A doutrina da depravação total situada na História

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1. Introdução

A Depravação Total (DT) é o primeiro dos Cinco Pontos do Calvinismo. O grande exegeta e reformador de Genebra – Calvino – versou, categoricamente, acerca desta doutrina, e, através dela, iluminado pelo Espírito Santo, enxergou a insuficiência do homem em escolher a Deus, salvando a si mesmo da morte e do inferno. A DT está, portanto, estritamente ligada ao monergismo,1 isto é, à doutrina de que salvação é uma dádiva que o Senhor concedeu graciosamente aos Seus eleitos, segundo o beneplácito de Sua própria vontade. Em outras palavras, pode-se dizer que as doutrinas da Predestinação e da Depravação Total andam de mãos dadas.

A doutrina que recebeu o nome de calvinismo, como bem nos exortou Spurgeon, não foi criada por João Calvino. Este se baseou, sem sombra de dúvidas, nos escritos de Agostinho, que por sua vez, mergulhou profundamente na teologia paulina. Sabemos que Paulo recebeu o Evangelho diretamente do Senhor Jesus Cristo, como um nascido fora de tempo. O Apóstolo aos Gentios foi inspirado pelo Espírito Santo em sua produção teológica, para que seus escritos se compusessem às Sagradas Escrituras e, do mesmo modo, para que os cristãos de todos os povos e épocas tivessem acesso à sua explanação a respeito das doutrinas da graça.

Destarte, impende ressaltar, ainda, que aquilo que chamamos de calvinismo é justamente a retomada das doutrinas da graça, que outrora foram encobertas pela doutrina romanista da salvação por obras. Com o advento da Reforma iniciada por Lutero, o Cristianismo voltou a ter um remanescente que bradava a máxima paulina presente em Romanos 1.17: “O justo viverá pela fé”. Todavia, ninguém, naquele período da reforma, nem mesmo posteriormente, sistematizou com maior excelência essas doutrinas como João Calvino o fez.

Isto posto, esta claro que a DT não é apenas parte do ensino calvinista: é uma doutrina essencialmente bíblica. Além disso, ao observarmo-la, notamos que a mesma está explicitamente presente na Igreja do primeiro século, sendo ensinada através das epístolas escritas por aquele que foi o mais erudito autor do Novo Testamento: o Apóstolo Paulo de Tarso.

2. A depravação total na antropologia paulina

Paulo utilizou sete termos para descrever os aspectos do homem natural/decaído, são eles: alma (psychç); espírito (pneuma); carne (sarx); corpo (sôma); coração (kardia); mente (nous); e consciência (syneidçsis). Veremos abaixo a forma pela qual o pecado afeta cada uma dessas partes, fazendo com que o ser humano, em sua totalidade, seja depravado ao ponto de ser controlado pela intensa e vibrante vontade de pecar.

Alma (psych): este é o termo antropológico menos citado por Paulo; existem 13 menções, apenas. Quando usado, psych refere-se à vida humana. Em Romanos 2:9, Paulo vincula a alma humana à prática do mal. No entanto, isto não quer dizer que a alma humana seja má em si mesma, mas, por fazer parte do ser humano, está diretamente envolvida na condição geral pecaminosa do homem. Já em 1 Coríntios 2.14, o termo psychikos (material, natural) é utilizado como referência ao homem não regenerado, contrastando com pneumatikos (espiritual).

Espírito (pneuma): embora seu uso mais comum seja referente ao Espírito Santo, pneuma, na teologia paulina, também é parte inerente ao ser humano. Quando, em 1 Coríntios 2:11, o apóstolo fala no “espírito do homem”, fica difícil de aceitar que o homem recebe o pneuma após a conversão. Mais coerente, é considerar que o pneuma está desativado pela degeneração, e quem o reativa é o Espírito de Deus, no processo de conversão/regeneração. Assim, podemos entender pneuma como sendo a mais elevada representação da natureza humana. Por si mesma, essa natureza não é boa nem má; ela torna-se boa ou má através da influência dominante. Sendo assim, o cristão regenerado tem a natureza sob influência do Espírito Santo, tornando-se, por fim, bom. Em contrapartida, o não regenerado continua escravo do pecado, sendo mal em sua essência depravada.

Coração (kardia): Paulo utiliza kardia para descrever o local onde nasce a concupiscência dos homens e sua insensatez (Romanos 1:21 e 24). Não é o coração que é insensato, é o homem, com a sua degeneração moral, que o faz proceder deste modo. Para Paulo, em alguns casos, o coração é o centro das emoções, e, em outros, significa a pessoa, em sua totalidade. Ele dirá, ainda, que é no coração que recebemos a iluminação para enxergarmos, através de Cristo, a glória de Deus (2 Coríntios 2:6 e Efésios 1:18).

Mente (nous): este termo é sempre associado, nos escritos paulinos, ao homem. Diferentemente dos gregos, que faziam separação entre a mente e o restante do corpo como se ela fosse uma faculdade especial. Paulo utiliza nous de acordo com a tradição hebraica, abrangendo o homem como um todo, sem destacar o intelecto das demais partes. Novamente, nous não é boa e nem má em si mesma; seu posicionamento moral vai sofrer a influência do que for predominante – a carne ou o Espírito Santo. No caso dos crentes, suas mentes não são mais vis e cegas como a dos incrédulos (2 Coríntios 4:4), mas, sim, iluminadas e renovadas (Romanos 12:2 e 2 Coríntios 4:6).

Consciência (syneidçsis): esta palavra pode ser definida como o conhecimento de uma ação acompanhado de uma reflexão. É uma palavra que apresenta o homem como um ser racional. A consciência sabe o que é certo. Todo homem, então, é extremamente ciente de seus atos. Em 1 Timóteo 4:2, Paulo fala da consciência “cauterizada” entre aqueles que são enganados pelos que ensinam doutrina de demônios. O fato de o homem saber o que é certo e não fazê-lo explicita a sua natureza degenerada.

Carne (sarx): este é o termo mais empregado pelo apóstolo Paulo, e, também, o mais variado em seu sentido. Contudo, queremos frisar apenas o conceito antropológico, que remonta à fraqueza humana, devido à sua natureza terrena. Sarx e pecado estão ligados na teologia paulina ao ponto de o apóstolo a definir como fonte dos maus desejos (Gálatas 5:16). Indo mais além, a carne é uma produtora de pecados; e, em Gálatas 5:19, temos ideia dos seus produtos. Num contexto não-cristão, sarx é predominante e conduz à morte (Romanos 7:5).

Corpo (soma): finalizamos essa análise da antropologia paulina com soma. Aqui, deve-se fazer distinção entre corpo e carne. Sarx não sofre transformação; o corpo, sim, sendo liberto em Cristo da sua influência carnal. Este é o sentido da santificação na vida do cristão. A finalidade de soma é ser morada do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19). A mudança de um corpo carnal para um corpo glorificado é progressiva, do mesmo modo que ocorre com a mente. Todavia, o corpo daquele que não for regenerado por Cristo será destinado à morte. Como está escrito: “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7:24). Por conseguinte, segundo Paulo, o homem natural não é espiritual. Essa é uma deficiência que só pode ser suprida pelo poder e atuação do Espírito Santo. Não há nada em nenhuma das epístolas paulinas – ou em algum outro ensino bíblico -, que destoe da DT.

O pecado, quando entrou no mundo por intermédio de Adão, alcançou a todos os indivíduos, e a exposição clássica acerca disso se encontra nos três primeiros capítulos de Romanos. No capítulo 5, versículo 12, do livro anteriormente citado, lê-se: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram”.

Destarte, não restam objeções de que Paulo ensinou – inspirado pelo Espírito Santo – que a raça humana fora inteiramente afetada pelo pecado de Adão.

3. A depravação total ensinada na patrística

Patrística é o nome dado ao período correspondente ao vivido pelos “pais da igreja”. Compreende-se como os cinco primeiros séculos da era cristã. Embora seja um período no qual a igreja triunfou e expandiu suas fronteiras – mesmo passando por sucessivas perseguições –, e também tenha sido uma época na qual viveram notáveis pensadores ortodoxos, o período patrístico foi marcado, também, por muitas confusões doutrinárias, advindas do contexto plurirreligioso na qual estava mergulhado.

Íris, Serápis e Cibele eram divindades bastante populares do Império Romano; e Mitras tinha o apreço de boa parte dos soldados imperiais. Sobre este assunto, Kelly [2009, p. 9] pronuncia-se categoricamente, vejamos:

O sincretismo era o produto desse acúmulo de religiões; os deuses de um país eram identificados com os de outro, e havia um movimento indiscriminado de fusão de várias seitas e de empréstimos de ideias entre elas.

A conexão entre nosso pecado e o de Adão não era ainda bem exposta entre os pais da igreja. Talvez, as maiores e únicas contribuições sobre a DT sejam as de Tertuliano e Agostinho. Para Tertuliano, o pecado tornou-se um elemento natural do homem, presente desde o nascimento – condição hereditária –, abrangendo toda a raça humana. Esse é o primeiro indício da doutrina do pecado original, pois, em última análise, essa herança vai chegar até Adão e Eva.

O Traducionismo2  de Tertuliano foi defendido, podemos assim dizer, isoladamente por ele. Sua teologia ia de encontro à ideia do pecado inato, muito popular naquele contexto. Tertuliano afirmava que a propagação da alma envolvia a propagação do pecado. Isto quer dizer, portanto, que no momento da concepção, a alma se origina através de um processo natural. O ensino de que o homem já nasce pecador e depravado é o mesmo utilizado pelo salmista Davi em Salmos 51:5: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe”.

Contudo, é na teologia de Agostinho que encontramos a DT mais detalhadamente descrita. Agostinho, de início, produziu textos para refutar o dualismo dos maniqueístas (grupo do qual chegou a fazer parte nos primeiros anos de sua conversão). Porém, a sua mais valiosa contribuição é aquela voltada para refutação do pelagianismo. A grande controvérsia entre Pelágio e Agostinho envolvia o livre-arbítrio e o pecado original.

Entretanto, Pelágio não é o principal adversário do Bispo de Hipona. Dentre os defensores das teses heréticas estavam Celéstio e Juliano de Eclano. A estes, Agostinho também confronta ferozmente. Mas em que consistia o crasso erro pelagiano?

Para Pelágio, a humanidade não foi afetada pelo pecado de Adão, considerando que este foi o único prejudicado pelo seu delito. De acordo com essa corrente herética, o primeiro homem foi criado neutro, com volição livre para escolher entre o bem e o mal. Adão, segundo Pelágio, já estava condicionado a ser um reles mortal, sendo assim, a morte não foi uma consequência desastrosa do seu pecado. O mesmo acreditava, ainda, que todos os homens nascem com a mesma condição de neutralidade, sem qualquer herança adâmica negativa.

Desta forma, a humanidade estaria, então, isenta de culpa e poluição. A diferença do primeiro homem para os demais seria que Adão não tivera o exemplo que os demais homens tiveram; daí o conceito de livre-arbítrio. Nota-se, claramente, que o pelagianismo desqualifica a soberania e a graça divina, pois, nesta doutrina, o homem, em sua liberdade, pode tanto aceitar o favor de Deus para a sua alvação como rejeitar. Dentro de suas próprias capacidades, o homem poderia voltar do mal para o bem, isto é, de uma condição de pecador para uma condição de santo, sem que necessitasse de qualquer intervenção divina.

Não há, portanto, ação do Espírito Santo e da cruz neste processo, haja vista que a mesma é reduzida apenas a um bom exemplo de obediência à Palavra que a humanidade deveria seguir.

Agostinho, mergulhando na teologia paulina, sobretudo na Epístola aos Romanos, desenvolve a DT como sendo uma doutrina indispensável ao cristianismo. Combatendo a neutralidade pelagiana, ele afirma que o homem perdeu o livre-arbítrio quando o pecado entrou no mundo por meio de Adão. Após a catástrofe do Éden, a humanidade herda o pecado natural, que escraviza o homem em seu desejo de querer pecar mais e mais.

Sendo assim, o pecado priva o homem de escolher aquilo que é inerentemente bom (privatio boni), o que não significa, entretanto, que o homem perdeu toda sua capacidade de fazer escolhas. Em diversas ocasiões o pecador escolhe entre diversas alternativas. A única incapacidade do homem degenerado é escolher não mais pecar. O pecado é uma gangrena que aprisiona o ser humano. Foi ele o grande responsável pela morte, pois, para Agostinho, Adão era detentor da imortalidade, antes da queda. E isso foi transmitido a todos que se seguiram. Sobre essa transmissão da natureza pecaminosa, escreveu Berkhof [1992, p.122]:

Através do vínculo orgânico entre Adão e seus descendentes é que aquele transmite a eles a sua natureza caída, juntamente com a culpa e a corrupção que lhe segue o rastro. Agostinho concebe a unidade da raça humana não de modo federal, e sim, realista. Toda a raça humana estava germinalmente presente no primeiro homem, pelo que também ela realmente pecou em Adão.

Temos, desta forma, em Agostinho, a relação entre a DT e a Soberana Graça, dando todo o crédito a Deus no processo de salvação e santificação. A renovação da vontade humana é uma obra exclusiva de Deus, pois, se não fosse o Senhor quem tomasse a iniciativa e nos redimisse por meio de Jesus Cristo, nunca estaríamos livres do domínio do pecado.

Neste contexto, é preciso entender o conceito de “graça irresistível” como algo que muda a vontade dos homens, e não que se impõe sobre ela. O ensino agostiniano é o de que a graça não viola a característica do ser humano, como se este não fosse um agente livre, mas, sim, que ela reconstrói o livre-arbítrio, perdido na Queda, ao ponto que o pecador regenerado agora é capaz de voltar-se para Deus.

A graça não é concedida porque alguém crê, mas, sim, para que se creia. Numa perspectiva escatológica do ensino de Agostinho, Gonzales [2002, p.213] preleciona a respeito do livre arbítrio:

Quando somos redimidos, a Graça de Deus passa a atuar em nós, levando-nos do estado miserável em que nos encontramos para um estado novo, em que a nossa liberdade é restaurada, tanto para pecar como para não pecar. No céu, por fim, teremos somente liberdade para não pecar. Como no caso anterior, isto não quer dizer que não teremos liberdade alguma. Ao contrário, na vida celestial, continuaremos tendo diversas alternativas, mas nenhuma delas será pecado.

A graça que atua no homem depravado e o santifica é concedida a todo aquele que foi por Deus predestinado para a salvação. Isso corrobora o que foi dito anteriormente: Depravação Total e Predestinação não podem ser desassociadas uma da outra; elas caminham intrinsecamente juntas pelas veredas da sã doutrina.

Embora Agostinho seja um dos teólogos mais eminentes, tanto para o segmento protestante quanto para o romanista – sendo canonizado pela Igreja Católica, chegando até mesmo a receber o título de Doutor da Igreja – o segmento católico rejeitou sua soteriologia e antropologia, preferindo adotar um viés moderado, que chega a confundir-se com o semi-pelagianismo.

Os ensinos de Pelágio foram considerados heréticos em mais de um sínodo, contudo, foi rechaçado somente no Concílio de Éfeso, no ano de 431. Surge, então, uma linha intermediária entre pelagianismo e agostinianismo. A esse respeito, disserta Bekhof [1992, p. 125]:

O semi-pelagianismo fez a fútil tentativa de evitar todas as dificuldades dando lugar tanto à graça divina como ao livre-arbítrio humano como fatores coordenados da renovação do homem, e alicerçando a predestinação sobre a fé e a obediência previstas. Não negava a corrupção humana, mas considerava que a natureza do homem fora enfraquecida ou enfermada, e não fatalmente prejudicada pela Queda. A natureza humana caída retém certo elemento de liberdade, em virtude do que pode cooperar com a graça divina. A regeneração é o produto conjunto de ambos os fatores, todavia seria realmente o homem, e não Deus, quem dá começo à obra.

As ideias semi-pelagianas se espalharam rapidamente, e, mesmo sendo também condenadas pelo Sínodo de Orange, em 529, a defesa do monergismo agostiniano nunca foi abraçada pelo romanismo, que omitia em seus sínodos a predestinação e a graça irresistível. No entanto, seria um exagero afirmar que o catolicismo é semi- pelagiano, pois em sua teologia há, indubitavelmente, uma maior contribuição de Agostinho. Considerando que seja possível rotular a teologia católica, poderíamos chama-la de semi-agostiniana.

4. A depravação total ensinada pelos reformadores

Quando Lutero, no século XVI, deu início ao que ficaria conhecido por Reforma Protestante, ele foi completamente impactado pelo seguinte verso, presente em Romanos 1:17: “O justo viverá pela fé”. Foi com esta palavra que o “papado” começou a morrer dentro daquele monge alemão, que também havia se tornado um excelente professor de exegese, em Wittenberg.

A justificação pela fé, para Lutero, era o resumo de toda a doutrina cristã. Os méritos humanos não são capazes de tornar nenhum ser humano justo diante de Deus. Lutero acreditava que a DT havia tomado o homem na queda. Na sua antropologia, afirma que nós somos possuidores de corpo e alma vivente, sendo que o pecado afetou tanto um como o outro. Para o reformador alemão, portanto, já nascemos com os desejos maus enraizados em nossos corações. Essa foi uma das grandes controvérsias que Lutero teve com o humanista Erasmo de Roterdã.

Igualmente, a teologia luterana contemplava um homem que peca por já ser um pecador, e não que se tornava à medida que cometia os seus delitos. Lutero explica, ainda, que o pecado original está encravado em cada pessoa, de forma que não podemos nos desatrelar dele. Por esta razão é que o pecado é pessoal e natural. O ser humano é um ser corrompido, envenenado e pecaminoso. Os efeitos contidos na queda e a herança que ela relegou a todos os humanos fizeram com que Lutero escrevesse a seguinte pérola:

Assim, Adão e Eva eram puros e saudáveis. Tinham uma visão tão aguçada que podiam enxergar através de uma parede e ouvidos tão bons que podiam ouvir qualquer coisa a 3 km de distância. Todos os animais eram-lhes obedientes: até mesmo o sol e a lua sorriam para eles. Mas depois o diabo veio e disse: “Vocês se tomarão como os deuses”, e assim por diante. Eles pensaram: “Deus é paciente. Que diferença faria uma maçã?”. E num estalar de dedos ela estava diante deles. E isso ainda nos está pendurando a todos pelo pescoço.3

Embora esta citação possua linguagem especulativa quanto às façanhas físicas do homem antes do lapsus,4 ela ilustra muito bem o entendimento luterano acerca da DT. A sua concepção de depravação está atrelada com o seu ensino acerca da justificação.

Desta forma, para o reformador, Deus aceita a justiça de Cristo, por isso, mesmo os nossos pecados não sendo removidos, eles não são mais denunciados contra nós. Esta é a clássica diferença entre o “tornar justo”, defendido por Agostinho, e o seu “declarar justo”. A justificação ocorre pela fé, somente, e quem a recebe passa a ser, ao mesmo tempo, justo e pecador. Sobre este paradoxo, Lutero afirma:

Somos verdadeira e totalmente pecadores, com respeito a nós mesmos e ao nosso primeiro nascimento. Inversamente, já que Cristo nos foi dado, somos santos e justos, totalmente. Então, de diferentes aspectos, somos considerados justos e pecadores ao mesmo tempo.

Assim, podemos concluir que Lutero aniquilou a teologia romanista da salvação meritória, ao doutrinar que a justificação se dá somente pela fé. Também podemos celebrar o seu legado na luta contra a falsa doutrina do livre-arbítrio.
Entendida a capacidade vinda de Deus para tomar decisões ordinárias, resta evidente que, para cumprirmos as responsabilidades no mundo, o livre-arbítrio permanece. O que ele é incapaz de realizar é fazer com que o homem salve a si mesmo. Nesse sentido, o livre-arbítrio está totalmente corrompido, tornando-se, assim, escravo do pecado e do próprio Satanás. Essa vontade escravizada nos faz desejar o que é mau. Apenas com o auxilio da Graça somos libertos. A tragédia da existência humana se resume no fato de que o homem não regenerado se considera livre, e, deste modo, se entrega cada vez mais àquilo que o aprisiona. Esse trágico quadro que Lutero pintou resume o seu ensinamento a respeito da DT.

Outro reformador, Ulrico Zuínglio, contemporâneo de Lutero, foi quem levou os baluartes da reforma para a Suíça. Ofuscado pelo reformador alemão, e também por João Calvino, muitos desconhecem o legado teológico de Zuínglio. Este não foi tão brilhante ao ponto de escrever algo semelhante às Institutas, porém, a sua militância em prol da Reforma e sua destreza em defendê-la e divulgá-la, mesmo sob o risco iminente de morte, faz com que o mesmo seja um notável personagem da historiografia protestante.

Tendo pequenas diferenças entre luteranos e calvinistas, Zuínglio também é adepto à predestinação, da justificação pela fé, da suficiência das Escrituras e, obviamente, considerava os seres humanos totalmente corrompidos. Para ele, o maior dos pecados era a idolatria, e o homem, em sua DT, estava completamente mergulhado nela – a idolatria aqui pode ser definida como atribuir às criaturas aquilo que pertence ao Criador.

Zuínglio via na reforma uma saída para a idolatria. Os pecados dos homens são tão fortes que estes corrompem até a adoração. Segundo afirmava, é impossível confiar em Deus e, ao mesmo tempo, nos santos, pois, ou se ama e se apega a criaturas, ou se ama e confia no Criador. Aqui, enxergamos a DT conduzindo a humanidade a desobedecer ao decálogo que, enfaticamente, proíbe a adoração a outros deuses.

No entanto, o grande sistematizador da DT é o francês João Calvino, conhecido por sua vasta produção literária e, sobretudo, por aquela que talvez seja a maior obra teológica do segmento reformado: “As Institutas da Religião Cristã”, escrita quando tinha apenas 26 anos de idade, e que foi revisada por ele próprio, posteriormente. Entretanto, é evidente que a literatura calvinista não se resume às Institutas. Ele produziu, também, catecismos, uma breve confissão de fé e diversos comentários bíblicos.

Sobre o relato da Queda, por exemplo, em Gênesis 3, Calvino registrou:

Neste capítulo, Moisés explica que o homem, depois de ter sido enganado por Satanás, se rebelou contra o seu Criador, tornou-se totalmente mudado e degenerado, a ponto de a imagem de Deus, no qual ele tinha sido formado, ter sido destruída. Ele, então, declara que o mundo inteiro, que tinha sido criado para o bem do homem, caiu junto com ele da sua posição primária, e que neste estado muito de sua excelência natural foi destruída.5

Esta degeneração fez com que os homens ficassem alienados em relação a Deus. A figura que Calvino mais gosta de usar para ilustrar esta alienação é a do labirinto, afirmando que, em razão do pecado, a humanidade encontra-se perdida nesse labirinto. Embora a imagem de Deus ainda se fizesse presente no ser-humano, ela foi completamente deteriorada/desfigurada. Por causa dessa desfiguração, o homem não é capaz de caminhar na direção da divindade e, por isso, mergulha no erro constante de fabricar ídolos. Nesse ponto, tal como Zuínglio, Calvino associa a idolatria à DT.
A DT levou a Calvino a estudar todos os aspectos da redenção em Cristo. Só que, antes de estudar a redenção, era necessário conhecer o motivo pelo qual Cristo precisou habitar neste mundo e morrer na cruz. Afinal, do que devemos ser salvos? Estes questionamentos levaram-no ao seguinte comentário:

Pois, a menos que percebamos nossa própria miséria indefesa, nunca saberemos o quanto precisamos do remédio que Cristo traz, nem viremos a ele com o amor ardoroso que lhe devemos. […] Para conhecer a verdadeira essência de Cristo, deve cada um de nós examinar-se cuidadosamente, e cada um deve saber-se condenado até ser vindicado por Cristo. Ninguém está isento. O profeta inclui a todos. Se Cristo não tivesse trazido ajuda, toda a raça humana pereceria.6

A DT em Calvino faz com que o pecado de Adão seja o nosso pecado, e, nisso, ele difere de Zuínglio, colocando as crianças sob essa sentença, culpadas por carregarem nelas mesmas a “semente do pecado”, mesmo que essa semente não tenha florescido. Diante de tal situação, a única alternativa é Cristo, e, neste sentido, Ele é a verdadeira Boa-Nova e esperança palatável para os homens caídos.

De acordo com Calvino, o pecado não é simplesmente o nome para os atos perversos que cometemos; antes, é a direção e a inclinação da própria natureza humana em sua condição decaída. Cometemos pecado porque somos pecadores. O pecado consiste tanto na perda da retidão original (privação) quanto na propensão poderosa de transbordar todo tipo de mal e delito específico (depravação). A essência do primeiro pecado de Adão, repetido em graus diversos em todos os seus descendentes, é o orgulho, a desobediência, a descrença, todos os quais resultam em ingratidão. [GEORGE, 1994, p.214].

Os escritos de Calvino não têm a intenção de nos deixar em completo desespero. Ele aponta para a nossa miserabilidade, para depois anunciar a redenção em Cristo. Assim, prepara a mensagem da salvação, pois, para recebermos as bênçãos do Senhor, faz-se necessário termos a noção de nossa incapacidade e pobreza espiritual.

5. A depravação total ensinada pelos puritanos

O Puritanismo foi um movimento que surgiu na Inglaterra, no século XVI, e que teve extensão no século XVII. Este movimento ambicionava purificar a Igreja Anglicana de todo o seu aparato que ainda continha a influência do catolicismo. Eles entendiam que a Igreja Inglesa deveria tomar os moldes das congregações reformadas do continente. Perseguido em seu país, muitos rumaram para o continente americano, formando as Treze Colônias, que mais tarde se tornariam a poderosa nação dos Estados Unidos da América.

Em meio aos muitos assuntos tratados acerca deste tema, C. S. Lewis se pronunciou:

Devemos imaginar estes Puritanos como o extremo oposto daqueles que se dizem puritanos hoje, imaginemo-los jovens, intensamente fortes, intelectuais, progressistas, muito atuais. Eles não eram avessos à bebidas com álcool; mesmo à cerveja, mas os bispos eram a sua aversão’. Puritanos fumavam (na época não sabiam dos efeitos danosos do fumo), bebiam (com moderação), caçavam, praticavam esportes, usavam roupas coloridas, faziam amor com suas esposas, tudo isto para a glória de Deus, o qual os colocou em posição de liberdade. (…) [Os primeiros puritanos eram] jovens, vorazes, intelectuais progressistas, muito elegantes e atualizados … [e] … não havia animosidade entre os puritanos e humanistas. Eles eram frequentemente as mesmas pessoas, e quase sempre o mesmo tipo de pessoa: os jovens no Movimento, os impacientes progressistas exigindo uma “limpeza purificadora”.7

Dentre o maior legado teológico dos Puritanos, a Confissão de Fé de Westminster talvez seja o maior. Por serem calvinistas, eles estavam de acordo com o ensino da DT. Estes eram homens muitos piedosos e notáveis, no entanto, há que se ressaltar que Richard Baxter, John Owen e Jonathan Edwards eram mentes que, indiscutivelmente, estavam acima da média, podendo ser considerados os teólogos de maior destaque entre toda a história do puritanismo. Para não soar redundante, foquemos no entendimento de Edwards a respeito da transmissão do pecado, Berkhof [1992, p. 142] explica a posição adotada por Edwards:

Estamos ligados a Adão como os ramos estão à árvore e, em conseqüência, o pecado dele também é o nosso, sendo-nos atribuído como tal. Essa teoria não lhe é peculiar, porém. E muito favorecida entre os luteranos, sendo igualmente difundida por eruditos reformados como H. B. Smith e W. G. T. Shedd. Alguns teólogos da Nova Inglaterra, como Woods é Tyler, defenderam a teoria de Placeu da imputação mediata. Por meio de sua conexão natural a Adão, o homem herda a depravação moral, e isso lhe é atribuído como culpa, tomando- o digno da condenação.

Passaremos, agora, a analisar a presença da DT no conteúdo das confissões de fé reformadas e, assim, encerrarmos o assunto com a certeza de que esta doutrina está em ampla conformidade com a ortodoxia, ressaltando o perigo de que uma antropologia que não leve em consideração a DT não é uma antropologia fundamentada nas Escrituras.

6. A depravação total nas confissões reformadas


• Confissão Belga, 1561, artigo 14:

Cremos que Deus criou o homem do pó da terra1, e o fez e formou conforme sua imagem e semelhança: bom, justo e santo, capaz de concordar, em tudo, com a vontade de Deus. Mas, quando o homem estava naquela posição excelente, ele não a valorizou e não a reconheceu. Dando ouvidos às palavras do diabo, submeteu-se por livre vontade ao pecado e assim à morte e à maldição3. Pois transgrediu o mandamento da vida, que tinha recebido e, pelo pecado, separou-se de Deus, que era sua verdadeira vida. Assim ele corrompeu toda a sua natureza e mereceu a morte corporal e espiritual4. Tornando-se ímpio, perverso e corrupto em todas as suas práticas, ele perdeu todos os dons excelentes5, que tinha recebido de Deus.

• Catecismo de Heidelberg, 1563, questão 7:

De onde vem, então, esta natureza corrompida do homem? Resposta: Da queda e desobediência de nossos primeiros pais, Adão e Eva, no paraíso. Ali, nossa natureza tornou-se tão envenenada, que todos nós somos concebidos e nascidos em pecado. (1) Gn 3; Rm 5:12,18,19. (2) Sl 51:5; Jo 3:6.

• Segunda Confissão Helvética, 1566, artigo 8:

Por pecado entendemos a corrupção inata do homem, que se comunicou ou propagou de nossos primeiros pais, a todos nós, pela qual nós – mergulhados em más concupiscências, avessos a todo o bem, inclinados a todo o mal, cheios de toda impiedade, de descrenças, de desprezo e de ódio a Deus – nada de bom podemos fazer, e, até, nem ao menos podemos pensar por nós mesmos. Além disso, à medida que passam os anos, por pensamentos, palavras e obras más, contrárias à lei de Deus, produzimos frutos corrompidos, dignos de uma árvore má (Mat 12,33 ss).

• Cânones de Dort, 1619, Capítulo 1:

Todos os homens pecaram em Adão, estão debaixo da maldição de Deus e são condenados à morte eterna. Por isso Deus não teria feito injustiça a ninguém se Ele tivesse resolvido deixar toda a raça humana no pecado e sob a maldição e condená-la por causa do seu pecado, de acordo com estas palavras do apóstolo: “… para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus…”, e:”…o salário do pecado é a morte…” (Rom. 3:19,23; 6:23).

• Confissão de Fé de Westminster, 1647, capítulo 6:

I. Nossos primeiros pais, seduzidos pela astúcia e tentação de Satanás, pecaram, comendo do fruto proibido. Segundo o seu sábio e santo conselho, foi Deus servido permitir este pecado deles, havendo determinado ordená-lo para a sua própria glória. Gen. 3:13; II Cor. 11:3; Rom. 11:32 e 5:20-21.

II. Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma. Gen. 3:6-8; Rom. 3:23; Gen. 2:17; Ef. 2:1-3; Rom. 5:12; Gen. 6:5; Jer. 17:9; Tito 1:15; Rom.3:10-18.

III. Sendo eles o tronco de toda a humanidade, o delito dos seus pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles procede por geração ordinária. At. 17:26; Gn. 2:17; Rm. 5:17, 15-19; ICo. 15:21-22,45, 49; Sl.51:5; Gn.5:3; João3:6.

Referências bibliográficas

BEEKE, Joel R. Harmonia das Confissões Reformadas. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006.

BERKHOF, Louis. A História das Doutrinas Cristãs. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas,1992.

CALVINO, João. As Institutas. São Paulo: Volume 1, Editora Cultura Cristã,2006.

EUSÉBIO. História Eclesiástica. São Paulo: Editora Novo Século. 2002.
 
GONZÁLEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo. São Paulo: Volumes 1. Edições Vida Nova, 2002.

GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.
HANKO, Herman. Retratos de Santos Fiéis. Dublin. Firelandy Missions.2013.

KELLY, J.N.D. Patrística. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009.

LUTERO, Martinho. Nascido Escravo. São José dos Campos-SP: Editora Fiel, 2007.

RIDDERBOS, Herman. A Teologia do Apóstolo Paulo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.

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1Monergismo, um termo derivado da expressão grega “trabalhar sozinho”, indicando que a Salvação é uma obra exclusivamente divina, sem ajuda do homem. Seu oposto é o Sinergismo (trabalhar em conjunto).
2O traducionismo ensina que a alma de um homem é dada a ele junto com seu corpo pelos seus pais e não é especialmente criada por Deus no momento da concepção.
3Citado por Timothy George em Teologia dos Reformadores.
4Do latim: queda.
5CALVINO, João. Commentary on Genesis. (http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom01.html).
6Comentário de Isaías 53:6.
7Disponível em

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SUGESTÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR:

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