Sagrada escritura e tradição

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A relação entre Sagrada Escritura e tradição é uma das questões básicas da teologia. Nos círculos evangélicos, o conceito da Sagrada Escritura é bem claro: a Bíblia é a Palavra de Deus, e como Palavra de Deus ela é base e norma para a doutrina e a vida da igreja. É assim que declara a Confissão de Westminster:

A autoridade da Escritura Sagrada… depende somente de Deus que é o seu Autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a Palavra de Deus… O Juízo Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas… não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura.1

O Livro de Concórdia é semelhante:

Cremos, ensinamos e confessamos que somente os escritos proféticos e apostólicos do Antigo e do Novo Testamento são a única regra e norma segundo a qual devem ser ajuizadas e julgadas igualmente todas as doutrinas e todos os mestres…2

Por outro lado, comparado com a doutrina da Sagrada Escritura, o conceito evangélico de tradição normalmente recebe menos reflexão. Geralmente se entende pela palavra tradição o processo da transmissão da fé no sentido mais amplo. Assim, o termo é aplicado às ciências bíblicas e à história eclesiástica nos contextos mais diversos. Olhando para a história da igreja, podemos observar o seguinte: Na igreja primitiva a transmissão do evangelho de Jesus Cristo é a tarefa dos apóstolos chamados por Cristo e dos sucessores instituídos por eles.3 A questão da tradição está sistematicamente ligada à interpretação do ofício do apóstolo e da sucessão apostólica.

Depois da morte dos apóstolos, a questão da doutrina verdadeira da igreja, distinta da heresia das seitas, torna-se importante. Essa doutrina verdadeira é autenticada pela tradição apostólica confiável, transmitida dos apóstolos aos seus discípulos, dos discípulos aos seus ouvintes, dos ouvintes aos bispos e mestres da Igreja Antiga.4 Algumas vozes vão exemplificar o desenvolvimento do conceito tradição nos primeiros séculos.

TRADIÇÃO NA IGREJA ANTIGA
Irineu de Lyon escreve sobre Deus como criador do mundo, que é reconhecido pelas Escrituras pelos judeus e por conhecimento natural pelos pagãos: “A igreja universal, pois, em todo mundo, recebeu essa tradição dos apóstolos”.5 As heresias são novas, inventadas há pouco tempo, mas a doutrina verdadeira provem dos escritos apostólicos. Como seria se não existissem estes escritos, e houvesse base suficiente na tradição preservada pelos líderes das igrejas fundadas pelos apóstolos, uma tradição que remontasse direto aos apóstolos? “Porque como seria, se os próprios apóstolos não tivessem nos deixado (os seus) escritos? Não seria necessário seguir a ordem da tradição, a qual eles transmitiram àqueles a quem confiaram às igrejas?”6

Argumento semelhante achamos mais tarde nas obras de Jerônimo, o mais erudito dos pais eclesiásticos ocidentais.7 Num texto sobre o costume de impor as mãos depois do batismo e a invocação do Espírito Santo neste ato, ele observa:

Ainda que a autoridade das Escrituras não existisse, o consenso de todo mundo sobre a questão teria o mesmo peso de uni preceito. Porque muitas outras coisas, que são observadas nas igrejas, adquiriram a autoridade da lei escrita [na Bíblia].8

Na base da doutrina da tradição dos pais eclesiásticos se desenvolveu no quarto século a doutrina da tradição transmitida pelos pais. “Tão somente no século VI tornou-se mais frequente a referência expressa a bispos anteriores, como sendo testemunhas da doutrina eclesiástica”.9 Desenvolve-se assim o conceito de “pai da igreja” como representante autêntico da tradição, especialmente depois do Concílio principal da Igreja Antiga em Niceia (325 d.C.).10 Nas obras de Agostinho (354-430), o maior escritor da Igreja Antiga, achamos uma expressão bem clara e ampla deste conceito. Falando sobre o pecado original, Agostinho menciona Ambrósio de Milão, João Crisóstomo, Basílio Magno e outros, “cujo consenso deveria te mover… Olhe onde te introduzi: a reunião destes santos não é uma multidão popular; não são apenas filhos, mas também pais da igreja”.11 Depois, para comprovar a sua tese sobre o pecado original, ele menciona os nomes dos sacerdotes Irineu de Lyon, Cipriano de Cartago, Retício de Autun, Olímpio, Hilário de Poitiers, Ambrósio de Milão, Gregório, Inocêncio, João Crisóstomo, Basílio Magno e do presbítero Jerônimo: “o que eles acharam na igreja, guardavam… o que receberam dos pais, isto transmitiram aos filhos”12:

Estes pais são bispos, eruditos, veneráveis, santos, apaixonadíssimos defensores da verdade contra palavrórios mentirosos; no pensamento, na erudição e na liberdade deles… não podes achar nenhuma coisa reprovável.13

Teodoreto de Ciro, antes partidário dos nestorianos e depois, seguindo uma declaração contra Nestório, um dos 600 bispos “ortodoxos” participantes do Concílio de Calcedônia, é “um dos escritores mais fecundos da Igreja grega”.14 Ele escreve em uma das suas 236 cartas, conservadas até hoje, ao prefeito da guarda imperial Florentio, defendendo a ortodoxia da sua própria fé:

Mantivemos intacta até hoje a doutrina dogmática dos apóstolos. Isto não somente os apóstolos e os profetas nos transmitiram, mas também aqueles, que interpretavam os livros deles: Inácio, Eustátio, Atanásio, Basílio, Gregório, João e o resto das luzes do mundo: E antes deles, os santos pais reunidos em Niceia, cuja confissão de fé, conservamos inteiramente como herança paterna.15

Nesta citação pode-se ver que os pais eclesiásticos não são superiores aos profetas do Velho Testamento e aos apóstolos do Novo Testamento. Pelo contrário, os pais são intérpretes da Sagrada Escritura e, somente nesta função, eles são autoridades e são citados.16

Finalmente em meados do quinto século, Vicente de Lérins da Igreja latina vê o cânon das Sagradas Escrituras, que em si é perfeito para Vicente, no perigo de ser interpretado de maneira errada por diferentes interpretações sectárias.17 Para prevenir este perigo, a autoridade do conhecimento dos pais da igreja tem que ser usada na interpretação da Bíblia. Os mestres aceitos na comunhão da igreja consentem com ela no que eles escreveram e ensinaram.18 A universalidade, a antiguidade e a concordância das vozes dos pais eclesiásticos são os três critérios que formam o “entendimento eclesiástico e católico” da Sagrada Escritura defendendo-a contra as interpretações heréticas: “Ora, na própria Igreja Católica toma-se o máximo cuidado por conservar aquilo que foi tido e crido, em todo lugar, em todo tempo, e por todo fiel”.19

Temos que reconhecer que essa doutrina, à primeira vista, parece ser bastante ortodoxa, pois Vicente quer defender e guardar a fé. Quem dos “evangelicais” não iria consentir em uma frase como essa sobre a fé recebida: “na qual não deves ser autor, mas guarda, não mestre, mas aluno, não liderando, mas sucedendo…; recebeste ouro, transmite ouro… o que ensinei, ensina, para que fales de novo, e não fales coisas novas”.20 O problema de Vicente é que ele pressupõe sem crítica a identidade da interpretação escriturística eclesiástica com a Bíblia. Ele não questiona nem comprova essa identidade a partir do testemunho bíblico, apenas a presume. Assim, a maioria (i.e., dos pais eclesiásticos que concordam com um dogma teológico) torna-se critério da verdade. Processos semelhantes descobrimos na história eclesiástica especialmente a partir do século 19, quando decisões, por maioria, foram tomadas em sínodos; decisões que não se basearam na Bíblia, abandonando esta base.21

A RUPTURA DA TEOLOGIA DA REFORMA
Somente na reforma no século 16, esta relação entre Sagrada Escritura e tradição torna-se um problema abertamente discutido entre as confissões; também nessa época a relação é dogmatizada pela Igreja Católico-Romana. Martinho Lutero como primeiro reformador critica veementemente o uso da argumentação a partir da tradição eclesiástica nas discussões teológicas: “A declaração dos papistas de que tradições servem para o perdão dos pecados ou levam à salvação é não cristã e condenada… E dizerem que é pecado mortal quebrar tais estatutos também não é correto”.22 De modo nenhum ele abandona todas as tradições eclesiásticas que não contradizem a Palavra de Deus, por exemplo, na liturgia do culto ou arquitetura das igrejas. Isto não era a intenção de Lutero, mas era o caso dos anabatistas no tempo da reforma.23 Ele porém separa a Sagrada Escritura como única norma para as decisões teológicas. Somente a Sagrada Escritura (sola scriptura) é a “instância de apelação no conflito sobre a autoridade dentro da igreja… o que geralmente na igreja pode reclamar para si a exigência de possuir tanta autoridade para comprometer as consciências de maneira absoluta”.24 Essa autoridade somente a Bíblia, a Palavra de Deus, possui.

Tradições humanas não podem consolar nem obrigar as consciências. Esta tarefa pertence somente às Sagradas Escrituras como única norma de fé e de prática. Na reforma, Escritura e tradição se defrontam como Palavra de Deus num lado e opinião humana no outro, numa exclusividade, que não poderia ser maior.
O Concílio de Trento, convocado pelo Papa Paulo III, e continuado pelos Papas Júlio III e Paulo IV, e finalizado por Pio IV, reuniu-se entre 1545 e 1563. Na sua quarta sessão no dia 8 de abril de 1546, sob os auspícios de Paulo III, as questões do cânon da Bíblia, da tradição e da Bíblia latina (Vulgata) a ser usada na igreja foram decididas. A Igreja Católica insiste na sua doutrina das verdades teológicas e regras de conduta da vida que “essa verdade e essa disciplina estão contidas em livros escritos e em tradições não escritas”.25 Sobre estas tradições orais se assevera que “foram recebidas pelos apóstolos, pelo ditame do Espírito Santo, foram transmitidas e vieram até nós”.26 A igreja “recebe e venera” as Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos e a tradição “com o mesmo piedoso afeto e reverência”,27 porque Deus é o mesmo autor de ambas; o único evangelho como fonte da fé e da moral é contida nas duas, a Escritura e a tradição. A tradição fora da Bíblia é comunicada pelo Espírito Santo e assim legitimada pela pretensa inspiração direta. O critério da validade ou da crítica de uma tradição é sua recepção pela igreja universal.

ESCRITURA E TRADIÇÃO NO SÉCULO XX
Esta relação entre Sagradas Escrituras e tradição, dogmatizada em Trento, continua em vigor na Igreja Católica até o presente. Citações afirmativas dos dogmas do Concílio de Trento se encontram nos documentos do último concílio geral da Igreja Católica, o Vaticano II (1962-1965): “a Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê”.28 No conceito da tradição existe um progresso. A Sagrada Tradição (com maiúscula) transmite como sujeito a Bíblia à igreja. Ambas procedem da mesma fonte divina e constituem “um só sagrado depósito da palavra de Deus confiada à Igreja”, interpretada de maneira autêntica pelo magistério eclesiástico.29

No novo Catecismo da Igreja Católica (1993), trechos extensos são repetidos dos documentos do Concílio Vaticano II.30 A liturgia católica é vista como “elemento constitutivo da santa e viva Tradição”.  Se vê bem claramente na posição católica atual nesta questão, que “a tradição levanta e impõe sua pretensão de primado”.32 O cânon da Escritura Sagrada não pode mais assumir a sua tarefa de ser juiz em questões teológicas; o magistério infalível do Papa, que não pode ser controlado mais por outros critérios, é uma consequência lógica e inevitável deste entendimento da relação entre Palavra de Deus, tradição e interpretação.33

Ainda que até o século XX a relação da Sagrada Escritura e da tradição fosse a doutrina distintiva entre evangélicos e católicos, na discussão teológica atual, esta doutrina não é mais considerada questão que separa as igrejas. Por quê? Base desta nova interpretação é a historização do querigma, agora entendido como querigma eclesiástico. Ela pretende que a univocidade da Sagrada Escritura seja dissolvida pela pesquisa histórica:

A investigação histórica aboliu a ideia reformada da univocidade da Sagrada Escritura, ou seja, essa univocidade sempre pode ter somente caráter relativo dentro do espaço do querigma. Isto significa, que em última análise, a oposição entre Escritura e tradição torna-se impossível.34

Esta interpretação da Bíblia no sentido da variabilidade de querigma é acompanhada pela alegação de que este querigma é desdobrado e interpretado na história eclesiástica pelas igrejas e denominações diferentes. Estas não são entendidas nem como igreja verdadeira nem como igreja falsa, mas como realizações da verdade em níveis diferentes. A oposição teológica entre princípio escriturístico reformador e princípio tradicionalista católico-romano, até agora nesta perspectiva teológica moderna, é vencida e equilibrada pelo conceito da “tradição histórica” ou da “historicidade” da Bíblia, da interpretação bíblica e da proclamação do evangelho (do querigma).35

Nos diálogos entre as igrejas em nível mundial, este desenvolvimento teve as suas consequências: Na 4a Conferência Mundial para Fé e Constituição em Montreal 1963, um dos assuntos tratados foi “tradição e tradições”, ou seja, a questão da Sagrada Escritura e tradição não é mais levantada. No relato da segunda seção, o evangelho mesmo é chamado de “TRADIÇÃO” (com maiúscula) – isto é “o Cristo presente na vida da igreja” –; a Tradição (com maiúscula) é o processo da transmissão; e as “tradições” são as diferentes formas dos conteúdos transmitidos nas igrejas.36 “Assim podemos dizer que nós como cristãos existimos pela TRADIÇÃO do evangelho (a paradosis do querigma), como foi testemunhada na Escritura e transmitida na igreja e pela igreja no poder do Espírito Santo”.37 A TRADIÇÃO “faz-se presente na proclamação da palavra, na administração dos sacramentos e no culto, na instrução cristã e na teologia, na missão e no testemunho…”.38 As “tradições nas suas formas históricas diferentes” são “expressão e manifestação da verdade e realidade única, que está em Cristo”.39

A TRADIÇÃO na sua forma escrita como “Sagrada Escritura” [abarcando o Velho e o Novo Testamentos] tem que ser interpretada pela igreja em situações sempre novas… Repetição somente das palavras da Sagrada Escritura seria traição do evangelho; porque o evangelho tem que ser feito compreensível.40

Nesta linha de pensamento teológico fica obsoleto falar de “Sagrada Escritura”; quem ainda fala assim mostra que ainda não vive à altura da discussão teológica atual. O conceito de tradição une de maneira suficiente as igrejas de todos os tempos com as suas origens. Em última análise, o conceito de “Sagrada Escritura” foi abandonado e sobrou a tarefa de interpretar historicamente e de atualizar a parte mais velha da tradição, que seria a TRADIÇÃO. Seria demais suspeitar neste ponto, que neste novo conceito tradicionalista semelhante ao católico-romano, a interpretação histórica ocupa agora o lugar do magistério pontificial?

TRADIÇÃO E ESCRITURA: UM POSICIONAMENTO EVANGÉLICO
A reavaliação do relacionamento entre Sagrada Escritura e tradição no meio evangélico tem que enfatizar, com a teologia reformada a função judicial da Palavra de Deus perante as tradições eclesiásticas e perante a igreja. Somente a Sagrada Escritura de Velho e Novo Testamentos é a regra e norma para julgar doutrinas e aqueles que ensinam.41 Essa função distingue, na discussão teológica, a Bíblia de todas as tradições eclesiásticas e opiniões humanas. Essa função é assinalada pelo uso da palavra “cânon”: o cânon marca a oposição fundamental e irrevogável dos profetas, de Cristo e dos apóstolos de um lado, e dos seguidores de Cristo do outro lado, a diferença entre fundamento e edifício da igreja.42

Na proclamação da palavra, essa distinção entre Sagrada Escritura e tradição significa: A ênfase protestante na Bíblia como único árbitro (sola scriptura) protege a diferença entre texto bíblico e exposição, entre Bíblia e interpretação bíblica. O fundamento profético e apostólico da nossa pregação fica assim claramente distinguido da própria pregação, que se baseia na Bíblia. Os católicos, em comparação, correm o perigo de elevar a exposição ao nível do texto normativo. 43 Assim, o que está em jogo é a distinção entre Palavra de Deus e pregação.

Pelo princípio escriturístico, ou pela afirmação da Bíblia como norma exclusiva da nossa fé e da nossa vida, a tradição eclesiástica não é desvalorizada nem abandonada, nem se nega com isto o valor da pesquisa histórica da Sagrada Escritura e a sua tradição. Antes, a tradição e a pesquisa pelo princípio de sola scriptura vão receber cada uma o seu próprio lugar na totalidade do ensino evangélico: A tradição é examinada criticamente com base na Bíblia, se ela se mostra conforme os ensinamentos bíblicos ou não, ou seja, se tradições têm o caráter de adiáforos.44 A pesquisa histórica é apreciada como ciência que, por causa da dependência dos seus resultados da situação variável na pesquisa, nem poderia nem desejaria suprimir o uso da Sagrada Escritura como norma doutrinária da igreja.

A crítica das tradições deve ser exigida; por causa da salvação humana, a Palavra de Deus e a palavra humana têm que ser distinguidas. A crítica das tradições é um desafio como a crítica das tradições eclesiásticas, e.g., quando elas impedem a renovação litúrgica do culto e bloqueiam nas pessoas, que assistem ao culto, o melhor reconhecimento de Cristo. Fundamento permanente e critério do culto cristão é a proclamação da Palavra de Deus, enquanto que a sua forma depende de várias tradições denominacionais, e pode ser modificada por decisão comunitária.45 A existência de uma ou outra tradição também nas igrejas evangélicas mais recentes não pode ser desmentida, embora seja este o caso em algumas congregações menores. Mas a tradição “não passa de tubo um cano vazio, pelo qual sempre de novo do manancial deve correr a água viva”,46 a palavra eficaz de Deus.

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1“Confissão de Westminster (1647)”, em A Confissão de Fé, O Catecismo Maior, O Breve Catecismo (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1991) 7 e 11. Veja a repetição dessas frases em Fé para hoje: Confissão de Fé Batista de 1689 (São José dos Campos SP: Fiel, 1991) 9 e 11.
2Fórmula de Concórdia, Epítome”, em Livro de Concórdia (4ª ed., Porto Alegre: Concórdia e São Leopoldo: Sinodal, 1993) 499. A Fórmula de Concórdia (1577) resumiu a doutrina luterana depois da morte de Lutero e de Melanchton.
3Cf. Mc 6.12; Mt 28.18-20; At 1.8; 1 Co 9.16-17; 1 Tm 1.18; Tt 1.5, 2.1.
4
J. N. D. Kelly, Early Christian Doctrines (São Francisco: Harper & Row, 13a ed., 1989) 3l.
5
Irineu de Lyon, Adversus haereses 2,9,1 em M. J. Rouet de Journel, Enchiridion Patristicum (25ª ed., Barcelona: Herder, 1981) 82, § 198. Sobre a vida e as obras de Irineu, veja B. Altaner e A. Stuiber, Patrologia, trad. os monges beneditinos (2ª ed., São Paulo, Paulinas, 1988) 119-125.
6Adversus haereses 3,4,1 em Enchiridion Patristicum, 87, § 213. Aqui Ireneu está defendendo o secundum successiones episcoporum, isto é, que os bispos recebem seu ofício pela sucessão dos apóstolos, fundadores da Igreja – veja Adv. haer. 4,33,8 em ibid., 95, § 242.
7Jerônimo traduziu a Vulgata, versão latina da Bíblia que se tornou o texto principal e quase único da Igreja Católica, consagrado assim no “Concílio de Trento” 8.4.1546, em Canones et Decreta Sacrosancti et Oecumenici Concilii Tridentini (Regensburg: Manz, 1910) 15; também, H. Denzinger, A. Schoenmetzer, Enchiridion Symbolorum, Definitionum e Declarationum de Rebus Fidei et Morum (36ª ed., Barcelona: Herder, 1976) 365, § 1506.
8Jerônimo, Dialogus contra Luciferianos 8, em Enchiridion Patristicum 496, § 1358.
9Patrologia, 18.
11“… non solum filii, sed et patres ecclesiae sunt”. Agostinho, Contra Julianum 1,7,30-31, em Enchiridion Patristicum, 605-606, § 1898.
12Agostinho, Contra Julianum 2,10,34 em ibid., 606, § 1899.
13Agostinho, Contra Julianum 2,10,37 em op. cit., § 1900.
14Veja “Teodoreto de Ciro”, Patrologia, 341.
15Teodoreto de Ciro, Epístola 89, em Enchiridion Patristicum, 674-675, § 2142.
16Veja Kelly, Early Christian Doctrines, 49.
17Vicente de Lérins era monge numa ilha perto de Nice, semipelagiano quanto às doutrinas da graça e da predestinação. Mas desde o século XVI, ele é elogiado pela Igreja Católica devido à sua formulação clássica do tradicionalismo romano. Veja “Vicente de Lérins”, Lexikon für Theologie und Kirche (2ª ed., Freiburgo: Herder, 1965) 10: col. 800-801.
18Vicente de Lérins, Comonitório 28, em Enchiridion Patristicum, 688, § 2175.
19“In ipsa item catholica ecclesia magnopere curandum est ut it teneamus, quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est”. Vicente de Lérins, Comonitório 2,3, tradução em H. P. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã (2ª ed., Rio de Janeiro: JUERP e São Paulo: ASTE, 1983) 124.
20Vicente de Lérins, Comonitório 22, em Enchiridion. Patristicum, § 2173.
21Um exemplo do liberalismo teológico do século XIX foi quando as igrejas ecumênicas da província Pfalz na Alemanha excluíram as doutrinas da Trindade e da divindade de Cristo do seu livro-texto de ensino religioso; os pastores não foram mais obrigados a crer nestas doutrinas. Christoph E. Luthardt (1823-1902), professor de teologia sistemática em Leipzig, entre outros, protestou veementemente contra isto no seu livro Die Synoden und die Kirchenlehre (Leipzig: Dõrffling und Franke, 1871) cf. 9,12-13. Da mesma forma, Reinhard Slenczka criticou tendências semelhantes no século XX em “Synode zwischen Mehrheit und Wahrheit: Dogmatische Überlegungen zur synodalen Praxis”, Kerygma und Dogma 29: (1983) 66-81. Diante de um possível concílio católico que iria condenar a doutrina evangélica, Martinho Lutero escreveu um tratado importante sobre a questão da decisão teológica no sínodo, “Secundum successiones episcoporum”), em “Dos Concílios e da Igreja”, Martinho Lutero, Obras Selecionadas, Volume 3: Debates e Controvérsias I (Porto Alegre: Concórdia e São Leopoldo: Sinodal, 1992) 300-432.
22Lutero, “Artigos de Esmalcalde 1537”, XV, 1, em Livro de Concórdia, 339. Em outro lugar, ele declarou: “Assim a palavra de Deus e as tradições humanas pugnam em implacável discórdia, da mesma maneira como Deus mesmo e Satanás se opõem um ao outro e um destrói as obras e arruína os dogmas do outro”, “Da Vontade Cativa”, em Martinho Lutero, Obras Selecionadas (Porto Alegre: Concórdia e São Leopoldo: Sinodal, 1993) 4:41. De novo, Lutero acrescentou: “Pois as tradições humanas devem ser abolidas na Igreja…”, em “A Refutação do Parecer de Látomo 1521”, em ibid., 3:115.
23Veja C. J. Dyck, ed., Uma Introdução à História Menonita, Uma História Popular dos Anabatistas e dos Menonitas (Campinas SP: Editora Cristã Unida, 1992) caps. 1 – 6.
24Reinhard Slenczka, “Schrift – Tradition – Kontext”, Grenzuberschreitenden Diahonie, Festschrift Paul Philippi, ed. Theodor Schober (Stuttgart: Diakonie, 1984) 45, cf. 40-52.
25Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, 297, tradução de “… hanc veritatem et disciplinam contineri in libris scriptis et sine scripto traditionibus” em Canones et Decreta Sacrosancti et Oecumenici Concilii Tridentini, 14-16 e também em Denzinger e Schoenmetzer: Enchiridion Symbolorum 364-366, § 1501-1508.
26Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, 297-298.
27Ibid., 298.
28Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina, Dei Verbum 7-10, em Compêndio do Vaticano II, Constituições, Decretos, Declarações, coord. geral Frederico Vier (Petrópolis: Vozes, 1991) 126; § 171; veja pp. 125-128, § 169-177.
29Dei Verbum, 10, em ibid., 127, par. 175.
30Catecismo da Igreja Católica (SP: Loyola e Petrópolis: Vozes, 1993), 34s, par. 80-83.
31Ibid., 317, par. 1124.
32Helmut Thielicke, Der Euangelische Glaube (Tubingen: Mohr, 1978), vol. 3:179.
33Ibid., 183.
34Lexikon für Theologie und Kirche, vol. 13:525.
35Slenczka, “Schrift-Tradition-Kontext”, 43s.
36“Montreal 1963”, em P. C. Rodger e Lukas Vischer, Faith and Order Papers (Zurique: EVZ, 1963), vol. 39:42.
37Ibid., 43.
38Ibid., 44.
39Op. cit.
40Ibid., 44s.
41Veja “Fórmula de Concórdia, Epítome”, par. 1-2, em Livro de Concórdia, 499. O teólogo indiano Sumithra expressa isso como: “the veto power of the Scriptures over tradition”, em Sumithra, Holy Father: A Doxological Approach to Systematic Theology (Bangalore: Theological Book Trust, 1993), 61, n° 5 em “Text Book Series”. Carl Henry declara “the Bible as the sole rule of faith and of authentic proclamation”, em God, Revelation and Authority (Waco: Word, 1979), vol. 4:17. Por outro lado, Geoffrey Wainwright defende a “relação dialética” entre a Escritura e a tradição, que continua na igreja, em Doxology, the Praise of God in Worship, Doctrine and Life: A Systematic Theology (Nova Iorque: OUP, 1980), 7.
42Cf. Peter Brunner, Pro Ecclesia I (Berlim: LVH, 19622), 37.
43Gerhard Ebelin, Wort Gottes und Tradition (Tubingen: Mohr, 1966), 132.
44Assuntos que não fazem parte essencial da fé são os que não consolam nem obrigam as consciências do crente, porque são opinião ou costumes humanos, e.g., vestimentas litúrgicas, ordem do culto, etc.
45Veja Edmund Schlink, Der komende Christus und die kirchlichen Traditionen (Göttingen: Vanderhoeck & Ruprecht, 1961).
46Hans J. Iwand, Nachgelassene Werke (Munique: Kaiser, 1966), vol. 2:379.

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