A ética é para todos

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RESUMO: É importante que façamos uma análise mais ampla sobre as manifestações que ocorreram no Brasil durante a Copa das Confederações, realizada aqui no Brasil em junho passado. Os protestos começaram tímidos; entretanto, logo se espalharam por todo território nacional. Entendemos que vivemos uma crise de ética. O povo exige mais ética na administração do dinheiro público. Uma questão que surge é se os cidadãos que exigem ética

dos governantes são éticos. Percebe-se que a falta de ética na nação é generalizada. Para mudar a situação, é urgente que todos sejam mais éticos: governantes e cidadãos. Ensinar ética à nova geração pode ser uma saída.

PALAVRAS-CHAVE: Ética; Ética cristã; Ensinar ética.

ABSTRACT: It is important that we make a broader analysis about the manifestations that took place in Brazil during the dispute of the Confederations Cup, held in Brazil in June. The protests began shy  however, and soon spread throughout the national territory. We understand that we live in a crisis of ethics. People demand more ethical in the administration of public funds. One question that arises is whether citizens requiring ethical leaders are ethical themselves. It is noticed that the lack of ethics in the nation is widespread. To change the situation is urgent that everyone become more ethical: rulers and citizens. Teaching ethics to the next generation could be an alternative.

KEYWORDS: Ethics, Christian Ethics, Teach ethics.

Estamos vivendo uma nova fase em nosso país: manifestações sacodem a pátria de norte a sul, de leste a oeste. Cidadãos estão nas ruas pedindo mudanças na nação. Poucas vezes, na história do Brasil, houve tamanha participação e força nos protestos. As reivindicações nem sempre são muito claras: todavia, em comum, há um grande clamor popular exigindo grandes e profundas transformações. O início de tudo foi uma reação de cerca de 500 pessoas ao aumento do preço no transporte público em São Paulo.1 Com o passar dos dias os protestos foram se espalhando pelo país e mais reivindicações entraram em pauta. Mesmo após a redução do valor do transporte público em doze capitais, estima-se que no dia 20.06.13 cerca de um milhão de pessoas estiveram nas ruas para protestar.2

O momento vivido pelo Brasil é importante, pois as manifestações de rua coincidem com a disputa da Copa das Confederações, um evento teste que antecede a Copa do Mundo, planejada para 2014. Além de verificar a preparação do país para eventos esportivos de grande porte, o campeonato em disputa atraiu a atenção de importantes veículos de comunicação do mundo todo. Este fato, aliado ao enorme descontentamento popular devido aos excessivos gastos com a construção de novos estádios aumentaram e muito o tamanho dos protestos.

As exigências da FIFA e outras organizações esportivas mundiais são questionadas até mesmo em países ricos e desenvolvidos. Um artigo publicado em um jornal eletrônico na Alemanha, intitulado: “Obrigado, Brasil!”,3 entende que o povo brasileiro está fazendo um bem ao mundo ao rejeitar altos investimentos em estádios em detrimento de investimentos em áreas mais urgentes e essenciais. Segundo a mesma matéria, já há exemplos de cidades europeias que se negaram a organizar jogos por conta dos altos e, na opinião deles, desnecessários investimentos.

De acordo com estas observações, pode-se entender que um dos motivos da revolta popular em nosso país é o fato de que muito dinheiro foi gasto e mal utilizado para atender as exigências da organização que comanda os eventos. Em contrapartida, poucos recursos são destinados para a educação, saúde, segurança, transporte público. Quando se compara a altíssima carga tributária no país com os investimentos feitos para o bem comum da sociedade, chega-se a óbvia conclusão que a conta não fecha. Duas matérias, publicadas no site da revista Veja,5 confirmam estes como os motivos que estão levando a população às ruas. Enfim, o escândalo e a impunidade dos envolvidos no Mensalão, ministros e políticos corruptos, autoridades gerindo muito mal e, às vezes, em benefício próprio os recursos públicos têm escandalizado e revoltado a opinião pública.

Problema Ético
Meditando um pouco sobre os reais motivos da agitação em nossa pátria, podemos concluir que o povo está exigindo que seus representantes sejam mais éticos. Segundo o Dr. José Neivaldo de Souza, ética é “a arte de organizar, através de uma melhor forma possível os hábitos que levam a uma vida feliz ”.5 E mais: “ética diz respeito aos hábitos e que busca conduzi-los a uma vida feliz”.6 Portanto, ética significa a organização dos hábitos de maneira que se tenha uma vida agradável, organizada e feliz. Quando a vida não vai bem, iniciam os questionamentos, o porquê disso e, consequentemente, cria-se tensões. A crise que estamos vivendo é uma crise ética, originada pela falta de ética dos governantes.

Os manifestantes que foram às ruas exigem que as autoridades, escolhidas por eles para administrar os recursos públicos, tenham hábitos saudáveis que levem toda a nação a usufruir de uma vida confortável. Quando os líderes do país utilizam de maneira equivocada as receitas dos impostos, priorizando investimentos em estádios de futebol em detrimento de necessidades mais urgentes, fica caracterizada a falta de ética. Pior ainda quando os recursos públicos são utilizados em benefício próprio, cultivando hábitos que somente trazem conforto e vida harmoniosa para as autoridades. Neste caso, os hábitos dos governantes não estão em acordo com os costumes que a sociedade padronizou para si.

Ética Cristã
Há ainda outra questão que precisa ser analisada. Será que as pessoas que estão nas ruas exigindo ética das autoridades agem com ética em suas vidas? É ético exigir ética e não ser ético? Quando buscamos auxílio na ética cristã percebemos que a Bíblia trata sobre este assunto. Lemos em Mateus 7: 3-5: “Por que é que você vê o cisco que está no olho do seu irmão e não repara na trave de madeira que está no seu próprio olho? Como é que você pode dizer ao seu irmão:7 ‘Me deixe tirar esse cisco do seu olho’, quando você está com uma trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão ”. Estas palavras de Jesus sugerem uma reflexão mais profunda. Ele afirma que antes de julgarmos o próximo, precisamos fazer uma autoanálise da própria vida. Sempre é mais fácil enxergar o erro do outro, mas será que estamos aptos a fazê-lo antes de verificar como andam nossas atitudes?

Analisando a situação no Brasil percebe-se que existe muita falta de ética entre a população. Aqui, leis – normas colocadas para garantir justiça à sociedade – são continuamente transgredidas. Algumas pessoas afirmam que leis foram criadas para serem quebradas. Muitos se orgulham de conseguir burlar as normas. Em nossa nação, o “jeitinho brasileiro” é exaltado. O importante é ser mais esperto que o outro. Quantos exemplos são observados diariamente: jogar lixo nas ruas, subornar guardas, dirigir bêbado, estacionar em local proibido ou em fila dupla, furar filas, não devolver o troco a mais recebido, desrespeitar idosos ou tirar vantagem em qualquer situação: são apenas uma pequena amostra do que é comum entre nosso povo.

Algumas perguntas que não querem calar: é ético as pessoas que não são éticas exigirem ética de seus líderes? Será que uma pessoa que não é ética nas pequenas atitudes diárias será ética quando se tornar autoridade? Aristóteles já defendia a ideia de que, em uma democracia, todos os cidadãos têm responsabilidades, porque toda a população participa do governo. Sendo assim, a atitude de cada pessoa é fundamental para o bom andamento da sociedade.
Baseado nos ensinamentos de Jesus, o raciocínio deveria ser ampliado. Não é errado alertar os políticos que eles estão utilizando mal o dinheiro público. Todavia, é necessário ampliar a análise ética também para a população que exige transformações. Um país melhor, sem corrupção, necessariamente passa pela transformação dos líderes e também dos cidadãos. A honestidade do povo é fundamental para a construção de um país mais justo. Todos devem ser éticos, a população e as autoridades. Somente quando isso acontecer, a nação poderá ser melhor.

O que fazer
Uma proposta seria realizar uma ampla renovação ética em todo o país. Todos precisam estar envolvidos: cidadãos comuns e autoridades. Não haverá mudanças profundas enquanto a ética não for prioridade para todos os habitantes do Brasil. A grande questão é como conseguir isso. Com certeza, a transformação não acontecerá rapidamente. No entanto, é preciso fazer alguma coisa, é urgente iniciar. Uma pergunta importante: a ética pode ser ensinada? Concordamos com a professora de filosofia Lílian do Valle, no artigo “Ainda Sobre a Formação do Cidadão: É possível ensinar ética?”“: “A principal tarefa da educação é, pois, a formação ética de seus cidadãos, que, numa democracia, supõe a construção, por parte de cada um, das condições a partir das quais ele poderá participar plenamente da vida comum, deliberando e refletindo sobre o que é a felicidade de todos”.8

Outra reflexão necessária é quem lecionará ética aos cidadãos? As crianças aprendem valores e condutas morais interagindo com a sociedade em que vivem. Percebe-se isso no artigo: “É Possível Ensinar Ética nas Escolas?” de Helenice Maia e Tarso Mazzotti. Segundo eles, “Crianças e adolescentes estão sempre em contato com normas e regras que precisam observar. O que seus pais, familiares, professores e outros adultos que fazem parte do cotidiano das escolas pensam contribui significativamente para que possam construir seus modelos representacionais a partir da realidade em que vivem”.9

Concordamos com o ponto de vista de Maia e Mazzotti e entendemos que os principais responsáveis para ensinar ética às crianças são os pais. Na bíblia, encontramos este ensinamento: “Guardem sempre no coração as leis que eu lhes estou dando hoje e não deixem de ensiná-las aos seus filhos. Repitam essas leis em casa e fora de casa e fora de casa, quando se deitarem e quando se levantarem ”.10 – Deuteronômio 6: 6, 7. Ética cristã deve ser ensinada em casa pelos pais aos seus filhos. Ora, se as crianças constroem seus modelos a partir do que observam, os pais devem praticar bons valores para que as crianças aprendam ótimos valores morais.

Quando as crianças entram em idade escolar, o colégio passa a ser um importante veículo de ensino ético aos alunos. A escola deve estar comprometida com a formação dos cidadãos, este deve ser um dos seus principais objetivos. Deve promover reflexões para ensinar o respeito mútuo, a justiça, o diálogo e a solidariedade.11 Além dos pais e da escola entendemos que a própria sociedade deve ter a responsabilidade de ensinar e promover a prática de bons valores dos cidadãos. Sendo assim, cada habitante é responsável pela ética praticada na sociedade. No caso brasileiro, não é possível responsabilizar somente as autoridades pela crise de ética que estamos vivendo. Estamos todos no mesmo barco: povo e governantes. Portanto, somos todos responsáveis pelo estado em que estamos. Só conseguiremos melhorar se fizermos um pacto e todos os habitantes deste país assumirem sua responsabilidade e lutarem para que haja mais ética em nossa querida nação. Cada cidadão deve ser ético antes de cobrar ética do seu próximo e dos governantes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Tradução: Sociedade Bíblica do Brasil. 1. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.

MAIA, Helenice e MAZZOTTI, Tarso. É possível ensinar ética nas escolas? Revista da Faced, n.10, 2006, p 113-124.

SOUZA, de Neivaldo José. Da ética humanitária a uma ética planetária. Protestantismo em Revista, São Leopoldo, RS, v. 26, Set.-Dez. 2011.

SPILLER, Christian. Obrigado, Brasil. Jornal Zeit Online. Disponível em www.zeit.de de 21.06.13. Acessado em 26.06.13.

VALLE, Lilian do. Ainda sobre a formação do cidadão: é possível ensinar a ética? Educação & Sociedade, ano XXII, n. 76, outubro/2011, p. 175-196.

VEJA, Revista. Protesto contra aumento da tarifa de ônibus tem 15 detidos. Disponível em: www.veja.abril.com.br de 06.06.13. Acessado em 26.06.13.

VEJA, Revista. Protestos reúnem mais de um milhão de pessoas.
Disponível em: www.veja.abril.com.br de 21.06.13. Acessado em 26.06.13.

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1VEJA, Revista: Disponível em: www.veja.abril.com.br de 21.06.13. Acessado em 26.06.13.
2VEJA, revista:  Disponível em: www.veja.abril.com.br de 21.06.13. Acessado em 26.06.13.
3ZEIT ONLINE, Jornal eletrônico. Disponível em www.zeit.de de 21.06.13. Acessado em 26.06.13.
4VEJA, Revista: Disponível em: www.veja.abril.com.br de 21.06.13. Acessado em 26.06.13.
5SOUZA, de Neivaldo José, Da ética humanitária a uma ética planetária. Protestantismo em Revista, São Leopoldo, RS, v. 26, Set.-Dez. 2011, p. 97.
6Ibidem, p. 97
7BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Tradução: Sociedade Bíblica do Brasil. 1. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.
8VALLE, Lilian do. Ainda sobre a formação do cidadão: é possível ensinar a ética? Educação & Sociedade, ano XXII, n. 76, outubro/2011, p. 175-196, p. 182.
9MAIA, Helenice e MAZZOTTI, Tarso. É possível ensinar ética nas escolas?. Revista da Faced, n.10, 2006, p 113-124, p. 115.
10BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Op. Cit.
11MAIA, Helenice e MAZZOTTI, Tarso. Op. Cit. p. 117.

1 COMENTÁRIO

  1. Gostei do artigo. Estudo Pedagogia e meu TCC ser  sobre a influência cristã na educação. Ao ler o artigo percebi que deverei entrar no campo da ‚tica.
    A ‚tica ‚ mesmo para todos. Professores e alunos e família e toda comunidade escolar.
    Talvez eu faça uma pós em Educação Cristã.
    Obrigada!

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