Traços totalitários nas discussões políticas

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O romance “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, gira em torno de Raskólnikov, um estudante de Direito em São Petersburgo cujas ideias sobre a humanidade (e sobre si mesmo) são testadas ao cometer um assassinato. Em uma das cenas mais marcantes do livro, enquanto ainda tentava resistir à realidade de sua miséria, relata o homicídio cometido: “Foi só um piolho que matei, Sônia: um piolho inútil, repugnante, maligno”¹. Esse esbravejar decorria da crença, à qual desesperadamente se agarrava, de que existiam indivíduos inferiores, ordinários, e outros, como ele, os timoneiros da humanidade. Ao longo da narrativa, sua autoimagem vai sendo esfacelada, enquanto ele agoniza em virtude de seus atos.

Em nosso contexto eleitoral, especialmente na disputa presidencial, não tem sido incomum, no trato com desafetos políticos, haver textos, comentários e conversas similares ao dito por Raskólnikov. Esse não é um fenômeno irrelevante, mas revelador das distorções na visão de muitos acerca do ser humano e da natureza e lugar da política. Perigosamente, a retórica pública intolerante – alardeada, em muitos casos, pelos arautos da tolerância pós-moderna – é um sintoma do desabrochar de sementes totalitárias plantadas no solo da ideologia política.

“Em seu sentido original, ideologia significa todo um sistema de valores, conceitos, convicções e normas que são usadas como um conjunto de ferramentas para alcançar um fim social específico, concreto e abrangente”². Enquanto a “política se contenta em trabalhar com a condição vigente da sociedade, conciliando os interesses existentes”³, com a finalidade de “reunir os homens para estabelecer vida social comum, cultivá-la e conservá-la”4, as ideologias buscam revolucionar a sociedade de acordo com os fins que estabelece.

As ideologias políticas possuem três marcas distintivas. Primeiro, elas são reducionistas, pois reduzem toda a realidade à política, destruindo a pluralidade de aspectos da vida e, com isso, politizando todos os domínios da existência. Em segundo lugar, as ideologias promovem uma redefinição narrativa da realidade. Elas substituem a narrativa bíblica – da criação por Deus, queda no pecado e redenção por meio de Cristo – por algum simulacro. Por fim, a ideologia recria o mundo, ao reinterpretar toda a realidade a partir daquilo que é tido como absoluto, como a divindade substituta, como o redentor. O shalom, dessa forma, consistirá em consumar o fim narrativo proposto, por intermédio da atuação política.

É possível identificar tais características na narrativa clássica do marxismo. Reducionismo: “A história de todas as sociedades até nossos dias é a história de lutas de classes”5. Redefinição narrativa:

O correlativo de Marx ao jardim do Éden era o estado de comunismo primitivo. E como foi que a humanidade caiu deste estado de inocência para a escravidão e tirania? Pela criação da propriedade privada. Desta “queda” econômica surgiram todos os males da exploração e luta de classe. A redenção ocorre pela inversão do pecado original – neste caso, destruindo a posse da propriedade privada. E o “redentor” é o proletariado, os trabalhadores de fábrica urbanos, que se revoltarão em revolução contra seus opressores capitalistas.6

Recriação do mundo: a igualdade econômica é o objetivo supremo, de forma que a paz (o eschaton) virá juntamente com ela, posto que todos os males do mundo advêm da desigualdade. “Os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: abolição da propriedade privada”7. Por meio disso, o shalom será alcançado: “Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e seus antagonismos de classes, surge uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”8.

A ideologia, portanto, é uma falsa consciência, uma representação distorcida da realidade e da história, absolutizando um elemento da existência, elevando-o ao status de divindade: “cada ideologia se fundamenta no ato de isolar um elemento da totalidade criada, elevando-o acima do resto da criação e fazendo com que esta orbite em torno desse elemento e o sirva”9. Este elemento passa a ser a fonte última de autoridade e de legitimidade de toda a vida.

O risco existente nessa situação nos é apresentado por Roy Clouser: “qualquer comunidade tida como fonte de toda a autoridade é, com isso, levada a ter todas as outras comunidades sociais sob a sua autoridade, em todos os aspectos, e, então, a exercer supremacia sobre a totalidade da vida humana.”10 Não à toa, Hannah Arendt afirmou que “todas as ideologias contêm elementos totalitários”11, ainda que sua manifestação dependa de movimentos tipicamente totalitários.

A partir da ideologia, surge o que Bernard Crick chamou de homem totalitário, aquele que “pensa que, para o governo, tudo é relevante, e que a função deste é reconstruir a sociedade estritamente de acordo com os objetivos de uma ideologia”12. É característica singular do homem totalitário (e do totalitarismo) tentar remodelar o mundo a partir de uma ideia, promovendo pela força e terror a uniformização da sociedade.

Russell Kirk afirmou que a “ideologia é a política da irracionalidade apaixonada”13. A ideologia é a política da incredulidade, calcada no mau direcionamento do amor último humano, na apostasia, na rebeldia contra o Deus verdadeiro. Tal incredulidade pública promove a antipolítica, destruindo a vida em comunidade ao tentar extinguir, pelo uso do poder, o âmbito de existência e funcionamento da política, a seara dos conflitos públicos: “Quanto mais um [indivíduo] se envolve nas relações de seus semelhantes, mais conflitos de interesses, caracteres e circunstâncias vão surgindo. Esses conflitos […], quando públicos, criam a atividade política”14.

Ora, movidos por essa finalidade, a partir de uma narrativa falsa, mas que busca integralidade, os adeptos da ideologia passam a defender um movimento em direção à homogeneização da sociedade, ou seja, buscam erigir um edifício a partir de uma visão monolítica da realidade, reportando todo pensamento distinto como uma atitude pecaminosa, delituosa, por agir em sentido contrário ao ideal redentivo. O desejo da ideologia, e do totalitarismo, é conformidade social absoluta, é o término de todos os conflitos sociais por meio da imposição de uma visão unívoca – que é reportada como perfeita, em si, para além de qualquer tipo de explicação ou teste. No fim das contas, aquele que pensa de maneira diferente, que defende ideias divergentes, perde sua humanidade e torna-se descartável, podendo ser jogado na vala comum – o que aconteceu, literalmente, nos Gulags e nos campos de concentração nazistas. Charles Taylor corrobora essa visão:

Esta representava uma das ideias norteadoras por trás dos diversos movimentos e regimes totalitários da nossa época. A sociedade precisou ser totalmente remodelada, e não se deveria permitir que quaisquer obstáculos tradicionais à ação impedissem essa empreitada [de impor sem restrições e de forma ilimitada o código perfeito]”15

A vala comum dos campos de concentração pode, por ora, ter ficado para trás na maior parte do mundo. Entretanto, precisamos perceber os traços totalitários que circundam nosso contexto político. O totalitarismo pode se travestir de inúmeras maneiras. Penso que uma delas hoje tem a ver com o discurso público. A postura de condescendência com aquele que pensa política de forma distinta, reportando-o como inferior e, por isso, menos digno, pode crescer em direção a atitudes mais ofensivas, humilhações públicas e até mesmo linchamentos virtuais – verdadeiras demonstrações de que a ira idólatra não é aplacada sem o sacrifício completo. A ação física pode não ser levada a cabo, a priori, entretanto, na raiz está a mesma questão: a consideração do outro como “um piolho inútil, repugnante, maligno”.

A redenção de Raskólnikov aparece de maneira sutil no livro. Inicia com o reconhecimento de sua humilhação, passa pela admissão de culpa e termina quando, silenciosamente, ama Sônia e o Evangelho. Na mesma medida, esses são os passos básicos para combatermos as tentações totalitárias: um reconhecimento de nossa limitação e miserabilidade, o que nos impossibilita de nos vermos superiores ao outro (Rm 3); a admissão de que temos, muitas vezes, sentimentos totalitários e afeições que carecem do perdão divino, enquanto nos engajamos em discussões políticas; o retorno às verdades das Escrituras acerca do papel limitado do governo civil e da política (Rm 13); e o direcionamento do nosso amor último ao único e verdadeiro Rei, o Senhor Jesus Cristo (Mt 22.34-40), refúgio contra as religiões civis idólatras.

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 1 DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Crime e Castigo. São Paulo: Martin Claret, 2013, p. 453.

2 GOUDZWAARD, Bob. Idols of our time. Illinois: Inter-Varsity Press, 1984, p. 18.

3 KOYZIS, David T.. Visões e Ilusões Políticas: uma análise & crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 24.

4 ALTHUSIUS, Johannes. Política. Rio de Janeiro: Editora Topbooks, 2013, p. 103.

5 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Editora Escala, 2009, p. 53.

6 PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta: libertando o Cristianismo de seu cativeiro cultural. Rio de Janeiro: Editora CPAD, 2012, p. 152

7 MARX, Ibid., p. 72.

8 Ibid., p. 83.

9 KOYZIS, Ibid., p. 18.

10 CLOUSER, Roy. The Myth of Religious Neutrality. Indiana: University of Notre Dame Press, 2005, p. 294.

11 ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 626.

12 CRICK, Bernard. Em defesa da política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981, p. 17.

13 KIRK, Russell. A política da prudência. São Paulo: É Realizações Editora, 2014, p. 98.

14 CRICK, Ibid., p. 9.

15 TAYLOR, Charles. Uma era secular. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2008, p. 70.

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