A extinção da religião no comunismo

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Vladimir Lenin discursando para soldados na Praça Vermelha de Moscou. Foto: Tass/PA Images

Para os marxistas, cultura é a superestrutura erguida sobre as bases da economia, refletindo os interesses e valores das classes dominantes. A religião não passa de uma crença primitiva, relíquia de um tempo em que os homens ainda se esforçavam por entender o mundo ao redor; é um instrumento utilizado pela classe dominante em termos econômicos para manter os trabalhadores subjugados. Por isso, o triunfo do socialismo trará uma nova cultura, expressão dos interesses e valores do proletariado em ascensão. A religião desaparecerá (Pipes, 2018, p. 331).

Dessa forma bem direta, o historiador Richard Pipes comenta em seu livro História concisa da revolução russa a relação entre cultura, religião e o comunismo bolchevique. Como o título do livro diz, Pipes apresenta um panorama histórico da revolução de 1917 bem como os desdobramentos diretos que se deram entre as diversas alas da sociedade russa pós revolução.

Pipes começa falando sobre como o governo comunista lidou com a arte. Segundo ele, os bolcheviques entendiam que as obras culturais desenvolvidas no período “burguês” eram irrelevantes e deveriam ser destruídas, fazendo então com que novas obras fossem produzidas dentro do contexto do proletariado. E as novas obras deveriam ser produzidas pelos proletários, não pelos burgueses. Embora Lênin não concordasse totalmente com essa ideia, ele foi, no mínimo, tolerante. Com isso, muitos esforços foram gastos na tentativa de se criar novos “artistas”. Por um lado, isso fez com que fossem criadas escolas onde as pessoas mais pobres aprendiam sobre poesia, pintura e artes no geral. Por outro, o talento foi deixado de lado em detrimento da classe social, e muito do que historicamente foi produzido foi abandonado. Com isso, surgiu uma geração que muito pouco produziu de bom no que diz respeito a cultura.

A perseguição à fé na União Soviética

No campo da religião a situação foi pior. Enquanto no que diz respeito à arte houve uma mudança significativa, no que diz respeito a religião a intenção era a extinção, não somente a mudança – embora nem todas as religiões fossem perseguidas, o Islamismo foi tolerado.

Os ataques, inicialmente, foram direcionados à Igreja Ortodoxa. O clero foi privado de seus rendimentos, as igrejas foram espoliadas e seus prédios acabaram se tornando prédios públicos. Junto a isso, a educação religiosa foi banida, e os feriados religiosos foram convertidos em dias de festas comunistas. Mas a Igreja ainda não estava morta. Em 1917 houve um concílio onde a ala conservadora da igreja venceu e o patriarcado, que havia sido abolido em 1721 por Pedro o Grande, foi restabelecido, tendo como patriarca Vasily Ivanovich Ballavin, mais conhecido como Tíkhon de Moscou. Tíkhon defendia uma separação entre a Igreja e o Estado. Segundo ele, o clero deveria se dedicar ao “socorro espiritual numa época de grandes privações” (Pipes, 2018. p. 351).

Com isso, os bolcheviques criaram um decreto intitulado “Sobre a Separação da Igreja e do Estado”, onde atacavam diretamente as economias da igreja. O decreto obrigava o confisco de bens e de todos os fundos pertencentes as igrejas, bem como as construções e os objetos usados nos rituais litúrgicos. Ao mesmo tempo, proibiam a cobrança de qualquer taxa pela igreja, bem como a arrecadação de ofertas pelos fiéis. Criaram também um isolamento entre paróquias desestruturando totalmente a igreja.

Como diz Pipes, “qualquer cooperação ou simples consulta entre clérigos de diferentes paróquias seria considerada um indício de atividades contrarrevolucionárias” (Pipes, 2018, p. 352).

No ano de 1918, membros das forças armadas comunistas saquearam igrejas e mosteiros, atacaram procissões, além de assassinarem bispos e padres. Tíkhon, como líder da igreja, condenou publicamente esses ataques. Como resultado, ele acabou sendo condenado à prisão domiciliar. Isso intensificou ainda mais a guerra entre o governo comunista e a Igreja Ortodoxa. Nos anos 1921 e 1922, mesmo com essa maciça perseguição, a Igreja ainda conseguia se manter fora do controle do Partido Comunista.

Lênin, no entanto, não via isso com bons olhos. Explorando as divergências internas da igreja, ele provocou vários conflitos. Com isso, diversos líderes da ala conservadora da igreja foram presos sob a alegação de indiferença da igreja em relação as dificuldades enfrentadas pela população, sobretudo a fome constante e crescente. Sob instrução de Trótski, a igreja foi obrigada a entregar seus objetos de valor, sob alegação de que seriam vendidos e que os recursos seriam usados na ajuda à população faminta. Com isso, todos os objetos de prata, ouro e pedras preciosas foram retirados das igrejas.

Tíkhon, obviamente, se opôs a esses atos e ameaçou excomungar todos os envolvidos. Com isso, foi novamente colocado em prisão domiciliar. Pipes afirma que em alguns lugares, os próprios fiéis resistiram a essa desapropriação, havendo casos onde os crentes enfrentavam de peito aberto soldados armados com metralhadoras.

Sem fazer caso das ameaças de Tíkhon e da vontade do povo, Lênin ordenou que a desapropriação prosseguisse sem esmorecimento. Em nota enviada ao Politburo, em 19 de março de 1922, ele ordenou “numerosas execuções” para aqueles que se opusessem a tomada de valores da igreja, e afirmou que “quanto mais representantes da burguesia conseguirem executar, melhor”.

Estima-se que de abril a junho, cerca de 28 bispos e 1.215 padres foram mortos. Durante todo o ano de 1918, aproximadamente oito mil pessoas foram executadas nessa estratégia de desapropriação dos bens da igreja.

Segundo Pipes, em termos de valores, essa campanha arrecadou em torno de quatro a oito milhões de dólares, o que num território do tamanho da Rússia seria muito pouco, percentualmente falando. Isso acabou por provar que as paróquias não tinham tanta riqueza como se pensava. Parte irrisória desse valor foi usado para aliviar a fome do povo – vale lembrar que na fome de 1922 a Rússia recebia ajuda dos Estados Unidos e da Europa.

A estratégia de extinção da religião continuava a todo vapor. A Komsomol, organização juvenil do partido comunista, se embrenhou numa campanha de desmoralização dos feriados religiosos. Eles criaram seu próprio Natal, onde bandos de jovens desfilavam vestidos de padres, carregando imagens, gritando blasfêmias e fazendo chacotas das cerimônias que ocorriam nas igrejas.  Eles tinham até uma música própria, que dizia: “Não precisamos de rabinos, nem de padres! Vamos espancar os burgueses e estrangular os Kulaks!”.

Em março de 1922 foi criada a “Igreja Viva”, era uma espécie de igreja estatal administrada pela GPU (a polícia secreta russa, precursora da temida KGB), e que mantinha a seu serviço alguns padres renegados. Tíkhon, ainda preso, concordou em se retirar e foi substituído por uma nova administração comandada pelo governo. Uma grande campanha pública foi criada pedindo o fim do patriarcado. Isso acabou por levar vários bispos a se unirem a “Igreja Viva”. Os que se opuseram foram presos e outros que eram adeptos da nova igreja ocuparam seus lugares.

Em 1923, totalmente alinhada com o Partido Comunista, a “Igreja Viva” em seu II Conselho declarou a revolução de 1917 como um “ato cristão”, negou que houvera perseguição comunista aos cristãos e declarou Lênin como “líder mundial” e “tribuno da justiça social”. Ainda segundo Pipes, na ocasião, o governo soviético foi declarado como o único no mundo a se emprenhar na realização do “Reino de Deus”.

Rendido a tudo isso, Tíkohn escreveu uma carta às autoridades negando o seu passado anticomunista. Como recompensa, as igrejas patriarcais foram autorizadas a reabrir suas portas. Em abril de 1925 Tíkhon faleceu. Como havia cumprido o seu papel, a “Igreja Viva” foi perdendo o apoio do Kremlin e desapareceu. Pipes afirma que a maioria dos seus líderes foram presos no início dos anos 1930.

Além da Igreja Ortodoxa, judeus e católicos também foram perseguidos, presos e mortos nesta tentativa de extinção da religião. Houve um programa sistematizado de lançar cristãos contra judeus e vice-versa. Jovens judeus eram arregimentados, de propósito, em campanhas antirreligiosas, passando com isso a ideia de que os judeus é que eram os inimigos, reforçando ainda mais o antissemitismo. Richard Pipes afirma:

Depois das privações econômicas, nenhuma ação do governo de Lênin infligiu maior sofrimento à população como um todo do que a profanação de suas convicções religiosas, o fechamento das igrejas e os maus-tratos infligidos ao clero (Pipes, 2018, p. 350).

O único ramo religioso que não sofreu perseguição foi o islamismo. Como Lênin ambicionava os muçulmanos do Oriente Médio, pelo menos até o fim da década os muçulmanos mantiveram seus direitos, seu ensino religioso e suas propriedades religiosas.

Notando as similaridades

Similaridades entre o modus operandi dos comunistas bolcheviques do século XX e o modus operandi da esquerda socialista do século XXI são claramente perceptíveis. Há um movimento crescente da esquerda de extinguir a religião, sobretudo a que traz consigo os valores conservadores judaico-cristãos. Assim, toda a arte produzida no passado que remete a tais valores é desprezada e há a tentativa de reconstruir e repaginar todo o passado, inclusive, por meio de tentativas de se reescrever a história, tornando heróis em vilões e vilões em heróis.

Constantemente ramos do Estado tentam interferir em questões religiosas que não lhe dizem respeito. Caso tivéssemos um governo socialista no poder, é inegável que a situação estaria muito pior. Basta ver como alguns governadores e prefeitos no Brasil se portaram no tratamento da pandemia da Covid-19, agindo de forma totalmente arbitrária, fechando igrejas, interrompendo transmissões de cultos via internet, ameaçando à prisão padres e pastores – e sob a alegação de estarem protegendo o povo.

Junto a isso, é crescente em nosso país o vilipêndio de símbolos religiosos caros aos cristãos. Em algumas manifestações esquerdistas imagens religiosas são introduzidas nas partes íntimas dos manifestantes em forma de protesto. Figuras monstruosas são colocadas nas representações do Cristo crucificado.

Além disso, existe um grande número de líderes religiosos cooptados pela esquerda que renegam princípios básicos do cristianismo para defenderem uma agenda ideologizada e anticristã. Para tais líderes, o evangelho foi reduzido a uma luta de classes e a uma busca frenética por igualdade, estagnando-se somente nisso. O pecado não pode mais ser considerado pecado sob a alegação de que se trata de questões culturais, e apontá-lo pode vir a ofender determinados grupos. A Bíblia foi deixada em segundo plano e a “cultura ideologizada” unida à vontade individual é o que prevalece. Para tais, a Bíblia foi reescrita e reduzida a poucos versículos: “amai ao próximo como a si mesmo” e “não julgueis para não serdes julgados”. Ainda assim, mesmo reduzindo a Bíblia a pouquíssimos versículos, esta continua a ser muito mal interpretada.

Infelizmente, muitos crentes desatentos seguem essa onda. Basta uma olhada nas redes sociais, ou uma simples conversa com alguns, e percebe-se o quanto as pessoas estão afetadas por essas ideias. A tentativa esquerdista de extinção do cristianismo tem sido, em alguns casos, defendida até mesmo por “cristãos”.

Enganados por um discurso de igualdade social e defesa de políticas identitárias, muitos estão buscando a solução dos problemas sociais fora do cristianismo bíblico e abraçam o socialismo fazendo deste o seu redentor. Tais pessoas não percebem que o cristianismo bíblico é a única solução para os problemas que nosso mundo enfrenta e que sempre enfrentou.

Óbvio que não estou defendendo que lutar contra desigualdades seja antibíblico, mas, lutar contra as desigualdades deixando o Cristo como revelado na Bíblia de lado é totalmente errado. E é exatamente essa rejeição do Cristo Salvador que a utopia esquerdista tem afirmado. A prova disse é que geralmente há a necessidade de uma reconstrução do Cristo, precisando adaptá-lo ao formato e a agenda de determinados grupos. Infelizmente, “cristãos” que defendem esse tipo de coisa se esquecem que a Palavra pura e genuína de Cristo é o único remédio. E a Palavra pura e inspirada que traz a solução para todos os problemas da humanidade. Cristo é a solução: mas o Cristo bíblico, não o “Cristo” repaginado e reconfigurado de acordo com a ideologia. No entanto, tais pessoas não enxergam dessa forma. Para eles, a redenção se encontra na política, na educação, na ideologia, menos por meio de Cristo como revelado na Bíblia. Isso não é novo, fomos avisados.

O apóstolo Paulo escrevendo para Timóteo diz o seguinte: “O Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns se desviarão da fé e darão ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios, sob a influência da hipocrisia de homens mentirosos, que têm a consciência insensível.” (1Tm 4.1,2 A21). Ainda que em seu contexto direto o apóstolo Paulo fazia menção a situação diferente, é inegável que vivemos dias onde muitos se desviam da fé bíblica por darem ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios.

O Senhor Jesus também alertou sobre falsos profetas, falsos mestres que desvirtuam o evangelho: “Cuidado com os falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em pele de ovelha, mas interiormente são lobos devoradores” (Mt 7.15).

Pedro também fez um alerta grave contra esse tipo de coisa: “Mas entre o povo também houve falsos profetas, assim como entre vós haverá falsos mestres. Às ocultas, introduzirão heresias destruidoras, negando até o Senhor que os resgatou e trazendo sobre si mesmos repentina destruição” (2Pe 2.1). Trocar o Cristo revelado na Bíblia por qualquer outro tipo de “Cristo” é claramente negar o Senhor – e abraçar o Anticristo.

Em outro texto o apóstolo Paulo também diz: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (Gl 1.8). Paulo é enfático ao dizer que qualquer “outro” evangelho não é o evangelho, e deve ser tido por maldito. Esse evangelho socialista, que distorce o verdadeiro evangelho e tenta reconstruir o Cristo é anátema, e não deve ser tolerado. Suas possíveis “boas intenções” estão carregadas de um espírito demoníaco que em outros tempos matou 100 milhões de pessoas. Sob a alegação de igualdade social, deixou um rastro de miséria e morte.

Por outro lado, ainda que fiquemos alarmados e devamos orientar os membros da comunidade cristã, estamos seguros: as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja de Cristo. O joio ao seu tempo será lançado no fogo e será consumido. Os inimigos declarados de nosso Senhor serão derrotados, os falsos profetas serão desmascarados. E aqueles que resistirem à perseguição e forem fiéis até a morte olharão para o seu Senhor, e estarão com ele para sempre. “E Deus mesmo estará com eles. Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima: e não haverá mais morte, nem pranto, nem lamento, nem dor, porque as primeiras coisas já passaram. (Ap 21.3-4).

Que Deus guarde seu povo de todo engano, e que o único Jesus, o eterno Filho de Deus, o descendente de Davi, o salvador, o Profeta, o Rei, o sacerdote, o único e verdadeiro Messias, prevaleça.

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