A vida diária cristocêntrica na perspectiva da Reforma Tardia: uma análise dos artigos X, XI e XII da Fórmula de Concórdia

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1. Introdução

A Fórmula de Concórdia é um documento confessional luterano que surgiu na chamada Reforma Tardia, por iniciativa de alguns teólogos de renome, dentro do círculo de Wittenberg, que buscavam produzir um material que, de forma resumida, tivesse o poder de reunir todas as marcas da teologia saudável iniciada por Lutero.

Por mais que este escrito tenha surgido quase quarenta anos depois da morte do reformador, ele precisou novamente versar sobre uma série de problemas que o próprio Lutero havia combatido. A teologia que foi definida como saudável em meados do século XVI estava mais uma vez sentido os ataques dos inimigos e corria o risco de cair em antigos erros, agora com uma nova roupagem.

Um dos assuntos teológicos mais impactados pela teologia de Martinho Lutero, mas que é pouco comentado pela igreja moderna, é, sem dúvida, a chamada vivência da fé, ou, como ele intitulava, “justiça ativa”. A justiça ativa pode ser explicada como a resposta evangélica à justificação, ou quais são os efeitos práticos da atuação de Deus que podem ser observados na vida cristã.

Lutero precisou enfrentar desafios extremos neste campo, pois a pregação oficial da Igreja Romana dava preferência ao monasticismo (ou ao discipulado radical) no qual a fé era medida pelo tamanho do desapego que as pessoas tinham pelas posses. Isto levava os crentes a pensar que a verdadeira espiritualidade era vivida pelos padres e pelos santos que, seguindo o exemplo de Francisco de Assis, largavam tudo o que tinham e seguiam radicalmente a Cristo. E, por outro lado, ele se viu obrigado a responder a espíritos entusiastas e sectários como o de Kalstad que buscavam materializar o espiritual e espiritualizar o material (BAYER, 1998, p. 132 – nossa tradução), ou seja, eles escolhiam determinadas formas de agir e classificavam estes procedimentos como santos, e tantos outros eram descartados por serem sinais verdadeiros do pecado.

Lutero não pôde conceber nenhum destes modelos como verdadeiramente cristãos, pois nenhum deles estava de acordo com a Sagrada Escritura. Tais modelos faziam com que a Justiça Ativa fosse um assunto afastado das pessoas comuns, ou que fosse visto de forma muito mais espiritual e legalista.

No final do século XVI, quando os concordistas empreendem a confecção da Fórmula, eles também estavam enfrentando problemas no campo da justiça ativa. No parágrafo 18 do epítome do Artigo IV (LIVRO DE CONCÓRDIA, 1992, p. 514), eles afirmam que estavam diante de um duplo desafio neste campo: de um lado observavam os pregadores entusiastas que tinham fantasias epicureias — forma como se referem aos anabatistas que pensavam ser possível categorizar todas as ações do homem como justas ou pecadoras, termo também aplicado aos cripto-calvinistas que ameaçavam as fileiras luteranas com conceitos evangélicos deturpados — e, de outro lado, continuavam tendo de lidar com a confiança farisaica dos papistas.

Buscando apontar um caminho alternativo a essa espiritualidade equivocada, os concordistas procuraram caracterizar a teologia luterana da justiça ativa e, assim, levar os pastores e pregadores de Wittenberg a uma posição de Concórdia. Aqueles homens se debruçaram mais uma vez sobre esse assunto e demonstraram, através dos três últimos Artigos da Fórmula, a sua posição sobre a questão.

O presente trabalho pretende estudar como a Teologia Luterana da Justiça Ativa é apresentada na Fórmula de Concórdia e em quais momentos estes artigos de fé refletem os ensinos de Lutero e, por fim, demonstrar que a pregação e o ensino correto destes parâmetros ainda são a melhor forma de ter e viver no mesmo sentimento que Cristo Jesus tinha.

2. Definições importantes

Para que o assunto da vida cristã possa ser visto de forma correta, ao invés de impor obras como os espíritos legalistas faziam, ou então descartar essas obras como os antinomistas agiam, os concordistas buscaram equilibrar seu trabalho em definições que foram claramente tiradas dos escritos de Lutero que refletem o ensino de toda a Escritura Sagrada.

Assim, antes de entender as propostas que os Artigos X, XI e XII trazem, é preciso que estas definições sejam apresentadas, pois elas serão um guia equilibrado para que os teólogos luteranos possam compreender como a vida cristã deve ser ensinada e vivida, afastando assim o risco do legalismo e do antinomismo que sempre rondaram o mundo evangélico.

2.1. Dois aspectos da justiça

Uma das grandes dificuldades geradoras do movimento da Reforma, foi como Lutero foi apresentado e lidava com a chamada justiça de Deus. Em seus primeiros anos de seminário e ministério, ele foi apresentado a um Deus justo, que cobrava justiça de todos, de forma que cada pessoa deveria fazer de tudo para merecer o céu.

Depois de muito estudo e pesquisa, ele pôde compreender que a justiça de Deus só pode ser realmente revelada ao homem através da Palavra que apresenta com fidelidade aquilo tudo que Deus fez para o homem (justiça passiva) e tudo o que o Senhor leva o homem a fazer ou faz através do homem (justiça ativa), conhecer estes conceitos de Lutero é fundamental para que os Artigos finais da Fórmula de Concórdia sejam bem compreendidos.

Entre os anos de 1518 e 1519, Lutero escreveu um sermão que demonstrou de forma bem concreta o seu pensamento sobre os dois aspectos da justiça. Tendo por base o texto de Filipenses 2.5-8, ele buscou apresentar ao seu público essa sua nova descoberta, isto é, que o homem não precisava temer a justiça de Deus, mas era alvo dela de forma graciosa, tanto para receber salvação, como para ser utilizado como máscara ou instrumento de Deus na pregação de sua Palavra.

Ele afirma que nenhum aspecto da vida cristã pode ser visto longe da chamada justiça passiva, que é a forma como gratuitamente Deus estende ao homem seu amor. Essa espécie é alheia e infundida de fora ou a forma como Deus justifica o homem através da fé. Esse movimento é entregue ao homem pelo batismo e depois é conservado através da Palavra e da Santa Ceia. Ele chama esse movimento de passivo porque o homem é um simples alvo da ação divina, e isso só pode acontecer através da obediência e do sacrifício vicário de Jesus, como diz Lutero (2004, p. 242):

A primeira espécie é a justiça alheia e infundida de fora. É a justiça mediante a qual Cristo é justo e justifica pela fé, (…). Esta justiça, portanto, é concedida às pessoas no Batismo e em toda época de verdadeira penitência, de modo que o ser humano possa, com confiança, gloriar-se em Cristo e dizer: “É meu tudo o que é de Cristo: seu viver, o que fez, disse, que sofreu e morreu, exatamente como se tudo isso tivesse acontecido comigo, como se eu tivesse vivido, feito, dito, sofrido e morrido”.

Como bem afirma FELTEN (2015, p. 8.), a justiça passiva é a forma como o homem é visto Coram Deo e isso acontece extra nobis e pro nobis.  É por isso que Lutero insiste tanto em falar de justificação somente por graça e fé. E em textos como o tratado da liberdade cristã, afirma que essa justiça que nos é imputada por Cristo nos dá completa liberdade a tudo e a todos.

Aqui está aquele que é conhecido como Reino da Palavra, a atenção é voltada para o ouvido e o homem crente é um recebedor passivo da graça e do amor de Deus. Ele não precisa fazer nada para demonstrar sua fé ou para comprar o favor de Deus, tudo isso acontece de graça e por graça.

Levando em conta esta liberdade que é dada por graça, alguns do próprio grupo de Wittenberg extrapolaram sua pregação e passaram a pregar um antinomismo, no qual o cristão não precisa mais da lei e de suas obras porque já está liberto. Porém, este nunca foi o querer de Lutero.

Em momento algum o pensamento de Lutero assumiu essa vertente. Desde muito cedo, o reformador afirmava que todo aquele que foi investido de justiça passiva também foi chamado para responder com uma justiça ativa que imitasse a Cristo em seu amor e compaixão.

No sermão sobre Filipenses 2.5-8 ele deixa claro que este segundo aspecto da justiça nunca será levado em conta diante do trono de Deus, mas está sendo colocado em prática na vida diária dos cristãos enquanto se engajam em atividades que demonstrem o amor ao próximo. Levando isso em conta, e falando sobre “ter o mesmo entendimento que Cristo o Senhor”, ele comenta (LUTERO 2004, p. 243):

Essa justiça é produto da justiça do primeiro tipo, na verdade seu fruto e consequência… ela se odeia e ama o próximo; não busca o seu próprio bem, mas o de outro, e nisto consiste todo o seu modo de viver. Pois, no que se odeia a si mesmo e não busca o seu próprio bem, crucifica-se a carne. Porque busca o bem do outro, ele trabalha o amor. Assim, em cada esfera, ela faz a vontade de Deus, vivendo sobriamente consigo mesmo, justamente com o próximo, devotamente para com Deus. Esta justiça segue o exemplo de Cristo neste sentido (1Pd 2.21) e se transforma em sua semelhança (2Co 3.18). É precisamente isto que Cristo requer. Assim como Ele mesmo fez todas as coisas por nós, não buscando o seu próprio bem, mas somente o nosso — e nisto Ele foi muito obediente a Deus Pai — assim Ele deseja que nós também demos o mesmo exemplo para o nosso próximo.

Aqui, fugindo dos espíritos legalistas e liberais, Lutero busca levar o homem a viver no Reino da Máscara, onde o que importa é aquilo que o olho vê, e faz com que o crente tenha uma fé ativa no amor. Nesse sentido, ele apresenta uma novidade tanto para o mundo medieval quanto para o mundo pós-moderno, pois afirma que um cristão pode ter uma vida centrada no Senhor porque ele aprende a crucificar a sua própria vontade e esvaziar-se de si mesmo para assim amar o seu próximo.

BAYER (1998, p. 133 – nossa tradução) afirma que esta forma de Lutero entender a vida cristã é o maior feito teológico de Lutero, pois conseguiu conectar o discipulado (justiça passiva) com a vida doméstica diária (justiça passiva) de modo que um protege o outro. Esse pensamento que parecia ser estranho para a época nada mais era do que um retorno ao pensamento original bíblico. Observe-se, por exemplo, a carta aos Romanos. Até o capítulo 11, é uma das melhores explanações da graça de Deus que é entregue passivamente. Porém, a partir do capítulo 12, há um chamado doxológico para que o homem transforme o mundo através de sua ação em sua vida diária.

A Fórmula de Concórdia precisou voltar ao pensamento original de Lutero e, por isso, eles se utilizam do mesmo tipo de pensamento do reformador. Do Artigo I ao IX, eles demonstram a necessidade de cuidado com a justiça passiva apontando a cristologia como ponto central de toda a discussão. Porém, nos últimos três capítulos, eles trazem à discussão a forma definida por Deus para que o homem possa ter uma vida cristã cristocêntrica na qual tudo parta do salvador e volte para ele.

2.2. A interação das duas justiças

Desde o princípio, e especialmente em Lutero, a Teologia de Wittenberg nunca tratou o assunto da justiça ativa como um corpo teórico separado e estranho aos demais temas da fé. Isso quer dizer que todos os textos foram escritos com estes pressupostos — para os luteranos, não é possível distinguir entre justificação e santificação e nem mesmo quando começam as boas obras, pois um é a consequência natural do outro.

Ou seja, a justiça ativa é um reflexo da justiça passiva. Assim sendo, ninguém consegue ser santo ou fazer realmente boas obras sem Cristo. Cristo é o princípio e o fundamento da verdadeira vida cristã e o homem precisa recebê-lo para que depois possa ser guiado pelo Espírito Santo a viver no mundo criado por Deus. Como afirma SANCHEZ (2013, p. 117 – nossa tradução):

Vamos definir “justiça” teologicamente como aquela “justiça da lei” (iustitia legis), que Deus prescreve no Decálogo para que as ações nobres sejam ensinadas e realizados na sociedade. Assim, fazer justiça compreende se fazer o que é justo ou reto diante dos homens (coram hominibus) de acordo com a lei de Deus. Enquanto os confessores luteranos advertem que a justiça da lei (ou “justiça da razão”) nunca pode substituir a “justiça da fé” (iustitia fidei), que sozinha nos declara e nos torna justos diante de Deus (coram Deo) através da fé em Cristo.

Num espírito contrário ao pensamento luterano, as muitas das teorias de justificação versus santificação versus boas obras que existiam na Idade Média, ao invés de tratarem o assunto como algo integral, apontavam para o caminho da distinção. Os romanos, por exemplo, pensavam que tudo precisava passar pela “vida evangélica dos conselhos”, que buscava levar as pessoas à pobreza, castidade e obediência. Os anabatistas, por sua vez, imaginavam viver o céu na terra e, ainda no fim do século XVI, os cripto-calvinistas buscavam marcar os predestinados através da responsabilidade.

De uma forma ou de outra, cada um destes grupos buscava definir, de forma empírica, as fases da salvação. Para os romanos, Deus precisava iniciar a obra, infundindo a graça através do batismo. Em seguida, os homens deveriam prosseguir demonstrando sua santidade através das boas obras, cujos maiores exemplos eram a pobreza, a castidade e a obediência. Já para os grupos entusiastas como os anabatistas e os cripto-calvinistas, cada um com sua particularidade, os crentes deviam começar a obra para que depois Deus pudesse aceitá-los.

Assim, a justiça passiva perdia o seu espaço e, por mais que muitos não queiram reconhecer todos estes caminhos em algum momento, levavam a uma pregação da salvação por obras. Querendo ou não, de forma consciente, como era no romanismo, e até mesmo de forma inconsciente, como era para os anabatistas e cripto-calvinistas, ou o homem é um cooperador na obra da salvação ou ele precisa dar provas visíveis de que é predestinado a receber o céu um dia. Assim, o assunto passou a ser tratado de forma muito mais antropocêntrica do que bíblica.

A Fórmula de Concórdia, por sua vez, demonstra que não existe lugar para o antropocentrismo. Em todo o escrito, o homem é tido apenas como o receptor da ação de Deus em seu favor, e isso acontece tanto com relação ao perdão, como está ligado também à justiça ativa, pois as obras citadas nos artigos X, XI e XII de Concórdia nunca são feitas de forma independente, mas sempre são consequências diretas da obra que a Trindade faz no crente através da fé em Cristo Jesus.

Como tais artigos estão na conclusão da Fórmula, é possível entender que eles são o elo que amarra toda a teologia luterana a um corpo de fé unificado. O que aquele grupo de teólogos fez não foi buscar inovações que pudessem reunir o povo em volta de um mesmo pensamento, mas sim voltar à fonte e transmitir de maneira organizada ou “sistemática” a forma como Lutero explanou seu pensamento especialmente no Catecismo Menor.

Neste escopo teológico, eles pretendem demonstrar que o caminho da vida cristã pode muito bem ser comparado a uma enfermidade que é diagnosticada (Artigos I e II), que precisa ter uma receita específica para o tratamento (III, VIII, IX), que, ciente disso, o homem precisa ter esse remédio receitado (IV, V, VI). Esse remédio é entregue (VII) e, por fim, vem os efeitos que esse remédio produz (X, XI, XII). Nessa estrutura que imita o pensamento de Lutero e seu catecismo, eles buscam demonstrar o quanto a justiça ativa está interligada com a justiça passiva e que, sem essa conexão, a igreja fica mais perto de pensamentos controversos como o liberalismo ou o legalismo, pois retiraram Deus do centro do pensamento da vida cristã.

Segundo BAYER (1999, p. 156 – nossa tradução), “a alternativa de Concórdia é caracterizada por ser um caminho alternativo às perspectivas erradas da vida cristã que circulavam na Idade Média. Obviamente, ela não pode ser tida como um caminho de isenção onde as pessoas são incentivadas a viver em cima do muro, mas se trata de uma tênue linha que demonstra fielmente o simultaneamente justo e pecador defendido por Lutero.” Ele afirma: “É certo que esse caminho do meio não é muito largo. O caminho de Lutero é, na verdade, um perigoso caminho de corda bamba.”

Seguindo no mesmo caminho de Lutero, o que os concordistas fazem é não buscar um caminho que leve a obras autointituladas como santas, mas buscam ensinar que a verdadeira forma de viver a vida cristã está muito bem disposta por Deus em sua Palavra. Aquilo que foi defendido pelos escritores da Fórmula foi reforçar que a vida religiosa não deve se limitar a vivência na igreja, mas deve ser vivida nas ordens e nas vocações diárias do homem. Como afirma BAYER (1999, p. 147 – nossa tradução): “a vida religiosa abrange e permeia toda a vida em todas as suas dimensões sociais: a vida doméstica, a escola, a economia e todas as facetas da vida política.”

Assim sendo, o exercício que Martin Chemnitz e seus colegas se propuseram a fazer estava muito bem fundamentado na definição que a teologia luterana dá às duas naturezas da justiça. Eles não buscaram caminhos alternativos, mas se mantiveram firmes e fiéis, não só àquilo que Lutero havia escrito, mas principalmente à forma como a Sagrada Escritura descreve a necessidade de demonstrar a vida cristã.

3. Agenda de Deus para os cristãos

Diante das mais diversas propostas que estavam surgindo no campo da prática da fé, a Fórmula de Concórdia indubitavelmente coloca o homem em seu lugar e o faz entender que ele é um recebedor da graça e da misericórdia do Senhor. Nele mesmo não existe a mínima condição de crescer santidade, de tomar um caminho de fé ascendente que busque, ainda na terra, alguma perfeição. Contudo, a Fórmula faz com que o homem encare a dura realidade da condição humana, pois, mesmo estando completamente liberto da morte e da lei ao receber a adoção pelo batismo, continua como pobre pecador que não consegue fazer o bem que quer. Desta forma, a Fórmula respeita o paradoxo luterano do homem ser simultaneamente justo e pecador.

A visão limitada que os romanos tinham do homem, fazendo com que ele fosse valorizado por sua participação de determinados ritos ou cerimônias, e a forma pessimista como os entusiastas viam o ser humano, acabaram levando para dentro da igreja uma agenda bitolada onde as obras que deviam ser feitas eram aquelas que a Igreja intitulava como santas, merecedoras do céu, ou capazes de revelar a predestinação.

O exercício dos concordistas vai na contramão destas definições, pois eles não observam o homem apenas à luz daquilo que ele faz (como querem as outras doutrinas), mas, seguindo toda a teologia de Lutero, eles encaram o homem na mesma medida que Deus o faz, levando a humanidade a ter certeza de que, a partir da justificação em Cristo, o homem passa a ser encarado de forma mais positiva, sendo inspirado a demonstrar a justiça passiva através de suas obras, como aponta BAYER (1998, p. 126 – nossa tradução):

…a importância espiritual positiva de toda a realidade mundana, depois que sua nova concepção de palavra e sacramento o tornou consciente de como a realidade mundana é mediada pela realidade espiritual, não apenas negativamente, mas positivamente.

Buscando fugir daquela religiosidade engessada que os grupos fora de Wittenberg propunha, os concordistas fazem mais uma vez transparecer uma religiosidade cristocêntrica, deslocando a santidade dos monastérios e igrejas para o ambiente doméstico e, ao fazerem isso, mais uma vez confirmam a teologia de Lutero.

Isso fica representado na forma objetiva com que eles tratam os assuntos nos Artigos X, XI e XII. Eles não pretendiam alterar o tecido da igreja impondo uma agenda social política como queriam os cripto-calvinistas e os anabatistas, nem tentavam fazer algo como uma receita de bolo na qual um programa de atividades era imposto. Ao invés disso, como herdeiros da Reforma, não viam a vida cristã em uma agenda programática na qual o cristão tem determinadas coisas a fazer e determinados comportamentos a seguir. Para a tradição de Wittenberg, o homem precisa ser tratado como ser em todos os campos de sua vida. É para isso que BAYER (1999, p. 149 – nossa tradução) chama atenção:

Lutero não estava interessado em observar e descrever o comportamento e as ações humanas de uma forma objetiva e neutra. Tampouco pretendia principalmente prescrever um comportamento correto ou ser diretivo, pois não assumiu que as pessoas tivessem livre-arbítrio. Pelo contrário, os esforços de Lutero no campo da ética assumem a forma de um cuidado pastoral, relativo a todo o ser humano, cujos aspectos físicos e sociais são distorcidos como resultado da vontade própria do ser humano e do desespero correspondente.

Assim, a Fórmula de Concórdia não traz uma prescrição de comportamento, mas ensina a forma concreta de Deus continuar vivo no meio desse mundo. Para isso, Deus utiliza o ser humano como seu instrumento, não dando espaço para que se escolha quais são as obras perfeitas, e demonstrando que a única coisa que separa um crente do não crente é que aquele que foi levado à fé, a partir do momento em que conhece a justiça passiva, é conduzido a reconhecer que, na ação da justiça ativa, Deus o utiliza e, por isso, ele trabalha para o próximo como se fosse para o Senhor. Como afirma SCHULZ (2009, p. 258 – nossa tradução):

Entendido corretamente, o discipulado nunca pode passar pela cruz de Cristo sem fazer a pergunta crucial sobre o compromisso pessoal com Cristo e com o próximo através do testemunho e do estilo de vida. Mas isso não precisa violar a natureza vicária da obra de Cristo, como se o nosso compromisso ajudasse a salvação. Desta forma, o chamado ao discipulado não se divorciará de nossa justificação pela graça através da morte de Cristo, nem ameaçará seu caráter de substituição.

A preocupação dos concordistas era fazer com que os problemas e as incoerências sobre a vivência do evangelho que vinham sendo pregadas fossem respondidos com um profundo lastro bíblico e que, através da Concórdia, eles pudessem pregar de forma concreta aquilo que a Palavra de Deus revelava.

A forma como eles encaravam a vida cristocêntrica era um movimento que passava do individual para o comunitário, ou seja, depois de ter sido regenerado pelo batismo, que é dado apenas por graça e fé, o homem recebe o Espírito Santo que o ensina a viver uma vida de esvaziamento do indivíduo e enfoque na comunidade. Esse pensamento que tem centro naquilo que é comum, faz com que nasçam no coração da igreja quatro atividades nas quais a vivência cristã é dirigida para a criação de Deus. Como afirma SCHULZ (2009, p. 236 – nossa tradução):

Ao tornar a missão um assunto comunitário e uma realidade significativa no contexto mais amplo, vêm à mente as quatro atividades ou expressões tradicionais da Igreja. É fundamental para a Igreja praticar os quatro papéis seguintes: cuidado humano (diakonia), testemunho (martyria), comunhão (koinonia) e culto (leitourgia). Como indica a figura na página seguinte, somente quando essas quatro atividades estiverem em vigor, a congregação cumprirá um papel equilibrado e bíblico neste mundo e servirá, figurativamente falando, como uma flor cujo cheiro doce e convidativo penetra no mundo. A Igreja assim se parece com uma flor, floresce como uma flor, cheira como uma flor, e atrai como uma flor.

Esse florescer de uma comunidade que está baseada na graça e no serviço é o foco dos concordistas com os últimos Artigos da Fórmula. Buscando afastar as pessoas do legalismo, do liberalismo e do antinomismo, eles demonstraram de forma fiel que o evangelho se apresenta ao mundo na forma como os Adiáforos, o perdão do pecado e a tolerância são demonstrados pelo cristão. Na sequência, cada um destes artigos será estudado individualmente, demonstrando que eles são parte da flor proposta por Schulz, mas também que são a forma concreta que Deus deixou para os crentes amar o próximo como a si mesmos.

3.1. Artigo X – Das práticas eclesiásticas

O primeiro ponto a ser abordado na vivência diária do cristão é a forma como ele se relaciona com aquilo que não é prescrito por Deus. As ordens e os artigos que foram introduzidos na igreja no interesse da boa ordem e do decoro. Aqui, a grande pergunta é: como Deus trabalha na vida diária dos cristãos através destas matérias não proscritas?

Os concordistas respondem a essa pergunta sempre tendo o foco no evangelho e no objetivo da Palavra encarnada de Deus. Eles demonstram fielmente que nenhuma ordem humana pode ser colocada acima da pregação da salvação por Jesus Cristo, mas também o homem como objetivo dessa mensagem não pode ser ignorado, fazendo assim com que o assunto dos adiáforos fossem tratados como uma forma de alcançar testemunho (martyria) e comunhão (koinonia). Após a morte de Lutero e a queda da liga de Esmalcalde, a Igreja da Reforma estava dividida e assuntos estranhos começavam a rondar os círculos luteranos. Um dos grandes responsáveis por levar esses assuntos ao arraial de Wittenberg era Felipe de Melanchton, que, pensando em fazer um acordo para beneficiar a Igreja alemã, assinou o Ínterim de Leipzig e nele abriu mão de alguns artigos fundamentais da fé luterana em busca de uma falsa concórdia com os romanos.

Na verdade, Melanchton estava abrindo as portas da Igreja de Cristo para a volta do esquema ex opera operato, demonstrando que os luteranos podiam abrir mão de algumas convicções em nome da paz. Ainda que os assuntos em que ele estava se posicionando não tivessem sido instituídos por Deus, eram contra o evangelho e contra a consciência das pessoas que haviam sido recém-libertas do jugo papal, como afirma PRUNZEL (Nota de Aula – 2020):

Mas, seus compromissos, centrados em torno da reintrodução imposta de “assuntos neutros” (“assuntos indiferentes” é uma tradução literal de αδιάφορα, mas “neutro” transmite melhor seu verdadeiro significado), pareciam que, no contexto das consequências da derrota da Liga dos Esmalcalde, negou o próprio evangelho, de acordo com críticos entre os ex-alunos e colegas de Melanchton. Eles temiam que, no nível popular, a recepção desses “assuntos neutros” minasse a proclamação luterana porque eles retornaram às práticas medievais que, em muitas partes da Saxônia, haviam sido deixadas de lado com a introdução da Reforma.

As controvérsias que resultaram do Ínterim de Leipzig dividiram os luteranos entre filipistas (que concordaram com Melanchton) e gnésio-luteranos, que buscavam demonstrar com mais fidelidade a posição de Lutero, que sempre teve em mente a fidelidade ao evangelho e aos ouvintes. Assim, eles buscavam demarcar com fidelidade essa posição.

Matias Flacius foi quem demonstrou o quão prático era esse assunto, pois o classificou como Adiáforos públicos — hinos, cânticos, leituras, ministros, lugares, tempos, vestimentas e toques de sinos, ou como Adiáforos privados — jejum ou tempo de oração. Assim, por mais que a Fórmula não seja um documento que apresenta uma eclesiologia geral, ela deixa bem fundamentada a teologia de Wittenberg, como afirma PRUNZEL (Nota de Aula – 2020):

O Artigo X da Fórmula da Concórdia coloca a confissão pública claramente no centro da vida da igreja e os crentes devem arriscar tudo para tornar essa confissão clara. A liturgia e outras práticas da igreja podem realmente ser mudadas em liberdade “como pode ser mais útil e edificante para a comunidade de Deus”, desde que não prejudiquem o ensino puro. Assim, a Fórmula reafirmou dois princípios básicos enunciados nas confissões luteranas anteriores: a centralidade vital da Palavra de Deus e sua proclamação pública e a natureza da igreja como o lugar onde Deus conversa e desfruta de comunidade com suas criaturas humanas — não um lugar onde a realização de rituais por seres humanos provoque a graça ou o favor de Deus de uma maneira ou de outra.

Para os concordistas, o problema não estava nas práticas não ordenadas, mas sim no fato de que, ao permitir ou libertar a igreja daquilo que a tradição impôs, a confissão de fé e o amor ao próximo podiam ser comprometidos e, assim, o sentido da igreja era perdido. Isso, porque o romanismo havia instituído uma série de práticas extrabíblicas que davam uma aparência autoritativa e um aspecto escriturístico para cerimônias e práticas que são chamadas pelos concordistas de espetáculos inúteis e pueris que não contribuem com o evangelho e sufocam a consciência dos mais fraco.

Ao colocar esse assunto em foco, a antropologia luterana novamente é afirmada. O homem, as obras ou as cerimônias que ele instituiu não são imposições que extrapolam a Escritura, mas o testemunho do evangelho como a boa notícia do sacrifício de Cristo é a porta de entrada para uma nova vivência que sempre leva em conta a Deus e o próximo. Como afirma BAYER (1998, p. 128 – nossa tradução):

O crente que é livre de toda compulsão mundana vive além de si mesmo, somente em Deus; mas usa a liberdade da fé para renunciar a si mesmo e ficar fora de si ao lado do próximo em amor. Asceticismo é para o bem do outro. É o outro que liberta, não o eu; o eu já é livre. Não é o trabalho que torna livre [Arbeit macht frei], mas a liberdade que funciona. As obras que os cristãos fazem não são necessárias para a salvação, mas são um serviço livre, no respeito à vontade e ao aperfeiçoamento dos outros.

Para os concordistas, não existe mais espaço para a distinção entre obras carnais e espirituais, como era comum no romanismo. Eles simplesmente creem na distinção entre fé e incredulidade e concluem que aqueles que realmente creem em Cristo buscam, na presença do Espírito Santo, uma vida que conviva de forma saudável com o Criador e com todas as obras criadas. Como afirma BAYER (p. 135 – nossa tradução): “Ou se vive na incredulidade, envolto em si mesmo, ou na fé, esvaziado de si mesmo para Deus e para o próximo.” E, como lembra SÁNCHEZ (2013, p. 122 – nossa tradução), essa espiritualidade é vivida diariamente quando o Espírito Santo leva os crentes ao testemunho que busca a comunhão:

Afinal, a missão do Filho in spiritu é caracterizada pelo serviço aos outros, até a cruz, e pelo envio de uma comunidade de discípulos ao mundo, cujo propósito é viver não para si mesmos, mas em fidelidade ao Pai e sua missão no mundo; cada um segundo sua vocação cristã. A vida da igreja assume então uma forma cristológica — além disso, cruciforme — que o Espírito lhe dá no mundo. A vida no Espírito é um constante negar a si mesmo para dar espaço ao próximo que necessita de nós, a quem Deus colocou em nosso caminho para servi-lo com o evangelho de Cristo e as obras que fluem dele.

Dessa forma o Artigo X da Fórmula de Concórdia, passa a ser uma ponte de ligação entre a justiça passiva e a justiça ativa, pois todo aquele que tendo sido justificado de graça por Cristo e santificado passivamente pelo Espírito Santo, é levado a demonstrar em suas atividades a firmeza na doutrina, destacando assim o testemunho, mas sempre atrelado a comunhão com enfoque especial na proteção dos mais fracos.

3.2. Artigo XI – Da eterna presciência e eleição de Deus

A segunda forma como os concordistas propõem uma vida diária cristocêntrica está ligada ao culto (leitourgia) e a como Deus trabalha na vida dos eleitos. O que salta aos olhos aqui é que este Artigo não é uma resposta a qualquer doutrina nova que tenha surgido, mas uma preocupação pastoral para que haja Concórdia em Wittenberg na forma que eles tratam a responsabilidade divina e humana na igreja.

Ainda que os concordistas não quisessem responder a qualquer problema com esse Artigo, a verdade é que a aproximação que a Igreja Luterana havia tido com os romanos por conta dos Ínterins e também com calvinistas e outros grupos entusiastas, levou para dentro do arraial de Wittenberg algumas dúvidas práticas sobre sinais da eleição e, principalmente, como lidar com os pecados manifestos diante da eterna presciência de Deus.

Esse assunto traz profundas consequências para a prática pastoral, pois, ao invés de utilizar padrões humanos para a obtenção das respostas, os concordistas se mantiveram cativos à Palavra de Deus, mantendo-se nos limites dela. Não abriram as portas da Igreja alemã a conjecturas que, ao invés de consolar os pecadores com a boa notícia da salvação, levam medo e desespero a consciências que já estão atribuladas, como lembra PRUNZEL (nota de aula 2020):

Ao formular suas diretrizes para o uso do tópico da eleição na pastoral e na pregação, os concordistas esforçaram-se por explicar o máximo possível, mas reconheceram que o mistério do mal e o significado do que significa ser a criatura humana de Deus, o Criador soberano permaneceu. No final, eles reconheceram que, em Cristo, o Criador havia dado ao seu povo a esperança que perdura.

A abordagem que a Fórmula de Concórdia dá para este assunto não abre a pastoral para apoiar qualquer pensamento de eleição incondicional em que as pessoas podem viver de qualquer jeito, pois já estão garantidas em sua salvação. Também não abre qualquer brecha para a pregação de salvação por obras, que tenta impor ao cristão uma série de comportamentos através dos quais o céu pode ser garantido.

O homem continua sendo tratado como simultaneamente justo e pecador e, por isso, o foco da ação está em Deus, o Criador, e não na criatura. Como afirma PRUNZEL (nota de aula 2020):

Chemnitz usou o material de seu manual para apresentar seu entendimento da salvação de Deus pelos pecadores da perspectiva de sua escolha pré-ordenadora dos eleitos. Antes da fundação do mundo, Deus havia determinado que ele redimisse e reconciliasse a raça humana consigo mesmo através de Cristo e de seu mérito de justiça e vida eterna. Os méritos e benefícios de Cristo deveriam ser distribuídos por meio da Palavra e dos sacramentos. Deus determinou que o Espírito Santo seria ativo nas criaturas humanas através da Palavra, conforme é pregada, convertendo-as em verdadeiro arrependimento, iluminando-as na verdadeira fé. Sua vontade estabeleceu que ele tornaria justos os que se arrependem e aceitam a Cristo pela fé, e essas pessoas justas serão santificadas no amor. Deus determinou que ele os protegeria no meio de sua luta contra o mal, os lideraria e os guiaria, e aumentaria sua fé e obediência, preservando-os até o fim e dando-lhes vida eterna.

A forma como esse assunto é abordado pela Fórmula, não restringe a salvação de Cristo a determinados grupos religiosos, ela simplesmente reafirma o conceito bíblico de que a salvação é universal e que todos quantos forem batizados recebem o dom de serem feitos filhos de Deus. Como afirma PRUNZEL (nota de aula 2020):

Deus queria todas as suas criaturas humanas; alguns deles o rejeitaram (Mt 23.37). Cristo oferece sua promessa de vida através da Palavra e através dos sacramentos, que confirmam a promessa individualmente a todos os crentes.

Essa verdade é importante, pois ajuda a rejeitar as doutrinas que ensinam que Deus não quer a salvação de todos e nem coloca o homem como causa da salvação.

Dessa forma, a presciência de Deus não está ligada a estabelecer previamente o lugar para onde as pessoas irão quando morrerem, mas que Deus, como conhecedor da história, antes da fundação do mundo traçou um plano para sua redenção. Qualquer que seja a forma que a Igreja escolha para trabalhar com o pecado manifesto, ela precisa se enquadrar nesse plano, pois longe dele só gera legalismo e farisaísmo.

Diante destas duas realidades, os concordistas firmam sua fé na certeza de que o cristão deve ser tratado sempre com base na obra do Espírito Santo, que é dado para primeiramente fazer crer na obra da salvação de Cristo (justiça passiva), mas depois leva o homem a buscar o arrependimento, o crescimento nas obras e, diante do pecado, levá-lo novamente à fonte batismal para que, através da confissão dos pecados e do ofício das chaves, reerguer a todos os que caíram.

Isso faz ver que a Fórmula é um documento que não está baseado apenas em escritos humanos, mas é uma clara exposição da Escritura, pois continuamente aponta para a Palavra de Deus como sendo a fundamentação do seu trabalho. Eles utilizam desse meio também para falar sobre as formas de tratar o pecado quando dizem (LIVRO DE CONCÓRDIA, 1992, p. 662):

A essa fantasia e pensamento errôneo deve contrapor-se este fundamento claro, que é certo e não pode falhar: uma vez que “toda Escritura inspirada por Deus” se destina a servir não para segurança e impenitência, mas “para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”, 2Tm 1; igualmente, visto que tudo na palavra de Deus nos foi prescrito não para que fôssemos, com isso, levados ao desespero, mas “a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança”, Rm 1; por isso, sem sombra de dúvida, o entendimento são ou o uso correto da doutrina da eterna presciência de Deus de modo nenhum é que, por ela, se cause ou se fortaleça impenitência ou desespero. Assim, também a Escritura, de outro modo, não propõe essa doutrina senão de forma que, por ela, nos remete à palavra, Ef 1, 1Co 1, exorta-nos ao arrependimento, 2Tm 3, insta por vida piedosa, Ef 1, Jo 15, fortalece a fé e torna-nos certos de nossa salvação, Ef 1, Jo 10, 2 Ts 1.

Esse tratamento pastoral do pecado é feito com todo o lastro bíblico e acaba com os argumentos que possam fazer com que as pessoas descartem uma vivência cristocêntrica, pois faz com que os crentes olhem para Deus e vejam nele o Pai perdoador que quer fazer com que seus planos de ter uma humanidade centrada na sua vontade sejam verdadeiramente vividos na prática.

Assim, a vida diária cristocêntrica para a Fórmula de Concórdia não é uma conquista ascendente onde as pessoas são obrigadas a buscarem a perfeição, mas está sempre envolta em justiça e pecado, pois essas duas realidades definirão a antropologia humana até que Cristo Jesus volte. Essa visão faz com que o homem seja consolado pela presença do Espírito Santo que lhe dá a santidade, mas também lhe faz ver o quão importante é que ele assuma a sua responsabilidade e utilize com fidelidade os dons recebidos por Deus.

3.3. Artigo XII – Das outras facções e seitas que nunca abraçaram a confissão de Augsburgo

O último Artigo da Fórmula pretende deixar claro para os pastores luteranos porque a verdadeira doutrina ortodoxa não pode se render a alguns erros na questão da vivência diária (como outras tradições vinham se rendendo), especialmente porque tais erros são totalmente contrários ao testemunho da Escritura Sagrada. Este Artigo aponta para a última forma de agir da Igreja, demonstrando que, na prática diária, ela foi chamada para o serviço no cuidado humano (diakonia).

Esse Artigo foi utilizado pelos concordistas como uma afirmação eclesiológica que, na prática, deixa claro que o pensamento cristão luterano jamais poderá ser confundido com aqueles grupos que não abraçaram os caminhos de Wittenberg. Esse é o único lugar onde outros grupos de fé fora do luteranismo são citados.

Aqui, são caracterizados como seita os anabatistas, os schwenckfeldianos, os novos arianos e os antitrinitários. Cada um destes grupos acabou acreditando e propagando heresias que, segundo os escritores da Fórmula de Concórdia, não podem ser aceitos pela igreja, mas também não podem ser tolerados pelo estado, pelo governo secular e pela sociedade doméstica.

O padrão de comportamento que estes grupos propõem é um totalitarismo eclesiástico, onde a igreja precisa controlar todas as coisas, desde aquilo que as pessoas creem, passando por como eles veem o governo e respingando ainda na vida doméstica. Isso é inconcebível para o cristianismo proposto pela Fórmula de Concórdia, pois eles fazem perdurar na vida dos cristãos as trevas que o papado os impôs.

3.3.1. Artigos que não podem ser tolerados na igreja

Todos os grupos citados pelos autores têm profundos problemas em sua cristologia e, em consequência disso, acabaram reproduzindo pensamentos que não condizem com a teologia verdadeiramente escriturística.

O grande problema ocorre a partir do momento em que eles reproduzem pensamentos gnósticos e não conseguem aceitar que Jesus Cristo tenha verdadeiramente assumido a carne como homem, pensando só existir duas possibilidades, quais sejam: ou Jesus desceu do céu com um corpo santo e celestial e, portanto, é Deus, ou ele era um simples homem que foi ungido pelo Espírito Santo e, por isso, não é Deus, mas recebeu a divindade em si, reproduzindo assim um pensamento ariano.

A cristologia é a fonte para todo o pensamento cristão. Dessa forma, quando é atacada, todo o fundamento da igreja acaba colapsando, a própria estrutura da Fórmula demonstra isso. Eles definem de forma completa a cristologia e como ela respinga na vida diária do cristão. Aqui, no último Artigo, eles parecem fazer uma retomada de todo o assunto e demonstram mais uma vez que uma visão de Cristo deturpada irá transformar o ensino da igreja em uma grande heresia e impossibilitará uma vivência saudável do evangelho.

Segundo a Fórmula, estes grupos heréticos não aceitam a divindade de Cristo, mas o consideram apenas como exemplo e como um alvo para a santidade da igreja. Dessa forma, a salvação não está calcada apenas nos méritos de Cristo, mas também depende da piedade na qual os cristãos aprendem a andar. Dessa forma, o sacrifício de Jesus passa a não ser vicário, mas apenas um exemplo a ser seguido, o que resulta em um retorno ao pensamento da Idade Média e leva as pessoas a acreditarem na salvação pelas obras.

Os concordistas tentam apontar que estes grupos estão pregando afrontas ao segundo e ao terceiro artigo do credo apostólico, porque atacam aquilo que o Concílio de Niceia defendeu como uma cristologia pneumatológica e uma pneumatologia cristocêntrica. Isso quer dizer que o trabalho de justificação e santificação estão intimamente ligados, não podem ser separados, e, quando um dos dois caem, toda a pregação sofre.

Ao invés de procurar um padrão baseado no ensino luterano do simultaneamente justo e pecador, eles acreditam em curvas de santidade, sendo os infantes justos que não necessitam do batismo, mas que, a partir da consciência, passam a conviver com o pecado que pode ser expurgado pela prática da piedade. Assim, eles desconsideram a doutrina do pecado original e, por conseguinte, acabam fazendo da igreja um grupo de pessoas santas que não podem conviver com o pecado.

Para estes grupos, muito mais do que participantes da Trindade, Jesus Cristo e o Espírito Santo são meros coadjuvantes no processo de salvação que está centrado no homem, que pode, através do seu esforço próprio, e com o auxílio do Espírito Santo, ser digno de aspirar ser igual a Cristo.

A preocupação concordista não está calcada somente em pontos doutrinários, mas se baseia no apego que os luteranos têm com a Escritura, pois, a partir do momento em que esse tipo de coisa acontece, a Bíblia deixa de ser considerada a Palavra de Deus e passa a ser um guia moral. Neste caso, ao invés de levar as pessoas à salvação e tratar do homem da forma como ele realmente é, acaba fazendo com que as consciências atormentadas e atribuladas pelo pecado sejam esmagadas pela sensação de nunca conseguir a santidade ou, pior, estejam orgulhosas de seu exterior santo sem se dar conta de sua real situação diante de Deus.

A pregação deste tipo de doutrina, ao invés de ter como resultado o serviço genuíno dos cristãos que buscam em liberdade amar o próximo preocupados com a sua salvação, é marcada por gerações cristãs que lutam para demonstrar uma crescente e aparente santidade que não pode se sustentar ante a Palavra de Deus, pois Lei e evangelho passam a ser utilizados como arma de coerção para obrigar as pessoas a se comportarem conforme os líderes ditam.

A primeira parte deste artigo está colocada aqui justamente para demonstrar a todos os pregadores luteranos que, se pensamentos como estes forem aceitos como verdadeiros, toda a Fórmula cai e o verdadeiro cristianismo é obscurecido por pensamentos humanos que não condizem com a verdade da Palavra.

A partir do momento em que a pregação da Escritura e da salvação por graça são corrompidas por pregações humanas, a prática diária da fé também sofre, especialmente porque tais corpos cristãos acabam escolhendo as obras que consideram santas e, assim, buscam basear seus pensamentos em uma espiritualidade rasa que visa apenas demonstrar a eleição pessoal. É por essa razão que os concordistas, como veremos, apontam que estes grupos têm artigos intoleráveis tanto para o estado quanto para a vida doméstica.

3.3.2. Artigos que não podem ser tolerados no estado e na vida doméstica

Todo pensamento que desconsidera parte da fé cristã, acaba por refletir erros sobre toda a prática cristã. Nesse sentido, esses grupos acabaram desconsiderando e deixando de lado pontos principais da ação de Deus no sustento do mundo. Dessa forma, concluímos que, através das suas falsas doutrinas, eles conseguiram deturpar toda a fé cristã e, com vários de seus artigos, eles atingem também a forma como Deus sustenta o mundo indo contra o primeiro artigo da fé cristã.

Esses grupos não conseguem entender que o abuso não pode tolher o uso. O próprio Lutero afirmou que um governante que se comporta como um bêbado dirigindo uma carroça deve ser retirado do cargo. Contudo, Lutero nunca foi contra os governantes, sempre utilizou de textos como Romanos 13 para demonstrar que o governo foi instituído por Deus para a proteção dos justos e para a punição dos maus.

De forma contrária, os anabatistas não viram como possível qualquer participação dos cristãos no governo, tolhendo seus praticantes de prestar juramentos perante a justiça e até mesmo de buscar auxílio no governo para julgar suas questões. O espírito supostamente puritano que estes grupos tinham, levaram eles a pensar que todo governo é mau e que os bons cristãos não devem tomar parte deste serviço.

Falando de questões eclesiológicas, o ensino destes grupos estava em uma extremidade e, em sua completa oposição, estava o pensamento calvinista, que pensava que a igreja deveria reger o estado. O que os concordistas propõem é o ponto de equilíbrio entre essas duas visões, pois veem a Escritura como  autoridade final na questão do governo, destacando que os governantes são os responsáveis por manterem a ordem, conforme PRUNZEL (nota de aula 2020):

O governo faz parte do Primeiro Artigo. A forma como Deus mantém a boa ordem no mundo é também através da espada. Nenhum governante que se tornou cristão deixou de usar o poder da espada. Para os concordistas, assim como foi para os confessores, o bem comum é mantido através das ordens da criação. Deus continua agindo na sua criação através de suas máscaras, máscaras da criação.

O que eles conseguiram entender é que, mesmo que um governo não seja cristão ou que tenha cristãos de fachada no comando da nação, ainda assim Deus continua servindo as pessoas através de sua ação. Eles chegaram à conclusão de que a fé cristã que foi recebida através da ação do Espírito Santo na vida daquele que acredita em Jesus agora é impulsionada na direção do mundo, entendendo que Deus mesmo, em situações adversas, se utiliza das ordens naturais para reger o mundo. Dessa forma, eles entenderam que qualquer tipo de regulação que a igreja tente impor aos seus membros no assunto do governo não é cristã e precisa ser evitada.

Em seu pensamento totalitarista, estes grupos, especialmente os anabatistas, tentaram regular as posses do homem, buscando fazer com que os seus participantes se engajassem em um tipo de comunhão forçada onde tudo era de todos, descaracterizando assim a propriedade privada.

Em alguns momentos, os luteranos se posicionaram sim contra o excesso de propriedade que alguns senhores feudais possuíam, mas eles nunca tentaram tomar para a igreja o direito de regular a vida e as posses das pessoas, muito menos fazer com que cristãos assumissem que existem profissões que não podem ser vividas pelos crentes. Como estes assuntos fazem parte dos assuntos terrenos, eles colocam sob o aspecto da mão esquerda e, assim, demonstram que o cristão foi liberto e deve utilizar dessa condição para saber até onde pode ter posses e como deve cumprir com a sua vocação em seu trabalho.

Ao invés de regular a vida pública do crente, o grande intuito da Fórmula era demonstrar que, através do trabalho e do dinheiro, os cristãos podem servir o próximo, ser utilizado como máscara de Deus e, assim, demonstrar o cuidado que o Senhor tem por toda a sua criação.

Por fim, os anabatistas tentaram regular as questões familiares e controlar a forma como os cristãos podem encarar o divórcio, ignorando o pensamento bíblico de Jesus que diz que o divórcio só é concebível por conta da dureza do coração do homem. Os anabatistas autorizavam que pessoas se divorciassem por conta da fé e permitiam um novo casamento se fossem pessoas da sua seita.

Aqui, fica claro o quão prejudicial é o ensino que descarta a Escritura como regra de fé e vida, pois todo o moralismo pregado através de uma santidade ascendente cai por terra quando eles apoiam práticas que não são bíblicas, mas demonstram de forma completa a dureza do coração pecador do homem.

Para a teologia de Wittenberg, o que regula relacionamentos como o casamento nunca foram os pensamentos humanos, pois ele sempre utilizará de seu coração duro para fazer com que sua vontade prevaleça. Mas, ao se posicionarem de forma contrária a este grupo, seu foco era na Palavra de Deus que vê o casamento como uma relação onde homens e mulheres podem servir-se mutuamente e, assim, viverem o cristianismo ali naquele lugar que foi colocado por Deus, refletindo assim o pensamento bíblico expresso em textos como 1Pedro 3.1-2: “Igualmente vocês, esposas,  estejam sujeitas, cada uma a seu próprio marido, para que, se ele ainda não obedece à palavra, seja ganho sem palavra alguma, por meio da conduta de sua esposa, ao observar o comportamento honesto e cheio de temor que vocês têm.”

Esse Artigo demonstra de forma concreta quando a prática acompanha a doutrina e, principalmente, mostra que, a partir de uma doutrina errada, só podem surtir práticas que não condizem com a fé cristã. Os concordistas estão ensinando que os verdadeiros crentes conhecem a Deus, mas que também se conhecem, sabem que não estão livres de cair. Mesmo assim, sua grande disposição é o serviço.

O Artigo XII é o único da Fórmula que não apresenta uma afirmação teológica. Com isso, os autores não estavam querendo somente se contrapor a estes grupos, mas buscavam principalmente delinear o ensino luterano, demonstrando que o caminho da Concórdia em Wittenberg passava por não aceitar esses ensinamentos, mas se manter firmes nas verdades redescobertas com a Reforma.

4. Conclusão

O esforço que os concordistas fizeram ao definir sua teologia de forma cristocêntrica foi reafirmar uma hermenêutica correta para a vida cristã que não precisa e nem deve ser vivida à base dos movimentos legalistas que os grupos fora de Wittenberg propunham.

Por mais que a maioria dos grupos entusiastas como os anabatistas buscassem, de forma categórica, marcar sua posição anticatólica, a verdade é que, no fundo, sua religiosidade estava baseada no mesmo pensamento medieval do ex opera operato — sua fidelidade a Deus é demonstrada através das obras externas que ele realiza.

A tradição de Wittenberg, porém, vê o homem sob outra ótica. Descartando as lentes medievais, eles optaram por ver o homem com honestidade e, principalmente, baseando-se com fidelidade naquilo que Deus apresenta sobre o homem na Escritura. Em todo o escrito da Fórmula de Concórdia o homem é tratado como alvo da ação de Deus, nunca como protagonista, como afirma KOLB (2016, p. 169 – nossa tradução):

Assim, Lutero transformou a definição central do que significa ser cristão em um relacionamento baseado essencialmente na abordagem de Deus para os seres humanos pecadores, em sua Palavra. É o seu instrumento criativo e re-criativo, através do qual ele trouxe o universo (Gn 1) e através do qual ele muda a identidade dos pecadores, tornando-os seus filhos, dando-lhes confiança em Cristo e seu trabalho expiatório em morrer e subindo.

Essa proposta de interpretação da vida, tendo cristo como centro da pregação e da vivência, foi fundamental no período da Reforma Tardia, pois o antropocentrismo começava a engatinhar no final da Idade Média. Da mesma forma, ela é muito importante no período atual, afinal, na pós-modernidade reina o antropocentrismo ególatra onde o homem individual passa a se comportar como sendo o protagonista da história.

Considerando o contexto em que a igreja está inserida no tempo atual e como, por vezes, tem se apegado demais em adiáforos ou dificultado a vida dos crentes através de um legalismo ou liberalismo exacerbado ou, ainda, tentado impor práticas que não fazem sentido à fé cristã e à prática da boa ordem, é fundamental observar a Fórmula de Concórdia em seus últimos artigos, pois ajudam a determinar qual a verdadeira forma evangélica de viver e pregar o evangelho.

A vida cristocêntrica que ela nos apresenta é bíblica e muito mais coerente para ser vivida. Não requer dos crentes uma santidade aparente: ela continua olhando o homem como simultaneamente justo pela ação graciosa de Deus, mas, ao mesmo tempo, como um pecador que necessita do perdão e da condução do Espírito Santo para uma vida conectada com Cristo, o qual perdoa de forma passiva e inspira a viver de forma ativa.

5. Bibliografia

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KOLB, Robert; DINGEL, Irene; BATKA L’ubomir. The Oxford Handbook of Martin Luther’s Theology 1ª Ed, Oxônia, Inglaterra: Oxford University Press 2016.

Livro de Concórdia. Editado por Darci Drehmer. Trad.: Arnaldo Schüler. São Leopoldo: Sinodal; Canoas: ULBRA; Porto Alegre: Concórdia, 1992.

LUTERO, Martinho. Sermão sobre as Duas Espécies de Justiça [1519]. In:
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PRUNZEL, Clóvis J. Estudos nos documentos confessionais luteranos A Fórmula de Concórdia: Da Eterna Presciência e Eleição de Deus. 12 may. 2020, 07 jul. 2020. Notas de Aula.

SÁNCHEZ, Leopoldo M. Teología de la Santificacion. Saint Louis, MO: Concordia Publishing House. 2013

SÁNCHEZ, Leopoldo M. The Human Face of Justice: Reclaiming the Neighbor in law, Vocation, and Justice Talk Concordia Journal. Saint Louis, MO. N 39. Spring, 2013.

SCHULZ, Klaus. D. Mission from the Cross – The Lutheran Theology of Mission. Ed, Saint Louis, MO: Concordia Publishing House. 2009.

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