Uma declaração de fé e vida

0
1654

Muitos leitores deste Boletim terão algum conhecimento dos debates acirrados dentro da Igreja Presbiteriana (EUA) [PCUSA] sobre questões de ética sexual. A polêmica continua, e a “Declaração” que é reproduzida abaixo é uma significativa contribuição que merece uma audiência muito além dos limites dessa Igreja. A declaração foi assinada em uma reunião em janeiro de 1994 por líderes de onze organizações evangélicas e renovadas da Igreja, incluindo, por exemplo, os Presbíteros Presbiterianos em Oração, a Comunhão de Pastores Evangélicos da PCUSA, o Comitê Presbiteriano de Leigos e o Centro Presbiteriano de Estudos de Missões.

A forma da “Declaração” é paralela à Declaração de Barmen de 1934 (que faz parte do Livro de Confissões da PC USA). Barmen foi a resposta da Igreja Confessante, proveniente das tradições Reformadas e Luterana, à síntese do nazismo e do cristianismo promovido pelos “Cristãos Alemães” que apoiaram Hitler. É amplamente considerada como uma das mais nobres declarações confessionais modernas. Seu texto pode ser encontrado em J. H. Leith, Creeds of the Churches (Richmond, VA, 1973), W. Niesel, Reformed Symbolics (Edimburgo, 1962) e A.C. Cochrane, Reformed Confessions of the 16th Century (Londres, 1966).

Os que assinaram essa “Declaração” não estão sozinhos em discernir paralelos com a perversão do cristianismo pelos cristãos alemães com a tendência generalizada de hoje em permitir que os valores seculares e pagãos contemporâneos influenciem a ética cristã. Contra essas tendências insidiosas, esta “Declaração” soa como um protesto essencial.

D.F.W.

UMA DECLARAÇÃO DE FÉ E VIDA

 I

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra. (2Timóteo 3: 16-17 NVI).

Afirmamos que as Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento são nossa única autoridade de fé e prática. As Escrituras mediam para nós a Palavra viva, Jesus Cristo, pelo poder do Espírito Santo, que sempre fala e trabalha em harmonia com a Palavra escrita. Transmitida a nós pela comunhão dos santos, resumida em nossas confissões de fé, estudada e aberta a nós por professores e pregadores na comunidade da Igreja, as Escrituras são sempre confiáveis, pois vivemos diariamente por suas verdades. Tudo o que é necessário para a fé e para a vida é declarado explicitamente na Escritura ou pode ser deduzido dela e afirmamos que ela fornece sua própria interpretação. Por ser ela a revelação de Deus não é limitada pela cultura ou pelo tempo. A Bíblia é, portanto, a autoridade a que somos chamados a obedecer em cada circunstância.

Portanto, rejeitamos essas falsas doutrinas:

  • que o significado da Escritura é apenas uma questão de interpretação individual, separada de sua interpretação de suas próprias palavras, de seu contexto histórico, ou à parte da fé apostólica e das confissões da Igreja universal;
  • devido à distância histórica, cultural e científica do nosso tempo, a Bíblia não é mais aplicável;
  • que o Espírito Santo do Deus Trino fala de forma contrária a Jesus Cristo como ele é mediado a nós através da Palavra escrita na Bíblia;
  • que a consciência humana, sentimento, sabedoria, pesquisa científica ou conhecimento médico, psicológico e sociológico são suficientes em si mesmos, à parte – ou mesmo contra – a Bíblia, para discernir a vontade de Deus.

II

Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o corpo de vocês. (1Coríntios 6.19-20 NVI).

Afirmamos que as Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento ensinam que pertencemos – de corpo e alma, na vida e na morte – não a nós mesmos, mas a Deus. Deus é a Palavra eterna pela qual fomos criados. Jesus Cristo é o Verbo encarnado, por cujo sacrifício somos redimidos, e é a Palavra viva que manifesta a nova humanidade em sua própria vida e na nossa. Embora fosse celibatário, nada lhe faltava para a plena comunhão com Deus e com a humanidade. É pelo poder de seu Espírito Santo que somos capazes de segui-lo como discípulos obedientes, rejeitando as paixões de nossa natureza pecaminosa e escolhendo, em vez disso, viver uma vida santa em nossa conduta. O Trino Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – é soberano sobre todas as circunstâncias de nossas vidas, e somente em comunhão com este Deus podemos ser curados.

Portanto, rejeitamos as falsas doutrinas:

  • que podemos reivindicar autonomia e domínio sobre nossos próprios corpos;
  • que a relação sexual é necessária para a integridade pessoal ou plena comunhão entre as pessoas;
  • que não é possível controlar e disciplinar a expressão de nossos desejos sexuais;
  • que podemos ser discípulos fiéis de Jesus Cristo, independentemente do poder transformador de seu Espírito, que nos permite seguir seu padrão de obediência a Deus.

III

[Jesus] respondeu: “Vocês não leram que, no princípio, o Criador os fez homem e mulher e disse: Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe”. (Mateus 19.4-6 NVI).

Afirmamos que as Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento nos dizem claramente que Deus em seu amor por nós nos criou homem e mulher, e declarou sua criação “boa”. A Escritura nos diz que Deus pretendeu desde o início, como pretende hoje, apesar de nosso pecado e da queda de toda a criação, que nossos desejos sexuais fossem satisfeitos apenas no contexto do casamento de uma mulher e um homem, em uma fiel e alegre união de uma só carne. A Escritura nos diz que o casamento de marido e mulher tem o propósito de ajuda mútua, salvaguardando, sustentando e desenvolvendo seu caráter moral e espiritual, e para a propagação de filhos e a sua criação na disciplina e instrução no Senhor. Além disso, Deus condenou expressamente as relações sexuais fora do casamento. Essa proibição se aplica a pessoas casadas que cometem adultério, ao relacionamento sexual entre homens e mulheres solteiros e, porque a ordem de Deus pretende que o relacionamento sexual seja entre homem e mulher, à prática homossexual, uma perversão da ordem criada por Deus.

Portanto, rejeitamos as falsas doutrinas:

  • que o corpo, os desejos sexuais do homem e da mulher um pelo outro e as instituições do casamento e da família são estranhos à ordem criada por Deus; que são questões indiferentes em nossa nova vida em Jesus Cristo; e que temos o direito de alterá-los ou redefini-los arbitrariamente de acordo com nossas circunstâncias sociais ou desejos pessoais;
  • que as relações sexuais requerem apenas consentimento mútuo, sem levar em conta os laços bíblicos do casamento;
  • que Deus deseja que as pessoas se envolvam em atos adúlteros ou relação sexual homossexual ou outra relação sexual não conjugal, e que Deus declara tal relação como um “bom presente”.
  • que a compaixão e a justiça cristã exigem que a Igreja tolere relações sexuais adúlteras e homossexuais e outras relações sexuais não conjugais entre seus membros, e considere aqueles que se envolvem em tais práticas como vivendo um modo de vida que demonstra o evangelho cristão e os prepara para a ordenação como presbíteros, diáconos ou ministros da Palavra e do sacramento.

IV

Por isso, temos o propósito de lhe agradar, quer estejamos no corpo, quer o deixemos. Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas quer sejam más. (2Coríntios 5.9-10 NVI).

Afirmamos que as Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento testificam que todos nós somos feitos à imagem de Deus, responsáveis perante ele, que de Deus não se zomba, e ele nos responsabiliza por sua vontade revelada a nós em sua Palavra. A Bíblia nos avisa que Deus traz seu julgamento, tanto presente quanto futuro, sobre aqueles que o desafiam, mas as Escrituras também prometem que Deus perdoa e transforma todos os que se voltam para ele em arrependimento e confiança.

Portanto, rejeitamos as falsas doutrinas:

  • que a atividade sexual persistente e impenitente que é proibida pelas Escrituras é aceitável a Deus e livre de seu julgamento presente e futuro;
  • que algumas práticas, embora sejam contrárias às Escrituras, estão tão enraizadas na personalidade que suas expressões são inevitáveis e não podem ser alteradas pelo poder de Deus.

Convidamos todos aqueles que afirmam as verdades e rejeitam os erros apresentados nesta Declaração e que reconhecem esses ensinamentos claros e consistentes da Palavra de Deus, a relembrar esses ensinamentos enquanto proclamam o evangelho e vivem seus relacionamentos em comunidade. Que nosso propósito seja que o povo de Deus seja instruído, advertido e corrigido, para que cresça até a maturidade espiritual e que possa viver uma vida santa e irrepreensível diante de nosso Senhor em amor.

Graças a Deus nosso Pai, e ao Senhor Jesus Cristo, que se entregou por todos nós, para que por graça, por meio da obra do Espírito Santo, sejamos salvos pela fé.

Que o próprio Deus, o Deus da paz, o santifique totalmente. Que todo o seu espírito, alma e corpo sejam mantidos sem culpa na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que te chama é fiel e fará isso. (1Tessalonicenses 5.24 NVI).

“A Declaration for Faith and Life”, Scottish Bulletin of Evangelical Theology 12.1 (Spring 1994): 3-7.

Tradução: Eloize Carrenho Santos

FAÇA UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here