Um mundo complicado – Parte 2

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2. UM MUNDO SEM AFETO. MAS DEUS É AMOR
HANANIAS: DEUS É AMOR
Afeto é produto cada vez mais raro e caro neste mundo multicultural. Mas essas características não são privilégio de uma sociedade pluralizada e globalizada na individualização exagerada do homem pós-moderno. Desde que o homem pecou ele passou a olhar para si mesmo como o centro de todas as atenções, deplorando os que o cercam e vivendo hedonisticamente à cata de um amor a ser recebido de forma inconteste por todos e tudo que o cerca. No entanto, ele próprio não o faz em relação aos demais. Ama-se a si próprio, mas com amor enganado e desfigurado, esvaziado de quaisquer contornos de afeto. Ao tentar se relacionar com as demais pessoas, o máximo que consegue fazer é chegar ao mesmo patamar de seus sentimentos por si mesmo.

Foi exatamente isso que Jesus disse “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”1  Em outras palavras, nossa capacidade de amar, demonstrar o afeto mais profundo, é limitada pela capacidade de termos afeto profundo por nós mesmos. Como líderes da causa do Senhor numa sociedade multicultural, precisamos lidar com essas condições humanas nas demais pessoas e em nós mesmos, uma vez que estamos inseridos na mesma sociedade e carecemos da mesma graça e misericórdia que somente procedem do Senhor Deus.

Uma das maiores dificuldades que as pessoas que nos cercam no ambiente do reino de Deus tem é o fato de que passamos a nos comportar em relação à Palavra de Deus com a mesma carga de desafeto com que lidamos com as pessoas. Em outras palavras, não amamos a nós e ao próximo porque não amamos suficientemente a Palavra de Deus. Ao trabalhar essa questão com respeito aos filhos de Deus, aqueles que precisamos liderar para o Senhor, Lutero se deparou com esse desamor pelas Escrituras, e buscou fazer algo que ativamente nos auxiliasse. Vejamos a nota de Shaw:

Lutero ajudou a restaurar o amor pela verdade bíblica ao colocar a cruz de Cristo no centro da teologia cristã. Durante séculos, a teologia medieval tentou conciliar a filosofia grega com a teologia genuinamente cristã. O estado doentio da Igreja fez Lutero ver que essa tentativa havia fracassado. Enquanto estudava as epístolas de Romanos e Coríntios, ele descobriu um fato surpreendente: Deus trabalha usando opostos. A única salvação segura é aquela que renuncia às obras. A força de Cristo foi revelada na morte de Cristo. Quando estamos fracos é que somos fortes. Lutero viu que o Evangelho estava recheado de paradoxos.2

Ora, por esse trecho podemos inferir que o desafeto do cristão pela Palavra de Deus surge num ambiente pseudocristão em que as pessoas são enganadas por uma liderança vaga e sem substância por um lado, e por si mesmas por outro lado. Uma vez que a cruz de Cristo perde sua centralidade na pregação, na comunhão e na vida prática das pessoas, seus sentimentos naturais, desapegados do bem e do verdadeiro amor, tendem a se perpetuar, mesmo que a pessoa professe ser um cristão verdadeiro.

Uma iniciativa pessoal e, até, coletiva, pode surgir. Nesse caso, os esforços serão todos superficiais, posto que movidos apenas por uma linha de ação estabelecida por mera cognição, em que a vontade de o homem ser melhor para si e para os demais pode gerar algum esforço. No entanto, enquanto o homem se mantiver no centro – no lugar em que deveria estar o Cristo crucificado – nada disso haverá de render bons frutos, uma vez que, de nós mesmos, não podemos alcançar nada que nos transforme.

Russell Shedd traça outro interessante pensamento, quando estabelece que, ao contrário do que o mundo normalmente faz, a qualidade mais importante a ser seguida pelo líder é exatamente o amor. Se nos lembrarmos, inclusive, o apóstolo do amor, João, diz que a premissa necessária para a permanência em Deus é o amor mútuo,3 e prossegue dizendo que esse é um atributo de Deus, de tal forma íntimo, que transnomina seu uso, igualando Deus ao amor como forma intrínseca ao próprio ser divino.4 Diz Shedd:

Existe alguma qualidade de que um líder careça mais do que o amor? A civilização ocidental se deteriora rapidamente devido ao egoísmo que penetra nossa cultura atual. O “fazer algo de forma correta” tomou o lugar do “fazer o bem”. Essa é a nova prioridade dos nossos dias, colocando o amor em segundo plano. O controle de qualidade se tornou mais importante do que o sacrifício em favor de outras pessoas. O “salvar a vida” por meio da “perda dela” por Cristo e pelos necessitados não é mais algo popular, atualmente, embora seja o ponto central daquilo que Jesus exige de seus seguidores (Lc 9.23-24). O amor é mais importante no Novo Testamento do que os dons espirituais ou o conhecimento (1Co 13; 8.1). Uma liderança sem amor é como um corpo sem o coração. Morta e sem sentido, ela promove vaidade, em vez de maturidade cristã.5

Essa civilização ocidental a que refere-se o autor nada mais é que a sociedade multicultural de nossos dias. O homem que nela circula é fragmentado e cheio de mazelas que não lhe permitem olhar para dentro de si e perceber o quão nefastas são suas atitudes, quase todas elas coroadas de enfeites alcunhados de liberdade, individualização, bem comum, democracia, etc. A maioria desses termos encontraria boa condição em nós, não fôssemos caídos como somos. Enquanto o homem pensa viver dessa forma, é na verdade um escravo de seus desejos e pecados, alguém que passa a ser um número perdido na multidão tutelada e limitada pelos Estados anticristãos, maus em seus caminhos pervertidos, aprisionadores de corações e vontades alheias tão logo tenham chance de fazê-lo.

Ao prosseguirmos temos que essa pessoa, que não se ama, não tem traços de autoestima que lhe valham a vida. Um dos cuidados necessários é que, ao nos convertermos, precisamos abandonar os vícios que antes nos dominavam, inclusive os de caráter interior. Quando isso não acontece, ocorre um tipo estranho de cristão, incompleto, como nos diz Shaw: “O segundo tipo é o cristão neurótico ou nervoso, que sofre de baixíssima autoestima. Apesar das promessas encontradas nos Evangelhos, os cristãos neuróticos se sentem fracassados e se depreciam”.6 E prossegue nos mostrando onde isso pode levar o cristão, mesmo o sincero em suas intenções, quando diz que os mesmos: “Questionam a profundidade do amor de Deus por eles. Criticam os outros e a si mesmos”.7

Embora entenda que parte considerável desse problema recaia sobre os ombros de cada cristão individualmente, o desafeto sofrido por nós parece ter, nas palavras do dr. Shedd, um peso de culpa acentuado sobre as ações e atitudes dos formadores de opinião e dos líderes cristãos: “Os pastores e os professores de seminários necessitam diariamente lembrar à igreja aos valores cristãos que fazem dos crentes pessoas diferentes dos mundanos”.8 Ao mesmo tempo em que isso divide o ônus, gera carga de responsabilidade sobre os líderes e elimina quaisquer possibilidades de isenção, seja sobre líderes, seja sobre liderados. Entendo, assim como ele, que

Uma comunhão de amor não cresce automaticamente na igreja. É por isso que o Novo Testamento repetidamente exorta aos seus leitores aos atos mútuos de amor, de encorajamento e de perdão. Esses são apenas alguns dos valores mais altos que precisam ser continuamente afirmados pelos líderes na família de Deus.9

Isso reforça a ideia de que cabe à liderança estabelecer a ponte entre o liderado neste universo multicultural e o líder que Deus levanta para guiá-lo e alimentá-lo em sua peregrinação neste mundo. E isso, para ele, não deve ser doloroso, pois se o amor se fizer presente o custo para tal esforço de crescimento valerá tanto a pena que o constrangimento por causa do amor de Cristo gerará lugar ao amor e aos afetos segundo o desejo do coração de Deus. Paulo, inclusive, diz que os irmãos oravam com grande afeto por aqueles que demonstravam coração liberal e amoroso.10

John Stott avançou nesse pensamento, colocando cada cristão comprometido com o Senhor, e aí encaixo os líderes da Igreja do Senhor, como uma espécie de caminho de mão dupla, em que em determinadas circunstâncias levamos Cristo às pessoas, por amor a Cristo, servindo-as como se a ele próprio; em outras circunstâncias, no entanto, precisamos agir em nome de Cristo, assumindo seu papel, levando Cristo às pessoas através de nossas vidas transformadas. Assim ele nos comunica seu pensamento:

De um lado, agimos em nome de Cristo, como se fôssemos Cristo, e de outro lado, agimos por amor a Cristo, como se as outras pessoas fossem o próprio Cristo, e nós estivéssemos servindo a ele.11

Hananias era um jovem servo de Deus que se viu lançado numa sociedade absurdamente multicultural, por circunstâncias que talvez desconhecesse. O fato é que a Babilônia era multicultural pela importação forçada de gente de muitas partes do mundo mais conhecido no Oriente Médio e Próximo de seus dias, enquanto nossas grandes cidades hoje são multiculturais pelos modernos movimentos migratórios de bolsões étnicos e sociais. Não importa: o resultado pode ser tão devastador hoje quanto o foi no passado. Mas o jovem que se viu em meio a um mundo sem paz vivia em paz interior completa e demonstrou isso pelo testemunhar de sua fé, sem jamais abrir mão de seu Deus e Senhor, mesmo em face da morte. Ao ser iminente a sua morte, ele compunha o trio que disse com a maior tranquilidade que tanto a morte quanto a vida estavam na mão de Deus e que a sua ação soberana era inquestionável.12

Nosso mundo é totalmente desprovido do verdadeiro amor e afeto, e nesse contexto estamos inseridos. Antes de nos lamentarmos, cumpre-nos olhar para cima, para o autor e consumador de nossa fé13  e estarmos plenamente convictos de que vivemos e somos diferentes de tudo que nos cerca por causa do amor de Deus.14 O mesmo amor pelo qual somos chamados a liderar neste mundo.

3. NUM MUNDO IMPESSOAL, QUEM É IGUAL A DEUS?
MISAEL: QUEM É IGUAL A DEUS?
“Cada um por si, e Deus por todos”, ditado bem usado no Brasil de hoje. Talvez seja uma paródia do velho dito dos Três Mosqueteiros, “Um por todos, e todos por um”, em que Alexandre Dumas parece tornar mais nobres as ações dos heróis galanteadores trazidos a lume em meados de 1844. Numa comparação curiosa, seriam três os mosqueteiros, mas em verdade eram quatro, quando D’Artagnan se junta a Athos, Porthos e Aramis em suas querelas e proibidos duelos contra os homens do Cardeal Richelieu. D’Artagnan rouba um pouco da cena, com sua liberdade provinciana e sua impetuosidade rural. Nossos heróis da Bíblia eram quatro, também. Mas três deles são mais comedidos, enquanto Daniel é o mais citado e o mais atirado em suas convicções públicas. Não era provinciano, mas era de uma cultura tida por menos avançada naqueles dias.

Comparações e curiosidades à parte, ambos os grupos tinham mais um grande detalhe em comum: eram eles contra todos! A impressão que temos da Babilônia de cerca de 2,5 mil anos atrás e da França de há cerca de 400 anos parece ser a mesma da sociedade contemporânea: todos correndo atrás de algo, cada um por seu próprio caminho, desgovernados, desmotivados, tentando sobreviver a uma calamidade anunciada, mas da qual cada um quer fugir por seus próprios meios. Na novela de Dumas e na narrativa bíblica, os quartetos eram a única mostra de coesão em torno de um ideal maior que o do indivíduo. A abissal diferença é que Dumas escreveu uma obra de arte, enquanto o registro de Daniel foi inspirada pelo próprio Deus, sendo verdade inerrante para nós.

A impessoalidade em que nos vemos mergulhados gera conflitos e necessidades na liderança que Deus estabelece para os seus neste ambiente multicultural. Nossa raça se arvora o direito de bater no peito e se ver quase um igual a Deus – isso quando ainda crê em sua existência. A leitura de Lawrence nos leva a refletir a respeito do que Cristo fez por nós enquanto encarnado, liderando um grupo de pessoas a partir das quais estabeleceu o seu exemplo de liderança, na expectativa de que nós repliquemos tal forma de continuidade de suas ações, agora como seu corpo, estabelecido neste mundo através da Igreja com a clara intenção de prosseguir nos atos e na própria liderança do Cabeça, que é ele próprio. Diz o autor que “Liderar pelo exemplo é o maior privilégio existente, por isso torne-se semelhante a Cristo e ajude a igreja a fazer o mesmo”.15 A admoestação é uma lembrança dos atos de liderança de Cristo e uma exortação a que façamos o mesmo.

Uma das contradições da pós-modernidade multicultural está em que o homem desacredita em Deus ao mesmo tempo em que quer assumir seu papel. É quase uma esquizofrenia de raça. Isaías nos transcreve uma sentença proferida por Deus em que ele pergunta quem poderia ser igual a ele: “A quem, pois, me comparareis para que eu lhe seja igual? — diz o Santo.”16  Já Lawrence nos lembra as palavras de Paulo quando estabelece uma relação comparativa em oposição semântica entre as sabedorias humana e divina, e a loucura como vista a partir de ângulos opostos: o não cristão e o cristão:

Paulo nos disse que sabedoria é o próprio Cristo (1Co 1.30), a qual é demonstrada por meio das coisas loucas desse mundo, especialmente a cruz. Sabedoria é Cristo crucificado, loucura para o mundo, mas a verdadeira sabedoria para os que compreendem como Deus pensa.17

Misael pergunta à Babilônia de seus dias “Quem é igual a Deus?” E cada cristão pós-moderno deve carregar essa pergunta entre seus atributos espirituais, perguntando-se e ao mundo a cada segundo de fôlego quem se arvora o direito de ser como Deus, igual a ele. Nossa impessoalidade contrasta abertamente com a iniciativa divina de nos congregar e nos dar o senso de família a partir do qual somos todos um só em Cristo Jesus, ao invés de muitos em diversos e afastados caminhos.

A liderança do Senhor num ambiente multicultural deve se lembrar de suas raízes altamente fincadas no próprio Jesus, nossa rocha, no Senhor, nosso escudo. Ele nos guarda e nos ampara como família, como seres comungantes, mesmo sem desprezar o que somos como indivíduo. Precisamos voltar aos valores da pessoalidade e da coletividade, valores tão apagados em nossos dias que as igrejas locais têm dificuldade de ensinar tais valores aos seus membros, que resistem aferrados à ideia da individualidade impessoal.Não há outro como Deus. Essa é a nossa resposta ao individualismo exacerbado, à ideia de andar sozinhos na jornada deste mundo. É de John Stott a frase que diz que “Num momento podemos comportar-nos como Deus, a cuja imagem fomos criados, para logo depois agirmos como animais, dos quais deveríamos diferir completamente.”18

A resposta de Deus a este mundo multicultural é ele mesmo! Ninguém, nada se iguala a ele. Portanto, tudo que há é menos que ele e não pode se aproximar de sua glória e poder. Cabe à liderança cristã neste mundo desfigurado e absolutamente impessoal apontar para a cruz de Cristo e mostrar um caminho mais excelente, um caminho cujo final não leva a um vazio existencial, mas a um preenchimento de alma. O mundo anseia por algo divino em seu coração. Ao mesmo tempo rejeita o chamado de Deus. Mas somente ele será o subtrator da dor da impessoalidade absurda em que nos encontramos enquanto sociedade.

Assim como Misael, precisamos carregar em nossos nomes o sema divino. Aliás, Paulo nos mostra que Deus nos concede seu nome, uma vez que somos parte de sua família.19 Em outras palavras, se Misael carregava em seu nome a sentença “Quem é igual a Deus?” nós devemos carregar em nós a marca do vencedor, aquele que tem sobre si o nome do próprio Deus!20

4. UM MUNDO EM DESESPERO. MAS DEUS AJUDA

AZARIAS: DEUS AJUDA
O mundo multicultural no qual nos encontramos – e onde o líder levantado por Deus terá que exercer seu ministério e liderança – é um mundo absolutamente descontrolado e desesperado, no qual a fragmentação do ser humano chega às raias do insustentável, embora ele pareça crer que as coisas estão em relativa paz. Desespero e desesperança têm base na mesma raiz em nosso vernáculo. Desesperar é um verbo de ação ampla e vai além de uma comoção ou desconforto severo. É perder ou tirar a esperança, mas é também causar a perda de esperança. É agir contra o outro, mas pronominalmente agir contra si mesmo. É um verbo que pode ser transitivo direto, transitivo indireto, intransitivo ou pronominal: em suma, age em todo o espectro possível em nossa língua. Para todas as definições básicas e possíveis, no entanto,  aguarda-se uma resposta comum ao final: a necessidade do socorro. E sabemos, pela palavra de Deus, quem é o nosso socorro bem presente em todas as nossas tribulações, o que inclui o desespero humano: Deus, que é nosso refúgio constante e nossa fortaleza mais segura. 21

A própria palavra de Deus qualifica como entristecidos aqueles que não têm esperança,22 bem como mostra que estar sem Cristo e afastado da comunhão é fator preponderante para se viver sem esperança,23 enquanto, em oposição a isso, há promessa de os filhos de Deus serem ricos de esperança, uma vez que somos filhos do Deus da esperança.24

Creio ser com base numa dessas perspectivas que o dr. Shedd faz uma conexão aberta entre serviço, negação, ajuda, sempre em favor do próximo que carece da esperança que somente pode ser considerada e encontrada no próprio Deus. No trecho abaixo, particularmente, faço uma diferenciação entre o termo “líder servil”, usado pelo autor, e a expressão “líder que serve”. Embora possamos entender que serve e servil procedem da mesma raiz, o termo servil ganhou com o tempo uma conotação negativa, de submissão indiscriminada, de bajulação, de subserviência. Servir é nobre e digno: ser servil carrega o peso da torpeza, da vileza, tanto que o termo era utilizado em relação aos trabalhos e atividades proibidas nos domingos e dias santos. Mas o contexto da citação é mais que aplicável a um líder que Deus usa no meio de nossa multiculturalidade.

Como se contrasta a perspectiva de um homem em Cristo. Um líder nega a si mesmo, sofre e pode até morrer para ajudar ao próximo por causa do constrangimento do amor de Cristo (2Co 5.14). A realização, a fama e a recompensa que acompanham a liderança nesta vida, são secundárias. Como Moisés, um líder servil prefere “ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado,” porque “contempla o galardão” (Hb 11.25,26).25

A liderança de pessoas neste ambiente inóspito à palavra de Deus passa necessariamente pela pregação da palavra, pelo cuidado com o outro, pela descoberta das amarguras e desesperanças, a fim de conduzir essas vidas a um encontro real e definitivo com Deus, a ponto de elas se sentirem tratadas pelo próprio Senhor. Isso é elemento do pastoreamento das vidas que Deus coloca diante de nós. A liderança precisa seguir o modelo de Cristo e os ditames de sua palavra, a fim de sermos bem sucedidos naquilo que Deus nos confiou enquanto líderes de partes de seu rebanho. Ao final de tudo, concordando com Lawrence, gerar saúde espiritual nas ovelhas do Senhor e perceber seu amadurecimento em Cristo deve ser o que nos move a liderá-las. Diz ele:

À medida que pastoreamos nossas ovelhas sob a direção de Cristo, precisamos guiar cada uma delas à saúde espiritual e à visão de trazer outros a Cristo, de ajudá-los a amadurecer em Cristo e de ensiná-los a fazer o mesmo por aqueles a quem influenciam.26

Alguns traços do homem sem esperança não podem fazer parte da estrutura do líder que serve ao povo de Deus. A soberba é um deles, e precisamos lutar contra essa característica inata da raça caída a cada dia de nossa vida. Voltando ao dr. Shedd, vemos nele a preocupação em levantar os episódios em que Pedro precisou enfrentar e lutar contra isso, mas como, ao final de seu ministério e vida, isso já era trabalhado em seu coração e em seu testemunho:

Pedro superou a sua soberba, mas não sem a ajuda de Deus. Quando ele sugeriu o levantar de três tendas no monte da Transfiguração, Deus o repreendeu. Quando pisou fora do barco na tempestade no mar da Galileia, começou a afundar, até que o Senhor estendeu-lhe a mão. Confiante, declarara sua lealdade, mas, três vezes negando a Jesus com pragas, ajudaram-no imensamente a reconhecer sua fraqueza e a depender mais seriamente do Senhor (note as frases: “Tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo” (Jo 21.17). Pedro, em sua idade avançada, escreveu: “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte” (1Pe 5.6). A tradição informa-nos que Pedro morreu crucificado em Roma. Em sua humildade, ele rejeitou ser crucificado como o seu Senhor tinha sido, então, ele pediu o direito de morrer na cruz de cabeça para baixo.27

Importante notar que o autor destaca que Pedro conseguiu, sim, avançar nessa questão, mas que a ajuda de Deus foi fundamental para sua vitória.

Desespero gera confusão. Essa é uma preocupação que precisamos ter em relação ao que é trazido por Deus para nossa liderança neste ambiente sem estrutura e totalmente sem perspectivas. Vitz, citado na obra de Shaw, diz que o caminho é o retorno às fontes espirituais do cristianismo histórico, o que eu chamaria de cristianismo cristocêntrico, se é que podemos considerar outra expressão de cristianismo como verdadeira.

Como a Igreja pode ajudar esses peregrinos perdidos e confusos a encontrar a verdadeira espiritualidade? Vitz está convencido de que a grande necessidade do momento é voltarmos para as fontes espirituais do cristianismo histórico, que ensina “muito simplesmente que a única saída é perder o eu, despojar-se dele e, com mais disposição, tornar-se um […] objeto no amor e no serviço de Deus.”28

Foi o próprio Jesus quem disse que a verdade liberta.29 Logo, pregando a verdade, teremos todas as possibilidades de ver, mediante a ação do Espírito Santo, Deus agindo contra a desesperança humana em nossa geração e naqueles que lideramos para o Senhor.

Azarias era um jovem filho do Deus de Israel, cuja esperança residia no Senhor revelado a seus pais, o mesmo Deus que, diante do desespero e da impossibilidade, tornava possíveis todas as coisas. Ele conhecia as narrativas dos antigos, sobre mar e rio que se abriam para a passagem do seu povo, sobre o dia que se prolongava para que a batalha tivesse fim em favor do povo de Deus, de comida que caía do céu, de fatos extraordinários que devolviam a esperança nos momentos de maior crise. Azarias caiu num lugar estranho, de deuses estranhos, de costumes estranhos, de relacionamentos estranhos. Como lidar com isso? Diante do cativeiro e da desesperança que isso poderia lhe conferir ao coração, ele sabia quem era o Deus de Israel, e trazia à memória a esperança viva, que é o antídoto à desesperança.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A Bíblia Sagrada. 2. ed. Tradução ao português: João Ferreira de Almeira. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri: SBB, 1993.
LAWRENCE, Bill. Autoridade pastoral: servindo a Deus, liderando o rebanho. São Paulo, SP: Vida , 2002.
SHAW, Mark. Lições de mestre: 10 insights para a edificação da igreja local. Tradução: Jarbas ARAGÃO. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 1997.
SHEDD, Russel P. O líder que Deus usa. 1ª. Tradução: Edmilson A. BIZERRA. São Paulo, SP: Vida Nova, 2000.
STOTT, John. Ouça o Espírito, ouça o mundo. Tradução: Silêda Silva Steuernagel. São Paulo, SP: ABU, 2003.
STOTT, John R. W. Los Desafíos del Liderazgo Cristiano. 3ª. Tradução: n.d. Buenos Aires: Certeza, 2002.

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1Mateus 22.39b
2SHAW, Mark. Lições de mestre: 10 insights para a edificação da igreja local. Tradução: Jarbas ARAGÃO. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 1997. P. 25.
3“Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado.” (1 João 4:12)
4“E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele.” (1 João 4:16)
5SHEDD, Russell P. O líder que Deus usa. Tradução: Edmilson A. BIZERRA. São Paulo, SP: Vida Nova, 2000.
6SHAW, Mark. Lições de mestre: 10 insights para a edificação da igreja local. Tradução: Jarbas ARAGÃO. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 1997. P. 88.
  7Idem.
8SHEDD, Russell P. O líder que Deus usa. Tradução: Edmilson A. BIZERRA. São Paulo, SP: Vida Nova, 2000.
9Idem
10“Porque o serviço desta assistência não só supre a necessidade dos santos, mas também redunda em muitas graças a Deus, visto como, na prova desta ministração, glorificam a Deus pela obediência da vossa confissão quanto ao evangelho de Cristo e pela liberalidade com que contribuís para eles e para todos, enquanto oram eles a vosso favor, com grande afeto, em virtude da superabundante graça de Deus que há em vós.” (2 Coríntios 9:12-14)
11STOTT, John R. W. Los Desafíos del Liderazgo Cristiano. 3ª. Tradução: n.d. Buenos Aires: Certeza, 2002. P.44
 12“Responderam Sadraque, Mesaque e Abede-Nego ao rei: Ó Nabucodonosor, quanto a isto não necessitamos de te responder. Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste.” (Daniel 3:16-18)
 13“Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.” (Hebreus 12:2)
 14“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo.” (1 João 3:1)
15LAWRENCE, Bill. Autoridade pastoral: servindo a Deus, liderando o rebanho. São Paulo, SP: Vida , 2002. P. 167.
 16Isaías 40:25
 17LAWRENCE, Bill. Autoridade pastoral: servindo a Deus, liderando o rebanho. São Paulo, SP: Vida , 2002. P. 258
 18STOTT, John. Ouça o Espírito, ouça o mundo. Tradução: Silêda Silva Steuernagel. São Paulo, SP: ABU, 2003.
 19“De quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra” (Efésios 3:15)
20 “Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome.” (Apocalipse 3:12)
 21“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações.” (Salmo 46:1)
 22“Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança.” (1 Tessalonicenses 4:13)
23 “Naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo.” (Efésios 2:12)
 24 “E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo.” (Romanos 15:13)
25SHEDD, Russell P. O líder que Deus usa. Tradução: Edmilson A. BIZERRA. São Paulo, SP: Vida Nova, 2000.
26LAWRENCE, Bill. Autoridade pastoral: servindo a Deus, liderando o rebanho. São Paulo, SP: Vida , 2002. P. 77.
27SHEDD, Russell P. O líder que Deus usa. Tradução: Edmilson A. BIZERRA. São Paulo, SP: Vida Nova, 2000.
 28SHAW, Mark. Lições de mestre: 10 insights para a edificação da igreja local. Tradução: Jarbas ARAGÃO. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 1997. P. 49. Apud: VITZ, Paul. Psychology as Religion: The Cult of Self-Worship. Grand Rapids: Eerdmans, 2a ed., 1981, p. 122.
29“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (João 8:32)
30“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”. (Lamentações 3:21)

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