente antropológicas, a auto-revelação de Deus em Cristo seria escandalosamente subvertida, solapando teologia trinitária apropriada”28.

Em sua crítica ao trinitarianismo social, Karen Kilby sugere um exemplo que explica muito bem o quão problemática pode ser a projeção na produção teológica e seus subseqüentes desdobramentos, especialmente quando os teólogos transformam o ponto crítico, difícil ou mais complexo de seus entendimentos doutrinários como a fonte primordial de “inspiração e insight” para suas teses. Em outras palavras, o que autores como Jürgen Moltmann fazem da perichoresis e o que Wayne Grudem faz da relação autoridade-subordinação: a peça-chave da doutrina da Trindade e o paradigma que a transforma em relevante para o cristão comum.

 “Anselmo, ao formular sua doutrina da expiação, baseou-se em conceitos feudais de honra e justiça. Então, pode-se dizer que, em pelo menos algum grau, ele projetou conceitos contemporâneos e ideais em Deus. É possível argumentar que, ao fazê-lo, sua teologia pode ter servido para legitimar e reforçar estes mesmos ideais e as estruturas sociais correspondentes. Mas, suponha que Anselmo tenha dito que a principal relevância da doutrina da expiação, a coisa nova e importante que ela nos ensina, é que no coração do próprio Deus há a noção de honra: ela nos ensina que Deus é tudo sobre honra e o que é devido à honra de alguém, e que nós também devemos de diversas formas fazer esses conceitos centrais em nossas vidas. Se Anselmo tivesse, em outras palavras, alardeado como a coisa mais importante sobre a doutrina estes mesmos conceitos que ele próprio havia importado para resolver a dificuldade intelectual apresentada pela doutrina, se ele tivesse dito que esses conceitos são o coração da doutrina, eles são o que nós devemos aprender sobre Deus e nós mesmos, então, eu acho, ele estaria fazendo uma coisa muito diferente, e um tipo de teologia muito mais preocupante.”29

 Não é difícil enxergar exatamente essa movimentação e como ela é crucial para o entrelaçamento do avivamento da doutrina da Trindade e as discussões sobre gênero sexual. Afirmações como a de Carolyn McCulley em Feminilidade Radical (“É meio difícil contestar o conceito de submissão quando você o vê como um pilar da Trindade, não é?”) ou de Kassian e DeMoss em Mulher: sua verdadeira feminilidade (“Quando Deus criou homem e mulher ele tinha a dinâmica de seu próprio relacionamento em mente”) são informadas especialmente por autores como Grudem. Para o cristão comum, que talvez enxergue a Trindade como uma “matemática celestial” que só pode ser “entendida” pelo erudito ou acadêmico (quando muito pelo próprio pastor da igreja local), essas projeções ou aplicações da Trindade se transformam em uma ótima alternativa de compreensão. O resultado, porém, especialmente por partir do ponto de vista errado, ou seja, das relações de pessoas humanas para as relações de pessoas divinas (que são essencial e totalmente distintas), pode provocar um entendimento ainda mais distante do que o considerado apropriado pela Igreja ao longo de sua história. Como já escrevia Agostinho, “em nenhum outro assunto é o erro mais perigoso, ou a inquirição mais trabalhosa, ou a descoberta da verdade mais proveitosa”30. Sinclair B. Ferguson completa essa citação dizendo, “há aqui mistério, mas é um mistério de infinita glória, que conduz à humilde adoração e devoção”31. Essa adoração e devoção, de fato, já acontecem para o cristão e a igreja. Não é necessário que o relacionamento de Deus em si mesmo seja feito relevante para que, então, possamos prestar adoração e devoção a ele como o Deus que se revela na graça de Cristo, pelo amor do Pai, na comunhão do Espírito32.

“Imago quem”?

No mais, as proposições feitas a respeito da Trindade e seu distanciamento do entendimento ortodoxo da Igreja deveriam ser consideradas antes de serem diretamente aplicadas aos conceitos de gênero defendidos por muitos de seus autores (se é que tais paralelos devem ser traçados em qualquer momento, como exposto acima). Essa posição de restrição parece ser assumida inclusive por alguns dos teólogos que defendem a eterna submissão do Filho, entre eles Kyle Claunch.

Os “saltos” trinitários citados por Mark Jones são acompanhados por outro “salto” complementarista, conforme lemos na veemente constatação de Stephen Rees: “podemos resumir o ensino bíblico numa frase: a relação de homem e mulher visa refletir a relação de Pai e Filho dentro da Trindade”. Não seria o ensino bíblico da submissão das esposas à liderança de seus maridos baseado exatamente em outro mistério, em outro relacionamento, isto é, o de Cristo e a Igreja, sua noiva? Essa relação, de fato, não é descartada por tais autores complementaristas, porém fica relegada a um patamar secundário de importância frente à “robustez” que um argumento trinitariano apresenta em sua construção argumentativa.

Conforme mencionado parágrafos acima, a integração da doutrina trinitariana de Grudem e cia. aos conceitos de relação entre os gêneros defendidos por eles parte da criação humana como Imago Dei, à imagem de Deus. Por exemplo, quando Kassian e DeMoss afirmam “O Senhor criou os dois sexos para refletir algo sobre Deus (…) Ele fez os dois sexos para colocar Deus em evidência”33, as autoras entendem que o que homens e mulheres têm de Imago Dei está exposto em sua dinâmica de autoridade e submissão. Uma pergunta a ser feita é, já que Deus Pai estaria para os homens como Deus Filho estaria para as mulheres de forma tão específica, qual seria o lugar ocupado pelo Deus Espírito Santo em toda essa dinâmica? Qual seria o traço Imago Dei “restante” do Espírito Santo para ser refletido na humanidade? Sua submissão ao Pai? Então mulheres refletem Filho e Espírito e homens refletem o Pai? Mulheres podem refletir o Pai? Homens refletem o Espírito?

Prossigamos com questões como essas (e elas vão longe) e vamos perceber exatamente qual é a dificuldade em linkar Trindade e relações humanas. Ao fazer tal conexão, tanto igualitaristas quanto complementaristas parecem estar fazendo exatamente o oposto da ordem proposta no Éden e “criando” Deus à imagem da humanidade, do que são “pessoas”e “relações” humanas.

“Kathryn Tanner aponta, com razão, ‘Isso é para dar ao termo trinitariano ‘pessoa’ (uma identificação tanto quanto mal definida para o que quer que possa haver de três na trindade) o sentido moderno de ‘pessoa humana’ e então insistir em entendê-lo de forma bastante literal.’ Em outras palavras, o movimento de pessoa divina para pessoa humana pressupõe o movimento prévio de pessoa humana para pessoa divina. Apenas porque a pessoa divina foi definida de acordo com nossa noção de pessoa humana que as relações divinas são então capazes de informar as relações humanas. Trinitarianismo social – assim como complementarismo trinitário-social – depende da projeção em Deus do que nós achamos que uma pessoa é, a fim de então nos modelarmos nessa mesma projeção. É um argumento totalmente circular. Ele faz Deus à nossa imagem para então encontrar nossa imagem em Deus.”34

Faz-se necessário compreender, como Agostinho, o limite da compreensão humana sobre Deus e o mistério que deve ser contemplado conforme lemos em Deuteronômio 29:29, “as coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei”, por isso: 

“Não faz sentido perguntar qual é o ponto da Trindade ou a qual propósito ela serve. A Trindade não é para nada além dela mesma, porque a Trindade é Deus. Deus é Deus da Sua maneira: a maneira de Deus de ser Deus é sendo Pai, Filho e Espírito Santo simultaneamente por todo a eternidade, perfeitamente completo em uma comunhão trina de amor. Se não tivermos isso como nosso ponto de partida, tudo que dizemos sobre a relevância prática da Trindade pode levar a um desentendimento colossal: pensar no Deus da Trindade como um meio para algum outro fim, como se Deus fosse a Trindade com o objetivo de se fazer útil”.[35]

Referências bibliográficas

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Jason S. Sexton, The State of the Evangelical Trinitarian Resurgence, disponível em: https://www.etsjets.org/files/JETS-PDFs/54/54-4/JETS_54-4_787-807_Sexton.pdf.

Patricia Wilson-Kastner, Faith, Feminism and the Christ (Philadelphia: Fortress Press, 1983), em: http://theologyphilosophycentre.co.uk/papers/Kilby_TrinNBnew.doc.

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Stephen Ress, Homens, Mulheres e Autoridade (editado por Brian Edwards).

Mary A. Kassian e Nancy Leigh DeMoss, Mulher: sua verdadeira feminilidade. vol. 1 (Editora Shedd).

Grupo de Estudos Benditas (várias autoras), Dialogando com o livro Mulher: sua verdadeira feminilidade (Design Divino), disponível em: https://magnoliasdotblog.files.wordpress.com/2018/09/ebook-dialogando-com-o-livro_mulher-sua-verdadeira-feminilidade.pdf.

Allister McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica (Shedd Publicações).

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Mark Jones, God’s Will and Eternal Submission, disponível em: https://newcitytimes.com/news/story/gods-will-and-eternal-submission-part-one.

Bruce A. Ware e John Starke (editores), One God in Three Persons (Crossway).

Agostinho, De Trinitatis.

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David Congdon, Trinity, Gender, and Subordination: A Response to the Trinitarian Argument for Complementarianism, disponível em:  http://www.academia.edu/7863514/Trinity_Gender_and_Subordination_A_Response_to_the_Trinitarian_Argument_for_Complementarianism.

Justin Dillehay, 2 razões pelas quais a Trindade É Importante, disponível em: http://monergismo.com/novo/teologia/2-razoes-pelas-quais-a-trindade-e-importante-por-justin-dillehay/.

 ______________________
[1] Fred Sanders, We Actually Don’t Need a Trinitarian Revival, acessado em: https://www.christianitytoday.com/ct/2017/may-web-only/we-dont-need-trinity-revival-fred-sanders.html

[2] Karen Kilby, Perichoresis and Projection: Problems with Social Doctrines of the Trinity, acessado em: http://theologyphilosophycentre.co.uk/papers/Kilby_TrinNBnew.doc

[3] Idem 2.

[4] Para Allister McGrath, “os fundamentos para esse avivamento de interesse foram lançados por Karl Barth e outros no período anterior à Segunda Guerra Mundial.” Para McGrath, Barth seria responsável pela mais significativa reformulação da doutrina na tradição ocidental. “Desde então”, ele escreve, “houve um aumento notável de interesse no desenvolvimento de abordagens trinitarianas de um lado ao outro na vida e pensamento da igreja. Católicos, Protestantes e Ortodoxos têm se envolvido na exploração de geografia trinitária da fé”. (Tradução livre de Theology: The Basics, disponível em: https://books.google.com.br/books?id=OLg1DwAAQBAJ&l)

[5] Idem 1.

[6] Em seu artigo The State of the Evangelical Trinitarian Resurgence (O Estado do Ressurgimento Trinitário Evangélico), Jason S. Sexton organiza sua avaliação a partir de oito principais (mas não exaustivas) perspectivas de abordagem no avivamento: https://www.etsjets.org/files/JETS-PDFs/54/54-4/JETS_54-4_787-807_Sexton.pdf

[7] Idem 1.

[8] De fato, a definição de termos (e suas respectivas traduções) ocupa grande volume nas produções trinitárias e são muito importantes para que compreendamos o argumento do autor ou tradição (e assim possamos nos comunicar com e por meio deles). Vale aqui a recomendação de leitura atenta para o emprego terminológico e suas definições contidas em cada produção teológica particular, já que autores dentro de uma mesma posição geral podem divergir em pormenores terminológicos.

[9] É notório que muito da produção e tradução dos artigos e livros seja proveniente de uma situação contemporânea, especialmente nas últimas quatro décadas, de elaboração sobre entendimentos cristãos frente aos desafios postulados pelo movimento feminista e suas várias vertentes. Tanto cristãos complementaristas como igualitaristas têm escrito extensivamente sobre os gêneros sexuais e a maioria deles o faz a partir da quebra de paradigmas propostos pelo feminismo (seja para adequá-la a uma linguagem cristã ou para refutá-la).

[10] Idem 2.

[11] Idem 1.

[12] Patricia Wilson-Kastner, Faith, Feminism and the Christ (Philadelphia: Fortress Press, 1983), p. 127, conforme citado por Karen Kilby em: http://theologyphilosophycentre.co.uk/papers/Kilby_TrinNBnew.doc

[13] Idem 2.

[14] Essa posição pode ser identificada pelas seguintes nomenclaturas, especialmente em seu contexto norte-americano: ESS – Eternal Subordination of the Son (Eterna Subordinação do Filho), EFS – Eternal Functional Subordination (Eterna Subordinação Funcional), e ERAS – Eternal Relational Authority-Submission (Eterna Autoridade-Submissão Relacional).

[15] Wayne Grudem, Evangelical Feminism and Biblical Truth, p. 47, acessado em: https://www.wtsbooks.com/common/pdf_links/9781433532610.pdf

[16] Carolyn McCulley, Feminilidade Radical, p. 96 (versão Kindle).

[17] Stephen Ress em Homens, Mulheres e Autoridade (editado por Brian Edwards), p. 173, Editora Pes.

[18] Mary A. Kassian e Nancy Leigh DeMoss, Mulher: sua verdadeira feminilidade Vol. 1, (citação traduzida a partir da edição original em inglês, p. 109). Para uma avaliação completa dessa obra, veja o e-book disponível em: https://magnoliasdotblog.files.wordpress.com/2018/09/ebook-dialogando-com-o-livro_mulher-sua-verdadeira-feminilidade.pdf.

[19] Conforme citado em tradução livre em: https://magnoliasdotblog.files.wordpress.com/2018/09/ebook-dialogando-com-o-livro_mulher-sua-verdadeira-feminilidade.pdf

[20] Allister McGrath, Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica, p. 383, Shedd Publicações.

[21] Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/credos/credoatanasio.htm

[22] CFW Capítulo 2, Parágrafo 3. Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/credos/cfw.htm

[23] De fato, o debate atingiu seu auge em 2016 ao ponto de uma extensa bibliografia (que continua em constante atualização) ter sido elaborada por portal Books at a Glance, disponível em: http://www.booksataglance.com/blog/trinity-debate-bibliography-complete-list/

[24] Mark Jones, Propositions & Questions (For Fred Sanders) On The Trinity, disponível em: https://calvinistinternational.com/2016/06/15/propositions-questions-fred-sanders-trinity/

[25] Mark Jones, God’s Will and Eternal Submission, disponível em: https://newcitytimes.com/news/story/gods-will-and-eternal-submission-part-one

[26] Bruce A. Ware e John Starke (editores), One God in Three Persons, p.88-89

[27] Idem 1.

[28] Idem 6.

[29] Idem 2.

[30] Agostinho, De Trinitatis 1.3.

[31] Sinclair B. Fergunson, A Devoção Trinitária de John Owen, p. 44 (versão Kindle).

[32] (2 Coríntios 13.14)

[33] Conforme citado em https://magnoliasdotblog.files.wordpress.com/2018/09/ebook-dialogando-com-o-livro_mulher-sua-verdadeira-feminilidade.pdf

[34] David Congdon ainda acrescenta à sua conclusão que “Trinitarianismo social é, em resumo, uma forma de teologia social”. Disponível em: http://www.academia.edu/7863514/Trinity_Gender_and_Subordination_A_Response_to_the_Trinitarian_Argument_for_Complementarianism

[35] Fred Sanders conforme citado por Justin Dillehay em: http://monergismo.com/novo/teologia/2-razoes-pelas-quais-a-trindade-e-importante-por-justin-dillehay/.

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