Exposição – Amós 5.18-27

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O que se segue abaixo é uma pequena exposição de um texto do profeta Amós, talvez o mais atual de todos os profetas veterotestamentários. Sua mensagem incisiva e contundente continua viva, tal como foi dirigida no reinado de Jeroboão II. No texto abaixo, o profeta confrontará o aparente “avivamento” existente nos seus dias e desmacarará a hipocrisia da religiosidade. Ali estava uma verdadeira expressão da hipocrisia religiosa: culto separado da vida; dicotomia entre privado e público.

Sei que muitos de meus leitores, especialmente alunos de Teologia Bíblica, pedem alguns escritos de linha mais teológica. Então, atendendo aos pedidos, e faço com muita alegria, deixo vocês com o profeta Amós. Queira Deus abençoar esta leitura.

Contexto do texto
Sem dúvida alguma, as mensagens proferidas pelo profeta Amós são atualizadíssimas. A repetição de temas da parte do profeta revela-nos que alguns pecados eram costumeiramente praticados em Israel. Entre os pecados recorrentes estava a idolatria. Já por algumas vezes o profeta condenou essa prática.

Por mais uma vez, o profeta de Deus tratará acerca dessa questão. Para tristeza de alguns israelitas a quem o profeta havia se dirigido, Deus ainda tinha o que falar sobre o culto oferecido a ele pelo seu povo.

O povo de Israel acreditava que podia agradar a Deus com um culto pomposo, mas dissociado de uma vida santificada. Por isso, Amós anuncia a sua quarta mensagem contra o povo da aliança. Certamente um profeta como Amós, que protestava contra toda injustiça, impiedade, opressão, mas também contra os falsos ensinos e o falso culto, não era um profeta bem quisto. Foi assim que o sumo sacerdote Amazias (Am 7.10ss.) conspirou contra o profeta de Deus. O que Amós está denunciando? O profeta denuncia que Deus não aceita uma falsa adoração, por mais festiva, bela e paramentada, principalmente se estiver separada da vida piedosa.

Em nossos dias o culto é um reflexo da vida das pessoas: religiosas, comprometidas com a religião, mas desprovidas da vida santificada. Suas vidas ex ekklesia (fora da igreja) revelam que a adoração a Deus não passa dos lábios, e que seus corações estão longe da Palavra de Deus. Os supostos avivamentos em nossos dias são massacrados pela falta de mudanças. Igrejas lotadas, adoração extravagante, muita música, ritmos, louvorzões e shows gospel não são capazes de transformar nem mesmo uma rua sequer.

Tal como nos dias do Profeta, os cristãozinhos modernos, alimentados por sermõezinhos, almejam pelo Dia do Senhor, por sua bênção; mas onde quer que a Palavra de Deus seja negligenciada, furtada ou deturpada o Senhor não estará presente. Como disse o profeta Isaías: À Lei e ao Testemunho! Se eles não falarem conforme esta palavra, nunca verão raiar o amanhecer (8.20).

Mais uma informação pertinente ao nosso texto, principalmente porque é importantíssimo para nossa interpretação. Os v. 18-27 estão dispostos em forma de poesia, em que versos das extremidades apresentam as mesmas ideias, formando uma espécie de pirâmide de lado. Vejam:

A Uma descrição do julgamento inevitável v. 18-20
          B Uma acusação da hipocrisia religiosa v. 21-22
                     C A justiça e a retidão devem ser parte da vida do adorador v. 23-24
           B Uma acusação da hipocrisia religiosa v. 25-26
A  Uma descrição do julgamento inevitável v. 27

A mensagem do profeta é classificada com um Oráculo de Desgraça. Isso porque se tem a interjeição (hoy!). Assim, tem-se um Anúncio de Julgamento, como gênero principal, em sua forma de desgraça. Depois de um lamento fúnebre, Amós fala sobre a morte de Israel. Isso é feito por meio do “Ai”. Eis a situação de Israel: vivo por fora (seus cultos e festas); mas morto por dentro (hipocrisia).

A mensagem central desta porção é o juízo de Deus sobre a falsa adoração. Eles deveriam buscar ao Deus único e soberano (O Senhor é o seu nome — v. 8b) para que vivessem. 
 

Introdução – Exclamação
v. 18ª

A contenda

v. 18b

A analogia

v. 19

Uma pergunta retórica

v. 20

A razão julgamento

vv. 21 – 26

O anúncio do julgamento

v. 27ª

Assinatura – a certeza do julgamento

v. 27b

Exposição do Texto

Uma descrição do julgamento inevitável — v. 18-20, 27 — O Senhor inicia uma contenda com o povo de Israel. A introdução da contenda é apresentada como “ai”, o que bem pode ser visto como um lamento sobre aquele que contenderá com o Senhor Yahweh. Com quem está contendendo o Senhor? Com aqueles que “desejam o dia do Senhor”. Considerando a ação verbal 2 intervenção do Senhor. O que seria este “dia do Senhor”? Por trás dessa frase está uma intenção escatológica, isto é, do dia em que Yahweh viria e traria vingança sobre os seus inimigos, e daria descanso a seu povo. Essa frase é bem conhecida dos profetas do Antigo Testamento. Não temos tempo por enquanto para discutir todos os pontos desse assunto, mas é possível resumir da seguinte forma (Rev. Dr. Robert S. RAYBURN):

a. Primeiro, era um dia específico, e era chamado de “dia da vingança do Senhor” (Is 34.8), “o dia de sua ardente ira” (Is 13.13), o “dia da visitação” (Jr 27. 22. cf. Ex 32.34; Is 10.3; 1Pe 2.12).
b. Segundo, o dia era um dia de julgamento. Israel esperava por esse dia como o dia de julgamento sobre os gentios, mas esqueceu-se de que o Senhor também visitaria os pecados de seu povo (Ex 32.34; Is 63.4; Ez 7.7).
c. Terceiro, o dia do Senhor também era um dia de libertação do povo fiel ao Senhor. É esse conteúdo que se encontra na profecia de Joel 3.
d. Quarto, o Dia do Senhor é também o tempo futuro, no qual o Senhor julgará todas as nações por meio do seu Filho Jesus Cristo. Essa perspectiva aparece nas palavras de Jesus Cristo em Lc 4.18,19, no qual o Senhor citando a profecia de Isaias 61.1ss., diz que parte daquela profecia se cumpriu nele, mas ele mesmo omite a última parte da profecia que diz “e o dia da vingança do nosso Deus”(Is 61.2).

Amós nos fala, portanto, de um dia local, apresentado no v. 27, e um dia universal. No Novo Testamento, esse dia aponta para a Segunda Vinda de Jesus Cristo (Cf. 1Ts 5.2; 2Co 5.5; 1Co 1.8; Fp 1.6; 2.16; 2Ts 2.10). Notem a ironia do Senhor acerca do seu povo: “vocês desejam o dia do Senhor? É dia de trevas e não de luz para vocês”. Os israelitas, com todos os seus pecados, acreditavam que Deus os livraria dos seus inimigos. Amparados numa falsa segurança, não sabiam que haviam constituído uma inimizade maior com Deus. Esse dia seria inescapável para eles. Fico a pensar quando ouviram o profeta dizer que esse dia seria de julgamento sobre o povo de Deus. Como? O Senhor não julgará as nações? Não sem antes julgar os pecados de seu povo.

A descrição desse dia é apresentada pelo profeta de forma dramática por meio de uma analogia. É como se a justiça perseguisse o sujeito do juízo (v. 19). Numa linguagem camponesa, Amós faz o povo perceber a seriedade do julgamento divino: é como se um homem fugisse de um leão, mas, pensando em ter escapado, depara-se com um urso; foge também e procura refúgio em sua casa e, ofegante da fuga, encosta a mão na parede e é picado por uma cobra! Tal como aconteceu com Paulo, a imagem que vem é de que “a justiça não o deixa viver”. Realmente seriam trevas. Não haveria como escapar do Senhor. A pergunta retórica de Deus revela-nos o horror desse dia, dia em que as contas serão acertadas com o Justo Juiz. O povo de Israel pensava que o Dia do Senhor traria julgamento sobre os inimigos de Israel. Mas o profeta Amós diz: “vocês são os inimigos do Senhor; o Dia do Senhor vos consumirá. O Dia do Senhor trará infortúnio, não triunfo; ruína, não libertação” (RAYBURN).

E para confirmar a profecia, o profeta registra: “diz o Senhor” (v. 27). O cativeiro assírio seria uma ação do próprio Deus 3. Damasco, principal cidade da Síria, era o terror de Israel. Como disse certo escritor: “o horror do ‘exílio’ era mais do que ruína da derrota e da vergonha da captura. Para Israel, isto significava ser removido da terra da promessa, a terra da presença de Deus. Exílio, de fato, era a excomunhão” (SUNUNKJIAN apud CONSTABLE, 2002, p. 31)

Uma acusação da hipocrisia religiosa — v. 21-22,25,26 — nesses versos temos a razão para tão terrível julgamento da parte do Senhor: a falsa adoração. Adoração é coisa muito séria. Principalmente porque a adoração reflete o que pensamos sobre Deus. O Senhor tem grande zelo pelo culto a ele e, por isso, caso alguém seja hipócrita, isto é, se a adoração eclesiástica é distinta da adoração na vida, confessamos que Deus não é Deus da verdade. Era isso que estava acontecendo em Israel. O sistema de adoração, além de idólatra, era também hipócrita, estava dissociado da justiça e da santidade.

Em nenhuma outra porção em Amós a linguagem é tão forte. Antes, porém, deixe-me apresentar o sistema de adoração de Israel nesses tempos (DAVISON) 

e.Era praticado com grande frequência. A palavra “festas” fala das três festas de peregrinação e que todos os homens deveriam fazer (Cf. 23. 14, 17): a Páscoa, a Festa da Semana ou Primeiros Frutos e a Festa dos Tabernáculos.
f. Havia outros elementos do Culto do AT. Os holocaustos, as ofertas de alimentos e ofertas pacíficas nas assembleias solenes.
g. O sistema musical era perfeito. A pompa, o coral e as belas melodias estavam presentes. Diríamos que Israel tinha o melhor “grupo de louvor” já existente.

De fato, o povo era extremamente religioso. Um “avivamento” estava acontecendo em Israel. Muitos afluíam para os lugares de culto. Mas tudo isso estava separado da justiça, da moralidade. O problema não estava nos lugares e nas assembleias, mas no que acontecia quando de lá saiam. A linguagem de Amós ecoa as palavras do profeta Isaias (1.11-17). A verdadeira adoração precede e prossegue à vida.  Não estão separadas. Como diria certo cantor: “não adianta ir à igreja, rezar e fazer tudo errado”. “Nós não podemos dizer que amamos e honramos a Deus e, então, ignorá-lo no modo como nós vivemos e nos relacionamos com os outros. Se nós verdadeiramente buscamos e honramos a Deus, nós seremos transformados por nosso encontro. A verdadeira adoração resulta em mudanças em nossos corações, nossos desejos e nossas prioridades. Se nós verdadeiramente o honramos, nós o seguiremos. Se deixarmos nosso tempo de adoração sem mudanças, nós não o temos adorado de fato. Nós não temos encontrado com Deus. Quando o encontramos, ele nos muda” (Rev. Bruce GOETTSCHE).

Voltemo-nos para a linguagem usada por Deus para expressar seus sentimentos acerca da falsa adoração: “odeio, desprezo as vossas festas”. A combinação das palavras “odeio e desprezo” expressa nos mais fortes termos o desprazer de Deus com o sistema cultual daqueles que estavam em inimizade com Ele (KEIL & DELITZSCH). Outros termos aparecem: “não exalarão bom cheiro” (federão) (v. 21), figuradamente, causarão aborrecimento; não me agradarei, nem atentarei (v. 22), afasta de mim, não ouvirei (v. 23).

Mas a hipocrisia de Israel não parava por aí. A idolatria de Israel começara no deserto. Nosso Deus é muito paciente, pois por quarenta anos suportou a iniquidade de um povo rebelde. Mas o julgamento do Senhor pode parecer demorado, como alguns os julgam. Mas a sua longanimidade o impede de executar rapidamente o juízo; antes nos aguarda o arrependimento, pois não deseja que nenhum de nós se perca. Israel, por quarenta anos, oferecendo sacrifícios no deserto, mas não a Deus, mas a Moloque, Refã, Sicute e Quium, deuses assírios. A adoração hipócrita de Israel não era coisa nova (Cf. Ex 32).

Israel acreditava que poderia satisfazer a Deus adorando-o, mas vivendo uma vida ímpia. Pecado e adoração juntos apenas provocam a Deus, atraindo sobre o pecador a ira de Deus. Diz o provérbio: “O sacrifício dos ímpios é abominação para o SENHOR, mas a oração dos corretos lhe é agradável” (Pv. 15.8). Abomináveis ao Senhor foram as ofertas de Caim, de Nadabe e Abiú, de Saul e dos fariseus. Todas feitas com as melhores intenções, mas cheias de impiedade. Adoração não combina com pecado; adoração faz parceria com santidade. A santidade convém à casa do Senhor (Sl 93.5).

A justiça e a retidão devem ser parte da vida do adorador — v. 23, 24 — Sempre que o profeta anuncia uma expectativa horrível de julgamento, ao mesmo tempo anuncia um escape gracioso. Um remanescente seria salvo desse juízo (v. 3,15). As palavras desses versos são dirigidas ao povo de Deus individualmente e, dessa forma, Deus nos trata não apenas coletivamente (como povo), mas individualmente (como filhos). O povo de Israel estava tendo a chance de arrepender-se da impiedade na adoração, levando uma vida justa e reta. Era preciso, porém, abandonar a hipocrisia. As palavras da boca (cântico) e os sons dos instrumentos eram abafados pela vida daqueles homens. O Senhor deseja justiça e retidão em profusão tal que se assemelhasse a um dilúvio (Cf. Zc 7.9; Os 6.6). A opressão aos pobres, a injustiça social, a mentira, o engano, o suborno, a iniquidade, etc. deveriam ser abandonados para que Deus recebesse a adoração. Israel por tanto tempo cometeu idolatria pensando que o Senhor Deus era como os deuses pagãos, que regulava apenas a adoração, mas não a vida de seus seguidores. Se a vida é falsa, a adoração também é. O Senhor Yahweh requeria piedade — fé e obediência. Ele requer adoração, mas adoração sem piedade é uma terrível ofensa a Deus (RAYBURN). Como disse o profeta Miqueias: “Ó homem, ele te declarou o que é bom. Por acaso o SENHOR exige de ti alguma coisa além disto: que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes em humildade com o teu Deus?” (Mq 6.8). O culto verdadeiro a Deus não passa apenas pela forma, mas principalmente pela vida. Fora disso, é ritualismo vazio e infrutífero. E toda árvore que não produz fruto, o Senhor a corta e lança no fogo.  

Conclusão
Não posso deixar de ver o paralelo existente entre os dias de Amós e os nossos. Com milhões de evangélicos, de adoração extravagante, de supostos avivamentos, de marchas para declarar, determinar etc; de “encontrões” e “grandes concentrações de poder” e de “show da fé”, o Brasil ainda é líder em corrupção, no “jeitinho”, na “mão grande”. A mentira corre solta, do Presidente arrogante e autodivinizado, até o carrinho com CDs gospel do Zaqueu. A opressão, a imoralidade, a injustiça, etc., num país em que os evangélicos somam milhões.

Estes dias foi noticiado que deputados “evangélicos” receberam propina e oraram por isso!!! Já se noticiaram “apóstolos” presos, “pastor pião”, fisioculturista que se apresenta sob o fundo musical de música “gospel”; é o “créu dos crentes”; é a arruda, as sete águas, “o suor ungido”. Aguardem, hipócritas, o Dia do Senhor virá! Quem, hipócritas, tem vos ensinado a pensar que escaparão da ira vindoura? Pagão! É isso que o “evangelicalismo” brasileiro tem sido.

Li, no Folha de Pernambuco, os escândalos provocados por “pastores” que, confusos com a sua vocação, unem-se à política e tentam ser “pastores-políticos” ou “político-pastores”. O escritor Rodrigo Santos, chega a dizer que passou “a observar com mais atenção os diversos líderes e pastores que hoje exercem atividades parlamentares nas diversas Câmaras e Assembleias dos nossos Estados, e, sinceramente, não consigo fazer a separação entre “o joio e o trigo”, os parlamentares e os ditos líderes evangélicos, a impressão que temos, é que são farinhas do mesmo saco”.

De fato, a sã pregação da Palavra de Deus nos púlpitos; a falta da sã doutrina; o chamar ao arrependimento, o Evangelho da Cruz, a glória futura, o sofrer por Cristo (não como ladrão, mas como justos — 1 Pe 4.15,16) e outras coisas dos “Evangelho da Graça” já não se fazem presentes em muitos púlpitos brasileiros.

Num debate que participamos eu, o Pr. Artur Eduardo e o Bispo Robinson Cavalcanti, Rede Estação – Canal 14 (13/12/09), chegamos à conclusão de que o problema é a dicotomização da vida cristã: é “crente” no domingo, e pagão nos outros dias. Costumo dizer que em tais “evangélicos” a “forma é cristã, mas a mente é pagã”.

O Senhor tem estado muito irado contra esta nação. Os sinais de sua ira são manifestos: a mudança na sexualidade dos gêneros, a iniquidade, a prostituição (conhecida até lá fora do Brasil), a malícia, a avareza, a maldade, a inveja, o homicídio, a contenda, o engano, a malignidade, a murmuração, a detração, o ódio ao Deus e Pai do Senhor Jesus Cristo, a injúria, a soberba, a presunção, a invenção de males, a desobediência aos pais e mães, a tolice, a infidelidade, a falta de afeição, a falta de misericórdia, a falta de reconciliação (Rm 1.18-32).

Despertem, todos que se chamam pelo nome do Senhor, pois o seu dia está próximo!

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hithpael particípio masculino plural

2  hiphil completo com vav consecutivo 1ª ps.

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