Quem se importa com os intelectuais?: um ensaio sobre seu papel na sociedade

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Introdução

Que importância damos aos intelectuais e à nossa própria formação intelectual? Qual a relação entre os intelectuais e o ‘homem comum’? Responder a essas perguntas não apenas nos ajudará a entender o papel do intelectual numa sociedade, como servirá de apologia à própria atividade intelectual, bem como pretende incentivar os indivíduos a observarem o papel da educação em suas próprias vidas particulares.

Para alcançar esses objetivos, seguiremos o seguinte roteiro. Primeiro, iremos explorar um pouco o conceito de vocação para justificar, afinal de contas, o porquê nos engajamos em alguma ocupação qualquer, como um modo de vida para, então, percebermos a origem do descaso para com os intelectuais. Na sequência, observa-se outro fator que causou a forma como enxergamos a educação, a saber, a perda de seu propósito de elevação espiritual, substituída pela perspectiva de ‘colocação social’. Na esteira deste problema, encontramos outro fator de desilusão para com a figura do intelectual: a do falso intelectual e a péssima propaganda que ele faz da própria atividade intelectual. O que se segue é uma apreciação particularmente pertinente às ciências humanas e seu papel primordial na formação dos indivíduos e da sociedade.

Defenderemos, basicamente, a tese de que as elucubrações dos intelectuais estão presentes nas vidas de todas as pessoas, de modo que nas cátedras das chamadas ciências humanas, ou ciências do espírito, traçam-se os rumos e a natureza da vida das pessoas.

1 – Vocação e educação

Comecemos por observar dois grandes empecilhos que impedem as pessoas de compreenderem o porquê de alguém com competência para cursar um curso mais ‘adequado’, financeiramente falando, não o faz, mas, ao invés disso, opta por algo como ‘filosofia’, ‘sociologia’ ou algo do tipo. O primeiro é a ignorância quanto ao conceito de ‘vocação’. O segundo é a falta de conhecimento da importância de um curso como esses. Vamos dar uma olhada no primeiro problema nesta seção. Para esclarecê-lo, vamos evocar o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho[1], que, no livro O Mínimo que Você Precisa Saber para Não ser um Idiota, nota algo de exímio valor para nosso labor,mais precisamente no brilhante artigo denominado ‘Vocação e Equívocos’, a saber:

Se você escreve, ou pinta, ou faz sermões na igreja, ou toca música, ou monta a cavalo, ou tira fotos, ou faz qualquer outra coisa que pareça interessante já deve ter ouvido mil vezes a pergunta: ‘Você faz isso por dinheiro ou por prazer?’ […]. O que está omitido na pergunta […] é a possibilidade de que alguém se dedique de todo o coração a alguma coisa sem ser por necessidade econômica ou por prazer – ou, pior ainda, que continue se dedicando a ela como se fosse a coisa mais importante do mundo mesmo quando só dá prejuízo e dor de cabeça. O que está omitido nessa pergunta […] é aquilo que se chama vocação[2]

Parece, pois, necessário, antes de prosseguirmos, esclarecer o que significa ‘vocação’.  Olavo define-a da seguinte forma: “Vocação vem do verbo latino voco, vocare, que quer dizer “chamar”. Quem faz algo por vocação sente que é chamado a isso pela voz de uma entidade superior — Deus, a humanidade, a História, ou, como diria Viktor Frankl, o sentido da vida”.[3]

O fato é que essa concepção fútil, denunciada pelo filósofo, acaba contaminando nossas noções de educação. Para as pessoas, em geral, só há essas duas opções. Ou você faz algo por puro prazer, ou porque é rentável. Elas vêem a escolha do curso universitário, ou mesmo do ofício, à luz desses critérios. Isso mostra a insignificância que nos metemos, a pobreza de espírito na qual nossa sociedade está inserida. No entanto, Olavo se equivoca ao pensar que esse é um problema tipicamente brasileiro. Francis Schaeffer, após elaborar um panorama completo da decadência da cultura ocidental em seu Como Viveremos?, fala sobre os porquês de chegarmos a conceber a educação nesse sentido. Schaeffer discursa que a pretensão humanista chega, se acompanharmos o desenvolvimento da filosofia, ao ponto em que o homem, a partir de si mesmo, não consegue conceber sentido para a vida, nem formular valores objetivos e, com isso, enredou-se numa situação em que os únicos valores admitidos pelo homem moderno são ‘paz pessoal’ e ‘prosperidade’.

Paz pessoal significa ser deixado em paz e não ser incomodado pelos problemas alheios sejam eles problemas mundiais ou locais – significa poder viver a sua própria vida, reduzindo ao máximo a possibilidade de ser incomodado. Paz pessoal significa ter seu próprio estilo de vida pessoa, sem ser perturbado por toda a vida, não interessando as consequências na vida dos meus filhos e netos. Prosperidade significa um extraordinário e sempre crescente padrão de vida material – uma vida feita de coisas, coisas e mais coisas – um sucesso medido por um nível cada vez maior de abundância material.[4]

Com um diagnóstico parecido está o sociólogo Zygmunt Bauman, que julga ter sido produto da filosofia emancipatória da teoria crítica o tornar os homens individualistas demais, e incapazes de pensarem em se associar por causas comuns. Diz Bauman:

… como de Tocqueville há muito suspeitava, libertar as pessoas pode torná-las indiferentes. O indivíduo é o pior inimigo do cidadão, sugeriu ele. O ‘cidadão’ é uma pessoa que tende a buscar seu próprio bem-estar através do bem-estar da cidade – enquanto o indivíduo tende a ser morno, cético ou prudente em relação à ‘causa comum’, ao ‘bem comum’, à ‘boa sociedade’ ou à ‘sociedade justa’. Qual é o sentido de ‘interesses comuns’ senão permitir que cada indivíduo satisfaça seus próprios interesses? O que quer que os indivíduos façam quando se unem, e por mais benefícios que seu trabalho conjunto possa trazer, eles o perceberão como limitação à sua liberdade de buscar o que quer que lhes pareça adequado separadamente, e não ajudarão. As únicas duas coisas úteis que se espera e se deseja do ‘poder público’ são que ele observe os ‘direitos humanos’, isto é, que permita que cada um siga seu próprio caminho, e que permita que todos o façam ‘em paz’ – protegendo a segurança de seus corpos e posses, trancando criminosos reais ou potenciais nas prisões e mantendo as ruas livres de assaltantes, pervertidos, pedintes e todo tipo de estranhos constrangedores e maus.[5]

Restou ao humanismo humanista (ou ‘secular’)[6], na perda dos padrões objetivos de valores, o hedonismo, exponenciado quando se tem mais recursos. Em outras palavras, ‘já que a vida acaba aqui, temos que ‘aproveitá-la’ da forma mais intensa possível. Em suma, a crise na educação vai anuir com esses valores, admitidos tacitamente pelo homem comum, pai de família, que só quer o melhor para seus filhos. Vale a pena citar as palavras de Schaeffer, falando dos anos 60, com foco no que acontecia na Europa, mas que é facilmente percebido em terras tupiniquins:

Se algum estudante dos anos de 1960 perguntasse a seus pais e a outras pessoas ‘estudar para quê?’, a resposta que frequentemente lhe era dada, se não em palavras ao menos em inferência, era ‘ora, porque as estatísticas dizem que uma pessoa com estudo ganha muito mais’. E quando ele perguntava ‘ganhar mais para quê?’, a resposta era ‘para que possa pagar uma faculdade para seu filho’. De acordo com esse tipo de resposta, declarada ou implícita, não existe sentido na vida do homem, e a educação não faz sentido.[7]

Percebem o looping? Se a pergunta continuasse: ‘E por que pagar faculdade para meus filhos?’, a resposta seria: ‘para que ganhassem mais’ e assim por diante. Há, ainda, em não pouco jovens um incômodo em relação a essas questões, uma vez que questões existenciais ainda não lhes foram solapadas pela ocupação, i. e., ainda não foram tragados pelo mundo tal como se apresenta, com as questões da vida adulta, com o trabalho e tantas outras responsabilidades. Mas é questão de tempo.[8]

Nesse contexto em que a educação não faz sentido é claro que só sobram as duas alternativas mencionadas por Olavo. Ou alguém se envolveria por puro prazer, ou por que dá dinheiro. Ninguém consegue conceber que poderíamos nos envolver por entendermos que nos enveredamos naquilo por que sentimos que temos esse papel no universo, que devemos desempenhar essa função, em suma, ‘vocação’[9]. Schaeffer e Olavo estão de acordo que o que se perdeu, o que era fundamental e anterior à própria empreitada rumo à educação, foi o ‘sentido da vida’. Se o todo não faz sentido, muito menos faz suas partes. Se a vida não faz sentido, estudar também não. Temos uma crise existencial que precede a crise educacional. Uma crise filosófica.

2 – Educação como colocação social

Além da perda da noção de vocação, há ainda a perda da perspectiva aprimoramento do próprio espírito. José Monir Nasser, seguindo Ivan Illich, a questão é estrutural na educação moderna que já não tem mais por interesse a elevação espiritual do indivíduo, mas sua ‘colocação social’.

‘A tese de Illich, cujo mérito avulta na proporção direta do fracasso educacional geral, é que o sistema de ensino não tem por objetivo realmente educar, mas somente distribuir socialmente os indivíduos, por meio do ritual de certificados e diplomas. A escola formal, esta que Illich deseja suprimir, não é um meio de educação, mas um meio de ‘promoção’ social, fato que as pessoas humildes revelam perceber quando insistem com o Joãozinho: estude, meu filho, estude…[10]

Em outras palavras, não se estuda mais para satisfazer o desejo natural por conhecimento, tal como dizia Aristóteles nos ser inerente[11]. Estuda-se para ganhar dinheiro, para ‘ser alguém na vida’.

É interessante que Craig, pautado no célebre livro de Alan Bloom, ‘The Closing of the American Mind’, vai ainda mais a fundo para observar que as consequências nefastas do pensamento ocidental encontra sua origem no pós-modernismo. Não só a perda de sentido e de valores, mas da própria noção de verdade.

Uma vez que não há nenhuma verdade absoluta, uma vez que tudo é relativo, o propósito da educação não é ensinar a verdade ou conhecer os fatos – pelo contrário, trata-se apenas de adquirir a habilidade necessária para enriquecer, conseguir poder e fama.[12]

Segundo essa tese, portanto, é na ascensão do pós-modernismo que encontramos a gênese da própria mentalidade desta ‘educação funcional’, ou seja, ela não passa de uma conformação da educação ao zeitgeist hodierno.

É importante notar que anuímos à tese de Carvalho sobre vocação mas não perdemos de vista a possibilidade de prazer na própria ação de estudar para a ascensão da alma[13]. Arthur Schopenhauer, famoso filósofo alemão pessimista do século XIX, pode muito nos ajudar em suas elucubrações a respeito desses assuntos. Ele não evoca a noção de vocação, preferindo deter-se na questão do prazer pelos estudos. Não podemos deixar de concordar que o intelectual deve sentir algum prazer no esclarecimento. Sanar suas dúvidas, ampliar seus horizontes, ter uma compreensão mais adequada e abrangente da vida pode ter e, de fato tem, muito valor. A grande validade da citação que faremos de Schopenhauer destina-se, particularmente, àqueles que não conseguem entender que poderíamos nos envolver com o labor mental sem pensar, primeiramente, em quanto isso nos renderá. Observemos um poucos suas palavras embebedadas de desprezo por quem pensa assim:

Diletantes, diletantes! – Assim os que exercem uma ciência ou uma arte por amor a ela, por alegria, per il loro diletto [pelo seu deleite], são chamados com desprezo por aqueles que se consagram a tais coisas com vistas ao que ganham, porque seu objeto dileto é o dinheiro que têm a receber. Esse desdém se baseia na sua convicção desprezível de que ninguém se dedicaria seriamente a um assunto se não fosse impelido pela necessidade, pela fome ou por uma avidez semelhante.[14]

Em certo sentido, ressaltamos, Schopenhauer não está em franca oposição a Olavo, visto que o conceito de vocação não exclui nem o prazer e nem, necessariamente, visto que pode ocorrer em alguns casos, a remuneração. Aliás, é difícil pensarmos em vocação sem considerarmos que há algum deleite na labuta, na empreita. É claro que tal labuta irá trazer suas dificuldades e obstáculos e muitos deles não seriam vencidos se o indivíduo apenas se deleitasse na tarefa, se não se sentisse vocacionado para tal pois, assim que o prazer cessasse, cessar-se-ia a motivação. O prazer é parte essencial, mas não é o leit motiv. Todavia, discordamos num ponto de Schopenhauer. Pouco antes da citação anterior ele diz:

Para a imensa maioria dos eruditos, sua ciência é um meio e não um fim. Desse modo, nunca chegarão a realizar nada de grandioso, porque para tanto seria preciso que tivessem o saber como meta, e que todo o resto, mesmo sua própria existência, fosse apenas um meio. Pois tudo o que se realiza em função de outra coisa é feito apenas de maneira parcial, e a verdadeira excelência só pode ser alcançada, em obras de todos os gêneros, quando elas foram produzidas em função de si mesmas e não como meios para fins ulteriores.[15]

Claro, evidentemente ele tem razão quanto à competência de quem se envolve nos estudos por amor ao conhecimento. Mas ele faz do conhecimento em si a razão existencial do homem. E aqui ele perde o que acreditamos ser o grande motor da busca pelo conhecimento. Não vamos discordar dele a respeito do grande bem que é o conhecimento e anseio por ele. Muito menos discordaremos de C. S. Lewis, que completa o quadro observando que a descoberta, a sede pelo conhecimento, é apetite que Deus mesmo colocou em nós:

Em certo sentido, refiro-me à busca do conhecimento e da beleza por eles mesmos, mas num sentido que não exclui serem também por causa de Deus. O apetite para essas coisas existe na mente humana, e Deus não cria apetite nenhum em vão.[16]

Entretanto, por que ansiamos por conhecer? É verdade que, em certo sentido, desejamos nos proteger. Mas entendemos que há algo mais profundo aí. São as questões essenciais, colocadas no coração humano, as questões últimas, fundamentais, que nos levam à buscar a educação[17]. A cosmovisão humanista diz que não há sentido e muitos que a adotam chegam a dizer que não há, nem mesmo, forma de se chegar à verdade objetiva (ou mesmo que ela não existe!). E se essa possibilidade nos é vetada desde o início, então, como notaram Schaeffer e Craig, a educação está fadada ao fracasso. Todavia, se olharmos para o ardoroso trabalho da pesquisa e reflexão como meios para encontrarmos as respostas mais significativas, então nos debruçaremos nos livros, na natureza, e onde mais apontarmos o nariz e suspeitarmos que as respostas ali se encontram. A salvação da educação, bem como a compreensão e valorização daqueles destinados a ofícios afins, está, pois, numa concepção diferente sobre a vida. Somente uma cosmovisão alternativa poderá salvar o homem da estupidez bem assalariada que ele almeja, do ‘american dream’. Somente uma concepção assim poderá fazer o homem perceber a importância do intelectual e mestre.

3 – As falsas vocações para ser intelectual

No número das vocações, existe, pois, a do intelectual – que, como já dissemos, é o foco de nossas elucubrações presentes neste artigo. Aqueles chamados para pensar, refletir, e sanar dúvidas, expandir a compreensão das coisas, educar. Dentre esses, temos aquele que irá estudar as ciências humanas, os pensadores, os filósofos.[18] E aqui ainda temos de distinguir entre o filósofo e o professor de filosofia. Em suma, muito do descrédito para com a filosofia é por conta de haver tão poucos pensadores, i. e., por haver não-vocacionados que se passam por vocacionados. A questão não é que não haja quem estude num curso de humanas, mas que aqueles que entram ali não são verdadeiros ‘filósofos’, ou ‘pensadores’ e nunca chegarão a sê-lo.

Comecemos com os dizeres ásperos do filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, que também é professor de filosofia no Brasil:

Na maioria dos casos, professores de universidades (ou não) são pessoas que, além de não gostar dos alunos, têm uma inteligência mediana e foram, quando jovens, alunos medíocres, que fizeram ciências humanas porque sempre foi fácil entrar na faculdade em cursos de ciências humanas. Claro que todos pensavam em si mesmos como Marx ou Freud não revelados. Ao final, o que se revela com mais frequência é alguém fracassado que ganha mal e odeia os alunos. Professores normalmente não gostam de ler ou de estudar, mas dizem que esse pecado é apenas dos alunos. Há um enorme sofrimento na maioria dos professores porque têm de fingir o tempo todo que acreditam na importância do que fazem.[19]

Segundo Pondé, os professores são incompetentes, frustrados e até mesmo não gostam de ler! Seria essa uma constatação isolada? É claro que não! Não é de hoje que vários pensadores têm reclamado, desprezado e até feito chacotas de outros pseudo-pensadores de sua época. Voltemos, e. g., ao turrão Schopenhauer, que vociferava aos quatro cantos sua indignação:

Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes.[20]

Ou seja, muitos (para Schopenhauer, a maioria) dos que adentram aos cursos superiores o fazem não por amor ao conhecimento, ou por vocação, como Olavo diria, tomam o conhecimento como um meio para alcançar fama, dinheiro, prestígio e notoriedade, ou, na perspectiva de Pondé, adentraram-se ao mundo das humanas porque não tinham muitas alternativas.

A propósito, o professor Olavo, noutra obra, intitulada ‘A Filosofia e Seu Inverso’, defende que a filosofia tem que ver com a formação ‘espiritual’ do homem, trazendo-lhe orientação para a vida, em oposição à mentalidade ‘profissionalizante’ assumida com a formação das universidades modernas que permitiu às pessoas a possibilidade de lidarem artificialmente com as discussões filosóficas. Ele nos conclama a ver a filosofia tal como ela nasceu e, para isso, evoca o exemplo dos clássicos, i. é, de Sócrates, Platão e Aristóteles. O professor Olavo nota, particularmente, seguindo a Eric Voegelin, a disputa entre Sócrates e Platão contra os sofistas[21]. Ele começa observando que

Sócrates se volta contra tudo aquilo que, no meio ateniense, é opinião dominante, tida como respeitável e séria no mais alto grau. Graças ao próprio empenho de Sócrates e de Platão, a doxa ateniense nos parece hoje coberta de ridículo, mas na época ela era tão respeitada que desafiá-la podia ser punido com a morte, como de fato o foi. […] A diferença específica de Sócrates reside num estrato mais profundo da experiência da discussão. Enquanto seus adversários repetem ideias correntes, apegando-se à segurança dos papéis sociais que lhes infundem a ilusão de estar certos por pensar de acordo com a maioria, ou com a classe dominante, Sócrates fala apenas como indivíduo humano, sem respaldo em qualquer autoridade externa. E não apenas faz isso, mas apela ao próprio testemunho íntimo de seus contendores, o que equivale a despi-los de suas identidades sociais e induzi-los à confissão direta, sincera, humana, de seus verdadeiros sentimentos.[22]

Mais adiante, Olavo caminha com Voegelin para observar que esse oposto do filósofo, que não lida com as questões íntimas como se tivessem relação com ele, ou que apenas abraça a opinião mainstream, foi denominado por Platão de ‘filodoxo’, ou seja, um amante (filo) da opinião (doxa). Ainda segundo Olavo, a maioria das faculdades e universidades estão cheias deles. Não se pensa mais com sinceridade e devoção. O grande objetivo é se amoldar ao establishment, e ganhar um título de autoridade em algum assunto. Schopenhauer, novamente, está em sintonia com esse mesmo pensamento, e o transporta lá para a Alemanha do século XIX:

É possível dividir os pensadores entre aqueles que pensam a princípio para si mesmos e aqueles que pensam de imediato para os outros. Os primeiros são pensadores autênticos, são os que pensam por si mesmos, são eles mais propriamente os filósofos. […] O prazer e a felicidade onde sua existência consiste exatamente em pensar. Os outros são os sofistas: eles querem criar uma aparência e procuram sua felicidade naquilo que esperam receber dos outros.[23]

É verdade que Schopenhauer dá a entender que ele mesmo adere a um ideal eudemônico que concebe a realização existencial no ato de pensar, com o que não coadunamos. Mas, independente disso, ele concorda que há aquele tipo de ‘profissional do saber’, ‘sofistas’, que veem na busca do conhecimento a busca pela felicidade nos aplausos alheios ou outros benefícios quaisquer que não a própria evolução.

Pondé também fala de professores que não gostam de ler. Outros filósofos falam de um problema de mesmo porte, o fato de não saberem ler! Sim! Não falamos de professores analfabetos, mas que leram muito sem se tornar mais esclarecidos por isso. O conhecimento que adquiriram não foi abraçado de maneira adequada, de modo que praticamente ‘não lhes pertence’. Mortimer Adler e Charles Van Doren podem elucidar esse ponto:

Montaigne falava de uma ‘ignorância abecedariana que precede o conhecimento, e uma ignorância doutoral que se segue ao conhecimento’. A primeira ignorância é a do analfabeto, isto é, do sujeito incapaz de ler. A segunda ignorância é a do sujeito que leu muitos livros, mas os leu de maneira incorreta. Alexander Pope os chamava, com justiça, de livrescos estúpidos, literatos ignorantes. Na história, sempre houve ignorantes alfabetizados, isto é, pessoas que leram muito mas leram mal. Os gregos tinham um nome especial para essa estranha mistura de aprendizado e estupidez – um nome que pode ser aplicado aos literatos ignorantes de todas as eras. Eles chamavam esse fenômeno de sofomania.[24]

E se alguém precisa de explicações quanto ao que é ler mal, podemos ver uma das formas denunciadas por Schopenhauer, que tanto reclama daqueles que leem demais e não param para pensar no que estão lendo:

A leitura contínua, retomada de imediato a cada momento livre, imobiliza o espírito mais do que o trabalho manual contínuo, já que é possível entregar-se a seus próprios pensamentos durante esse trabalho. […] Com isso não se chega à ruminação: mas é só por meio dela que nos apropriamos do que foi lido, assim como as refeições não nos alimentam quando comemos, e sim quando digerimos. Em contrapartida, se alguém lê continuamente, sem parar para pensar, o que foi lido não cria raízes e se perde em grande parte.[25]

E é justamente por isso que temos tão rasos pensadores (na verdade, pretensos pensadores). E por serem de qualidade tão ruim, tão sem proveito, é que todos desprezam seu ofício de forma geral. Eles não sabem nem dialogar com os ‘professores mortos’[26], muito menos mostrar como eles responderiam a problemas atuais ou leriam e leram a realidade.

Todavia, temos que ser cautelosos. Se pretendermos a vocação intelectual ou se simplesmente percebermos que precisamos investir em nossa própria educação, temos que nos precaver para não cair nesses mesmos erros, i. e,. podemos, facilmente, nos tornar pseudo-intelectuais. Não basta sabermos ler direito. Seria ingenuidade pensar que não seremos assediados pelos benefícios que o reconhecimento de sabedoria pode trazer. Por isso, a advertência de Lewis nos pode salvar nossa alma:

podemos vir a amar o conhecimento – o nosso conhecer – mais que o objeto conhecido: deleitar-nos não no exercício de nossos talentos, mas no fato de que eles nos pertencem, ou mesmo na fama que eles nos proporcionam. A cada sucesso na vida de um intelectual esse perigo aumenta.[27]

Até aqui, tornamos clara as noções de vocação e de educação, bem como a importância desses itens. Entretanto, alguém poderá perguntar: ‘filosofia?’. Será que há alguma utilidade no estudo disso? Por isso, precisamos explorar a importância das geisteswissenschaften, o que faremos na sequência[28].

4 – E pra que serve a filosofia?

Quem nunca se deparou com conceitos de filósofos, frases soltas ditas por essa ou aquela celebridade grega de centenas de anos atrás, e se perguntou: qual a relevância disso? Não é raro ver quem pense serem essas discussões filosóficas, e até teológicas, uma grande perda de tempo. E não é apenas gente iletrada. Registramos, noutra situação, o exemplo do respeitado teólogo e razoável filósofo R. C. Sproul cometendo uma gafe célebre, mas muito didática. Ele mesmo narra ter achado um absurdo Parmênides ter ficado famoso ao dizer ‘Tudo o que é, é’, para, só mais tarde, perceber o peso filosófico dessa simples afirmação[29]. Pois bem, além do fato de, normalmente, tais asseverações serem injustas, pautadas na absoluta falta de compreensão do que os pensadores disseram, temos que salientar que uma hora ou outra aquelas ideias batem à nossa porta. O queremos dizer é que as mais abstratas elucubrações filosóficas começam a escorrer pelas escadarias da academia e, mais cedo ou mais tarde, quando conseguem prevalecer no topo, alcançam as mentes mais simples e ‘vulgares’ da população. Padeiros e donas de casa, sem perceber, repetem os jargões filosóficos da moda, e a população, em geral, pensa como os filósofos ditaram que deveriam pensar.

É sobre isso que Dalrymple falava quando observou que a mentalidade freudiana – na qual, grosso modo, o adulto era culpado pelo que seus pais ou outros lhe fizeram na infância – somada à mentalidade rousseauniana – segundo a qual, mais uma vez colocando de modo rápido, o homem é mau por conta do seu meio – produziram homens que se recusam a admitir sua culpa, a responsabilidade por seus atos. Após negar a determinação econômica e genética, Dalrymple explica o padrão de comportamento das pessoas da seguinte forma:

Esse ingrediente é encontrado no campo das ideias. O comportamento humano não pode ser explicado sem fazer referência ao significado e às intenções que as pessoas dão aos próprios atos e omissões; e todos possuem um Weltanschauung, uma visão de mundo, saibam ou não disso.[30]

Pouco adiante, dirá que os vários problemas sociais que encontra, como médico e psiquiatra nos subúrbios, se deve às absorções das ideias elaboradas por intelectuais que jamais experimentarão as consequências de suas próprias ideias. Nas suas palavras: “Na verdade, a maioria das patologias sociais apresentadas por essa subclasse tem origem em ideias filtradas da intelligentzia[31]

Há várias formas pelas quais isso acontece. Uma delas, muito evidente para quem quiser averiguar a plausibilidade desta tese, é observarmos escolas literárias. Elas são reflexo das elaborações filosóficas que as precederam. É frequente que os autores até conheçam as principais discussões filosóficas e tomem partido. Acontece que eles irão expressar essas concepções em suas histórias, narrativas, contos, romances e poemas. Logo as pessoas irão ler o que foi dito. Haverá escritos considerados mais sofisticados, e os intelectuais se devotarão a eles. E também surgirão escritos mais simples, amiúde com escritores de competência intelectual proporcional,  e são esses que também, usualmente, nem conseguem perceber que escrevem admitindo conceitos e teses filosóficas de sua época ou de seu tempo, e acabam popularizando-as aos mais simples.

Música, teatro e cinema também contribuem muito para a divulgação dessas ideias, como bem nota Francis Schaeffer tanto na já citada obra ‘Como Viveremos?’ como na sua famosa obra ‘O Deus que Intervém’. Tal como nos romances, contos e poemas, as músicas, o teatro e o cinema são produzidos segundo a perspectiva que os seus autores têm sobre a realidade, sobre o mundo. O que eles fazem ao divulgá-las é, ainda que longe de sua pretensão consciente, divulgar a forma como ele vê o mundo.

Para além desses aspectos de propagação de weltanschauung, Schaeffer também nota[32] haver outra maneira muito eficaz de inculcar nos mais diversos setores sociais alguma ideia: as universidades. São delas que saem os formadores de opinião, e o que seus professores lhes convenceram é o que será base para o que irão transmitir. Daí, não só pelos meios previamente mencionados, como na própria seleção e forma do que será dito pela mídia tradicional – TV e Rádio – haverá de ser divulgar formas particulares de ver o mundo. Aliás, aqui valem as palavras de William Lane Craig:

De fato, a instituição mais importante na construção da sociedade ocidental é a universidade. É na universidade que os nossos futuros líderes políticos, jornalistas, advogados, professores, cientistas, executivos e artistas serão formados. É na universidade que eles formularão ou, mais provavelmente, absorverão a cosmovisão que moldará suas vidas. Uma vez que são os formadores de opinião e os líderes que moldam a nossa cultura, a cosmovisão que eles absorverem na universidade será aquela que moldará a nossa cultura.[33]

Sendo assim, achamos que a ideia de que as questões filosóficas não passam de divagações e devaneios desvairados provou-se obsoleta e infantil. Qualquer um pode ignorá-las, mas, a qualquer hora poderá notar que aquelas ideias que lhe pareciam tão naturais não eram outra coisa senão advindas dos meios que o influenciaram e formaram. Alguém que ignora esse fenômeno está muito propício a ser manipulado.

Aqui podemos, novamente, recorrer às observações pertinentes de Olavo de Carvalho a esse respeito[34], que acredita existir ‘estrategistas da guerra cultural’, ‘manipuladores conscientes’ das opiniões[35]. Entretanto, isso não é algo fácil de ser admitido, e é até mesmo considerado um ultraje a tantos que se orgulham de sua instrução e opiniões.

Que, para o estrategista da guerra cultura, o ‘senso comum’ seja um produto social como qualquer outro, sujeito a ser moldado e alterado pela ação organizada de uma elite militante; que sentimentos e reações, que, para o cidadão comum, constituem a expressão personalíssima da sua liberdade interior, sejam para o planejador social apenas cópias mecânicas de moldes coletivos que ele mesmo fabricou; que a direção de conjuntos das transformações culturais não seja a expressão dos desejos espontâneos da comunidade mas o efeito calculado de planos concebidos por uma elite intelectual desconhecida da maioria da população – tudo isso lhe parece ao mesmo tempo um insulto à sua liberdade de consciência e um atentado contra a ordem do mundo tal a concebe.[36]

Se existem mesmo esses planejadores culturais, os homens estarão menos sujeitos na medida em que forem educados, em que conhecerem as raízes do que creem. A forma de se livrar é o interesse verdadeiro pela sua maturação, pela ‘educação’ no sentido estrito do termo. Precisamos estar cientes que, de uma forma ou de outra, abraçamos os pensamentos de nosso meio e época, e o conhecimento filosófico, devidamente adquirido, nos permitirá transcender nossa situação para avaliarmos de forma mais adequada o que nos é apresentado. Recorremos às acertadas palavras de Sproul para iluminar a questão:

A filosofia nos obriga a pensar em termos de fundamentos. Com fundamentos quero dizer os primeiros princípios ou verdades básicas. A maioria das ideias que moldam nossa vida é aceita (pelo menos no começo) sem muita crítica. Não criamos um mundo ou ambiente do zero e depois vivemos nele. Entramos num mundo e numa cultura que já existem e aprendemos a interagir com eles.[37].

E falando em Sproul, podemos pegar, mais uma vez, um exemplo de sua vida para ilustrarmos o que estamos trabalhando por aqui. Sproul conta que no segundo ano da faculdade de filosofia precisava arrumar um emprego nas férias e, não achando nada que demandasse alguém com conhecimentos filosóficos, acabou na manutenção de um hospital, onde se encontrou com um homem cumprindo funções semelhantes para, em seguida, descobrir que se tratava de um Ph. D. em filosofia que fora expulso da Alemanha por ocasião da ascensão de Hitler que não queria, ali, ninguém que discordasse de seus valores. A partir daí, Sproul considera:

Eu estava empunhando uma vassoura porque vivia em uma cultura que dá pouco valor à filosofia e tem pouca estima por quem gosta dela. Meu amigo, todavia, estava com uma vassoura nas mãos porque vinha de uma cultura que dava grande valor à filosofia. Sua família fora destruída porque Hitler sabia que idéias são perigosas.[38]

As ideias são perigosas, e, a menos que não queiramos ser vítimas delas, precisamos nos debruçar sobre os livros e refletirmos bem para combater, ou mesmo prevenir, as mazelas que uma ideia errada pode produzir. A coisa é tal, que Hobbes, no Livro II do Leviatã, propõe um controle de ideias pelo soberano, para que ideias destrutivas à ordem pública não prevaleçam ou sejam divulgadas![39]

A essa altura, é interessante notarmos que a questão do declínio do significado da educação, do qual falamos antes, é justamente produto de desdobramentos filosóficos. Em outras palavras, cientes do que acabamos de expor, podemos voltar para o que apresentamos no início do artigo para, agora, percebermos que foi justamente por conta de concepções filosóficas que acometeram o Ocidente  que a educação caiu onde caiu.

Algumas pessoas poderiam, ainda, nos lançar uma última objeção. ‘Será que não há coisas prioritárias para serem estudadas? Por exemplo, medicina. Será que não é mais importante salvar a vida das pessoas para que, só então, elas pensem – ou possam pensar? Ou protegê-las e lhes dar conforto, estudando engenharia, por exemplo?’ Há quem diga que devemos dar uma atenção especial às ‘verdadeiras ciências’. Tal mentalidade, para Olavo, é típico dos países subdesenvolvidos:

Sobretudo em países do terceiro mundo, a formação das elites governantes é maciçamente concentrada em estudos de economia, administração, direito, ciência política e diplomacia. Para esses indivíduos, as letras e artes são, na melhor das hipóteses, um adorno elegante, um complemento lúdico às atividades ‘peso pesado’ da política, da vida militar e da economia.[40].

E completa dizendo que há uma falsa suposição, da parte de muitos, de que um povo deve, primeiro, atentar-se às questões políticas, militares e econômicas para, só então, lidar com os ‘tesouros culturais’:

Nenhum povo ascendeu ao primado econômico e político para somente depois se dedicar a interesses superiores. O inverso é que é verdadeiro: a afirmação das capacidades nacionais naqueles três domínios antecede as realizações político-econômicas.[41]

É interessante observar que C. S. Lewis faz a mesma constatação:

Se os homens tivessem adiado a busca do conhecimento e da beleza até estarem em segurança, essa busca jamais teria começado. […] Jamais faltaram razões plausíveis para se adiarem todas as atividades meramente culturais até que algum perigo iminente seja desviado ou evitado ou que alguma injustiça gritante seja consertada. Entretanto, a humanidade há muito tempo preferiu esquecer essas razões. Quis o conhecimento e a beleza agora, e não ia esperar o momento apropriado que jamais chega[42].

Um pouco mais adiante ele reforça a ideia:

Sempre houve muitos rivais de nosso trabalho. Estamos sempre nos apaixonando ou querelando, procurando emprego ou temendo perdê-lo, adoecendo e nos recuperando, acompanhando negócios públicos. Se nos deixarmos pegar pelo abandono, sempre ficaremos esperando que uma ou outra distração termine antes que comecemos de fato nosso trabalho. Os únicos que alcançam muito são os que desejam tão intensamente o conhecimento que o procuram enquanto as condições ainda são desfavoráveis.[43]

Somente, pois, uma mentalidade empobrecida, uma cultura pobre, um espírito intelectualmente empedernido, relega a segundo plano as ideias filosóficas e os intelectuais.

Conclusão

Não há dúvidas de que a formação de um intelectual é algo de extrema importância para a sociedade. Tornar-se douto nas ciências do espírito é de valor crucial a fim de ter a possibilidade de influenciar a cultura para o bem ou para o mal. E é justamente por conta da situação, do zeitgeist, do espírito pessimista que assombra a humanidade e enclausura a razão à falta de sentido para tudo – até mesmo à falta de verdades – que a educação é desprezada, e com isso os pensadores e intelectuais são incluídos na lista dos ‘entendedores inúteis’. Mas é justamente nesse desprezo que as pessoas se colocam à mercê deles – o que é um perigo caso tenham ideias más. É um sistema que se auto-alimenta. Quanto mais as pessoas ignorarem os pensadores, seus poderes de influência, e desprezarem a própria educação, não vendo nela nada além de um meio para se enriquecer, mais suscetíveis à manipulação, ao engano e ao engodo estarão. Se acreditamos que existe sentido para a vida, valores, e que há verdades objetivas, se temos interesse em mudar e melhorar a vida das pessoas, saibamos que o ofício de intelectual é urgente.

Referências bibliográficas

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SPROUL, R. C. Filosofia para Iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208p.

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[1] Novamente, vale ressaltar o fato de que ao mencionar Olavo de Carvalho não queremos endossar tudo o que ele diz. De fato, há diferenças marcantes entre o que pensamos. Não obstante, devemos considerar o que ele diz de bom. É impossível e imprudente ignorar um pensador brasileiro apenas pelo fato de termos diferenças claras com ele. O mesmo vale para os demais autores. Mas a nota talvez precise ser registrada em relação ao professor Olavo por conta dos ânimos inflamados ao redor do seu nome.

[2] CARVALHO, Olavo. O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota, p. 47.

[3] Ibid. A título de completude, temos Lewis dando alguma luz para os que não sabem qual seria sua vocação: “O modo com que um indivíduo foi criado, seus talentos, suas circunstâncias, normalmente são todos índices razoáveis de sua vocação” – LEWIS, C. S. O Peso de Glória, p. 53.

[4] SCHAEFFER, Francis. Como Viveremos? Tradução de…, p. 127.

[5] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. p. 49-50.

[6] James W. Sire, no celebrado ‘O Universo ao Lado’, bem nota que humanismo pode ser tomado de mais de um modo. Em suas palavras: “Primeiro, o humanismo secular é uma forma de humanismo geral, mas não a única forma. O humanismo em si é a atitude geral de que os seres humanos possuem valor especial; suas aspirações, seus pensamentos e anseios são significativos. Há também uma ênfase no valor da pessoa como indivíduo.” – SIRE, James W. O Universo ao Lado. Tradução de Marcelo Herberts. Brasília: Monergismo. 5ª ed., 2018. p.94.

[7] SCHAEFFER, Francis. Como Viveremos? p. 126.

[8] Noutro artigo, escrevemos sobre como as questões existenciais são rapidamente obliteradas no coração após a famosa ‘crise existencial’ da adolescência – ou de períodos próximos – para dar vazão à ocupação da razão com outras questões menos incômodas. Para verificar mais a este respeito, sugerimos a leitura do tal artigo em: http://panaceiateoreferente.blogspot.com/2013/10/a-crise-existencial-e-resolucao-no.html

[9] Vale mencionar que o termo foi trazido à baila com Calvino e Lutero e retomado com Abraham Kuyper e toda a sua tradição, da qual Schaeffer é um descendente, juntamente com Herman Dooyeweerd, Nicholas Wolterstorff, David Koyzis e muitos outros filósofos calvinistas que desenvolvem temas sociológicos e político-filosóficos.

[10] NASSER, José Monir.Prefácio. In_ JOSEPH, Miriam. O Trivium. Tradução e adaptação de Henrique Paul Dmyterko. p. 13.

[11] “Todos os homens, por natureza, tendem ao saber” – ARISTÓTELES, Metafísica, 980a20. Tradução de Marcelo Perine. Edições Loyola.

[12] CRAIG, William Lane. Apologética Para Questões Difíceis da Vida. p. 11.

[13] Esta, aliás, é uma noção muito comum nos diálogos platônicos – como República, Filebo e Fedro, que apontam a contemplação das verdades como exímio deleite da alma.

[14] SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Escrever, p. 20-21.

[15] Ibid, p. 19.

[16] LEWIS, C. S. O Peso de Glória. p. 59. A noção dos apetites para Lewis é trabalhada na primeira homilia que compõem essa obra, bem como numa clássica passagem de um de seus mais célebres livros, Cristianismo Puro e Simples, particularmente no capítulo ‘A Esperança’ do Livro III.

[17] Surpreendemo-nos em ver Pierre Hadot colocando a mesma questão como fundamental para todo o projeto filosófico da antiguidade. Cf. O Que é Filosofia Antiga?. Para Hadot, toda filosofia foi elaborada em prol de dar razão a um modo de vida, bem como compreendê-lo e vivê-lo com maior integridade. A proeminência das questões existenciais para toda a atividade teorética também foi defendida com brilhantismo no primeiro capítulo do Mito de Sísifo de Alberto Camus.

[18] O que, lembramos o leitor,  pode incluir não só filósofos mas, também, sociólogos, economistas… etc.

[19] PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia.

[20] SCHOPENHAUER, A Arte de Escrever, p. 17.

[21] O que, repetimos, poderá ser visto facilmente nos diálogos platônicos – como o Górgias, Protágoras e etc.

[22] CARVALHO, Olavo. A Filosofia e Seu Inverso, p. 35.

[23] SCHOPENHAUER, A Arte de Ler, p. 47

[24] ADLER, Mortimer J.; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros, p. 33.

[25] SCHOPENHAUER, A Arte de Ler, p. 114. Diga-se, de passagem, acreditamos que a leitura dos livros de Adler/Van Doren e Schopenhauer, relendo-os, após terminada a leitura, aplicando seus próprios métodos a eles mesmos, dará as competências iniciais para uma boa educação, ou pelo menos as bases para o aprendizado por meio da leitura.

[26] Expressão adleriana a respeito dos escritores de outrora.

[27] LEWIS, O Peso de Glória. p. 60.

[28] Embora, o leitor mais atento perceberá, já tenhamos demonstrado algo do seu valor quando apontamos para o desenvolvimento pessoal.

[29] SPROUL, R. C. Filosofia para Iniciantes, p. 22-23.

[30] DALRYMPLE, Theodore. A Vida na Sarjeta. p. 17.

[31] DALRYMPLE, A Vida na Sarjeta, p. 18. Roger Scruton faz uma ácida provocação quanto a isso ao mencionar a formação de Pol Pot: “Os genocidas influenciados por tal luta [a ‘luta dos trabalhadores’ inflamada por pensadores progressistas] não receberam qualquer menção nos escritos de Louis Althusser, Gilles Deleuze, Michel Foucault e Jacques Lacan, apesar de um desses genocídios ter se iniciado naquele exato momento no Camboja comandado por Pol Pot, um membro do Partido Comunista Francês educado em Paris” – Como Ser um Conservador, p. 17.

[32] Mas não só ele, posto que muitos outros filósofos, como o próprio Olavo de Carvalho ou o teólogo e economista Gary DeMar notam o mesmo.

[33] CRAIG, Apologética, p. 15.

[34] Novamente, não está sozinho, pois Schaeffer coaduna com ele em observar a existência desse projeto de manipulação ou formatação do pensamento.

[35] Vale mencionar que Olavo cita, constantemente, Antonio Gramsci para fundamentar suas acusações de que tal empresa é, de fato, encetada.

[36] CARVALHO, O Mínimo…, p. 172.

[37] SPROUL, R. C. Filosofia para Iniciantes, p. 11.

[38] SPROUL, Filosofia Para Iniciantes, p. 10-11.

[39] HOBBES, Thomas. Leviathan. Second Part, Chapter 18, Point 6, onde é dito, como prerrogativas do soberano: “Sixtly, it is annexed to the Soveraignty, to be Judge of what Opinions and Doctrines are averse, and what conducing to Peace; and consequently, on what occasions, how farre, and what, men are to be trusted withall, in speaking to Multitudes of people; and who shall examine the Doctrines of all bookes before they be published. For the Actions of men proceed from their Opinions; and in the well governing of Opinions, consisteth the well governing of mens Actions, in order to their Peace, and Concord. And though in matter of Doctrine, nothing ought to be regarded but the Truth; yet this is not repugnant to regulating of the same by Peace. For Doctrine repugnant to Peace, can no more be True, than Peace and Concord can be against the Law of Nature”.

[40] CARVALHO, O Mínimo…, p. 171.

[41] Ibid, p. 66.

[42] LEWIS, p. 53.

[43] Ibid, p. 62.

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