A estratégia de ser servo

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Jesus Cristo como líder iniciou um empreendimento sem recursos, pessoas ou tecnologia, numa época dominada pelo Império Romano, que detinha recursos, exércitos e armas. Além disso, ele teve a ousadia de escolher uma equipe sem preparo, desenvolvê-la num curto espaço de tempo e confiar o empreendimento para que essa equipe continuasse por muitos séculos. Jesus tinha a certeza de que o seu estilo de liderança produziria resultados. No entanto, sua maior marca foi fazer tudo sendo um líder-servo.

As bases de Jesus para a vida e a liderança

Em seu primeiro discurso, Jesus mostrou que se os líderes não tiverem princípios sólidos para a vida dificilmente conseguirão ter uma liderança sólida. Ele enfatizou:

Líderes que são pobres de espírito sabem como agir. Líderes que são pobres de espírito em relação à dominação, controle e manipulação, conseguem ter riqueza na atitude de servir.

Líderes sensíveis conseguem chorar, e sensibilizam outros. Líderes que conseguem expressar seus sentimentos envolvem os seus liderados na missão.

Líderes humildes adquirem capacidade de liderar por longo prazo. Líderes que eliminam a arrogância da sua liderança cometem menos desastres, ferem menos pessoas e alcançam maiores resultados.

Líderes justos alcançam resultados duradouros. Líderes conseguem servir às pessoas quando tem um senso de justiça afinado.

Líderes misericordiosos recebem misericórdia. A misericórdia aliada ao senso de justiça de um líder faz com que os parâmetros de serviço se tornem transparentes e não interesseiros.

Líderes puros veem a verdade concretizada. Líderes comprometidos com a verdade normalmente conseguem servir quando têm um coração puro. O coração puro é fruto daquilo que o líder tem interiormente.

Líderes pacificadores têm sua autoridade reconhecida. Os pacificadores são reconhecidos como aqueles que podem intervir numa causa para alcançar resultados melhores.

Líderes perseguidos recebem recompensa. Na grande maioria dos casos, a perseguição é fruto da disposição do líder de “pagar o preço”, e serve como uma recompensa interior de que ele está no caminho certo, servindo a uma causa ou a um grupo de pessoas.

Todo o estilo de liderança de Jesus Cristo estava fundamentado no caráter. A atitude de Jesus como servo foi baseada nos pilares do seu caráter. O servir na vida de Jesus implicava em ir até a morte para que as pessoas a quem ele desejava servir entendessem que ele estava fazendo isso para que elas tivessem qualidade de vida. A liderança voltada para o “eu” não se preocupa em servir aos outros, como também não está voltada para a transformação. Wilkes afirma que “A verdadeira liderança servil começa quando o líder se humilha para cumprir a missão que lhe foi confiada, em vez de servir aos seus interesses pessoais”.

O que se denota do estilo de liderança de Jesus é que sua missão foi precedida do seu ensino, que foi baseado em seu exemplo de vida e que teve como lastro o seu caráter. Francês Hesselbein (1996), presidente da Peter Drucker Foundation, afirma que “o líder de hoje e do futuro será focado em como ser – como desenvolver qualidade, caráter, mentalidade, valores, princípios e coragem”. O fundamento da liderança para o serviço é constituído de alguns pilares que sustentam o caráter do líder, como: espírito simples, sensibilidade, humildade, justiça, misericórdia, pureza, paz e disposição de pagar o preço de servir. Estas bases conduzem o líder ao resultado.

Servir e liderar
O líder que deseja servir pode prover esperança em meio ao caos e pode ser um exemplo para aqueles que desejam direção e propósitos em suas vidas. O princípio que Jesus viveu é que, quando um líder se torna servo, irá ampliar o alcance da sua influência na liderança. O serviço funciona como um respaldo à autoridade. Na proporção em que um líder serve aos seus liderados, ele reforça sua autoridade para conduzi-los na direção dos objetivos que precisam ser atingidos. Na proporção em que o líder apenas manda nos seus liderados ele os força a segui-lo por causa da sua posição.
Servir é fruto da visão de vida. Servir é fruto de um conjunto de valores que os líderes cultivam e praticam. Servir é uma atitude e não a inclusão de alguns itens na agenda que demonstrem uma aparência para as pessoas. Oswald Sanders comenta que:

Embora Jesus não fosse um revolucionário no sentido político, muitos de seus ensinos eram espantosos e revolucionários, especialmente aqueles concernentes à liderança. No mundo contemporâneo, o termo servo tem uma conotação de inferioridade, mas, não era assim no ensino de Jesus. Na verdade, ele magnificou o termo, igualando-o à grandeza, e isto, certamente, foi um conceito revolucionário. A maioria das pessoas não tem nada em tornar-se senhores, mas há muito pouca atração em ser servo (p.15).

Um líder não é apenas alguém que detém o poder para conduzir um grupo de pessoas a alcançar um objetivo. Jesus trabalhou um conceito de poder diferenciado com seus discípulos. Logo quando os chamou para iniciarem a missão com ele, afirmou que lhes daria poder para serem efetivos. O poder a que Jesus se referia indicava autoridade ou lastro. A ênfase de Jesus na figura do líder-servo foi especialmente para combater o falso tipo de liderança que existia em sua época.

A estratégia de líder-servo de Jesus
A história e a estratégia de Jesus apenas mostram aquilo que não é novidade. De tempos em tempos, os líderes começam apenas a exercer uma função que lhes foi conferida, fascinam-se com os símbolos de poder e distanciam-se de um exemplo prático de liderança que serve as pessoas. Um dos significados mais fortes que Jesus deu para a liderança, não foi simplesmente realizar coisas, mas formar pessoas. O apego ao poder da função faz com que os líderes queiram realizar cada vez mais atividades e se preocupem cada vez menos com o desenvolvimento de outros líderes.

Poder, delegação e desenvolvimento de líderes são três coisas conexas na vida de Jesus. O que Jesus mostrou através do seu próprio exemplo é que o maior legado que um líder pode deixar para o futuro é a formação de outros líderes através da sua própria vida.

Quando se observa a vida de Jesus, entende-se a forma como ele conseguiu conjugar dois termos aparentemente opostos: servir e liderar. Liderar requer motivação, servir requer coragem. Liderar depende das habilidades que se consegue obter, mas servir depende daquilo que uma pessoa é. A liderança servidora não é apenas uma boa forma de se liderar. Líderes-servos não são passivos conforme Lawrence. Eles se envolvem com seus liderados, ajudando-os a crescer. No entanto, o envolvimento não é apenas intelectual, mas de coração a coração.

Líderes são servos e eficazes quando as pessoas que lideram se tornam melhores por sua causa, e não quando conseguem subjugá-las para que os sirvam e alcancem melhores resultados. A formação de um líder-servo parece não ser completa apenas com a assimilação de alguns conceitos. É necessário um processo. A primeira parte do processo implica em fazer o líder desaprender parte do que sabe sobre liderança, especialmente o que contraria a essência do que significa ser servo. A segunda parte do processo implica em padecer as dores de tornar-se servo, assimilando valores que influirão no “ser” do líder. Quando o líder capacita seus liderados esta é uma forma de servi-los.

O processo para se tornar um líder-servo
O líder-servo não é apenas caracterizado por atitudes externas, mas por princípios interiores, refletidos em sua forma de agir e se relacionar com as pessoas. É a mente de um líder-servo que processa e estabelece uma forma diferente de pensar. Autry diz que quanto mais útil um líder for mais ele será capaz de servir. Segundo Autry, liderança tem muito mais a ver com ser útil do que controlar pessoas.

Para um líder chegar a ser servo é necessário entender o processo pelo qual Jesus Cristo passou, que envolve algumas etapas: entender a linha divisória entre ser líder e se tornar líder-servo; ajustar o caráter; submeter-se à missão; focalizar-se na realização da visão e multiplicar os resultados. O processo pode ser assim ilustrado através de alguns princípios, baseados na experiência de Jesus:

Entender a linha divisória entre ser líder e se tornar líder-servo
No auge da sua liderança Jesus ultrapassou a linha para o outro lado e mostrou que poder, fama, multidões, reconhecimento, aclamação, honra, presentes caros e doações são coisas passageiras. Isto pode até fazer parte da trajetória de um líder, mas é apenas um bônus da sua determinação em cumprir a missão. Líderes não devem se apegar a isto, nem tornarem estes fatores a razão da sua liderança. 

Ajustar o caráter
Quando se trata do ajuste de caráter na vida de um líder, talvez a coisa que mais venha à tona é o ego. Possivelmente o ego pessoal de um líder é o inimigo número um do serviço. Quando se rompe a linha divisória entre a liderança tradicional e a liderança servidora, o líder submete o seu ego à missão e se curva ao prazer de servir e não de se exibir.

Submeter-se à missão
Para ter clareza da missão que tem a cumprir, o líder precisa passar por um processo de transformação interior. Quando a missão é entendida como um legado, além do líder submeter-se a ela, ele a incorpora. O líder que deseja se tornar mais importante que a missão, acaba tirando o valor da missão e chamando atenção para si mesmo. O papel de um líder-servo é ser o suporte para uma semente-missão que vai crescer e florescer. O papel de um líder é servir de suporte para manter a missão viva. Quando o líder entende que é um vaso que abriga uma missão, torna-se mais fácil submeter-se à missão.

Focalizar na realização da visão
Uma vez que o líder esteja pronto a submeter-se à missão, a principal coisa a ser feita é se concentrar na realização da visão. A visão do líder é algo que transcende seu próprio potencial de realizá-la. É algo maior que o líder e que se conjuga com a missão à qual ele se submeteu. Isto implica em que o foco principal está na valorização das pessoas e como consequência surgirão os resultados.

A multiplicação de resultados é consequência do estilo de liderança que uma pessoa desenvolve. Quando se entende o processo para ser um líder-servo, isto transforma a vida do líder, que promove transformação na vida das pessoas, e essas pessoas continuam transformando o mundo.

Ser, conhecer e agir como um líder-servo
Os evangelhos mostram claramente que a base da filosofia de liderança de Jesus foi servir. No entanto há uma peculiaridade nos ensinos de Jesus. Não é possível aplicar os seus princípios na vida, sem antes seguir os seus ensinos. Um dos princípios da filosofia de Jesus é que os líderes-servos não estão preocupados com posições.

Essas características tornam possível juntar três aspectos da liderança: o ser, o conhecer e o agir. Pessoas envolvidas na liderança se tornam líderes-servos quando conseguem compreender a conexão que existe entre o que são, aquilo que conhecem, que ajuda a determinar a visão, e a forma como agem. Quando o ser é dominado por um ego arrogante, o conhecimento e a ação podem ficar comprometidos. Quando o ser permite a transformação do ego, direcionando a vida para servir a humanidade, a visão e a ação se tornam marcantes. Se o conhecer e o agir forem limitados pelo ser, a possibilidade de uma pessoa se tornar um líder-servo fica mais limitada.

Servir não é fazer aquilo que as pessoas querem, mas aquilo que elas precisam. Liderar servindo é gerenciar competências e habilidades para o cumprimento da missão. Servir sem paixão torna-se obrigação.

Ser um líder-servo
Ser um líder-servo é bem mais difícil do que ser um líder tradicional ou controlador. Quando um líder pode servir alguém ou fazer algo que desenvolva nos liderados crescimento e realização, isto tem um efeito duradouro e na maioria dos casos um resultado permanente.

O ser pode ser associado ao SERvir. A palavra servir em português permite fazer este destaque do “ser”, como ingrediente principal. O ser servo implica em confiar responsabilidade para os liderados e afirmar esta responsabilidade com poder para tomar as decisões. A delegação de poderes relaciona-se com o ser e o ser com o caráter. Não existe delegação de poder quando o caráter de um líder fecha as portas para esta possibilidade. A forma de ser da organização normalmente é um reflexo da forma de ser dos seus líderes.

Conhecer como um líder-servo
A visão de liderar servindo não é algo abstrato e nem um salto no escuro. Conhecer como um líder-servo é passar a andar numa nova dimensão de liderança. O serviço apenas acontece quando brota de uma atitude interior invisível. Conhecer como líder-servo implica em enxergar primeiro o interior e depois criar fatos concretos no exterior. A maneira como um líder gasta a sua vida revela sua visão e suas prioridades.

De outro lado, a visão de um líder-servo não é passiva. Um líder-servo não fica esperando as coisas acontecerem. O seu ser é revestido de uma paixão para servir, a sua forma de ver é alimentada por uma visão integral das pessoas e das organizações, e tudo isto gera uma forma de agir que concretiza os seus ideais.

Agir como um líder-servo
Agir como um líder-servo é fruto do ser e do conhecer como tal. A ação de servir implica numa mudança de atitude por parte do líder. O ponto principal a ser focalizado na forma de agir do líder é a sua atitude no processo de mudanças. A sedimentação da vontade de uma pessoa e a cristalização de uma posição de liderança é um dos fatores que mais resiste às mudanças.

Neste ponto surge então a nova forma de agir para líderes que desejam ser servos. Ser um líder-servo significa pensar adiante no tempo. Agir como um líder-servo na atualidade não significa ser passivo e subserviente, mas pró-ativo e interdependente. A ação é tomar a dianteira e ser diferente dos demais líderes desta geração.

A forma de agir de um líder-servo determinará os métodos que ele utilizará para atingir resultados. Um líder-servo não trabalha sem a expectativa de conseguir resultados. Servir é plantar sementes que produzirão frutos.

Quando se pensa no desafio do líder de transformar sua mentalidade para poder desempenhar uma liderança efetiva e marcante, é necessário analisar os aspectos em que o líder precisa mudar. Jesus na verdade ajudou os líderes de todos os tempos a entender a questão de mudança de mentalidade. A partir do momento em que os líderes mudarem sua mentalidade, terão que ser menos dependentes da sua autossuficiência e mais dependentes do sucesso dos novos líderes que serão treinados.

O princípio que Jesus está mostrando é que viver de regras ou leis não vai encobrir o engano de não ser um líder com o coração disposto a servir. O coração vazio da intenção de servir provoca uma boca cheia de regras, uma mente voltada para interesses pessoais e uma atitude aparente de líder. Segundo Santo Ignácio de Loyola, o fundador da ordem dos jesuítas: “saber e não fazer é não saber”. Talvez a maioria dos líderes da atualidade saibam os princípios que deveriam reger sua liderança. No entanto, quando continuam fazendo tudo como o que sempre fizeram, é como que se colocassem tudo dentro de uma gaveta da ignorância.

O que um líder é determina muitas coisas. Determina que tipo de relacionamento ele terá com seus liderados, se estará mais focado em resultados passageiros ou duradouros, e se existe uma real intenção de servir ou apenas o atendimento dos seus interesses. O fato de Jesus ter convivido durante mais de três anos com seus principais liderados, criou confiança para que eles dessem continuidade à missão, mesmo depois de sua partida. Aquilo que os líderes são é consequência da transformação contínua de mentalidade pela qual passam e pelo amadurecimento que adquirem. A transformação e o amadurecimento são a correnteza que conduz os líderes na direção do desejo de servir. J. Oswald Sanders afirmou que “A verdadeira grandeza e a verdadeira liderança, não se alcançam submetendo-se alguns homens ao serviço de um, mas generosamente dando-se a si mesmo ao serviço deles”.

Conclusão
Herb Miller, disse: “ Eu estou convencido de que grandes líderes raramente são normais ou pessoas bem ajustadas. Francamente, quem de nós, afinal não está um pouco cansado da normalidade”. A normalidade na época de Jesus era aceitar o domínio do Império Romano e se conformar com as regras do jogo. Jesus não atacou o Império Romano, nem criou uma cruzada para tirar-lhes o poder. Ele apenas viveu um estilo de vida diferente, não se conformando com a normalidade. Líderes que se conformam com seu status quo, seus interesses, seus rendimentos, falta de valores ou mesmo a falta de ética numa organização, estão assinando um atestado de antiliderança.

Por este motivo, liderar é não pensar apenas em conduzir as pessoas para se alcançar resultados numéricos. Jesus não pensou apenas em resultados numéricos, mas ele foi um exemplo, na vida e na morte.

Jesus cumpriu sua missão e morreu por ela, mas antes de morrer ele capacitou doze homens para continuarem levando adiante a missão e espalhá-la pelo mundo. Por meio dos ensinos de Jesus, até hoje a humanidade conhece através dos evangelhos a vida de doze desconhecidos que se transformaram na base de um empreendimento global.

Em momento algum ele usou a palavra liderança, mas o tempo todo ele falou em servir e mais do que isto, ele deu o exemplo. Com isso ele demonstrou que à medida que um líder se submete à missão ele consegue focar num propósito maior, empolgando-se com as estratégias para execução da missão. Então, uma pergunta que todo líder deve fazer constantemente é: “De que forma posso servir como líder, para deixar uma marca que cause diferença no mundo?”.

Talvez este seja o grande desafio dos líderes da atualidade. Não basta querer ser líder, nem mesmo querer servir, apenas para demonstrar algo bonito. A pergunta que todo líder deveria fazer a cada manhã é: De que forma eu estou sendo útil para a minha geração? E, por fim, caberia outra pergunta a todo líder: O que você está produzindo hoje que não irá se decompor? A resposta a essa pergunta apontará a essência do ser líder-servo, conhecer como líder-servo, agir como líder-servo e viver como Jesus, deixando marcas em sua geração e perpetuando os resultados no decorrer da história.

Esta foi a estratégia mais bem sucedida da história da liderança.

 

Referências bibliográficas
AUTRY, James A. The Servant Leader. USA: Prima Publishing, 2004.
GREENLEAF, Robert K. Servant Leadership. Mahwah, NJ: Paulist Press, 1977.
SANDERS, J. Oswald. Liderança Espiritual. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.
WILKES, Gene C. O último degrau da liderança. São Paulo: Mundo Cristão, 2002.

1 COMENTÁRIO

  1. você esta de parabens é gostei muito deste estudo que Deus te ilumine cada vez mais é gostaria de sua autorização para poder copir passar este estudo na igreja que congrego como auxiliar. que Deus continue abençoando os seus trabalhos .

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