A inspiração e suficiência da escritura

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1. A INSPIRAÇÃO: UMA ANÁLISE DO TERMO
Em 2 Timóteo 3:16, quando Apóstolo Paulo afirma que “Toda a Escritura”1  é inspirada, ele está se referindo a todo o corpo de literatura que, ao longo do desenvolvimento da Igreja, foi inspirado pelo Espírito Santo. “Toda essa literatura compreendia na época pouco mais que o Antigo Testamento, mas que ao final do primeiro século já havia sido escrita em sua totalidade” (HENDRIKSEN, 2011, p. 371). O termo grego utilizado para se referir à expressão “inspirado por Deus” é “theopneustos, [que significa] soprado por Deus, ‘Inspirado por Deus’” (COENEN; BROWN, 2009, p. 713). Embora “a terminação –tos indique um significado passivo, uma tradução ainda mais precisa seria ‘soprada [ou expirada] por Deus” (CHEUNG, 2001, p. 5, colchete do autor). Segundo Warfield:
 

A palavra grega representada por ela [inspirado ou soprada por Deus] e que aparece nesta passagem [2 Tm 3:16] como um epíteto ou predicado de ‘Escritura’ – theopneustos – embora ocorrendo somente no Novo Testamento e não encontrada antes em nenhum ponto em toda a literatura grega […], não pareceu ser de interpretação duvidosa. Sua forma, seu uso posterior, as implicações dos termos paralelos e a analogia da fé se combinaram com as sugestões do contexto para atribuir-lhe um significado que tem sido constantemente atribuído a ela a partir do primeiro registro de interpretação cristã até estes dias (2009, p. 196, colchete nosso).

A interpretação do termo theópneustos como “inspiração” não é incorreta, pois transmite a ideia bíblica do que é a Escritura, mas a tradução literal do termo grego para “inspiração” é incorreta, pois seu uso baseia-se, em última análise, no seu emprego na Bíblia Latina (Vulgata), e não significa de maneira alguma “inspirado por Deus”. Utilizá-lo dessa forma pode dar margem a possíveis equívocos. Cheung analisa a tradução do termo theópneustos por “inspiração” afirmando que: “mesmo que concordemos que a palavra não signifique ‘inspirar’ quando usada no sentido teológico — mas amplamente se refira ao que a Escritura ensina sobre sua própria origem” (2001, p. 6).

1.1 A natureza da inspiração
Chegar a uma definição clara e aceitável a respeito da inspiração bíblica tem se tornado um desafio um tanto complicado. “Pois tem sido alvo de muita confusão em recentes discussões” (WARFIELD, 2010, p. 84). O que contribui para isso certamente é a enorme quantidade de teorias que envolvem o assunto. Sendo que “aquele que, procurando conhecer a verdade sobre este tema […], seria imediatamente conduzido por ele para todas as direções possíveis” (WARFIELD, 2010, p. 84).

Segundo Bavinck, “a visão correta de inspiração depende […] de colocar o autor primário e os autores secundários em relação correta, um para com os outros” (BAVINCK apud ANGLADA, 2013, p. 68), para saber como se relacionam e então explicar a ação do Espírito Santo em inspirá-los. No entanto, muitas teorias sobre a inspiração bíblica partiram de “diferentes concepções, tendo variados graus de legitimidade, dependendo do ângulo de observação da pessoa que as formula” (GEISLER; NIX, 2006, p. 19). Dentre as principais teorias estão:

a. Inspiração plenária – A Escritura é vista como um “corpo de revelação formado de partes, mas indivisível” (SANTOS, 2009, p. 5), onde cada parte foi divinamente inspirada, mas “não significa necessariamente que todas as partes têm a mesma importância e o mesmo peso em relação a qualquer doutrina em particular” (SANTOS, 2009, p. 6).

b. Inspiração dinâmica – Essa teoria “destaca a combinação dos elementos divino e humano no processo de inspiração da escrita da Bíblia” (ERICKSON, 2007, p. 71). Tal pensamento não reparte a autoridade da Escritura entre um livro metade humano e metade divino, mas sim em um livro inteiramente divino com elementos humanos não desprezados, de acordo com a soberana vontade de Deus.

c. Inspiração verbal – Afirma que cada palavra da Escritura é inspirada, pois “Deus dirigiu até a própria escolha das palavras no Santo Volume, de maneira que pode ser dito verdadeiramente que a Palavra de Deus é sem mistura de erro humano” (HARRIS, 2004, p. 17).

d. Inspiração mecânica ou ditada – Afirma que Deus não se valeu da personalidade, estilo ou cultura, de seus autores secundários, anulando completamente suas mentes, para que fosse produzida a Escritura de Deus.

e. Inspiração parcial ou fracionada – Essa ideia defende o fato de que a Bíblia não é em seu todo inspirada e sim algumas partes. “Os defensores dessa ideia entendem que doutrinariamente a Bíblia contém a Palavra de Deus” (COSTA, 2008, p. 63).

1.2 Evidências bíblicas a respeito da inspiração
Quando se questiona a autenticidade e utilidade da Bíblia, a defesa mais contundente está nela mesma, expressa em muitos versículos sendo os mais utilizados os de 2Timóteo 3:16 e 2Pedro 1:21. Citar os versículos não configura um erro, até porque eles expressam toda a verdade a respeito da origem e utilidade da Escritura. “Mas essa citação dá margem à acusação de ‘raciocínio circular’2: Prova-se a Bíblia citando a Bíblia” (HARRIS, 2004, p. 39). Essa acusação feita pelos críticos pode não ser tão relevante quando se analisa o patamar em que a Igreja primitiva colocava as Escrituras, pois tanto o Antigo Testamento quanto o Novo Testamento eram tidos como Palavra de Deus infalível. A Palavra testemunhando da própria Palavra e a única capaz disso, validando-a e autenticando-a dando a si própria autoridade.

A Bíblia está repleta de afirmações do tipo “assim diz o Senhor” ou “está escrito”. Trata-se de uma evidência interna conhecida como “autoridade [bíblica] que se autoconfirma” (GEISLER; NIX, 2006, p. 64). Isso só pode ocorrer quando existem ouvintes para essas palavras. Um exemplo disso foi quando Deus veio ao profeta Ageu dizendo: “assim diz o Senhor dos Exércitos: ‘Ainda não chegou o tempo de reconstruir a casa do Senhor…’” (Ag 1:2). Na época os ouvintes eram o governador de Judá, Zorobabel, filho de Sealtiel, e o sumo sacerdote Josué, filho de Joazadaque, essas palavras vinham cheias de autoridade, pois, a expressão “assim diz o Senhor” qualifica a afirmação como autoridade máxima. Para o ouvinte hoje em dia, essas afirmações, antes desconhecidas, depois de captadas passam para o status de autoridade suprema e guia, palavras que se resumiam em tinta no papel ganham vida em seu coração com apenas uma atitude, a de ouvir, ouvir palavras que soam “semelhantes ao rugido de um leão […]. [E] o modo mais convincente de demonstrar a autoridade de um leão é soltá-lo” (GEISLER; NIX, 2006, p. 64), assim será visto do que ele é capaz. A Escritura não pode ser domesticada, semelhante ao leão não pode ser domada ou controlada, ela exerce a autoridade que lhe foi atribuída por natureza. Sendo assim, a Escritura toma o único posto que lhe é devido, que é sujeitar o ouvinte por inteiro a ela.

2. A SUFICIÊNCIA DA ESCRITURA

2.1 Conceito
Crer na suficiência bíblica significa crer em sua inspiração. Para Paul Washer essa ideia pode não ser tão óbvia assim, pois quando a Igreja tem a Bíblia como inspirada ganha “somente metade da batalha […]. A maior questão que acompanha isso […] é: a Bíblia é suficiente?” (WASHER, 2011, p. 16). Na definição de Grudem:

As Escrituras são suficientes [que] significa dizer que [ela] contém todas as palavras divinas que Deus quis dar ao seu povo em cada estágio da história da redenção e que hoje contém todas as palavras de Deus que precisamos para salvação, para que, de maneira perfeita, nele possamos confiar e a ele obedecer. (1999, p. 86).

É impossível definir a suficiência da Bíblia sem incluir o fator inspiração, pois dizer que a Bíblia não é inspirada e afirmar sua suficiência não passa de um conceito de opinião. Da mesma forma crer na sua inspiração sem obedecer suas palavras não quer dizer nada, nenhuma mudança ocorre, pois a suficiência da Escritura é comprovada quando ocorrem mudanças invisíveis que refletem visivelmente, operadas pela Palavra de Deus.

Um grande apoio bíblico para o conceito de suficiência está em 2Timóteo 3:15 em que Paulo confirma o grande apreço de Timóteo pela Escritura desde sua infância,3 mostrando o poder de seus escritos que poderia “torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus” e no verso seguinte Paulo descreve porque a Escritura tem esse poder. Um detalhe importante é, para que ela seja proveitosa ou suficiente, é necessário usá-la corretamente. Pois que proveito a Escritura teria quando o leitor “se interessa apenas por especulações curiosas? […], [ou] se porventura ele perverte o significado natural com as interpretações estranhas à fé” (CALVINO, 2009, p. 262), descaracterizando seu ponto central que é Cristo?

A suficiência bíblica é compreendida no sentido de que tudo o que é relacionado com a vida do cristão, seu chamado e vocação está presente nas Escrituras. O Apóstolo Paulo afirma a utilidade dos escritos no sentido de tornar o homem “apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3:17). Temas como casamento, divórcio, criação de filhos, relacionamento entre cristãos e governo, bem como questões doutrinárias relacionadas a “expiação, ou a pessoa de Cristo, ou a obra do Espirito Santo na vida do crente hoje” (GRUDEM, 1999, p. 87) fazem parte da gama de assuntos que a Escritura aborda, não somente na busca de respostas a cerca de um determinado assunto, mas na preparação do cristão para servir a Deus dentro do seu próprio contexto. No entanto, Deus não cobra do crente aquilo que ele não registrou, ou seja, ele não pode acrescentar mais palavras àquelas que já falou ao seu povo. De igual modo “o homem não pode, por conta própria, acrescentar nenhuma palavra àquelas que Deus já falou” (GRUDEM, 1999, p. 88).

A Bíblia é extremamente adequada para governar a Igreja, pois “tudo o que aprouve a Deus revelar […] em matéria de fé e prática” (GEISLER; NIX, 2006, p. 64) foi registrado nela, sem faltar ou passar qualquer tipo de informação e, como um leme preciso direciona um barco, a Escritura direciona a Igreja e até mesmo a sociedade. Um exemplo disso foi quando João Calvino, teólogo francês, retornou a Genebra depois de dois anos por ter sido expulso da cidade em função de discussões sobre “disciplina cristã, adesão à confissão de fé e práticas litúrgicas” (FERREIRA, 2006, p. 162). Esse retorno, tão aclamado pelos genebrinos, foi para que Calvino pudesse tirar da Bíblia princípios norteadores que regessem suas vidas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS   
Para o homem, a Escritura é o seu guia, sendo a voz de Deus, ela governa cada área de sua vida. Nela o homem “encontra tudo o que deve saber e tudo o que deve fazer a fim de que venha a ser salvo [e], viva de modo agradável a Deus” (ANGLADA, 2013, p. 93). No Salmo 19:7-13 algumas afirmações elucidam bem o propósito e capacidade da Escritura, nela esta explicito que “a lei do Senhor é perfeita” os “preceitos do Senhor são justos” e seus “mandamentos são límpidos” e ainda “mais desejáveis do que o ouro” e “mais desejáveis do que o mel”, e por ela o “servo [do Senhor] é advertido” e essa lei guarda o homem dos “pecados intencionais” de maneira que eles não o dominam. Uma vez dominado pelo pecado, a Escritura é o único meio suficiente capaz de iluminá-lo conscientizando-o e libertando-o de suas práticas reprovadas por Deus em sua Palavra. Assim, a suficiência da Escritura só poderá ser comprovada à medida que o homem se torna, por completo, cativo a ela.

Alguns podem perguntar, se outros livros poderiam ajudar o homem e a Igreja a desenvolver seu crescimento, a resposta é não! Segundo Ryle:
 

Há um abismo entre este [Bíblia] e qualquer outro livro que tenha sido escrito. Ele ilumina um vasto número de assuntos dos mais importantes de forma melhor do que todos os outros livros no mundo. Ele ousadamente trata de assuntos que vão além do alcance humano, quando o homem é deixado por conta própria. Trata de coisas que são misteriosas e invisíveis: a alma, o mundo vindouro e a eternidade, profundidades essas que nenhum homem pode sondar (s.d., p.1).

Por mais que seja impossível desconsiderar o avanço da ciência, da arte e da erudição a Bíblia ainda é um livro exclusivo, incomparável e insubstituível. Não se trata de um livro com pontos fortes e fracos, assuntos relevantes e irrelevantes. Tudo o que foi escrito, é, e sempre será relevante em seu todo. E ainda “é o único livro que conserva frescor, perenidade e novidade” (RYLE, s.d., p. 5).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura. Ananindeua, PA: Knox, 2013.
BAVINCK, Herman. Reformed Dogmatics. Vol. 1, Prolegomena, ed. John Bolt, trans. John Vriend. Grand Rapids: Baker Academic, 2003 apud ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura. Ananindeua, PA: Knox, 2013.
CALVINO, João. As pastorais. São José dos Campos, Sp: Fiel, 2009.
CHEUNG, Vincent. O ministério da Palavra. S.l.: Vida, 2001.
COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário internacional de teologia. São Paulo: Vida Nova, 2009.
COSTA, Hermisten Maia P. A inspiração e inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 63.
ERICKSON, Millard. Introdução à teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007.
FERREIRA, Franklin, Gigantes da fé. São Paulo: Vida, 2006.
GEISLER, Norman;, NIX, William. Introdução bíblica: como a Bíblia chegou até nós. São Paulo: Vida, 2006.
GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
HARRIS, Laird. Inspiração e canonicidade da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: 1 e 2 Timóteo e Tito. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.
RYLE, J. C. A inspiração das Escrituras. São Paulo: Pes, s.d.
SANTOS, João Alves dos. Bibliologia: Revelação, inspiração e cânon, A natureza da inspiração, parte II. Centro Presbiteriano de Pós-Graduação, Universidade Mackenzie, São Paulo, 2009.
WARFIELD, Benjamin. A inspiração e autoridade da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
WASHER, Paul. 10 acusações contra igreja moderna. São José dos Campos, Sp: 2011.

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1  Há um debate sobre a tradução correta de “Toda Escritura”. Certamente, devemos sempre aspirar a tradução mais precisa, mas os perigos de outras traduções para a frase têm algumas vezes sido exagerados. Que traduzamo-la como “toda Escritura” ou “cada Escritura” não faz nenhuma diferença essencial — a primeira declara que a Escritura como um todo é inspirada, e a última declara que cada parte da Escritura é inspirada. De qualquer maneira, tudo da Escritura e cada parte dela é o sopro de Deus. CHEUNG, Vincent. O ministério da Palavra. S.l.: Vida, 2001, p. 6.
2  “A Bíblia alega ser a Palavra de Deus. Esse é o nosso ponto de partida. Com certeza, simplesmente porque um livro diz ser a Palavra de Deus não o torna tal coisa. Mas se um livro é a Palavra de Deus, ele certamente alegará ser a Palavra de Deus. Se um livro é a Palavra de Deus, então o que ele diz será verdade. Pode parecer estranho que citemos a Bíblia para provar que a Bíblia é a Palavra de Deus. Isso é o que os filósofos chamam de “argumento circular”. Quando provamos a autoridade da Bíblia citando a Bíblia assumimos desde o princípio que a Bíblia é autoritativa. Isso é apenas um círculo vicioso de raciocínio, que não nos levará a nenhum lugar? Pode parecer que precisamos provar a verdade da Bíblia por algum outro padrão “neutro” externo. Certamente, se fizermos isso, teríamos que responder o que torna esse padrão autoritativo. Apenas criaríamos outro círculo que necessitaria ser defendido” DEMAR, Gary. Raciocínio Circular. Disponível em .
3  “Era um sábio cuidado que nos tempos antigos se tomava em assegurar-se de que aqueles que eram destinados ao ministério da palavra fossem desde a infância instruídos na sólida doutrina da piedade e houvessem bebido as profundas águas dos escritos sagrados, para que, ao assumirem o desempenho de seu ofício, não se revelassem aprendizes inexperientes. CALVINO, João. As pastorais. São José dos Campo, Sp: Fiel, 2009, p. 262.

3 COMENTÁRIOS

  1. Thiago, bom dia.

    O artigo se refere somente aos originais ou as traduçäes também?

    O motivo da minha pergunta ‚ porque alguns versículos que constam em algumas traduçäes (por exemplo ARC) não constam nos originais.

    Sendo assim, os versículos que constam nas traduçäes são inspirados?

    Abs,

  2. Caro Ricardo Moreno, quando se trata da inspiração e suficiência da Escritura nos referimos aos escritos originais e não as suas traduçäes. Sua observação em relação ao problema de tradução esta correto, por isso faz-se necess rio uma interpretação s‚ria que visa buscar o sentido original do texto sagrado. Abraço.

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