Aprendizados na pesquisa mission ria do Projeto Fronteiras

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“Há trinta e cinco mil comunidades tradicionais na Amazônia brasileira e dezessete mil delas não possuem acesso ao evangelho “. Desde que cheguei em Manaus, em 2006, fui bombardeado com essa informação. Parecia-me um desafio e tanto alcançar estas dezessete mil comunidades, mas na medida em que eu interagia com os diversos ministérios missionários que Asas de Socorro apoia, logo comecei a fazer perguntas sobre esses números: Quais são estas dezessete mil não alcançadas? Onde estão? Quantas são na verdade? O que é preciso para alcançá-las?

O Projeto Fronteiras é o resultado destas perguntas e

tem se proposto a identificar a quantidade, localização e perfil das comunidades tradicionais na Amazônia ainda sem acesso ao Evangelho.

Em uma época na qual tanto números quanto verdades são relativizados e a igreja se parece cada vez mais com o mundo, novos tipos de “evangelhos” aparecem a cada dia. Em uma sociedade em que todos têm liberdade de expressão e o acesso ao conhecimento das Verdades Bíblicas nunca esteve tão disponível, há muita gente escravizada por falsos evangelhos ao invés de liberta pela verdadeira mensagem, a mais libertadora que existe no universo, que Jesus salva e que isso é de graça (Rm 3.19-28).

Enfim, a mensagem de libertação total de todo e qualquer jugo precisa ser pregada e reafirmada para nós mesmos a cada dia, para que nós a preguemos adiante corretamente (Mt 11.29-30, Gl 5.1). Não só porque ela é uma verdade absoluta e inegociável, mas também porque nosso tempo para pregá-la está se esgotando. Estamos às vésperas do retorno do nosso Senhor, e a convicção desta percepção se confirma a cada dia que abrimos um jornal, vemos os noticiários e constatamos que tudo o que foi profetizado sobre os últimos dias está se cumprindo numa velocidade alucinante, como nunca visto antes (Mt 24). Esta certeza e esperança devem nos constranger e nos impulsionar para que a única coisa que realmente faça sentido seja dedicarmos a nossa vida à proclamação do evangelho a toda criatura. Em suma, cumprir a ordem de pregar as boas novas até os confins da terra nunca foi tão urgente como agora.

Este senso de urgência nos impele a proclamar a mensagem de Cristo o mais rápido e eficazmente possível a cada habitante da selva amazônica de nossa própria geração (Lc 10.2), pois é bem provável que sejamos a última geração.

As barreiras são enormes e os recursos sempre parecem tão escassos. Então, como tornar isso possível?

Com esse pano de fundo, o Projeto Fronteiras se propõe ser mais um catalisador deste processo. Existem dezenas de iniciativas missionárias na Amazônia, e porque não incluir também o Nordeste do Brasil, onde ainda existem populações remotas que vivem na ignorância do Evangelho. O grande diferencial na tarefa de proclamação para essas populações é o grau de dificuldade de acesso para que a mensagem da Boa Nova possa ser transmitida. As barreiras são várias, tanto geográficas, quanto culturais, sociais, econômicas e de comunicação. Um cenário bem diferente da maior parte do país, onde o acesso ao evangelho é relativamente fácil graças aos diversos meios de comunicação e a grande variedade de ministérios evangelísticos nos centros urbanos.

Portanto, para qualquer grande empreendimento são necessários basicamente três elementos fundamentais: 1. Informação, 2. Direção, 3. Ação (Ne 1.1—2.9).

1. No processo de reunir a informação, que iniciou em meados de 2012 com o mapeamento das comunidades tradicionais do Amazonas, temos aprendido muitas coisas sobre a localização e características das áreas ainda carentes da presença do evangelho, mas quero destacar aqui alguns outros aspectos que nos chamaram atenção durante as mais de cem entrevistas que já realizamos com pastores e obreiros no interior do Amazonas.

1.1. Há um exército de discípulos do Senhor embrenhado na selva, das mais diversas denominações, missões, igrejas, culturas e origens, dando suas vidas, se sacrificando, para que a Boa Nova do evangelho chegue aos não alcançados. Eles vivem em desprendimento da nossa sociedade urbana e consumista para uma vida de privação e desafios enormes de sobrevivência e muitas vezes em solidão, isolados pela geografia e distância, mas dedicados ao serviço do Senhor entre indígenas, ribeirinhos, quilombolas e outros grupos. Estes homens e mulheres são a grande força missionária da igreja, mas muitas vezes são deixados a sua própria sorte por aqueles que os enviaram. Não basta uma igreja missionária ser comprometida com o envio e abertura de novos campos. Precisa ser também comprometida com aqueles que envia, pois, essencialmente, a proclamação do evangelho não se dá por meio de construções de capelas e templos ou da infraestrutura disponível, mas pelo agir, falar ou proclamar daqueles que vão e pregam (Rm 10.13-15). O elemento humano é o mais importante no trabalho missionário. Ele faz parte de todo o processo e precisa de uma atenção mais do que especial. Essa barreira do cuidado adequado com o obreiro ainda é um obstáculo maior para a expansão do evangelho na Amazônia do que o isolamento da selva em si, pois até há pessoas dispostas a ir, mas muitos não conseguem permanecer. Portanto, quanto mais na ponta da lança o obreiro estiver, mais atuante precisa ser a supervisão pastoral. Temos visto tanto bons quanto péssimos exemplos durante a pesquisa de campo. O cuidado pastoral com o obreiro é essencial nos dias de hoje (1Tm 1.18,19).

1.2. A garantia da qualidade da mensagem proclamada é outro fator essencial na estratégia de alcançar cada habitante da floresta. Se a mensagem não libertar o homem, pouco adianta. Portanto, uma teologia de salvação exclusivamente pela graça, inteiramente cumprida pelo Cristo 100% Deus e 100% homem é indispensável (Jo 1.1-14). Para garantir isso, o preparo e capacitação destes obreiros, na sua maioria leigos, deve também fazer parte essencial de qualquer estratégia missionária. Ainda melhor se essa capacitação se dá o mais perto possível de seu contexto missionário. Portanto, capacitar e preparar esse exército de discípulos “in loco” é vital para a evangelização da Amazônia. O antigo modelo, que traz os vocacionados do interior para estudarem na capital, não funciona mais na maioria dos casos, pois dificilmente esse obreiro voltará para suas origens. Da mesma forma, o modelo tradicional de envio de missionários transculturais para o Norte e Nordeste do Brasil ainda é válido, mas nem sempre eficiente.

Estes dois aspectos são características relacionadas com o perfil da geração atual. Antigamente os missionários tinham um perfil mais autossuficiente do que hoje.

1.3. O trabalho missionário nunca será concluído por uma nem duas ou três organizações ou igrejas. Por mais que o chamado para alcançar o mundo para Cristo seja um chamado para a igreja local, o desafio missionário na Amazônia é muito maior do que qualquer denominação ou organização. O modelo denominacional que valoriza a competição não se sustenta biblicamente e várias lideranças já reconhecem que não precisam atuar onde outros estão presentes (1Co 3). Ao mesmo tempo em que a sobreposição de trabalhos missionários deve ser evitada, as parcerias com propósito de criar uma sinergia pela eficiência e eficácia da expansão do Reino de Deus precisa crescer e se desenvolver cada vez mais.

2. Assim sendo, o Projeto Fronteiras quer ser mais um facilitador destas parcerias, iniciativas e atuações missionárias, disponibilizando as informações e dados obtidos em suas pesquisas de modo que a igreja brasileira possa ter um direcionamento mais objetivo para alcançar as regiões menos evangelizadas do Norte do Brasil. Queremos ajudar a construir pontes entre a Igreja e o campo missionário.

3. Além disto, também incentivar e fazer parte das ações de evangelização, apoiando equipes missionárias, envolvendo parceiros e voluntários no processo de pesquisa e colocando sua estrutura e equipe a disposição de todas as iniciativas que visam alcançar os últimos rincões remanescentes sem a presença do evangelho no Brasil.

Muitas outras coisas têm sido aprendidas durante a pesquisa de campo e outras ainda aprenderemos no decorrer do projeto. Precisamos manter nossos olhos e ouvidos atentos às necessidades do campo missionário, em humildade, a fim de podermos disponibilizar informações confiáveis e valorosas para a Igreja Brasileira, para que ela possa receber a direção do Espírito Santo e completar a Grande Comissão ainda em nossa geração.

Toda a glória a Deus.

5 COMENTÁRIOS

  1. ótimo texto! Uma perspectiva honesta sobre a realidade missionaria no Amazonas. Como bem observou o irmão, são necess rios basicamente três elementos fundamentais: 1. Informação, 2. Direção, 3. Ação (Ne 1.1-2.9). No entanto, o que se vê nos campos, são verdadeiros atropelos de mission rios desinformados e despreparados. Temos visto v rios projetos mission rios que parecem, são apenas para justificar gastos. Em muitos casos, causam mais danos que benefícios … obra missionaria. Não basta só alcançar, ‚ preciso pregar o Evangelho da maneira correta e com a motivação certa.

  2. Pertinente, claro e desafiador.
    De fato, a informação se faz necess ria a fim de uma atuação eficiente, bem como a formação de parcerias para a sinergia das cooperaçäes. Bem como a formação de locais para o alcance abrangente e contextualizado, contudo a carência de modelos sadios de discipulado e a visão de que o único indispens vel no campo ‚ o Senhor da Seara tem criado comunidades cristãs deficitarias em multiplicação e dependentes de seus líderes.

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