Brasil: caminhos e descaminhos

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Na complexa teia da vida cotidiana brasileira, nós podemos seguir nossa jornada diária como meros consumidores da realidade, buscando o nosso ganha pão e vivendo o dia-a-dia impulsionados por um interesse autocentrado em nossas aspirações individuais, distanciados de qualquer realidade vivida pelos nossos irmãos brasileiros em suas carências nas mais variadas situações.

Ou ainda podemos optar por uma outra alternativa de vida, como a de assumir uma postura tão somente crítica e apenas reflexiva, calcada em abstrações meramente acadêmicas e desprovida de ação concreta e prática.

Uma outra atitude em relação ao cotidiano pode ser encontrada quando assumimos a alternativa em que nós deixamos de ser espectadores e passamos a ser protagonistas e intensos participantes da construção histórica, responsável e criadora do cotidiano de nossa pátria. Para isso, precisamos ampliar a nossa visão da vida de modo a nela incluir as outras pessoas, o nosso próximo – especialmente aqueles carentes dos mais variados recursos, como alimentos, saúde, educação, oportunidades de trabalho e formação profissional.

Nessa alternativa, temos de deduzir que não é mais possível perenizar o sofrimento pelo qual passa o povo brasileiro – não apenas na área social e material –, nem mesmo aguardar inertes a mobilização das autoridades e outras instituições na busca de soluções que sejam definitivas para muita gente que não consegue mais sobreviver adequadamente em vista das ações espasmódicas e paliativas até aqui demonstradas, temperadas apenas por discursos bonitos mas vazios de concretização.

O Brasil precisa de uma redefinição da agenda das aplicações de seus recursos e do orçamento público. Recursos públicos não podem mais ser desviados para a cobertura de imperícias administrativas e esbanjamentos, como, por exemplo, aqueles resultantes de atos ilícitos acobertados por autoridades dos mais diversos escalões e das crises de bancos em processo de liquidação. Cada recurso desviado deixa as pessoas mais pobres, deixa de cumprir com os ideais que projetam um futuro saudável para a Nação. É do mesmo sangue cada brasileiro que sofre sem receber atendimento médico, educacional, educacional, social. O que dizer dos desmandos na área de segurança, transportes e estradas, que consomem vidas preciosas? A irresponsabilidade governamental e civil já está à beira do desespero. Muitos governantes, do poder legislativo ou executivo, demonstram estar mais preocupados com os lobbies que pagaram a conta de sua eleição, do que com o País e com o seu futuro. Nem o poder judiciário tem escapado. Um país sem o executivo é um caos, um país sem o legislativo é injusto e um país sem um judiciário é imoral.

É muito bom que na área econômica nosso governo federal esteja sendo cuidadoso. Mas um país não vive só de economia e nem só de discursos retóricos e idealistas. Se religião não é política, política não pode ser religião. Se igreja não pode ser partido político, partido político não pode ser religião. Se entendemos que religião está ligada a Deus, imutável, absoluto e perfeito, partido político e ações políticas não. Então é possível ter um governo que dialogue, que ouça os diversos segmentos da sociedade. Não é possível admitir a incoerência que provoca longa distância entre o discurso antes da eleição e a prática do gabinete e dos bastidores políticos. Se no passado o discurso era contra o autoritarismo, hoje a prática deveria evitar o autoritarismo. Só como exemplo, agora em 2004 está tramitando no Congresso Nacional um projeto de lei complementar (Proposição: PLP-137/2004) de deputado governista que objetiva estabelecer o limite máximo de consumo, isto é, um teto salarial. Se você passar daquele teto, terá seu salário excedente retido em uma conta do governo a titulo de Poupança Fraterna. O povo brasileiro já foi vítima de espoliação e confisco governamental. Agora está sendo candidato a isto novamente. Parece-me que o fantasma do comunismo repressor e devorador está voltando. Prepare-se!

Empresários brasileiros precisam acordar para o fato de que o lucro não deve ser o único objetivo empresarial. Há muitos exemplos de empresários que transformaram os objetivos de seus negócios priorizando não apenas o lucro do vil metal. Não é mai possível conviver em um relacionamento incestuoso com os desmandos corruptores de agentes da lei que se fazem cegos a ilegalidades mediante um preço. Precisamos subtrair do nosso vocabulário nacional expressões como impunidade, corrupção, falcratrua, “molhar a mão”, “pagar o pedágio”, suborno, “dar um chaveco”, “qual é o seu preço?”, “quanto custa para esquecermos isso?”, “carteirada”, “com quem você pensa que está falando?”, “a multa fica mais cara, o nosso preço é só xx%”, etc.

Fazer reforma agrária permitindo (ou pelo menos se omitindo) que subversores se apossem do que lhe não é próprio é subverter a ordem, é não querer pagar por desapropriação. É irresponsabilidade. Os jornais estão mostrando constantemente como as terras possuídas já são mercadoria de enriquecimento de muitos defensores do social e da opção preferencial pelo oprimido. O ser humano é sempre igual, pecador que no fim das coisas acaba “puxando a sardinha para a sua brasa”.

Na educação, por exemplo, seria preciso uma total, radical e profunda alteração. Parece-me que os fundamentos legislativos apóiam o neoliberalismo político-econômico transformando os cursos de graduação em usinas de mão de obra instrumental, em vez de inserir também no processo educacional fortes oportunidades para a formação do aluno como sujeito histórico e não apenas como agente produtivo. Os cursos de pós-graduação já não oportunizam mais chances efetivas de formar pesquisadores sérios, apenas produtores de textos que devem cumprir exíguo prazo. Como ser um mestre em alguma área do saber em apenas dois anos? Digam se isso não é influência do neoliberalismo? Se educar é promover a cidadania e a participação, por que a legislação que oficializou o ensino de Teologia veio de cima para baixo, sem a consulta às associações de instituições que cuidavam do assunto na ausência de ação legislativa governamental, provocando sérios distúrbios no ensino teológico no país? Graças a Deus, pelo menos nisso, o atual governo já deu ouvidos a líderes protestantes brasileiros abrindo a possibilidade para a oficialização de diplomas de bacharelado obtidos em cursos livres. O Ministério da Educação precisará continuar nesse processo revendo com seriedade a seriedade (desculpem-me a repetição) com que o ensino teológico tem sido praticado por muitos segmentos protestantes no Brasil desde 1867, quando foi instalado o primeiro seminário protestante no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. Mestres e doutores em Teologia que obtiveram seus graus no Brasil também precisam ter a sua situação tratada pela CAPES com medidas transitórias, pois enquanto o governo não oficializava o ensino teológico no Brasil, os seminários não ficaram parados, criaram cursos para a formação dos seus quadros docentes e agora estão desamparados. Todo sacrifício não valeu para nada. Sem dúvida, existiram e existem cursos desqualificados, mas por que as associações de instituições não foram consultadas?

Não é mais possível observar anestesiados todo o descaso e a omissão no trato da coisa pública, pois isto é uma das causas que impede o investimento em soluções definitivas para os dilemas de nosso País.

O pressuposto evangélico deste caminho é que a Salvação de Deus é para todo homem e para o homem todo . Além da Salvação da alma, precisamos atender as carências humanas nas mais variadas matizes e implicações da vida, inclusive para a cidadania responsável e criativa.

Em vez de meros espectadores da vida, sejamos ativos construtores e protagonistas de nosso cotidiano promovendo ações efetivas que produzam soluções permanentes, as quais tragam um promissor e saudável futuro para nossa Pátria.

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