A supremacia de Cristo sobre a dimensão celestial

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O uso do Salmo 110.1 em Colossenses 3.1

Introdução
O alvo deste artigo é mostrar a função do eco do Salmo 110.1 em Colossenses 3.1 e seu propósito no argumento apostólico dessa carta.

Metodologicamente, há dois critérios para se identificar um eco no NT, a saber, disponibilidade e concordância, e nosso texto possui esses dois critérios. Quanto a disponibilidade, Paulo cita com frequência o livro de Salmos (segundo Silva, cerca de 24 vezes ),1 e o Salmo 110 é citado em suas cartas anteriores (1Co 15.25; Rm 8.34). Portanto, Paulo conhecia muito bem o Salmo 110. Em relação a concordância, temos 3 palavras em concordância. Um número imenso de eruditos concorda que Paulo alude ao Salmo 110.1 em Colossenses 3.1.2 Tendo a honra de ser o salmo mais citado/aludido no NT, o eco em Cl. 3.1 é claro.

1. O contexto do Antigo Testamento: Salmo 110

1.1 Introdução
Esse Salmo é a passagem do Antigo Testamento mais citado no Novo Testamento. Na época de Agostinho (354 – 430 d.C.), o Salmo 110 era amplamente abordado de uma maneira alegórica. Nesta exegese, esse Salmo era frequentemente usado como uma profecia da parúsia de Jesus. Já no inicio do século XX, os teólogos abordavam esse Salmo como uma obra composta por vários autores e normalmente se datava esse Salmo em um período pós-exílio babilônico, particularmente na época da dinastia dos Macabeus.

Nas décadas mais recentes, estudiosos indicam uma origem pré-israelita a esse Salmo (talvez mostrando a possibilidade de culto pré-israelita em Jerusalém). Nas pesquisas mais recentes os teólogos abordam esse salmo como uma unidade editorial.

Seja como for, a atual bibliografia concernente a esse Salmo é vasta. Alguns estudiosos como Herkenne, Coppens e Schedl focam nos problemas textuais, enquanto outros se concentram mais no aspecto de realeza do Salmo e ainda outros no aspecto sacerdotal. Também há aqueles que estudam a perspectiva messiânica e cristã.3 Há uma miscelânea temática justamente porque os problemas se sobrepõem. Não é meu propósito expor cada verso de Salmo individualmente, iremos apenas pontuar e entender a figura maior, olhando para todo o Salmo de forma mais geral.

1.2 Estrutura
Sua estrutura naturalmente se rompe em duas partes, vv. 1-3 e vv. 4-7. Ambas as estrofes iniciam com um oráculo de YHWH, endereçado ao “governante” e mediado por um subordinado. Os oráculos não identificam nem o governante nem o subordinado. No NT, Jesus identifica o subordinado como sendo o próprio Davi, e o Rei como sendo o Messias. Observem a estrutura proposta por Van Groeningen:

A1 – Pronunciamento Divino: Tu és Rei (v. 1b)
        B1 – Elaboração: Assenta-te à minha direita até que eu ponha
                os teus inimigos debaixo dos teus pés (v. 1c)
                C1 – Explanação:
                             1. Cetro de Sião (v. 2a)
                             2. Reina no meio dos teus inimigos (v. 2b)
                             3. Resposta ao povo (v. 3)
A2 – Pronunciamento Divino: Tu és Sacerdote (v. 4c)
        B2 – Elaboração: Segundo a ordem de Melquisedeque (v. 4.d)
                C2 – Explanação:
                             1. Senhor à mão direita (v. 5a)
                             2.Sê vitorioso sobre inimigos (vv. 5b,6)
                             3. Resposta (v. 7).4

1.3 Contexto
O Salmo 110 faz parte dos dez salmos de realeza encontrados no Saltério (Cf. Sl. 2; 18; 21; 45; 72; 84; 89; 101; 110; 132).

A localização desse Salmo no Saltério também é importante. Ele se encontra no centro dos sete primeiros Salmos do livro V (107-113). Os primeiros 3 Salmos são orações por livramento (107-109), os 3 últimos são agradecimentos/louvores pelos livramentos recebidos. No centro está o Salmo 110, que introduz o Libertador Messiânico.5

O Rei certamente é da linhagem de Davi, porque Sião é identificada como o locus de onde Deus estenderia o domínio do rei mencionado (110.2). O pano de fundo, portanto, é a promessa feita a Davi de uma dinastia eterna.

No oráculo, Deus ordena que o Rei Davídico se “assente à sua destra”, até que seus inimigos sejam derrotados e colocados debaixo de seus pés.

O motif real é claro nesse Salmo, pois assentar-se implica um trono. À Direita é um lugar de honra e privilégio, bem como de autoridade. Podemos dizer que o rei é “lugar-tenente” do Senhor. Alguns estudiosos se perguntam se devem tomar o termo literalmente, ou seja, topograficamente e por isso argumentam que o palácio estava construído a direita (sudeste) do Templo. Em 1b, num sentido material, o escabelo onde o rei coloca seus pés poderia ser talhadas ou pintadas figuras de inimigos vencidos (como se vê no museu egípcio de Cairo).6 Era um rito de vitória colocar os pés sobre os inimigos vencidos (cf. p. ex. Js. 10.24; 1Re. 3.5; Sl. 18. 37-38.

Salmo 110.1 no Judaísmo
O Salmo 110.1 não é citado nos escritos judaicos do segundo templo. Posteriormente vemos esse Salmo no Talmude e nas obras rabínicas, e nesses escritos, temos pelo menos o entendimento de quatro figuras diferentes. Em vários escritos, esse oráculo é entendido como sendo dado a Abraão.7 Em uma ocasião é aplicado ao Israel corporativo como “filho de Deus”.8 Em alguns lugares, Davi é considerado o remetente.9 E em outros lugares o Salmo é entendido como uma referência ao Messias.10 O Targum do Salmo 110 combina essas duas últimas interpretações, dizendo que o próprio Davi ressuscitaria e seria posto como príncipe sobre o mundo vindouro (como o governador messiânico prometido).

O contexto do Novo Testamento: Salmo 110.1 em Colossenses 3.1-4
Duas ideias distintas, porém relacionadas, governam essa perícope: 1. O quadro escatológico “já e ainda não” paulino e; 2. A união da igreja com Cristo.

Em resposta ao falso ensino em Colossos, Paulo usa as categorias de escatologia “vertical/espacial” dos hereges, para redirecionar a espiritualidade dos Colossenses, que deveriam buscar as “coisas do alto” por que Cristo está lá, e não por causa de algum misticismo em Ascenção ao céu para contemplarem anjos (cf. 2.18). O fato de Cristo estar à destra de Deus, ecoa o Salmo 110.1 (LXX 109.1). Portanto, o Cristo ressurreto é afirmado ser o ideal vice gerente Davídico vindouro, através de quem Deus irá estender Seu amplo domínio e através de quem Ele irá destruir todos Seus inimigos.11 Devemos notar em especial a linguagem de 2.15, onde os principados e potestades são derrotados mediante a cruz de Cristo.

Ainda que Paulo não use o resto do texto do Sl 110, esse Salmo era tão conhecido que é provável que Paulo evoque todo o texto na mente dos leitores. Para a igreja primitiva, os inimigos mencionados no Salmo 110 são identificados principalmente com os demônios. O eco ao Salmo 110 é especialmente apropriado à luz da dramática descrição de 2.15.12

A comunidade cristã em Colossos não estava desprezando a dimensão celestial, antes estavam superestimando-a e entendendo-a erroneamente. Ao corrigir tal perspectiva sobre a dimensão celestial, Paulo a redireciona à Cristo, o qual possui supremacia absoluta sobre o reino celestial, e de fato sobre toda a criação (cf. hino em 1.15-20). O falso ensino em colossos diminuía a pessoa e a obra redentora de Cristo, bem como sua função e status como Rei Soberano do universo.

Conclusão: reflexões hermenêuticas e teológicas
Salmo 110 é um anúncio profético sobre o Rei Davídico. Ele visa o dia em que o reino soberano de YHWH sendo estendido de Sião até os confins da terra através de Seu Rei-Sacerdote Davídico. O eco em Cl. 3.1 revela que Paulo entendia que esse anúncio profético encontra seu cumprimento na pessoa de Jesus Cristo.13

Com o advento de Sua ressurreição, Cristo foi entronizado ao céu, assentando-se à destra de Deus.

Paulo também entendia que os inimigos mencionados no Salmo 110 englobam os poderes demoníacos. Aparentemente, na heresia Colossenses havia certo temor a esses espíritos, havendo a necessidade de “apaziguá-los”. Mas o apóstolo afirma que esses poderes malignos foram derrotados pela obra redentora de Cristo, portanto, os Colossenses não precisavam temer, pois tais espíritos não poderiam interferir em sua salvação, pois eles estavam “escondidos em Cristo”.

A linha teológica de Paulo em 3.1 está de acordo com o eco de 2Sm 7 em Cl. 1.13. Em 2Sm. 7 Deus promete a Davi uma eterna dinastia real de filhos que se assentariam no trono do reino de Israel. Paulo entende que essa promessa teve seu cumprimento suprema em Jesus, que é o genuíno descendente, através de quem Deus estabeleceu como Rei Eterno mediante o evento de Sua ressurreição.14 O Salmo 110 expande essa promessa para mostrar que o reinado eterno prometido a Davi em 2Sm 7, encontrará seu cumprimento em uma única figura ideal messiânica, cujo reino se estenderia universalmente a partir de Sião e através de quem Deus esmagaria todos seus inimigos, todos aqueles que se colocavam contra YHWH e contra seu Ungido.

_________________________
1M. Silva, “Old Testament in Paul,” DPL, 631.
2Hühn, Citate, 198; Masson, Colossiens, 139n.3; Ellis, Paul’s Use of the Old Testament,
154; Hugedé, L’Épître aux Colossiens, 160n.4; Lohse, Colossians, 133; Caird, Paul’s Letters
from Prison, 202; Ernst, Kolosser, 221; R. Martin, Colossians, 101; Schweizer, Colossians,
174; Gnilka, Der Kolosserbrief, 172; O’Brien, Colossians, 162; Lindemann, Der Kolosserbrief,
53–54; Bruce, Colossians, 132; Wright, Colossians, 131–32; Pokorný, Colossians, 159; Furter,
Colossiens, 161; Melick, Colossians, 280–81; Wall, Colossians, 133; Aletti, Colossiens, 218n.4; (“L’allusion au Ps 109–110,1 est obvie.”); Yates, Colossians, 72; Barth and Blanke, Colossians,
64n.98, 394; Wolter, Der Brief an die Kolosser, 167; Dunn, Colossians, 203; Arnold,
Colossian Syncretism, 306; Hübner, An die Kolosser, 98; MacDonald, Colossians, 127, 129;
Lincoln, Colossians, 638; Hay, Colossians, 116; Fee, “Old Testament Intertextuality in
Colossians,” ad loc.; Beale, “Colossians,” ad loc.; cf. Hübner, Vetus Testamentum in Novo,
538–39; Ver margem de NA27 e a nota de UBS4 at Col 3:1.
3Cf. p. ex.: A. Miller, Gibt es direkt messianische Psalmen?, em FS Ubach, Montserrat,
1953, 201-209; F. Segula, Messias rex in Psalmis, VD 32 (1954) 23-33; 77-83; 142-154; Z. Kaznowsky, Mesiajiizm. Ps 110, Lublim, 1958; A. Luger, Der Messianismus der Psalmen, Viena, 1959; S. Amsler, David roi et Messie. La tradition davidique dans l’AT, Neuchatel, 1963;B. Martin Sanchez, Salmo 109(110). El Mesías rey, sacerdote y vencedor, CuBi 19 (1963) 49-50; P. Zerafa, Priestley messianism in the OT, Ang 42 (1965) 318-341; entre outros.
4Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Antigo Testamento, p. 356
5Cf. Art. Chris Morrison, “Hermeneutical implications of the New Testament´s use of three messianic Psalms”.
6Salmos , grande comentário bíblico dos, V, II, Alonso Schokel e Cecília Carniti. p. 1356.
7b. Nedarim 32b; b. Sanhedrin 108b; Midr. Rabbah Leviticus 25.6; Midr. Psalm 110.1,
4; Mekilta, Shirata 6.35–41; Midr. Tanhuma, Genesis 15
8Midr. Psalm 2.9
9Midr. Psalms 18.32, 110.5
10Midr. Psalms 2.9, 18.29
11C. A. Beetham; Echos of Scripture in the letter of Paul to the Colossians, p. 226.
12Cf. Arnold, Colossian Syncretism, 306.
13Beetham, p. 229.
14Ibid. p. 130.

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