Calvino no Brasil

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Um fato enigmático acontece nos meios calvinistas brasileiros – há miríades de citações sobre Calvino e pouca leitura das fontes primárias do reformador genebrino no Brasil. Portanto, esse ensaio busca oferecer uma revisão literária sintética para mostrar o estado da arte da disseminação das idéias do reformador genebrino no Brasil por meio das traduções das fontes primárias e das fontes secundárias especializadas em português1  desde 1934 até a obra Calvino 500 anos: introdução ao seu pensamento e obra, de Hermisten Maia Pereira da Costa.

Como ponto de partida desse artigo, já em 1934 o reformador genebrino foi apresentado ao povo brasileiro por meio da obra Calvino 1509-1564: sua vida, sua obra (Editora Cruzeiro do Sul, 1934. 282 p.), de Vicente Themudo Lessa. Todavia, dificilmente se contemplaria outro lançamento tão cedo no país, mas se providenciou um meio para disseminar o material da tradição reformada no Brasil, como forma de subsidiar a demanda literária da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Neste contexto, foi fundada, em 25 de fevereiro de 1948, a Casa Editora Presbiteriana (CEP), que depois se tornaria no fim da década de 1990 a Editora Cultura Cristã. No entanto, a década de 1950 começou e terminou. Entrou a década de 1960 e, depois de muito tempo, foi publicada a obra Calvino era assim, de Thea van Halsema (Vida Evangélica, 1968. 206 p.). No ano seguinte, reedita-se a obra de Vicente Themudo Lessa, Calvino 1509-1564: sua vida, sua obra (CEP, 1969. 282 p.). Em seguida, publicam-se dois opúsculos, O humanismo de Calvino, de André Biéler (Edições Oikoumene, 1970. 91 p.), e João Calvino: obra indispensável a pastores e leigos, em virtude de seu caráter doutrinário e evangelista, de Wilson de Castro Ferreira (CEP, 1971. 47 p.). Durante o milagre econômico brasileiro não houve registro de testemunho do pensamento de João Calvino. Mas, em 1985, Wilson de Castro Ferreira publicou outra obra, com o título Calvino: vida, influência e teologia (Luz para o Caminho, 1985. 423 p.). Por fim, a principal obra do reformador genebrino foi traduzida do latim e do francês para uma língua vernácula de difícil leitura. Assim, no período de 1985 a 1989, foram editadas no Brasil os quatro livros d’As Institutas da Religião Cristã (CEP, 1985-1989. 4 vols.). Em 1990, duas fontes secundárias de alto nível foram lançadas: Calvino e sua influência no mundo ocidental (Cultura Cristã, 1990. 483 p.), editada por William Stanford Reid, e O pensamento econômico e social de Calvino (CEP, 1990. 673 p.), de André Biéler. A doutrina da predestinação em Calvino (SOCEP, 1992, 87 p.), de Fred Klooster, foi publicado aqui em meados da década de 1990. Ainda há espaço, em 1995, para uma publicação de Jane Dempsey Douglas, intitulada Mulheres, liberdade e Calvino: o ministério feminino na perspectiva calvinista (Didaquê, 1995. 156 p.). Também é interessante observar o lançamento da obra Lutero e Calvino: Sobre a autoridade secular (Martins Fontes, 1995. 164 p.). Harro Höpfl organizou este livro e apresentou a tradução de duas fontes primárias, a saber: uma de Lutero Sobre a autoridade secular, e a outra de Calvino, Sobre o governo civil, a fim de “encontrar um equilíbrio entre os compromissos com a vontade de Deus revelada pelas Escrituras e com a ordem e a autoridade na Igreja e na política”.2 

Na tentativa de disseminar os temas basilares da tradição reformada,3  em 1996 foi lançado o primeiro exemplar do periódico Fides Reformata, que, atualmente, é editado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. No período de 1995 a 2003, a Edições Paracletos nos presenteou por meio da tradução de Valter Graciano Martins com onze comentários escritos por Calvino, a saber: Exposição de 2Coríntios (1995), Exposição de 1Coríntios (1996), Exposição de Hebreus (1997), Exposição de Romanos (1997), Exposição de Efésios (1998), As Pastorais (1998), O Livro dos Salmos vol. 1 (1999), O Livro dos Salmos vol. 2 (1999), O Livro dos Salmos vol. 3 (1999), O Profeta Daniel vol. 1 (2000) e O Profeta Daniel vol. 2 (2003). Em 2006, a principal obra do reformador francês foi lançada em duas novas edições, As Institutas: Edição Clássica (São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 4 vols.) e As Institutas: Edição especial com notas para estudo e pesquisa. Tradução da edição francesa de 1541 (São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 4 vols.). É nesse momento que a editora da Universidade Estadual Paulista (Editora UNESP), por meio de uma equipe, que conta entre eles Carlos Eduardo de Oliveira (UFSCar) e José Carlos Estêvão (USP), traduz do latim  para o português a obra A Instituição da Religião Cristã, em dois tomos (UNESP, 2007-2008). Outras traduções de fontes primárias de Calvino para o português já podem ser encontradas no período de 2000 a 2009 e são dignas de serem citadas neste momento: A verdadeira vida cristã (Novo Século, 2000), Instrução na fé: princípios para a vida cristã (Logos, 2003), O livro de ouro da oração (Novo Século, 2003), Beatitudes. Sermões. As Bem-aventuranças (Fonte Editorial, 2008), João Calvino: Textos Escolhidos (Pendão Real, 2008), Cartas de João Calvino (Cultura Cristã, 2009) e os comentários de Calvino que começaram a ser relançados pela Editora Fiel, com especial destaque para O Livro dos Salmos vol. 4 (Editora Fiel, 2008) e Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses (Editora Fiel, 2010).

Nesse momento deve-se perguntar: o que se tem de fontes secundárias em português sobre a obra, a vida e o pensamento de João Calvino no século XXI? Podem ser mencionados: O pensamento de João Calvino (Editora Mackenzie, 2000. 147 p.), de Claudio Lembo; Escritos Seletos de Martinho Lutero, Tomás Müntzer e João Calvino (Editora Vozes, 2000. 275 p.), de Luis Alberto De Boni; Calvino e a resistência ao Estado (Editora Mackenzie, 2002. 294 p.), de Armando Araújo Silvestre; Calvino, Genebra e a Reforma (Cultura Cristã, 2003. 285 p.), de Ronald Wallace; A vida de João Calvino (Cultura Cristã, 2004. 360 p.) de Alister McGrath; Santa conspiração: Calvino e a unidade da igreja de Cristo (Pendão Real/Centre International Réformé John Knox, 2004. 56 p.), de Lukas Vischer; Calvino de A a Z (Editora Vida, 2006. 344 p.), de Hermisten Maia Pereira da Costa; A arte expositiva de João Calvino (Fiel, 2006. 144 p.), de Steven J. Lawson; Calvino e a educação: a configuração da pedagogia reformada no século XVI (Editora Mackenzie, 2008. 204 p.), de Paulo Henrique Vieira; Calvino: O potencial revolucionário de um pensamento (Editora Vida, 2008. 352 p.), de Armando Araújo Silvestre; A liberdade cristã em Calvino (Academia Cristã, 2009. 456 p.), de Marcos Azevedo; Calvino: o arauto de Deus (Publicações Europa-América, 2009. 288 p.), de Eric Dénimal; e João Calvino; amor à devoção, doutrina e glória de Deus (Editora Fiel, 2010, 269 p.), editado por Burk Parsons.

Nas comemorações dos 500 anos do nascimento do reformador genebrino (1509-2009), a Igreja Presbiteriana do Brasil priorizou a comemoração do sesquicentenário da chegada do missionário presbiteriano Ashbel Green Simonton em solo brasileiro. Contudo, há um momento histórico para os estudos calvinianos no Brasil. E esse momento ocorreu numa quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010, no salão térreo do Prédio João Calvino, da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), quando foram lançados os livros Princípios bíblicos de adoração cristã e João Calvino 500 anos: introdução ao seu pensamento e obra, ambas de autoria de Hermisten Maia Pereira da Costa, e editadas pela Cultura Cristã. Na ocasião do lançamento, Augustus Nicodemus, chanceler da UPM, discursou acerca da contribuição das duas obras de Costa para a academia e para a igreja brasileira em um contexto plural, onde um parecer , na época ainda não assinado pelo então Ministro da Educação Fernando Haddad, pretendia extrair o conceito de “transcendência” do ensino teológico a fim de se alinhar com supostas “abordagens científicas”. O chanceler da UPM também reconheceu o gênero literário ímpar do autor, declarando que “um dia o Dr. Hermisten lançará uma obra chamada notas de rodapé em busca de um texto”, devido à sua erudição e às suas exaustivas pesquisas que produzem extenso material para consulta por meio de notas de rodapés. Em seguida, Wilson Santana Silva, coordenador da Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (EST-UPM), lembrou uma declaração bem antiga do autor que, parafraseada, diz: “meus livros são construídos com os andaimes [i.e., as notas de rodapés são frutos da sua exaustiva pesquisa]”. Com a palavra, o autor dos livros terminou a cerimônia com um espírito de agradecimento à igreja de Cristo, afirmando que essas obras são uma pequena retribuição de investimento tão pesado em sua careira acadêmica e pastoral. Com humildade, Costa declara que é um pesquisador e não um escritor e, por isso, “os andaimes não são retirados de
suas obras”.

Essa é uma síntese histórica da construção da literatura calviniana no Brasil. Temos fundações, estruturas e andaimes! Calvino chegou ao Brasil e encontrou assento na igreja, onde Cristo é o cabeça! E no banco, ao lado de Calvino, estão os tradutores muitas vezes anônimos, que esperam a disseminação do que é conhecimento de Deus e de nós mesmo à nação brasileira. Conhecimento este que desemboca em santidade e vida agradável aos olhos do Criador e Redentor. E nessa construção ainda há muito trabalho a fazer. Que Deus nos ajude a sermos úteis para seu reino e a caminhar para o alvo mais sublime da vida: glorificar a Deus e desfruta-lo para sempre.

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1  Neste artigo, as fontes secundárias são literaturas em português sobre os principais temas do reformador genebrino classificadas em dois grupos: as fontes secundárias especializadas em português e as fontes secundárias de temas gerais em português. O primeiro grupo trata de uma literatura que aborda diretamente a vida, as obras e o pensamento de João Calvino. É diferente do segundo grupo que aborda uma parte do livro (e.g. capítulos ou seções) sobre o tema em lide. Este grupo, geralmente, é identificado pelos livros da área de história do cristianismo e/ou de história do pensamento cristão, como por exemplo: (1) CAIRNS, Earle E. “A reforma calvinista em Genebra”. In: ________.    O cristianismo através dos séculos: Uma história da igreja cristã. 2ª ed. 7ª reimpressão. São Paulo: Vida Nova, 2000, cap. XXVIII, seção III, p. 251-255. (2) GEORGE, Timothy. “Glória a Deus: João Calvino”. In: ________. Teologia dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1993, cap. V, p. 163-249; (3) GONZALEZ, Justo L. “A Teologia Reformada de João Calvino”. In: ________. Uma história do pensamento cristão: Da reforma protestante ao século 20. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, cap. VI, p.135-180; (4) GONZALEZ, Justo L. “João Calvino”. In: ________. Uma história ilustrada do cristianismo: A era dos reformadores. 1ª ed. 8ª reimpressão. São Paulo: Vida Nova, 2003, cap. VII, p. 107-119; (5) KLEIN, Carlos J. “A reforma em Genebra: João Calvino”. In: ________. Curso de história da Igreja. São Paulo: Fonte Editorial, 2007, cap. XXVII, p. 211-216; (6) LANE, Tony. “João Calvino: [o] erudito de genebra”. In: ________. Pensamento cristão: Da Reforma à Modernidade. São Paulo: Abba Press, 1999, vol. II, p. 14-21; (7) NICHOLS, Robert H. “Calvino – Líder da Reforma em Genebra”. In: ________.    História da Igreja Cristã. 13ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, cap. XII, seção II, subseção b, p. 174-178; (8) OLSON, Roger E. “Zuínglio e Calvino organizam o pensamento protestante”. In: ________.    História da Teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Vida , 2001, cap. XXV, pp. 407-423; (9) REID, William S. “Calvino, João”. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, [volume único], 2009, p. 228-229.
2 HÖPFL, Harro (org.) Lutero e Calvino: Sobre a Autoridade Secular. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
3 Para uma revisão da literatura das fontes secundárias acerca do pensamento de João Calvino em outros idiomas, o sítio da Hekman Library Catalog do Calvin Theological Seminary é recomendado. HEKMAN LIBRARY CATALOG. Disponível em: <
http://ulysses.calvin.edu/opac/en-US/skin/default/xml/index.xml>. Acesso em: 25 nov. 2011.
4 A fonte primária de Calvino, Institutio Christiane Religionis, ou seja, o texto latino pode ser encontrado em dois volumes no sítio do Christian Classics Ethereal Library (CCEL): Disponível em: [Volume 1] <
http://www.ccel.org/ccel/calvin/ institutio1.html> e [Volume 2] <http://www.ccel.org/ccel/calvin/institutio2.html>. Acesso em: 25 nov. 2011.
5 Confira com as informações de Franklin Ferreira descritas no blog da Editora Fiel sobre o empenho da equipe da Editora Fiel em relação à disseminação das obras de Calvino em português. FERREIRA, Franklin. “Obras de João Calvino”. In: BLOG DA FIEL. São Paulo: Editora Fiel, 4 de agosto de 2010. Disponível em: <
http://blogfiel.com.br/2008/08/obras-de-joao-calvino/>. Acesso em: 25 nov. 2011.
6 O documento mencionado do Ministério da Educação – Conselho Nacional de Educação é o Parecer CNE/CES N° 118/2009 subscrito em 6 de maio de 2009, cujo assunto é “Orientações para instrução dos processos referentes ao credenciamento de novas Instituições de Educação Superior e de credenciamento institucional que apresentem cursos de Teologia, bacharelado”. Este parecer afirma: “Por essa razão, o estudo das teologias, da área de Ciências Humanas conforme classificação CAPES/CNPq, não pode prescindir de conhecimentos das ciências humanas e sociais, da filosofia, da história, da antropologia, da sociologia, da psicologia e da biologia entre outras. Essas ciências permitem estudar o universo teológico respeitando o princípio da ‘exclusão da transcendência’, condição da abordagem científica, ou seja, não se trata de afirmar ou negar a veracidade das afirmações teológicas, mas, sim, estudar o modo como elas surgem, como se manifestam e como atuam nas diferentes dimensões da vida, das experiências e do conhecimento humano. O estudo da teologia deve, ainda, buscar diálogo com outras áreas científicas, possibilitando estudos interdisciplinares” (meu grifo). cf. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Parecer CNE/CES n°. 118/2009. Disponível em: <
http://portal.mec.gov.br/ dmdocuments/pces118_09.pdf>. Acesso em: 25 nov. 2011. No dia 9 de março de 2010, foi aprovado o Parecer CNE/CES N° 51/2010, que trata do “Reexame do Parecer CNE/CES n° 118/2009 […]”, onde a Comissão do CNE/CES propõe que os currículos dos cursos de graduação em Teologia, bacharelado, desenvolvam-se a partir dos seguintes eixos: (1) teológico, (2) filosófico, (3) metodológico, (4) histórico-cultural, (5) sociopolítico, (6) linguístico e (7) interdisciplinar. A Comissão mencionada recomenda uma carga horária mínima de 2.400 horas para o curso de graduação em Teologia, bacharelado. cf. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Parecer CNE/CES n°. 51/2010. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&task=doc_download&gid=5272&Itemid=>. Acesso em: 25 nov. 2011. O Parecer CNE/CES n°. 51/2010 foi homologado e publicado no D.O.U. no dia 24/09/2010, Seção 1, p. 631.

2 COMENTÁRIOS

  1. Meu Querido,

    uma frase sua cauterizou na minha mente nem tudo que venha daquele altar diga AMÉM. Nas suas frases e pensamentos expressados sempre vem para nos iluminar e conduzir.
    Certamente Deus vai continuar te abençoado. parabéns por mais um artigo.
    Um abração em Você e na sua Família.

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