Credo ut intelligam II

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O argumento ontológico e seus desdobramentos futuros

No artigo anterior, analisamos o debate entre Anselmo e o monge Gaunilo no século XI. Neste artigo, veremos a resposta de Anselmo às críticas de Gaunilo, bem como os desdobramentos futuros de seu Argumento Ontológico. Anselmo de Cantuária, conhecido na França como Anselmo de Bec, e, na Itália, como Anselmo de Aosta, foi, sem sombra de dúvidas, brilhante em sua exposição do argumento ontológico acerca da existência de Deus.

RESPOSTA DE ANSELMO A GAUNILO

A fim de responder às críticas e questionamentos de Gaunilo, Anselmo escreveu a obra Liber apologeticus contra Gaunilonem respondentem pro incipiente (ou apenas, Defesa contra Gaunilo). A principal preocupação de Anselmo em sua resposta a Gaunilo foi responder às acusações apresentadas e apontar alguns erros na leitura de Gaunilo sobre seu texto. Já na última seção, no capítulo dez de sua resposta, Anselmo faz um comentário mais geral sobre o Proslogion. Uma vez que o objetivo de Anselmo com a publicação do Proslogion foi a introdução do argumento ontológico, é natural que ele comente sobre o mesmo na conclusão de sua resposta.

 Anselmo surpreende-se que a objeção à sua obra seja feita por um cristão, como ele, e não por um insipiente, de quem se esperaria. Surpreende-se por ver um cristão pondo em sua boca as palavras que, possivelmente, estariam na de um insipiente. Tal defesa do pensamento do insipiente leva Anselmo a escrever as seguintes palavras:

Quem quer que tu sejas, que colocas na boca do insipiente essas argumentações, sustentas que, se há na inteligência um ser do qual não é possível pensar nada maior, ele não existe ali de maneira que obrigue a admitir a sua realidade, e que, quando afirmo que é necessário que uma coisa exista verdadeiramente desde que concebida pelo pensamento como superior a tudo, esta demonstração – dizes – não é legítima, como não seria igualmente legítimo se se concluísse que aquela Ilha Perdida exista de verdade só porque quem ouve a sua descrição tem a ideia dela na mente.

Anselmo, após colocar tal objeção de Gaunilo, responde usando a própria fé de Gaunilo para mostrar-lhe a fragilidade de sua contra-argumentação. Anselmo diz que vai usar a fé e a consciência de Gaunilo para provar diante dele seu argumento. Fazendo assim, mostra que Deus deve necessariamente existir, uma vez que não podemos pensar nele senão como um ser “necessariamente existente”. Embora Anselmo deixe intacto o conteúdo apresentado em Proslogion, salienta agora de modo mais elaborado o fundamento metafísico do que havia escrito.

Aqui, Anselmo começa a fazer a distinção entre os seres contigentes (apresentados por Gaunilo na figura de uma Ilha Perdida) e o Ser incontingente. Segundo Roque Frangiotti, há uma distinção entre os seres contingentes, ou seja, que dependem das circunstâncias, daquele ser do qual tudo depende. Deus não pertence à categoria de ilhas e notas financeiras, mas a de um ser necessário.

Frangiotti afirma que, para Anselmo, a ideia de um ser totalmente perfeito e soberano implica e inclui necessariamente sua existência. Anselmo, nesta resposta a Gaunilo, demonstra, pela fé do próprio Gaunilo, que o ser elevado em relação ao qual nada superior pode ser concebido, pode de fato ser concebido.

James Hastings, na Enciclopédia de Religião e Ética, observa que os seres contingentes, como tais, contradizem a ideia de um ser do qual não se pode pensar nada maior, o qual não pode ser concebido salvo como existente. Deus não faz parte dos seres cuja existência possuem um início e um final. Deus é eterno e eternamente necessário e, como tal, é totalmente diferente de outros seres.

Embora os questionamentos de Gaunilo não fossem tão pueris, não só Anselmo, mas muitos teólogos ainda hoje, demonstram as falhas nas objeções de Gaunilo. Segundo Olson, “a maioria dos teólogos concorda com Anselmo e não com o crítico”, apesar de não concordarem totalmente com o argumento anselmiano.

De fato, para Anselmo, Gaunilo não havia compreendido bem o que ele dissera. Como McGrath bem observou, na resposta de Anselmo a Gaunilo, Anselmo deixa claro que, “uma vez que o cristão venha a compreender o significado da palavra ‘Deus’, Deus realmente existe para essa pessoa”.

De fato, o esforço de Anselmo em refletir, tanto no Proslogion como em sua resposta a Gaunilo, sobre a forma como a compreensão cristã acerca da natureza de Deus reforçava  a crença em sua existência, foi válido. O fato é que o debate sobre a argumentação de Anselmo discute-se até hoje. Como McGrath comenta, fora da fé, tal argumento não possui força alguma, até mesmo porque esse nunca foi o objetivo de Anselmo. Todavia, dentro do contexto da fé cristã, seu argumento ganha o posto de um dos melhores argumentos acerca da existência de Deus. Nos séculos seguintes ao de Anselmo, muitos criticaram seu argumento, tanto positiva quanto negativamente. Vejamos.

DESDOBRAMENTOS FUTUROS DO ARGUMENTO ONTOLÓGICO

Entre os filósofos

As reações ao Proslogion e todo argumento ontológico sobre a existência de Deus têm vindo desde a Idade Média até aos dias de hoje. Já na chamada alta Idade Média, o argumento ontológico foi submetido a várias críticas. Segundo Hägglund, Tomás de Aquino não o aceitou, criando a prova cosmológica como uma substituta mais coerente à ontologia de Anselmo.

Já Richard Southern, evocando a lembrança das palavras de Bertrand Russell, afirma que poucos filósofos modernos podem se comparar à mente de Anselmo. Em poucas palavras, ele demonstra como, subitamente, em 1894, refletindo sobre o argumento ontológico, ele entendeu sua profundidade e o abraçou.

Dentre os filósofos mais recentes, encontramos aqueles que rejeitam por completo o argumento ontológico e aqueles que abraçam, em certa medida e com algumas variantes, a ontologia anselmiana. Dentre os que rejeitam listamos Tomás de Aquino, Locke, Hume e Kant. Dentre os que admitem a prova anselmiana estão Duns Escoto, Descartes, Leibniz, Malebranche e Hegel.

Vejamos como alguns lidaram com o Argumento Ontológico. René Descartes (1596-1650), considerado o fundador da filosofia moderna, insistiu na ideia da infinitude. Para ele, enquanto possuirmos a ideia de infinito teremos que concluir que tal ideia não surgiu de um ser finito, mas tem que ter sido depositada nele por um ser infinito. Tratando sobre o Argumento Ontológico, a Encyclopædia Britannica 2009, traz Descartes como aquele que formulou uma versão posterior do argumento primeiramente exposto no Proslogion. Foi Malebranche quem, posteriormente, disse que o finito só pode ver-se através do infinito e a partir do infinito. Para Immanuel Kant (1724-1804), geralmente tido como “o pai da crítica filosófica moderna”, a ‘existência não é um atributo’. Kant apresentou uma séria crítica ao argumento ontológico em defesa da existência de Deus. Sua linha de raciocínio assemelha-se bastante com a de Gaunilo, ou seja, “conceber uma ideia não implica no fato de que isso que foi concebido necessariamente exista”. McGrath observou que a linha de raciocínio de Kant acabou por influenciar, em grande medida, a apologética dentro da teologia cristã.

Conforme observa José Ferrater Mora em seu Dicionário de Filosofia, foi a partir de Kant que o argumento para a existência de Deus recebeu o nome de prova ontológica. Apesar de Ferrater considerar o último nome no mínimo ‘desorientador’, e de, por muitas vezes, ter-se tentado voltar ao uso da expressão “Prova Anselmiana”, o fato é que o emprego que é feito na maioria dos textos filosóficos após Kant acabou levando o nome que o mesmo lhe deu.

Entre os reformados
Embora Calvino não tenha mencionado o argumento ontológico anselmiano em suas Institutas, nestas expôs algo cuja raiz parece ter suas pontas nos textos de Anselmo de Cantuária. Quando, no capítulo três do primeiro volume, Calvino trata que o conhecimento de Deus foi por natureza instilado na mente humana, assim expõe seu pensamento:

Que existe na mente humana, e na verdade por disposição natural, certo senso da divindade, consideramos como além de qualquer dúvida. Ora, para que ninguém se refugiasse no pretexto de ignorância, Deus mesmo infundiu em todos certa noção de sua divina realidade, da qual, renovando constantemente a lembrança, de quando em quando instila novas gotas, de sorte que, como todos à uma reconhecem que Deus existe e é seu Criador, são por seu próprio testemunho condenados, já que não só não lhe rendem o culto devido, mas ainda não consagram a vida a sua vontade.

Para Calvino, a mente humana era capaz de raciocinar e concluir a existência de Deus, ainda que esse raciocínio não possuísse um caráter salvífico.

Em várias Confissões de Fé reformadas, inspiradas em grande medida nos escritos de Calvino e demais reformadores, vê-se o mesmo entendimento. Como exemplo, destaco a Confissão de Fé Batista de 1689, bem como sua quase irmã gêmea, a Confissão de Fé de Westminster. Em ambas nota-se a crença de que:

A luz da natureza mostra que há um Deus, que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz o bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas, o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo, e é tão limitado pela sua própria vontade revelada que ele não pode ser adorado segundo as imaginações dos homens ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Sagradas Escrituras.

Ambas as confissões trazem este texto, a de Westminster em seu capítulo 21 (Do culto religioso e do domingo) e a Batista de 1689 em seu capítulo 22 (Adoração religiosa e o dia do Senhor).
A mesma ideia acerca da capacidade do intelecto humano de raciocinar e compreender a existência de Deus, como Anselmo se esforçou em fazer no Proslogion, percebe-se nestas confissões reformadas em seus capítulos iniciais, quando tratam das Sagradas Escrituras. O mesmo se dá na Confissão de fé belga, do século dezessete, em seu artigo dois (Como conhecemos a Deus). Outras confissões de fé do século dezessete trazem a mesma ideia.
Assim, percebemos que o esforço de pensar a existência de Deus, vindo da interpretação de Agostinho sobre a tradução da Vulgata de Is 7.9: “Se não creres, não compreenderás”, passou pelo debate entre Anselmo e Gaunilo, e atravessou os círculos da academia teológica e filosófica. Seu valor e relevância encontra-se no uso que, inclusive, os reformadores fizeram deste pensamento nos século dezesseis e dezessete.

Finalmente, concluo que o jovem que estudou em Bec aos pés de Lanfranc, que mais tarde tornaria-se abade na mesma cidade e, posteriormente, arcebispo de Cantuária, desenvolveu um argumento que conseguiu, segundo Barth, de modo brilhante, entender com a mente aquilo em que já se acreditava através da fé.
Berkhof captou bem a ideia central do argumento ontológico em Anselmo. Para Berkhof, Anselmo “argumenta que o homem tem a ideia de um ser absolutamente perfeito; que a existência é atributo de perfeição; e que, portanto, um ser absolutamente perfeito tem que existir”. Ele continua, resumindo o argumento de Anselmo, dizendo: “Além disto, este argumento pressupõe tacitamente como já existente na mente humana o próprio conhecimento da existência de Deus que teria que derivar de uma demonstração lógica”.

Concluo que, de forma a provocar irritação em Anselmo, Gaunilo cooperou com o melhor desenvolvimento do argumento ontológico ao questioná-lo. Gonzalez apontou para duas vias os questionamentos de Gaunilo. Em primeiro lugar, Gaunilo não admitia que um ateu possuísse na mente “a ideia de um ser superior em relação ao qual nada pode ser concebido”. E, em segundo lugar, Gaunilo questionou a ideia anselmiana que a mera ideia de que exista um ser supremo seja prova de sua existência. A objeção de Gaunilo forçou Anselmo a melhorar ainda mais seu pensamento sobre a existência de Deus, o que se vê em sua resposta a Gaunilo.

Sabemos que, fora da fé, o argumento ontológico não possui a força que possui “dentro da fé”. Contudo, tal argumento, dentro de um ambiente cristão, mesmo apesar de toda a crítica ao longo da história, creio que ainda ganha o posto de um dos melhores argumentos sobre a existência de Deus.

Como afirmei no início deste artigo passado, Anselmo de Cantuária, conhecido na França como Anselmo de Bec, e na Itália como Anselmo de Aosta, foi, sem sombra de dúvidas, brilhante em sua exposição do argumento ontológico acerca da existência de Deus.

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