O Salmo 23 e o ministério pastoral

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O Salmo 23 é um dos textos bíblicas mais conhecidos, lido muitas vezes em visitas a doentes nos hospitais, ou lido em funerais, muitas vezes pregado nas nossas igrejas, ou usado para pequenas meditações em reuniões de oração. Muitas vezes lido em casa individualmente em momentos de tristeza, angústia, medo, incerteza ou ansiedade, algumas vezes orado e outras memorizado.

No Salmo 23 temos a imagem de Deus como pastor que conduz o seu rebanho. O que pretendo aqui fazer é olhar para as características de Deus como Pastor como objetos de imitação daqueles que são chamados a apascentar o rebanho do Senhor.

Jesus Cristo é o Pastor por excelência, como Pedro afirma: “Quando o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imperecível coroa da glória.”. (1 Pe 5.4). Ele é o Supremo Pastor, nenhum humano deve apropriar-se desse título, ou agir como se assim fosse. Sendo o Supremo Pastor, o Pastor por excelência, aqueles que são chamados a apascentar podem e devem olhar para Jesus, para Deus e aprender da sua forma de pastorear. Ele é o modelo, nós os imitadores.

Inúmeras passagens poderiam ser escolhidas em que poderíamos olhar para a forma como Deus apascenta o povo na peregrinação do deserto, ao saírem do Egito e ao se dirigirem para a terra prometida. Ou poderíamos escolher passagens que demonstram o cuidado de Jesus para com os seus discípulos, ou mais especificamente com Pedro (de quem cuida, corrige, restaura, ensina, etc.). Todas essas passagens, e outras, seriam riquíssimas mas vamos abrir o Salmo 23 e olhar para o Deus de Israel como pastor descrito por David, também ele pastor, primeiramente de ovelhas, depois de uma nação inteira.

Que à medida que formos entrando no Salmo, que o Senhor, o pastor das nossas almas, nos conduza às verdades que alimentam e refrigeram o nosso ministério, que nos faça desviar de veredas tortuosas, e nos conduza a um ministério pastoral frutífero e próspero.

Vamos ler o Salmo todo para tê-lo presente diante de nós e depois veremos versículo a versículo:

“O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz deitar em pastos verdejantes; guia-me para as águas tranquilas. Renova a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Quando eu tiver de andar pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; tua vara e teu cajado me tranquilizam. Preparas para mim uma mesa diante dos meus inimigos; unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do SENHOR para todo o sempre.” (Salmo 23, Almeida 21)

1. A confiança no pastor (v. 1a)
Nos Salmos David descreve Deus de diferentes formas, como Rei, como escudo, como refúgio, como Juiz, etc. Neste Salmo David descreve Deus como pastor.

Pastor é aquele que apascenta um rebanho de ovelhas, conduze-as a comer, a beber, cuida delas, enfim, já iremos ver melhor as responsabilidades e tarefas de um pastor à medida que formos avançando no Salmo. Mas algo a se destacar logo de início é o pronome possessivo usado por David: meu pastor.

Deus não pastoreia apenas o povo no geral, mas também o salmista e cada um dos que faziam do salmo uma oração. É um Deus pessoal, que cuida de forma personalizada, segundo a singularidade de cada um, é: o meu pastor.

No ministério pastoral é fundamental que as pessoas da comunidade possam referir-se ao pastor ou a um dos pastores do presbitério como o “meu” pastor. Isto revela confiança. Na verdade, é impossível que o ministério pastoral alcance a alma das ovelhas no seu âmago e opere transformações intrínsecas sem que exista esta confiança.

Isto serve para várias áreas do ministério pastoral. Como uma ovelha irá ouvir a pregação do seu pastor se não o tem como o seu pastor? Que tipo de solo será o seu coração face ao sermão pregado, com que atitude receberá uma exortação, como irá receber uma visita, um aconselhamento? Um ponto fundamental para um ministério pastoral de sucesso é a confiança, as pessoas poderem entregar-se às decisões do pastor, às exortações, aos aconselhamentos, aos sermões, ao cuidado, etc.

Para as pessoas se entregarem ao apascentar do seu pastor devem ver o que veremos ao longo deste salmo. O pastor cria um ambiente de confiança à medida que mostra que é verdadeiramente e de facto um pastor.

Será que as ovelhas da sua igreja conseguem afirmar: é o “meu pastor”? (Eu falo sempre isto com a noção de que o Supremo Pastor é o Senhor, no entanto Ele colocou homens como seus cooperadores, como co-pastores). Ou será que os crentes da sua igreja não conseguem identificar um pastor nas suas vidas? Se não conseguem então alguma coisa está mal e a vida cristã dessas pessoas e dessa igreja nunca será saudável.

Como as pessoas da sua igreja recebem os seus sermões ao domingo, como recebem as suas visitas, como recebem os aconselhamentos, a disciplina, o apoio? Procuram-no? Pedem os seus conselhos bíblicos? Será que sentem as suas almas apascentadas, cuidadas, ou estão entregues a elas mesmas?

2. Proporcionar alimento às almas (v. 1b-2)

“nada me faltará. Ele me faz deitar em pastos verdejantes; guia-me para as águas tranquilas.”

David descreve o trabalho pastoral do Senhor como suprindo as necessidades das ovelhas. Como ele faz isto? Ele leva-as a lugares de abundante alimento: pastos verdejantes e águas tranquilas.

A paisagem descrita pelo salmista é serena, transmite paz, descanso, um lugar que a imaginação consegue facilmente pintar. Nessa descrição temos as pastagens, que serviam de alimento, algo essencial para o bem-estar das ovelhas, assim como a água, também ela vital. Nestes pastos verdejantes as ovelhas ficam lá deitadas e olham para as águas e vêm-nas tranquilas. Elas desfrutam, deleitam-se do banquete que está diante delas e de todo o ambiente que as circunda.

O pastor da igreja local deve fazer o mesmo tipo de trabalho. As ovelhas devem crescer em santidade, em conformação à imagem de Jesus, devem ser edificadas. Esta santificação acontece, como Jesus orou em João 17, por intermédio da Verdade que é a Palavra. Assim, a função principal do pastor é levar as ovelhas aos lugares onde há alimento, levar cada crente à Palavra, levar cada crente a Cristo, que é a Palavra viva (Verbo Vivo – Jo 1.1), que se apresentou como o Pão da Vida e a água que sacia eternamente.

Muitas outras tarefas podem ser necessárias, ou urgentes, mas a principal, a mais importante de todas é levar cada cristão a Cristo, através da Palavra. Só aí cada cristão encontrará descanso, paz, serenidade, contentamento, satisfação. Poderá deitar-se, repousar-se e assim deleitar-se, saborear, contemplar o Pão da Vida. A tranquilidade para a alma de cada ovelha está em Cristo, por meio da Palavra, o lugar onde “nada me faltará”. Em Cristo o cristão tem tudo o que a sua alma precisa, por isso é obrigação do pastor levar as ovelhas a estes lugares onde há alimento em abundância.

Quais serão estes lugares? O principal é o púlpito. Steven Lawson, escrevendo sobre Calvino e a primazia da pregação pública afirmou:

De acordo com os Regulamentos da igreja de Genebra, de 1542, redigidos pelo próprio Calvino, o trabalho mais importante dos pastores, presbíteros e ministros é anunciar a Palavra de Deus com a finalidade de ensinar, repreender, corrigir e exortar, e ninguém na história da igreja exemplificou melhor esta frase do que o próprio Calvino. Ele declarou: “O alvo de um bom professor é fazer com que os homens tirem os olhos do mundo a fim de que olhem para o céu”. De forma semelhante: “O dever do teólogo não é entreter os ouvidos com algazarra, mas, fortalecer as consciências através do ensino de coisas verdadeiras, certas e proveitosas”. Esta é a pregação verdadeira.1

Através da pregação expositiva sequencial o pastor pode correr as verdades diversas de um livro inteiro, apresentando um menu completo, sendo fiel à ideia do texto, explicando o texto, ensinando o texto e aplicando o texto para o dia-a-dia das pessoas. Steven Lawson na mesma obra escreveu:

O estilo verso-a-verso — lectio continua, ou seja, o das “exposições consecutivas” — garantia que Calvino pregasse todo o conselho de Deus. Assuntos difíceis e controversos não podiam ser evitados. Palavras duras não podiam ser omitidas. Doutrinas complicadas não podiam ser negligenciadas. Todo o conselho de Deus pôde ser ouvido.2

A cada domingo, as pessoas devem encontrar um lugar de abundante alimento, bem preparado, não em cima do joelho, não descontextualizado, não fixo na área das ideias abstratas, mas um alimento real, pertinente, prático, vindo diretamente do Espírito de Deus, em que o pregador estudou, pensou, meditou, orou, orou e orou. Calvino afirmou: “Há quem a mutile, há quem a desmembre, há quem a distorça, há quem a quebre em mil pedaços, e há quem, como já observei, se mantém na superfície, jamais penetrando o âmago da doutrina.” 3

Agora, o púlpito somente não é suficiente para levar as pessoas à Palavra e a se satisfazerem em Cristo.
Outros lugares onde o pastor pode apresentar pastos verdejantes é através de pequenos grupos ou escola dominical, onde existe espaço para os crentes reagirem ao que é ensinado, onde colocam dúvidas, fazem perguntas, testemunham, etc.

Através de catecismos e visitas regulares a famílias o pastor pode levar cada família a se alimentar durante a semana de Cristo, estabelecendo os pilares da fé cristã. Sobre a importância dos catecismos Juan de Paula Siqueira escreve:

Em toda a história da cristandade, nunca houve igreja sem catequese. Na igreja primitiva a catequese era usada para instruir os novos convertidos à fé cristã antes do batismo. Na catequese eram abordados temas básicos como fé, Deus, Cristo, sacramentos, além de questões éticas. Os pais da igreja fizeram uso do catecismo para os fiéis até o batismo, porém ele não foi usado com esse nome e formatado em perguntas e respostas até o século XVI, embora Agostinho e outros pais da igreja tenham feito uso da instrução catequética.4

Ainda sobre a necessidade dos catecismos para o conhecimento da fé Hermisten Maia Costa escreve o seguinte:

Na Reforma Protestante do século XVI, o uso de Catecismos e Confissões foi de grande valia para a educação dos crentes, partindo sempre do princípio da necessidade da fé explícita, de que todos os cristãos devem conhecer a sua fé, sabendo no que creem e porque creem.5

Também através de momentos informais intencionais de conversas individuais o cristão pode ser sabiamente conduzido pelo pastor a águas verdejantes e tranquilas. Várias podem ser as formas com que o pastor conduz as suas ovelhas aos pastos verdejantes e às águas tranquilas.

Será que os irmãos das nossas igrejas se sentem alimentadas? Será que são conduzidos a pastos verdejantes, e a águas tranquilas? Ou será que por vezes o rebanho é conduzido a planícies desertas onde pouco alimento é encontrado e onde as águas são apenas apenas miragens e as pessoas andam subnutridas, não têm deleite em Cristo, as suas almas andam inquietas, cansadas, exaustas, famintas, subnutridas?

Será que outras atividades, na agenda, ocupam o lugar que deveria ser o de conduzir o povo aos pastos verdejantes? Trabalhos administrativos, trabalhos logísticos, outros ministérios, podem facilmente nos roubar daquilo que é o principal, o ministério da Palavra, nas suas variadas formas. Em Atos Pedro e os demais apóstolos decidiram nomear diáconos para tarefas de ordem mais logística (alimentar as viúvas helénicas), de forma a ficarem livres para se dedicarem ao ministério da oração e da Palavra.6 Será que é o ministério da Palavra que caracteriza o seu ministério pastoral?

Como temos preparado os nossos sermões? Temos estudado, meditado, buscado a Deus em oração? Temos lido bons livros, estudado teologia, ficado atentos às tendências da sociedade e às necessidades da comunidade? Ou fazemo-los à pressa, em cima da hora, sem aprofundamentos, sem questionamentos? E será que as nossas pregações se ficam apenas nos conceitos, ou se materializam para a vida prática da vida do cristão, em que na segunda-feira o cristão sabe como aplicar e viver o que ouviu no trabalho, em casa, na sociedade?

Agora, será também que o nosso ministério da Palavra é apenas no púlpito? Ou levamo-lo além do púlpito? Estudamos a Bíblia em grupos mais informais (pequenos grupos, grupos familiares, catecismos) com famílias? Fazemos visitas e expomos as Escrituras, tiramos dúvidas? Todas as famílias da sua igreja sabem as doutrinas básicas da vida cristã? É nossa responsabilidade levá-las aos pastos verdejantes e às águas tranquilas.

A nossa prioridade é levar as pessoas a se satisfazerem em Deus, o alvo do homem é glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre. John Piper diz muito bem: “Deus é mais glorificado em nós quando somos mais satisfeitos nele” 7 Queremos que a nossa igreja glorifique a Deus? Então temos de levá-la a estar satisfeita em Deus. Queremos que as pessoas se satisfaçam, se deleitem em Deus? Temos de levá-las continuamente, constantemente a Cristo, através da Palavra! Esta é a primeira tarefa do pastor, esta é a nossa primeira tarefa, esta é a sua primeira tarefa: levar as pessoas a se deleitarem em Cristo!

3. Restauração das almas (v. 3a)

“Renova a minha alma;”

O salmista pede ao Senhor que o renove, que o restaure. Por vezes as ovelhas, por excesso de peso por causa da lã, ou por descoordenação podiam cair e ficar sem condições de se levantarem novamente. Se a ovelha permanecesse caída, apenas poderia se alimentar se tivesse erva por perto, e apenas por uns dias, mais tarde acabaria por morrer. Era necessária a intervenção do pastor, para voltar a colocar a ovelha em pé.

Faz parte do ministério pastoral a restauração de almas que estão caídas, almas que têm dificuldade em se levantar sozinhas, almas feridas que precisam de que se vá ao encontro delas e se perceba o que está mal, o que as fez cair, e acima de tudo, ajudá-las a levantarem-se para que sigam a sua caminhada juntamente com o restante do rebanho.

Ao falar sobre pessoas feridas, a necessitarem de restauração, certamente vieram nomes às nossas cabeças, pessoas das nossas igrejas cujas almas estão feridas, pessoas que estão caídas, desanimadas, com vontade de desistir, amarguradas. A tendência pode ser fugir de lidar com essas pessoas, devido à necessidade que essas situações habitualmente exigem, em se mexer em aspetos lamacentos, ou por vezes, influenciados por outros, ou por preconceitos, acabamos por espezinhar ainda mais os feridos. No entanto, cada um de nós é chamado a arregaçar as mangas, e lutar para que essas pessoas possam ser restauradas.

Se algum nome lhe veio à cabeça, pergunto, o que fez, ou pensa fazer para trabalhar na restauração dessa(s) pessoa(s)?

4. Conduzir na justiça (v. 3b)
“guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome.”

David pede a Deus que o guie pelo caminho da justiça, por amor ao seu próprio nome, ou seja para a Sua glória.

O trabalho do pastor para com as suas ovelhas é também de guiá-las no caminho. As ovelhas são um animal pouco dotado de inteligência e de visão, se tiverem de caminhar sozinhas vão cada uma para o seu lado, perdem-se, cada uma trilha o seu caminho, desviam-se do caminho. Era tarefa do pastor manter o rebanho unido e fazê-lo andar no caminho correto, caminho que ele sabe ser o que leva as ovelhas ao destino pretendido.

O pastor deve liderar o caminho, clarear o trilho que deve ser feito. Este ponto tem a ver com o caminho em si, está relacionado com o caminho que tem de ser feito para se chegar ao destino certo. Sabemos que o destino na vida cristã é glorificar a Deus, e isto acontece na medida em que somos totalmente conformados à imagem de Jesus Cristo, que acontecerá aquando da Sua segunda vinda. O caminho para isto acontecer começa na justificação, em que o pecador arrependido é justificado – é-lhe atribuída, imputada, a justiça de Cristo. O caminho continua pela santificação, onde o cristão vai sendo aperfeiçoado em justiça, e este caminho de aperfeiçoamento deve ser conduzido pelo pastor, primordialmente, como já vimos, através da Palavra.

O pastor vai à frente do rebanho, os requisitos para o ministério pastoral listados em Tito e Timóteo, são características que todos os cristãos são chamados a ter, e colocam o pastor como exemplo da comunidade. Não é que ele seja infalível, mas ele deve ser um modelo de justiça e santidade, para o qual as ovelhas possam olhar. Comentando o versículo 6 do capítulo 1 de Tito, Calvino escreve:

Pelo termo ἀνέγκλητος, irrepreensível, o apóstolo não tinha em vista alguém que fosse isento de toda e qualquer falha, pois tal pessoa jamais seria encontrada, mas alguém livre de algum estigma que desonrasse sua pessoa e denegrisse sua autoridade – deveria ser um homem de reputação sem qualquer nódoa. 8

  Assim, o pastor olhará para o exemplo do Supremo Pastor e procura imitá-lo, e as ovelhas olham para o seu pastor.

É fácil indicarmos qual o ponto de chegada, qual o destino a que as nossas ovelhas devem chegar. A dificuldade muitas vezes, à qual podemos tender a nos omitirmos, é a de mostrar o caminho, como, na prática, elas o podem fazer.

Se nós como pastores ou presbíteros deixarmos as ovelhas caminharem por si mesmas elas irão perder-se, é importante e fundamental instruí-las sobre o como podem crescer em justiça, sobre como crescem em santificação.

Ao mesmo tempo não servirá de nada se as pessoas ainda nem forem justificadas. Será que as pessoas da nossa congregação compreendem a justificação, compreendem que não têm justiça própria nenhuma, e que só podem ser consideradas justas por causa da justiça de Cristo?

Será que a nossa congregação tem sido exortada, estimulada, ensinada, incentivada a crescer em santidade e sobre como fazê-lo?

Será que podem olhar para nós como exemplo? Como é que estamos a exercer a nossa liderança? Com idoneidade, como exemplos vivos? Se entrassem nas nossas casas o que veriam dos nossos casamentos? O que veriam da forma como tratamos os filhos? O que diriam da forma como trabalhamos e nos dedicamos às tarefas que temos de fazer? O que diriam da forma como gerimos o tempo? O que diriam da nossa vida de leitura bíblica e de oração? Não estou a dizer que vamos por aí sair e dizer que somos perfeitos, mas temos de ter noção que temos os olhos das pessoas postos em nós, elas querem direção, referência, por isso existem os requisitos para o presbitério deixados por Paulo tanto a Timóteo quanto a Tito.

5. Proteção (vs. 4-5)

“Quando eu tiver de andar pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; tua vara e teu cajado me tranquilizam. Preparas para mim uma mesa diante dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.”

O Vale da Sombra da Morte ia de Jerusalém até ao Mar Morto, era um caminho estreito e perigoso que passava pelas encostas da montanha, se uma ovelha caísse era morte certa. Era responsabilidade do pastor proteger as ovelhas destes momentos de perigo.

O pastor andava com uma vara e um cajado, exatamente para proteger o rebanho. Com a vara o pastor defendia as ovelhas de predadores, examinava as feridas que uma ovelha eventualmente pudesse ter, ou disciplinava uma ovelha que tivesse algum comportamento rebelde. O cajado servia para indicar a direção, para puxar a ovelha para perto de si quando esta tivesse tendência a desviar-se, ou para puxar uma ovelha caída num buraco ou abismo.

Em Israel, bem como noutros lugares, as ervas, por vezes, tinham como vizinhas outras ervas venenosas, ou com espinhos que poderiam ferir as ovelhas. O pastor tinha então de ir na frente e remover essas ervas e assim preparar a refeição das ovelhas, era o banquete preparado para as ovelhas.

Além disso acontecia também que as narinas das ovelhas eram facilmente feridas e infectadas, então o pastor desinfectava as narinas com óleo. Outra função do óleo era afastar as moscas e os insetos das narinas das ovelhas.

Estas eram tarefas que visavam proteger o rebanho de vários perigos e ameaças.

Algo interessante é que o versículo quatro pressupõe que as ovelhas passem pelo Vale da Sombra da Morte. A vida cristã em nenhum lugar das Escrituras é apresentada como um caminho sem momentos escuros, dolorosos ou perigosos. É também para estes momentos escuros da alma, de risco para a ovelha, que o pastor da igreja é chamado por Deus.

O pastor deve proteger as ovelhas de caírem, seja quando passam por momentos de tribulação e sofrimento, seja por momentos de tentação. Quando o mal ameaça, quando falsos profetas se chegam, quando são atacadas por injustiças por parte de pessoas, quando estão na iminência de cometerem erros e caírem em tentações, o pastor deve usar da Palavra, da exortação, do encorajamento, da disciplina, do consolo para evitar que o Vale da Sombra da Morte escureça a vida das ovelhas.

A disciplina não deve ser evitada, ela é uma demonstração de amor real, de um compromisso com o bem estar do filho de Deus e com o bem estar da restante comunidade. Numa sociedade pós-moderna, onde o ser tolerante para com tudo é o que vale, o pastor não deve ceder, não deve fechar os olhos aos desvios que podem fazer cair as ovelhas em precipícios mortais.

É nos momentos de escuridão e veredas tortuosas que os cristãos mais precisam da liderança pastoral. Tudo isso pode dar muito trabalho, ser desgastante e até arriscado para a imagem e bem estar do pastor ao ter de assumir essa posição nesses momentos, mas essa é uma das funções do pastor.

O pastor deverá também arrancar as ervas daninhas e venenosas que podem fazer mal às ovelhas, deve perceber se doutrinas estranhas têm circulado no meio da sua igreja, se as ovelhas se têm alimentado de doutrinas erradas e prejudiciais à fé.

O pastor deve administrar a Palavra de forma a curar certas infecções espirituais, certos males que já estejam instalados na vida dos crentes e que necessitam ser tratados com uma compreensão correta da doutrina e prática cristãs. Deve também constantemente procurar equipar os santos com a armadura da fé de modo a que os cristãos estejam protegidos de ventos de doutrinas estranhas, da influência dos valores mundanos, da supremacia da carne e dos ataques do inimigo, que possam infectar a sua vida espiritual.

Uma vez que o passar pelo vale da Sombra da Morte é uma certeza na vida cristã em algum momento, certamente haverá irmãos e irmãs na sua igreja que se encontrem numa noite escura da sua peregrinação cristã.

A nossa tendência por vezes, devido às ocupações de diversas tarefas menos importantes no ministério, pode ser a de estarmos alienados do dia a dia das pessoas, dos caminhos escuros e difíceis que possam estar a trilhar.

Tem noção dos irmãos na sua igreja que estão a ser tentados pelo inimigo das nossas almas? O que faz para protegê-lo de cair e mergulhar no pecado?

Tem noção dos irmãos que estão a ser alvo de sofrimento, de injustiças, de doenças, de desemprego, de depressão, de problemas no casamento, de pesadas sombras sobre a alegria cristã?

Sabe de irmãos rebeldes, que estão em desobediência à Palavra e tem medo, de em graça, compaixão, amor e misericórdia, discipliná-los, exortá-los, corrigi-los?

Será que tem evitado acompanhar o seu rebanho nos momentos de sombra da morte, para evitar desgaste, cansaço, ou mexer em situações que podem colocar em risco a sua reputação?

Usemos a Palavra, a oração e tudo o que estiver ao nosso alcance para proteger os crentes de influências doutrinárias estranhas que possam chegar aos seus ouvidos por intermédio da internet, livros, amizades e outras formas. Protejamo-las seja atacando heresias, seja ensinando a sã doutrina.

Será que tem equipado as suas ovelhas a lidarem de forma saudável, sem legalismo e sem tolerância, com os valores do mundo? Será que os tem equipado para vencerem as investidas do inimigo? As pessoas da sua igreja estão bem preparadas doutrinariamente para se protegerem de influências estranhas?

Usemos a Palavra, o apoio, o aconselhamento, a exortação, para encorajar, para corrigir, para curar feridas. Protejamos os nossos rebanhos!

6. Perseverança e vitória cristã como resultado de um ministério pastoral saudável (v. 6)

“Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do SENHOR para todo o sempre.”

Ao ser cuidado pelo Senhor, fruto dos cuidados perfeitos do perfeito pastor, o salmista reconhece que esse cuidado pastoral é manifestação visível e concreta da bondade e da misericórdia do Senhor. Estar sob cuidado pastoral de Deus é estar a receber bondade e misericórdia, é estar sob a bondade e a misericórdia de Deus.

Consequência também de quem é cuidado pastoralmente por Deus é que estará constantemente na Sua presença, beneficiando das suas bênçãos.

O ministério pastoral é uma manifestação de bondade e misericórdia por parte do Senhor para com a Sua igreja. Se for um ministério pastoral exercido à luz da orientação bíblica, será de facto uma manifestação de bondade e misericórdia por parte de Deus, se não for, quem está a exercer essa função impede que estas bênçãos alcancem plenamente a comunidade.

Um ministério pastoral bem exercido, onde o rebanho confia no pastor, em que é alimentado, renovado quando está caído, guiado pelo caminho da justiça, e protegido de diversos perigos, fará com que as ovelhas estejam continuamente diante da presença do Senhor, com que habitem, repousem diante de Deus.

Acho que é fundamental termos diante de nós, diante da nossa prática pastoral, que o objetivo é levarmos as pessoas a caminharem continuamente diante da presença do Senhor, onde nele se deleitam e são conformadas à imagem de Jesus Cristo.

É também essencial percebermos que o ministério pastoral é uma manifestação de bondade e misericórdia da parte de Deus para com a sua igreja, se entendermos a profundidade disto, teremos uma melhor noção do privilégio que é estar no ministério, participar da forma como Deus derrama a sua bênção sobre o seu povo.

Se formos zelosos no nosso ministério, nós e os nossos colegas pastores estaremos a proporcionar um ambiente de bondade e misericórdia que cerca cada crente que recebe esse nosso cuidado pastoral.

Será que temos sido zelosos no nosso ministério pastoral ao ponto em que as pessoas da nossa igreja confiam em nós, em que são verdadeiramente alimentadas, em que são renovadas quando estão caídas, em que são conduzidas no caminho da justiça e em que são protegidas?

Lutemos por imitar o nosso Supremo Pastor. Sejamos cuidados e alimentados por ele, e cuidemos e alimentemos aqueles que Ele nos confiou!

1 LAWSON, S. A Arte Expositiva de João Calvino. São José dos Campos:  Editora Fiel, 2010, p. 39
2 Idem, p. 41
3
CALVINO, J. Pastorais. São José dos Campos: Editora Fiel, 2009, pp. 235-236
4 FERREIRA, F. (coord.). A Glória da Graça de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010, pp. 451-452
5COSTA, H. Os Símbolos de Fé na História: Sua Relevância e Limitações. Fides Reformata IX, 1, 2004, p. 52
6Atos 6.1-7
7PIPER, J. Cinco Pontos. São José dos Campos: Editora Fiel, p.8
8CALVINO, J. Pastorais. São José dos Campos: Editora Fiel, 2009, p. 308
 

1 COMENTÁRIO

  1. Muito edificante este estudo! pois estou a frente de uma congregação e, me sinto as vezes incapacitado mas tenho buscado no Sr. as provisäes necess rias para suprir minhas deficiências e esse estudo foi do c‚u, abrangendo todos os cuidados que um pastor precisa ter com seu rebanho.

    Graça e paz do Sr Jesus!

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