A realeza de Deus: escatologia bíblica e cosmovisão cristã e suas relações – uma abordagem no livro de Gênesis (Parte 1)

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Introdução

A escatologia é o estudo das últimas coisas. Na teologia cristã a fonte do estudo para os tempos do fim é a Bíblia Sagrada. Sendo assim, a revelação verbal escrita de Deus é alfa e ômega na pesquisa e reflexão sobre o assunto. É sabido que as várias religiões têm seus sistemas escatológicos. Não há religião sem escatologia. Em termos filosóficos podemos dizer também que mesmo o ateísmo ou niilismo possuem sistemas escatológicos de escatologia realizada e futura.

A escatologia bíblica precisa ser estudada e pesquisada por uma abordagem multidisciplinar. Dialogando com a doutrina da criação, teontologia, antropologia, cristologia, soteriologia, paracletologia, hamatiologia e eclesiologia, temos uma corrente com vários elos necessários para um desenvolvimento coerente de um sistema escatológico. O estudo das últimas coisas também precisa ser realizado por uma metodologia de teologia bíblica que lida com a progressividade da revelação. Por isso, Gênesis é por onde começamos a estudar escatologia.

A cosmovisão cristã tem ligação com escatologia. Quando tratamos de estabelecer uma cosmovisão evocando o motivo básico cristão de criação, queda, redenção e consumação, estamos fazendo escatologia. Reconhecemos que são disciplinas diferentes na enciclopédia teológica, mas, o estudo da cosmovisão cristã bíblica depende da escatologia, tanto da escatologia realizada como da futura.

Na investigação sobre o assunto é necessário atentarmos para a teologia da história que em termos mais populares, grosso modo, é denominado de providência. No estudo dessa disciplina que está no escopo da teontologia, vemos a encarnação do decreto eterno de Deus no tempo e no espaço. Essa empregabilidade do decreto, que é a providência, está guiando o mundo a consumação. Mas ao falarmos de consumação falamos da parte final da redenção. Estamos, portanto, tratando do já e do ainda não.

Também é preciso pontuar que há uma diferença em termos técnicos entre as disciplinas. A escatologia se ocupa propriamente da questão que envolve a Igreja e os ímpios, na consumação final para alegria eterna dos santos e desprezo e sofrimento eterno dos ímpios. Há também na escatologia a importante questão da terra. Visto que é estabelecido desde Gênesis a importância e relação entre Deus, a terra e a humanidade. Haverão questões entrelaçadas neste aspecto com a cosmovisão cristã, mas, a diferença está na aplicação dos assuntos, a cosmovisão mesmo que seja aplicada de forma geral a igreja,  como a forma que a Igreja percebe o mundo e o interpreta, grosso modo, a questão parte do indivíduo. Cada um de nós temos cosmovisões concorrentes com a cosmovisão cristã, mesmo tendo esta última como estabelecida pela revelação e regrada por Deus para a ética cristã, existem elementos variados que estabelecem uma cosmovisão, ou cosmovisões em um mesmo indivíduo. Em termos dogmáticos, isso ocorre por causa do pecado em nós, mesmo redimidos, o pecado ainda está em nós, mesmo são sendo mais escravos do pecado, mas, ele é o mal que habita em nós. Em termos psicológicos, nossa cosmovisão é moldada por vários fatores, inclusive nossas experiências e traumas.

Nosso recorte nesse artigo então será a partir de Gênesis. Olharemos para as duas questões relacionadas, escatologia e cosmovisão. Nossa observação será como isso se dá no livro e as questões escatológicas envolvidas. Então faremos inicialmente uma conceituação de cosmovisão e seguiremos para a análise de alguns textos de Gênesis.

1. O conceito de cosmovisão e Gênesis

Para os fins que temos aqui, usaremos a conceituação de Heber Campos Jr., pelo fato de ser uma boa síntese do que os principais autores no assunto têm desenvolvido nesse campo de estudo.

Cosmovisão é o conjunto de pressupostos e premissas de vida que carregamos em nosso mais íntimo, com um apego tal que esse sistema de crenças norteia todo o nosso engajamento com o mundo — proporcionando a leitura que fazemos da realidade e as bases para nossas ações e reações ao que a realidade nos traz — sem, contudo, deixar de ser moldado por fatores externos que são interiorizados por diferentes processos de apropriação[1].

Ao considerarmos essa definição, precisamos olhar para o contexto do livro de Gênesis e para sua teologia de modo geral. Os hebreus haviam saído do Egito, onde passaram mais de quatrocentos anos imersos numa cultura pagã que possuía uma cosmovisão característica da nação, cosmovisão essa norteada pela religião egípcia. Ao observarmos a primeira parte de Gênesis (1-11), podemos ver não apenas a narrativa da criação, mas da queda e a promessa redentora para uma escatologia futura que para nós é presente — com a vinda de Jesus vivemos nos últimos dias nessa escatologia realizada, mas, que ainda resta sua consumação, na escatologia futura — mas também temos microcosmos escatológicos em Gênesis que apontam para uma recriação, não em termos macrocósmicos ou da escatologia plenamente realizada na restauração. Essas impressões escatológicas no texto de Gênesis não apenas apontam o juízo e a salvação final, mas, apontam para a necessidade de uma vida, vivida pela orientação de Deus, em pacto com ele, sob o governo dele.

A Bíblia pode ser descrita como uma sinfonia em quatro movimentos, indo da criação à queda, passando pela redenção e chegando, finalmente, à re-criação. Gênesis dispõe os fundamentos para todo o restante da Bíblia, narrando brevemente os primeiros dois movimentos, ao tempo em que inicia o terceiro. O quarto movimento é a matéria dos dois últimos capítulos da Bíblia (Ap 21-22), e é interessante observar a difusa imagem da criação nesses capítulos (Ap 21.1,5; 22.1-6). O fim da história é como seu começo, em que uma harmoniosa e extraordinária relação com Deus é restabelecida[2].

Ao termos estabelecida essa ordem teológica para a compreensão da revelação — criação, queda, redenção e consumação; temos a mesma ordem relacionada a forma relacionada a vida cristã, não sendo vivida secularmente, mas, pela ótica da revelação. A cosmovisão cristã seguirá esse fluxo da própria revelação de Deus. Como dissemos acima, a questão é que na cosmovisão esta estrutura posta na revelação para uma teologia da história, ou a história da redenção, é particularizada no crente. Então a própria vida cristã deve seguir esse fluxo com base na revelação, mas, aplicando os princípios do motivo básico cristão a vida, seja nos negócios, na família, nos estudos, na sexualidade, na igreja.

Observando Gênesis 1-11 temos as narrativas sobre a criação e como a queda afeta todo cosmos. A palavra cosmos significa ordem, embora o pecado não tenha trazido caos absoluto ao mundo, isto se dá pela ação preservadora de Deus pela providência. Temos os vários episódios em Gênesis que nos mostram o caos moral que os homens foram imersos. O primeiro assassinato, a imoralidade, o descrédito às ameaças de juízo da parte de Deus nos tempos de Noé, a idolatria, uma cultura ímpia se levantando contra o Criador para exaltar-se em Babel. Temos em Gênesis a prova histórica do que é dito no capítulo 6.5: “O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal”.

Como consideramos acima na citação do Heber Campos, a cosmovisão não é somente uma questão de avaliação externa a nós daquilo que nos cerca. Nossas avaliações são frutos de vários fatores, não apenas críticos, mas experienciais. Na verdade, muito da crítica será fruto da experiência. Aqui está a grande complexidade da transformação da cosmovisão. Em termos majoritários um convertido a fé cristã pode e terá muito de sua cosmovisão formatada, mas, é possível que alguns resquícios de cosmovisões pagãs estejam em seu pensamento e dirijam suas decisões. Tais ações podem ser feitas por mera ignorância da vontade de Deus revelada na Escritura, mas, pode ser por força do pecado, como disse Paulo. Nosso entendimento pode nos dizer qual é a vontade de Deus, e estarmos certos disso e não termos nenhum problema com a apreensão intelectual do ensino do Evangelho, mas, de modo subjetivo, por causa das experiências, aprendizagem, compromissos diversos, como políticos, filosóficos, afetivos, possam nos levar para longe na vontade de Deus na prática.

E qual é a relação dessa discussão sobre a complexidade das cosmovisões com Gênesis? Há grande relação. O povo estava saindo do Egito, tinha sua cosmovisão moldada ou no mínimo afetada pela cultura que viveram, veja os grandes pecados no deserto, principalmente idolatria. No capítulo primeiro, em especial, Deus subjuga as ideias religiosas egípcias se colocando como criador de todas as coisas. Águas, firmamento, animais, luminares, o próprio homem eram obras da criação de Deus e não deuses. Deus estava refutando a cosmovisão egípcia e reconfigurando a cosmovisão dos hebreus.

Temos também outra questão importante a considerar que é o governo soberano de Deus, tanto sobre a criação, isto é, mostrado nos atos criadores de Deus, como na vida do seu povo. Deus sendo mostrado como criador nas narrativas de Gênesis não tem mero caráter histórico sem valor prático. Deus ser o criador de todas as coisas implica no texto seu governo, inclusive sobre a forma de vida do seu povo, seu pensamento.

A descrição bíblica da criação compreende dois relatos (Gn 1.1-2.3; 2.4-25). O primeiro relato consiste de dez mandamentos arrumados em uma série de expressões estereotipadas e é mais poético. O segundo relato representa a forma narrativa. Os dois relatos apresentam a criação de perspectivas diferentes, embora harmônicas e complementares. O primeiro é chamado a criação por decreto; o segundo, a ação de criação. Os dois relatos retratam Deus em termos humanos e focam a criação do homem. A perspectiva teocêntrica dá harmonia ao foco antropocêntrico. Apenas na visão da revelação de Deus é possível apreciar a posição única da humanidade! Gênesis 1 retrata Deus como governante, por cujo comando o mundo vem a existência. O segundo relato retrata Deus como um oleiro que modela o homem a partir do pó da terra (2.7), como um jardineiro que planta um jardim (v.8) e como um construtor que faz a mulher da costela do homem (v.22). Os dois relatos, como antropocêntricos, colocam ênfase nos seres humanos como as criaturas especiais de Deus, capacitadas com dons únicos e tendo uma relação especial com seu Criador que este iniciou e confirmou de forma graciosa[3].

É importante percebermos que o foco que o texto bíblico em Gênesis 1 e 2 nos dá da criação da humanidade é algo que deve chamar nossa atenção. Não é apenas uma relação Criador/criatura, é uma relação relacional, o texto dá grande importância à criação do homem e da mulher, dá importância aos mandamentos de Deus para cultivar, multiplicar e proteger o jardim. Estamos lidando ali com mandamentos pré-redentores. Não havia pecado, estamos lidando com revelação especial pré-redentora[4]. Que incluem mandatos que são relacionados a forma de viver para Deus no mundo, vivendo perante a face de Deus. Temos no capítulo 1. 26-31, os conhecidos mandatos da criação: cultural, social e espiritual. Que irá envolver trabalho de toda ordem para o desenvolvimento da cultura, família e sociedade e adoração. Pontuando que há uma penetração do mandato espiritual aos outros dois, porque tudo deve ser feito para a glória de Deus (1Co 10.31; Cl 3.23). Ao tratarmos da revelação especial redentora que já é demonstrada no protoevangelho (3.15), já lidamos com escatologia, o encaminhamento que a providência processa para o desenvolver da história do mundo e para o desfecho e todas as tipificações, figuras e sombras no Antigo Testamento, eram sombras dos bens vindouros. Como nos diz o apóstolo Paulo: “Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou”[5]. O trabalho de nos fazer conforme a imagem do Filho é do Espírito Santo que tem grande participação tanto na escatologia como na formação de uma cosmovisão (Jo 16.13). É o Espírito que nos guia na verdade de Deus em sua revelação, é Ele que molda nossa mente e vida integralmente. Então a obra da redenção é escatologia, porque ela caminha para uma consumação que é a parte final da redenção, a glorificação da Igreja. Mas essa questão de sermos moldados conforme a imagem do Filho pela obra santificadora de Deus (Jo 17.17), é empregada pelo Espírito Santo que usa a Palavra de Deus para a santificação dos crentes, isso não se dá apenas protegendo-os de pecados morais ou sexuais, se dá moldando sua mente pela Palavra para que vivam para a glória de Deus. Diz-nos Bruce Waltke em seu comentário de Gênesis:

O prólogo anuncia que o Deus da comunidade pactual é o mesmo Criador do cosmos. Deus é o rei implícito desse cosmos, fazendo provisão, estabelecendo a ordem e comissionando agentes. Os sistemas atmosféricos que sustentam a vida, de ar, água e terra, provêem a criação de abundância de todas as sortes de espécies vivas com sustentação e espaço para se viver. É o palco sobre o qual o drama da história sob Deus se exibirá. Deus avança criativamente para o abismo e trevas primordiais com o fim de transformá-los num universo magnificente, ordenado e equilibrado. Os que se submetem ao governo do Criador se certificam de que sua história não terminará em trevas e caos trágicos, mas continuará em luz e ordem triunfantes. Como Deus abre a cortina do drama da criação em dias sucessivos, avançando rumo ao clímax, assim ele desenvolve o drama da história por meio de épocas sucessivas, que atingem um clímax dramático quando todas as criaturas volitivas se curvarão diante de Cristo. A ordem desta criação reforça as revelações posteriores de Deus, relativamente à ordem social da humanidade. Sua lei (os ensinos da Escritura) está em harmonia com a ordem criada. E assim, desrespeitar sua ordem moral revelada é contradizer  a criação, sua realidade criada[6].

Nessa citação de Waltke temos um exemplo claro para uma compreensão cosmovisional em Gênesis. Em Gênesis temos as bases para o estabelecimento da ordem da criação, isso inclui não apenas a ordem do universo, das leis da física e química, inclui a ordem familiar, que dá base para ordem cultural e social. E devemos considerar que os três mandatos, cultural, social e espiritual estão nessa esteira estrutural para uma cosmovisão pactual. O próprio pacto da criação nos dá base para uma cosmovisão que irá encarar o mundo pelo direcionamento divino, pelo fato de toda a visão do mundo dos seres humanos ter sido afetada na queda.

Mediante o próprio ato de criar o homem à sua imagem e semelhança, Deus estabeleceu um relacionamento único entre ele e a criação. Em acréscimo ao seu soberano ato criador, Deus falou ao homem, determinando assim, com precisão, o papel do homem na criação. Por meio desse relacionamento de criar/falar, Deus estabeleceu soberanamente um pacto de vida e morte. Esse pacto original, entre Deus e o homem, pode ser chamado de aliança da criação. A aliança da criação entre Deus e o homem pode ser discutida em termos de seu aspecto geral e de seu aspecto focal. O aspecto geral da aliança da criação diz respeito às responsabilidades mais amplas do homem para com o seu Criador. O aspecto focal da aliança da criação diz respeito à responsabilidade mais específica do homem, decorrente do momento especial de prova ou teste instituído por Deus[7].

Na abordagem de Palmer, a aliança da criação se divide em aspectos geral e focal. No aspecto focal temos o período probatório que alguns autores chamam de pacto de obras, não nos ateremos a essa questão. No entanto, há questões interessantes no aspecto geral que nos prestam serviço aqui para o que estamos investigando. Palmer aponta para algumas questões no aspecto geral — o sábado, o casamento e o trabalho. Temos aqui justamente a questão dos mandatos — espiritual, social e cultural. Essa abordagem é importante para pensarmos em termos de reino de Deus. A não observância desse aspecto da aliança da criação tem feito a Igreja reduzir o reino de Deus a própria Igreja, como diz Palmer.

O reconhecimento desses dois aspectos na aliança da criação tem implicações de longo alcance. Em virtude de uma concentração exclusiva no teste específico referente à árvore do conhecimento do bem e do mal, as responsabilidades mais amplas do homem, como ser criado à imagem de Deus, têm sido frequentemente ignoradas. Essa perspectiva limitada tem se estendido às considerações sobre os propósitos redentores de Deus. Daí tem resultado o desenvolvimento de uma clamorosa deficiência no conceito da Igreja sobre o propósito da redenção do homem. Por pensar de modo muito limitado a respeito da aliança da criação, a igreja cristã tem cultivado uma deficiência na sua visão global sobre o mundo e a vida. Em vez de ser orientada no sentido do reino, como Cristo, ela se tornou exclusivamente orientada no sentido da Igreja[8].

Ao compreendermos a importância desse aspecto geral na aliança da criação, compreenderemos questões mais amplas em relação ao reino de Deus. O reino de Deus no mundo possui questões escatológicas, justamente porque a revelação se dá de forma orgânica e progressiva. Então há uma evolução em termos bíblicos postos na Escritura que irá solidificar nossa compreensão de reino de Deus. O salmo 104 é um exemplo da extensão do governo de Deus sobre toda a criação, sustentando e cuidando das criaturas, ali temos uma aliança feita pelo próprio Deus que é mencionada por Jesus em Mateus 6.26, disse o Senhor nessa passagem: “Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que elas?” Mas o salmo 104.23 ainda nos dá uma informação importante dentro do contexto da criação e do compromisso de Deus em sustentá-la: “Então o homem sai para o seu trabalho, para o seu labor até o entardecer”. Está posto o lado do homem nessa aliança da criação, o trabalho como mandato cultural. Temos também outras informações no salmo 8, também um salmo que trabalha a doutrina da criação e a aliança ali contida.

Senhor, Senhor nosso,
como é majestoso o teu nome em toda a terra!
Tu, cuja glória é cantada nos céus.

Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos
firmaste o teu nome como fortaleza,
por causa dos teus adversários,
para silenciar o inimigo que busca vingança.

Quando contemplo os teus céus,
obra dos teus dedos,
a lua e as estrelas que ali firmaste,

pergunto: Que é o homem,
para que com ele te importes?
E o filho do homem,
para que com ele te preocupes?

Tu o fizeste um pouco menor
do que os seres celestiais
e o coroaste de glória e de honra.

Tu o fizeste dominar
as obras das tuas mãos;
sob os seus pés tudo puseste:

todos os rebanhos e manadas,
e até os animais selvagens,

as aves do céu, os peixes do mar
e tudo o que percorre as veredas dos mares.

Senhor, Senhor nosso,
como é majestoso o teu nome em toda a terra!

Os destaques acima nos mostram a relação da majestade de Deus e do mandato cultural que tem relação com o trabalho das mãos humanas. Temos ainda o salmo 33, como um salmo da criação que também possui detalhes para nosso estudo.

Cantem de alegria ao Senhor,
vocês que são justos;
aos que são retos fica bem louvá-lo.

Louvem o Senhor com harpa;
ofereçam-lhe música com lira de dez cordas.

Cantem-lhe uma nova canção;
toquem com habilidade ao aclamá-lo.

Pois a palavra do Senhor é verdadeira;
ele é fiel em tudo o que faz.

Ele ama a justiça e a retidão;
a terra está cheia da bondade do Senhor.

Mediante a palavra do Senhor
foram feitos os céus,
e os corpos celestes, pelo sopro de sua boca.

Ele ajunta as águas do mar num só lugar;
das profundezas faz reservatórios.

Toda a terra tema o Senhor;
tremam diante dele
todos os habitantes do mundo.

Pois ele falou, e tudo se fez;
ele ordenou, e tudo surgiu.

O Senhor desfaz os planos das nações
e frustra os propósitos dos povos.

Mas os planos do Senhor
permanecem para sempre,
os propósitos do seu coração,
por todas as gerações.

Como é feliz a nação
que tem o Senhor como Deus,
o povo que ele escolheu para lhe pertencer!

Dos céus olha o Senhor
e vê toda a humanidade;

do seu trono ele observa
todos os habitantes da terra;

ele, que forma o coração de todos,
que conhece tudo o que fazem.

Nenhum rei se salva
pelo tamanho do seu exército;
nenhum guerreiro escapa por sua grande força.

O cavalo é vã esperança de vitória;
apesar da sua grande força, é incapaz de salvar.

Mas o Senhor protege aqueles que o temem,
aqueles que firmam a esperança no seu amor,

para livrá-los da morte e garantir-lhes vida,
mesmo em tempos de fome.

Nossa esperança está no Senhor;
ele é o nosso auxílio e a nossa proteção.

Nele se alegra o nosso coração,
pois confiamos no seu santo nome.

Esteja sobre nós o teu amor, Senhor,
como está em ti a nossa esperança.

Este salmo também nos mostra muitas coisas importantes. A adoração como parte importante da vida (mandato espiritual). Deus ama a justiça, diz o salmo, isso está relacionado a criação, também aplicado a vida dos homens, aos reis, as nações, a vida social (mandatos social e cultual). O salmo faz menção ao trono de Deus, uma referência ao seu reinado, seu governo sobre o mundo, a ideia é que os homens devem viver debaixo das orientações e mandamentos e decretos do grande rei do universo. Há também uma referência missiológica no salmo, que todas as nações adorem ao Senhor, fala da extensão e expansão do seu reino. Há uma questão missiológica, que promove uma reconfiguração de cosmovisão e também há uma questão escatológica que envolve tanto o avanço do reino como aponta para o governo eterno e consumado na restauração. O que também podemos dizer está relacionado com a adoração ao Deus verdadeiro, há estreita ou por que não dizer total relação entre cosmovisão cristã e adoração. Peterson nos diz:

O tema da adoração é muito mais central e significativo na Bíblia do que muitos cristãos imaginam. Está intimamente associado a todas as ênfases principais da teologia bíblica, como Criação, pecado, aliança, redenção, povo de Deus e esperança futura. Longe de ser um assunto sem importância, está relacionado a questão fundamental de como podemos ter um relacionamento correto com Deus e agradá-lo em tudo o que fizermos. De algum modo, a maioria dos livros de Gênesis a Apocalipse concentra-se nesse tema. Embora haja uma preocupação com o que pode ser designado especificamente atividade “religiosa” em vários contextos do Antigo Testamento, as leis cerimoniais foram estabelecidas dentro de uma estrutura mais abrangente, ou seja, as instruções sobre como viver sob o governo de Deus. Aliás, a teologia da adoração expressa as dimensões de uma orientação de vida ou de todo um relacionamento com o Deus vivo e verdadeiro[9].

Com essas considerações sobre vida, adoração e cosmovisão relacionadas ao governo soberano de Deus e nossa atuação no pacto, passaremos a investigar a questão escatológica mais detidamente.

2. A questão escatológica

No primeiro capítulo do seu livro sobre Teologia Bíblica do Novo Testamento, Beale nos diz:

Defendo a tese de que Gênesis 1-3 apresenta os temas básicos para o restante do AT, os quais, conforme veremos, são basicamente escatológicos. Esses temas, são, então, desenvolvidos no NT …

A comissão de Gênesis 1.26-28 implica os seguintes elementos, sobretudo na sua forma resumida em 1.28: (1) “Deus os abençoou”; (2) “frutificai e multiplicai-vos”; (3) “enchei a terra”; (4) “sujeitai” a “terra”; (5) “dominai sobre a terra”. Parece também que o fato de Deus haver criado Adão à sua imagem e semelhança é o que dá a este condições de realizar as partes específicas da missão. A criação de Adão por Deus à imagem divina como coroa da criação provavelmente deve ser considerada o conteúdo da “bênção” no início do versículo 28. A ordem para “sujeitar” e “dominar” “sobre toda terra” manifesta a realeza de Adão e provavelmente faz parte da definição funcional da imagem divina segundo a qual ele foi criado. Este aspecto funcional é talvez o ponto central do que significa Adão e Eva terem sido criados à imagem de Deus. Esse conceito funcional da imagem é subentendido em imagens de deuses no antigo Oriente Próximo, as quais não representavam a forma real da divindade nem davam indicações essenciais de seus atributos (embora isso às vezes estivesse incluído), mas eram o elemento por meio do qual a divindade manifestava sua presença e transmitia suas bênçãos. Quando reis do antigo Oriente Próximo eram considerados imagens de um deus, a ideia de sujeição e domínio da divindade por meio deles estava presente, e isso parece ser o melhor contexto para entendermos Adão rei e imagem de Deus em Gênesis 1.26-28[10].

Nesse trecho corroboramos mais uma vez a realeza de Deus relacionada à Criação e suas criaturas, Adão e Eva recebendo esse comissionamento real da parte de Deus para exercerem autoridade em termos culturais na terra. Entendemos que a escatologia tem relação inquestionável com a realeza de Deus. Em outras narrativas no livro do Gênesis lemos sobre ações soberanas de Deus que demonstram seu poder real e criador. Exemplifiquemos essa questão. No proto-evangelho em Gênesis 3.15, temos a promessa da semente da mulher que esmagaria a semente da serpente. Embora a semente da mulher fosse se manifestar diretamente com o nascimento de Sete, temos dados bíblicos de como a providência guiou essa promessa durante toda a história da redenção. A preservação da família de Noé, o nascimento de Isaque, o nascimento dos gêmeos Esaú e Jacó (com a escolha de Jacó), o nascimento de Judá de um relacionamento de Jacó com uma concubina, a preservação da família de Jacó em sua velhice, sua vinda ao Egito, a libertação posterior do povo e o Êxodo. Estes são exemplos que mostram o transcurso da promessa feita a Eva que está mais plenamente registrado nas Genealogias de Jesus nos evangelhos.

Ainda temos que mencionar outras questões importantes em Gênesis como a destruição do mundo com o dilúvio e a preservação de Noé e sua família. Temos ali um microcosmo de juízo e recriação, um novo Gênesis, percebamos as ordens de que Deus dá a Noé no capítulo 9.

Deus abençoou Noé e seus filhos, dizendo-lhes: “Sejam férteis, multipliquem-se e encham a terra. Todos os animais da terra tre­merão de medo diante de vocês: os animais sel­vagens, as aves do céu, as criaturas que se mo­vem rente ao chão e os peixes do mar; eles estão entregues em suas mãos. Tudo o que vive e se move servirá de alimento para vocês. Assim como dei a vocês os vegetais, agora dou todas as coisas”. Mas não comam carne com sangue, que é vida. A todo aquele que derramar sangue, tanto ho­mem como animal, pedirei contas; a cada um pedirei contas da vida do seu próximo. Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus foi o homem criado. “Mas vocês sejam férteis e multipliquem-se; espalhem-se pela terra e proliferem nela”. Então disse Deus a Noé e a seus filhos, que estavam com ele: “Vou estabelecer a minha aliança com vocês e com os seus futuros descen­dentes, e com todo ser vivo que está com vo­cês: as aves, os rebanhos domés­ticos e os animais selvagens, todos os que saíram da arca com vocês, todos os seres vivos da terra. Esta­beleço uma aliança com vocês: Nunca mais será ceifada nenhuma forma de vida pelas águas de um dilúvio; nunca mais haverá dilúvio para des­truir a terra”. E Deus prosseguiu: “Este é o sinal da aliança que estou fazendo entre mim e vocês e com todos os seres vivos que estão com vocês, para todas as gerações futuras: o meu arco que coloquei nas nuvens. Será o sinal da minha alian­ça com a terra. Quando eu trouxer nuvens sobre a terra e nelas aparecer o arco-íris, então me lembrarei da minha aliança com vocês e com os seres vivos de todas as espécies. Nunca mais as águas se tornarão um dilúvio para destruir toda forma de vida. Toda vez que o arco-íris estiver nas nuvens, olharei para ele e me lembra­rei da aliança eterna entre Deus e todos os seres vivos de todas as espécies que vivem na terra”. Concluindo, disse Deus a Noé: “Esse é o sinal da ali­ança que estabeleci entre mim e toda forma de vida que há sobre a terra”[11].

Os mandatos são novamente dados, espiritual, cultural e social. A realeza de Deus é novamente invocada no texto. Temos aqui ainda que de forma embrionária uma escatologia estabelecida já no livro de Gênesis que tem fins de instruir o povo da Aliança no deserto a viverem de forma que Deus seja honrado como rei e glorificado, o Gênesis em seus capítulos 1-11 em especial tem o propósito de reconfigurar a visão de mundo do povo, demonstrando que Deus é rei. Mas ainda sobre a aliança com Noé, House nos diz:

Noé torna-se o catalizador da misericórdia e juízo divinos. Deus decide castigar o pecado no mundo inteiro, eliminando os pecadores mediante o dilúvio generalizado (6.13). Noé será poupado mediante a construção de um barco e salvará sua família e os animais ao conduzi-los para dentro da embarcação (6.14-22). Por meio desse processo concretizam-se os planos divinos de castigar o pecado e poupar uma minoria justa, ou remanescente. A família de Noé torna-se, desse modo, o meio pelo qual o Deus misericordioso preserva a raça humana e também símbolo visível de como o Deus justo e bom faz distinção entre fiéis e desobedientes[12].

Devemos reconhecer por questões hermenêuticas que nossa plena compressão das narrativas sobre o dilúvio servindo como prévias do grande juízo final, por causa da organicidade da revelação e pelas informações que o NT nos dá três textos, nos clareiam ainda mais o que estamos tratando aqui em termos menores de juízo e salvação em Gênesis e a consumação.

Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai. Como foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do homem. Pois nos dias anteriores ao Dilúvio, o povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e eles nada perceberam, até que veio o Dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do homem (Mt 24.36-39).

Ele não poupou o mundo antigo quando trouxe o Dilúvio sobre aquele povo ímpio, mas preservou Noé, pregador da justiça, e mais sete pessoas (2P 2.5).

Pela fé Noé, quando avisado a respeito de coisas que ainda não se viam, movido por santo temor, construiu uma arca para salvar sua família. Por meio da fé ele condenou o mundo e tornou-se herdeiro da justiça que é segundo a fé (Hb 11:7).

Gênesis é um livro fundamental para pensarmos escatologia, não é uma questão meramente de trancas de interpretação, é uma questão de uma leitura honesta com o texto e o objetivo dele no cânon. Deus é mostrado como Rei. Seu reinado impõe sua vontade para seu reino, os homens têm participação no transcorrer de suas determinações eternas para a história. No próximo artigo falaremos sobre a teologia da história e continuaremos pontuando questões escatológicas e suas relações com a cosmovisão cristã. Adão, Noé, Abraão, José são personagens importantes em Gênesis para estabelecermos uma análise que considera: vontade soberana, graça, restauração, promessa e juízo. Temos em Gênesis um microcosmo da Bíblia toda.

___________________

[1] CAMPOS Jr., Heber. Amando a Deus no Mundo. Por uma cosmovisão reformada. Ed. Fiel. São José dos Campos, SP. 2019, p. 70.

[2] DILLARD, Raymond B.; LOGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. Ed. Vida Nova, São Paulo, 2006, p. 55.

[3] VANGEMEREN, Willem. O Progresso da Redenção. A história da salvação da criação à nova Jerusalém. Ed. Shedd. São Paulo, 2019, p.41.

[4] VOS. Geerhardus. Teologia Bíblica do Antigo e Novo Testamentos. Ed. Cultura Cristã, São Paulo, pp. 43-58.

[5] Romanos 8.28-30.

[6] WALTKE, Bruce K.; FREDERICKS, Cathi J. Comentários do Antigo Testamento, Gênesis. Ed. Cultura Cristã. São Paulo, 2010, 63.

[7] ROBERTSON, O. Palmer. O Cristo dos Pactos. Ed. Cultura Cristã. São Paulo, 2ª Edição, 2011, p. 60.

[8] Ibdem.

[9] PETERSON, David. Teologia Bíblica da Adoração. Cultuando a Deus como ele orienta. Ed. Vida Nova, São Paulo. 2019, p. 13.

[10] BEALE, G.K. Teologia Bíblica do Novo Testamento. Ed. Vida Nova, São Paulo. 2018, pp. 47, 48.

[11] Gênesis 9.1-17.

[12] HOUSE, Paul. Teologia do Antigo Testamento. Ed. Vida, São Paulo. 2005, p.87.

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