A cidade e suas assertivas contraditórias

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As incoerências do novo livro de um cantor que se afastou do cristianismo denunciam um fenômeno urbano: a substituição da fé pelo misticismo

O que fazer, então, de Jesus Cristo? Essa é uma questão que tem, num certo sentido, um lado freneticamente cômico. Pois a questão real não é o que fazer de Cristo, mas o que ele faz conosco. A imagem de uma mosca sentada tentando decidir o que fazer de um elefante mostra o elemento cômico nisso tudo.

C.S. Lewis, God in the Dock

Muito se lê e se fala nos dias de hoje sobre pós-modernismo, relacionado particularmente com o fenômeno urbano. Não que o assunto seja muito novo. Já no Antigo Testamento há várias referências às cidades, sua fundação e queda, sendo os casos mais destacados os da Babilônia e de Roma. A novidade está em que o ser humano, ao mesmo tempo que quer declarar-se independente de quaisquer referenciais supra-humanos, inclusive éticos, busca uma pseudo-religiosidade através de seitas cada vez mais sofisticadas, como a maçonaria ou a Opus Dei , e do misticismo religioso. Isso me parece altamente contraditório numa era que se gaba da sua “liberdade religiosa”, por exemplo.

Recentemente, caiu-me nas mãos, por exemplo, um texto que já conhecia, de um ex-cristão, agora ateu, que questiona fortemente o livro clássico de C.S. Lewis, Cristianismo puro e simples (São Paulo: Martins Fontes). Em Meras asserções: uma crítica a Mero cristianismo , de C.S. Lewis (se preferir, leia no original em inglês do site sugestivamente intitulado Freedom from Religion), o ex-cantor cristão Dan Barker faz uma crítica, a meu ver até procedente, à “indústria do consumismo cristão”, mas usa um péssimo exemplo para tentar fazer a sua apologética da liberdade das amarras da religião. Vou me limitar a duas afirmações completamente distorcidas que ele faz do livro em questão.

De acordo com Lewis, se você quiser encontrar Deus, procure dentro de você mesmo para descobrir esse desejo de moralidade e perceba que você quebrou essa lei, todos os dias. Cristianismo puro e simples acaba recorrendo ao velho sermão: você é um pecador e sabe disso. Não se sente mal? Então, quando estiver apropriadamente envergonhado, você verá a beleza do plano da salvação que esta divindade revelou através da morte e ressurreição de Jesus Cristo (o qual Lewis toma como um ser historicamente real).

Este é o ponto que Lewis precisamente tem contra os racionalistas de sua época, como Freud, por exemplo: a busca por Deus não se dá para dentro de si mesmo, no campo da subjetividade. Aliás, procurar Deus por essa via é que é perigoso para a saúde mental, como se pode ver no caso do próprio Freud e de Nietzsche. Traduzi recentemente um livro, de título Deus em Questão:  C.S. Lewis e Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida (Viçosa: Editora Ultimato, 2005), que aprofunda o debate a partir da história de vida dos dois autores, postos frente a frente.

Outra mentira deslavada é a de que Lewis podia relaxar porque a maioria de seus leitores é cristã e só está em busca de confirmação de sua fé. Eu conheço – e o autor mesmo cita alguns casos – pessoas que vieram a se converter precisamente pela leitura dos livros dele. Portanto, elas não poderiam ser cristãs antes de começar a ler, sem falar nas Crônicas de Nárnia , que são lidas nas escolas americanas, muitas vezes sem que ninguém as associe ao cristianismo. Portanto, Lewis era a pessoa menos indicada para relaxar .

Como cristã e professora das cadeiras de Ética e Filosofia da Educação, também simplesmente não posso concordar com a segunte frase:

Qualquer moralidade que for baseada numa estrutura inflexível, acima e além da humanidade, é perigosa para os seres humanos.  A história está cheia de exemplos do que a “moralidade” religiosa tem feito para piorar nosso estado.

Aliás, o texto dele, que se pretende tão acima das estruturas inflexíveis, é ele mesmo repleto de quaisquer . Quem já estudou a lógica sabe que não é um pronome muito relativo . É ainda menos democrática esta frase final: “O livre-pensamento exige provas no lugar de analogias, e informação ao invés de dogmas.” Quem conhece o autor mais de perto sabe que ele jamais pretendeu impor algum “dogma lewisiano”. Ele simplesmente deu as razões de sua fé nos dogmas escritos há séculos na Bíblia (o que imagino ainda ser um direito reservado a um autor), usando uma das linguagens mais democráticas que existem para fazê-lo: a linguagem simbólica aplicada a obras como as Crônicas de Nárnia ou à trilogia espacial. Mas como vivemos numa época de crise, tanto da linguagem narrativa quanto da simbólica, ele tende a cair em ouvidos ensurdecidos pela poluição sonora que nos envolve no mundo pós-moderno, principalmente nos grandes centros urbanos. Além de muito parecidos entre si, eles nos lembram constantemente que vivemos na Era de Aquário, ligada a um movimento chamado Nova Era e suas variadas faces. Nada como ter estudado numa universidade pública para conhecer os movimentos que se encontram debaixo desse guarda-chuva.

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