Além da matéria: alguns contrapontos cristãos ao naturalismo

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Introdução

Em tese, o naturalismo é a cosmovisão que assume a natureza como princípio único de tudo o que é real. Defende, dessa maneira, que não há nada além da natureza e de suas leis intrínsecas, que nada existe ou encontra sua causa fora da ordem material e natural.

Se cuidadosamente analisada, a ideia que caracteriza a cosmovisão naturalista é constituída de dois componentes específicos. Por um lado, temos o chamado componente metafísico, uma vez que o naturalismo pressupõe certa ontologia sobre a estrutura do mundo. Ou seja: ao afirmar que toda a realidade tem sua causa no mundo natural, o naturalismo assume um inegável compromisso metafísico. Por outro lado, há também o componente metodológico, qualificado por exigir um método científico capaz de dar conta do materialismo pressuposto pelos naturalistas. Por isso mesmo, admite-se um realismo científico na caracterização do objeto das ciências naturais,1  isto é, a ideia de que a ciência é capaz de explicar o mundo tal como ele é. Convém notar que, embora da perspectiva moderna qualquer ramo científico pressupõe esse aspecto metodológico, obviamente o aspecto metafísico do naturalismo não é necessário. Tal aspecto é independente; por isso, é possível fazer ciência sem assumir a metafísica naturalista.

Fundamentalmente, o naturalismo pode ser dividido em dois grupos. O primeiro deles é o “naturalismo fisicalista”, considerado radical por defender que tudo pode (e deve) ser reduzido a entidades materiais. Seu pressuposto básico é a rejeição de tudo o que possa ser caracterizado de sobrenatural ou espiritual. Quer dizer, se de fato existem coisas como almas, espíritos, pensamentos, anjos etc., tais coisas seriam reduzidas a entidades materiais.

O segundo grupo, mais moderado, é o “naturalismo não fisicalista”, que nega o fisicalismo, mas defende (como eles) que o mundo natural é independente e autorregulado. Aceita, assim, a existência de seres ou elementos não materiais, mas assevera que tais elementos ou seres nem causam a realidade material, nem interferem nela. Um exemplo de naturalismo não fisicalista é o deísmo do século 18, para o qual Deus criou o mundo e o dotou de leis autorreguladoras, independentemente de qualquer força externa.

Para usarmos uma analogia, a natureza, para os naturalistas, é entendida como uma caixa selada em que tudo que ela contém não é apenas de ordem natural e material, mas também é causado ou explicado por leis intrínsecas. Tudo seria, então, explicado pelas próprias estruturas e relações existentes no mundo material.

1. Premissas fundamentais do naturalismo

Uma condição necessária para respaldar o naturalismo é a admissão sem reservas de um conjunto de premissas fundamentais. A primeira dessas premissas é que a única realidade que existe na natureza é a matéria . Desse ponto de vista, existir nada mais é do que fazer parte da caixa selada. Ou seja, existir é poder ser observado empiricamente, investigado, estudado e sistematizado pelos métodos científicos utilizados nas ciências naturais. Se houver algo fora da caixa, não é natureza e, por isso, não pode ser considerado uma realidade existente.

A segunda premissa fundamental do naturalismo é que a natureza é constituída por um complexo sistema materialista, ou seja, os elementos constituintes de todas as coisas existentes na natureza são entidades materiais. A matéria é, nesse caso, um tipo de elemento primário, fundamental, essencial. É um tipo de substância comum a todas as coisas, tal qual foi defendida pelos atomistas gregos.2  A matéria, então, antecede todos os seres e é a causa deles. Convém notar que, para fazerem tal afirmação, os naturalistas têm de pressupor que a natureza seja eterna. Defendem, portanto, ou que ela sempre existiu de alguma maneira, ou que ela passou a existir sem ser causada.

A terceira premissa básica do naturalismo é que a natureza é um sistema determinista. No determinismo, todo fato ocorre, física e necessariamente, em razão de uma ou mais causas antecedentes. É, portanto, o reflexo imediato de crer que tudo é governado e dirigido por leis estritamente mecânicas e nada mais. Não há margem para alteração ou mesmo liberdade. Isso tem implicações éticas sérias.

2. Implicações da cosmovisão naturalista e alguns contrapontos cristãos

São várias as implicações teóricas e práticas decorrentes da cosmovisão naturalista. Muitas dessas implicações contradizem diretamente os fundamentos da cosmovisão cristã. A primeira e mais nítida implicação do naturalismo é o ateísmo. Todos os naturalistas negam a existência de Deus. Aliás, considerando os seus pressupostos, não há espaço para um ser eterno, pessoal, completamente espiritual e imaterial, criador de todas as coisas, e que mantém toda a realidade pela sua providência. Como vimos, para os naturalistas, a natureza não foi criada. Se os elementos básicos que constituem a realidade natural são incriados e, portanto, eternos, não faz nenhum sentido falar de um Deus criador. A única exceção talvez seja o deísmo do século 18, que, mesmo defendendo um tipo de naturalismo, no sentido que já demonstramos, admite certo “criador”.

Uma vez que, para os naturalistas, a natureza é autorreguladora, isto é, só depende dela mesma e de suas leis intrínsecas, não pode haver nenhum tipo de providência por meio da qual Deus governa todas as coisas de modo sábio e imutável. Ao negarem que Deus tenha criado todas as coisas com um propósito e com uma finalidade, defendem que toda a realidade material é regida por leis deterministas e mecânicas, desprovidas de propósito ou finalidade. Não há, portanto, nenhum telos na natureza. A ordem natural é cega! Isso, claro, contradiz todo o ensino das Escrituras (Gn 1.1; Is 40-48; Rm 11.33; Hb 1.1-3).

A segunda implicação do naturalismo está no modo em que ele compreende o ser humano. Em linguagem simples, para os naturalistas, o homem (e qualquer outro ser na natureza) nada mais é do que o resultado de um ajuntamento de átomos. Afirmam, assim, que o homem é “um produto evolucionário da natureza da qual é parte”.3 Nas palavras de Bertrand Russell, filósofo naturalista contemporâneo, “o homem é um produto de causas que não têm previsão do fim que estão promovendo; sua origem, suas esperanças e medos, seus amores e crenças são apenas resultados de colações acidentais de átomos”.4 Como se vê, uma cosmovisão assim nega toda e qualquer parte imaterial no homem. Nesse caso, coisas como alma, consciência, mente, pensamento, crenças, desejos, vontades, emoções etc. não estariam ligadas a algo imaterial ou espiritual, mas seriam todas entidades que podem ser reduzidas a relações de interdependência com forças e causas naturais. Além disso, concebendo que os seres humanos não passam de um ajuntamento de átomos, os naturalistas são incisivos em afirmar que os homens não têm vida consciente após a morte. Não há vida após a morte.

Sem dúvida, tais implicações estão na contramão da fé cristã. Na Bíblia, o homem é um ser criado à imagem e à semelhança de Deus (Gn 1.26; 2.7); é uma unidade composta por uma parte material, o corpo, por meio do qual manifesta toda a sua sensibilidade perante o mundo externo, e uma parte imaterial, a alma/espírito, que é a sede de sua racionalidade, emoções, sentimentos, desejos, vontade etc. Essa unidade composta é separada temporariamente com a morte (Ec 12.7) e unida novamente na ressurreição (1Co 15).

Por fim, o naturalismo tem implicações éticas. Sendo o homem mero resultado de um processo evolutivo, fatos moralmente relevantes são, no fundo, apenas naturais. Desse modo, todo valor moral pode ser confundido com uma propriedade natural ou reduzido a ela. Assim, por exemplo, propriedades morais como bondade e justiça são identificadas com descrições biológicas e explicações científicas das coisas . Esse entendimento faz com que, na prática, a ética naturalista se traduza como uma ética hedonista ou utilitarista.

Mais uma vez, temos aqui um choque com a fé cristã. A ética cristã fundamenta-se na revelação inspirada da vontade de Deus para o seu povo pactual e está claramente resumida nos Dez Mandamentos (Êx 20.1-17; Dt 5.1-21). Estando alicerçada na vontade revelada de Deus, a ética cristã afirma que Deus é quem determina o que moralmente é bom ou mau. Desta perspectiva, a ética não é um construto do homem (que pela visão naturalista é um suposto aglomerado de átomos), nem algo temporal, transitório, passageiro, cultural; antes, é algo permanente, eterno, perene, transcendente.

3. Questões não respondidas pelo naturalismo

Ao contrário do que se poderia pensar, o naturalismo não está imune à críticas. A maioria delas se concentra no fato de termos várias questões não respondidas pelos naturalistas. Todo naturalista que se julgue mestre da formulação de perguntas para as quais não existem respostas será constrangido por questões para as quais ele mesmo não será capaz de oferecer respostas. As questões mais comuns estão associadas à clássica pergunta “Por que existe alguma coisa em vez de nada?”.

Na cosmovisão cristã, essa pergunta é distintamente respondida pela certeza da existência de um Deus soberano, que é criador do céu e da terra e fez tudo para sua glória. Na cosmovisão naturalista, porém, o que predomina é um ensurdecedor silêncio, uma vez que os pressupostos por ela admitidos não fornecem nenhuma resposta para essas questões. Os naturalistas também não respondem a questões como: “Por que há a realidade material? Por que há a natureza? Qual a razão de ela existir?”. Pode-se perguntar também: “Por que os átomos se movem em vez de permanecer imóveis? Por que se juntam? Por que se separam? Sem finalidade, sem projeto, sem telos, como explicar a ordem da realidade material?”. Sendo muito otimista, o máximo que pode sair da boca de um naturalista é algo associado ao acaso, o que é insuficiente e incapaz de convencer.

No que se refere à antropologia, pode-se perguntar a um naturalista se a volição humana, seus desejos, suas crenças e seus pensamentos, pode mesmo ser reduzida a entidades materiais. A realidade do cotidiano parece confirmar que não. Será possível admitir que processos mentais sejam reduzidos à leis mecânicas? É possível que processos racionais, como o raciocínio lógico, sejam reduzidos a entidades materiais? Isso é muito improvável. Aliás, por falar em lógica, parece que até mesmo os naturalistas têm de admitir que há algo fora da caixa selada: as leis da lógica ou, pelo menos, as leis fundamentais do pensamento. Sem essas leis — por exemplo, a da não contradição —, nem os próprios naturalistas poderiam distinguir sua cosmovisão de outras existentes ou ainda argumentar que a realidade natural como eles a concebem seja verdadeira. Repare, contudo, que as leis da lógica não são deduzidas do mesmo jeito que as leis da ordem natural que governa a realidade material. As leis da lógica não são materiais, nem mecânicas, nem cegas. Então, onde, na caixa selada, somos capazes de encontrar essas leis? Em lugar algum!

Quanto à ética, o naturalismo se encurrala gravemente. Se todas as ações éticas são resultado de um ajuntamento de átomos, como se pode exigir que haja ação ética responsável? Como, por exemplo, responsabilizar um assassino, se sua ação de matar foi o produto de meras instâncias biológicas? Como definir o bem ou o mal a partir de elementos materiais e mecânicos? Quer dizer que a mentira é simplesmente uma configuração de átomos? É impossível obter respostas convincentes de um naturalista.

Em síntese, embora não se possa negar a influência maciça do naturalismo hoje em dia, se cuidadosamente analisadas, as premissas fundamentais dessa cosmovisão padecem de certa fragilidade conceitual, pois elas não são capazes de proporcionar uma explicação ou mesmo uma descrição adequada da realidade. Importa notar que, uma vez que a fé cristã tem as respostas para essas constrangedoras perguntas, o cristianismo se apresenta, sem qualquer dúvida, como uma cosmovisão bastante superior ao naturalismo.

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1Quanto a isso, cf. J. P. Moreland; W. L. Craig, Filosofia e Cosmovisão Cristã, tradução de Odayr Olivetti (São Paulo: Vida Nova, 2005), p. 442-5.
2Sobretudo, Demócrito e Epicuro. Sobre eles, cf. G. S. Kirk; J. E. Raven; M. Schofield, Os Filósofos Pré-socráticos, 7.ed., tradução de Carlos Alberto Louro Fonseca (Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010), p. 425-58. Especificamente sobre Epicuro, cf. Miguel Espinelli, Os Caminhos de Epicuro (São Paulo: Loyola, 2009), e Reinholdo A. Ullmann, Epicuro, o Filósofo da Alegria (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996).
3Corliss Lamont, The Philosophy of Humanism, 6.ed. (New York: Frederick Ungar, 1982), p. 12.
4Bertrand Russell, Mysticism and Logic (Londres: Longmans, 1925), p. 47.
5Cf., p. ex., Charles Pidgen, Naturalism, in A Companion to Ethics, organização de Peter Singer (Oxford: Blackwell, 1993); e também Richard Boyd, How to Be a Moral Realist, in Essays on Moral Realism, organização de G. Sayre-McCord (Ithaca/London: Cornell University Press), 1988. Um crítico severo das concepções naturalistas da ética é G. E. Moore (cf. Principia Ethica, tradução de Maria Manuela Rocheta Santos e Isabel Pedro dos Santos [Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1999]).

1 COMENTÁRIO

  1. Diante do coment rio posto sobre as premissas da cosmovisão naturalista e suas implicaçäes, os contrapontos Cristãos evidenciado de forma objetiva pelo professor Gerson,fortalece-nos a F‚ em combate as fl cidas conceituaçäes do naturalismo ou de pensamentos derivados do mesmo.
    Deus continue iluminando vossa mente, professor!

  2. A presença do elemento ficção ‚ comum no discurso de muitos naturalistas. Caem no Naturalismo das Lacunas, pensando que tudo que ‚ compatível com seus absolutos mentais ‚ de fato real. A Teoria da evolução das Esp‚cies por Seleção Natural, por exemplo, est  cheia de combinaçäes que só existem na imaginação de um naturalista, atrapalhando o progresso da ciência por causa de seus óculos cientificistas.

    Um dia a Idade das Trevas da Biologia terminar !

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