O valor da tradição para o cristão

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Introdução
Existe uma atitude típica na maioria das pessoas de buscar esquecer aquilo que lhe dá tristeza ou lhe parece mal, mas esteve em sua história, por meio da eliminação de qualquer coisa que o faça lembrar-se do tal objeto de seu atual desprezo. E isso vai daquilo que é meio de reminiscência mais óbvia – como retratos, e. g. – àquelas que não saberíamos caso não estivéssemos na pele da pessoa ou bem próxima a ela naquele período, como um objeto específico, uma música ou mesmo uma palavra dita desta ou daquela forma. Esse fenômeno pode atingir dimensões coletivas. No que diz respeito à mentalidade eclesiástica temos um excelente exemplo. Um espírito iconoclasta se alastra desde a Reforma Protestante e, particularmente no Brasil, onde vimos nossa liberdade religiosa ser concedida apenas aos poucos, com dificuldades, vítima do domínio Católico Romano, temos ojeriza a qualquer tipo de manifestação que nos associe a ele – o catolicismo. Não é raro, em meio a uma conversa entre irmãos, discutindo sobre alguma doutrina ou costume na Igreja, ouvirmos o argumento ‘mas isso é coisa de católico’. O argumento tem poder persuasivo enorme mas, é claro, é um argumento muito ruim. Primeiro que há várias coisas que eles confessam e defendem cuja defesa nos encetamos com igual vigor. Além disso, o que já vincula o assunto ao presente artigo, essas doutrinas que nos são comuns fazem parte de um lastro histórico ininterrupto e remontam o início da era Cristã, i. é, a Igreja Primitiva.1

Mas é aqui que as coisas ficam ainda mais nebulosas para muitas pessoas. Ainda há – ao menos confessionalmente – o apreço pela Escritura como única autoridade última no que diz respeito à fé e prática (ou, em outros termos, no que diz respeito aos pressupostos básicos de nossa cosmovisão) e estamos perfeitamente de acordo de que esse é o fundamento correto. No entanto, como bem sabemos – e não sempre com uma quantidade suficiente de informações -, a Igreja Católica propõe como complemento para a Bíblia a tradição, ou seja, que nem todas as verdades ensinadas por Cristo e pelos Apóstolos, as quais Deus revelou e intentou que conhecêssemos, estão nas Escrituras mas, antes, algumas não foram escritas e foram preservadas pela Igreja.2 Isso é o suficiente para muitos cristãos simplesmente desprezarem a história da Igreja, a história das doutrinas e a tradição teológica cristã. Tudo isso é feito sob a égide do Sola Scriptura, o que, por ironia, remonta à tradição reformada.3

No presente artigo, pois, desejamos corrigir essa atitude tola e incentivar o cristão protestante a valorizar da forma correta a herança cristã. Fomos particularmente movidos a pensar sobre este tema quando despertados por estas palavras de Lewis no ‘Cristianismo Puro e Simples’: “o cristianismo ‘puro e simples’, que é o que é e sempre foi, desde muito antes de eu nascer, quer eu goste disso, quer não”.4 Se há uma tradição teológica, qual é ela? Como apreciar isso sem ferir o princípio do Sola Scriptura? Como fazê-lo sem cair no mesmo erro que rejeitamos da parte do catolicismo? Com tantas denominações e pensamentos divergentes, há mesmo uma fé cristã sempre existente? Em uma só questão: se nossa regra de fé é a Escritura, como devemos encarar a produção teológica da Igreja no decorrer dos séculos?

Sola Scriptura

Não pretendemos nos demorar por aqui por uma questão de espaço. Só precisamos deixar bem claro na mente dos leitores a que se refere esse princípio para que algumas barreiras comecem a cair. Primeiramente, observemos que a Confissão de Fé de Westminster deixa explícita a rejeição à tradição conforme o uso romanista:

Todo o conselho de Deus, concernente a todas as coisas indispensáveis à sua glória, à salvação, fé e vida do ser humano, ou está expressamente registrado na Escritura, ou pode ser lógica e claramente deduzido dela; à qual nada, e em tempo algum, se acrescentará, seja por novas revelações do Espírito, seja por tradições humanas.5

A este princípio toda denominação legitimamente cristã deve se comprometer, pois é o que a própria Escritura reivindica. Mas o que queremos destacar neste mesmo capítulo da confissão está na seção VIII, a qual diz: “e assim, em todas as controvérsias religiosas, a Igreja deve apelar para eles [Velho Testamento e Novo Testamento] como recurso final”.6

A proposta da fé reformada – da qual a Confissão de Fé de Westminster é uma excelente representação – é para que a Escritura seja a autoridade final sobre o assunto, aquilo que elimina a controvérsia. Podemos encarar também como a base, os princípios pelos quais faremos teologia. Isso equivale a dizer que quando vamos refletir sobre um determinado assunto tomamos as Escrituras como fundamento para nossas reflexões. Acontece que as Sagradas Letras não estão dispostas em forma de compêndio teológico. Não existe, na Bíblia, algo como uma seção que mostra tudo que Deus tem a nos dizer sobre a Trindade, sobre doutrina da salvação, sobre o que é o homem e etc. Essas coisas estão dispersas nas Escrituras. Ajuntá-las de forma coerente e fazê-las dialogar com as questões de nossa época, com os desafios à fé bem como sobre a demanda por entendimento a respeito das coisas é tarefa que envolve muito labor. É fazer teologia.7 É por isso que Charles Hodge, no início de sua Teologia Sistemática,8 compara a Bíblia aos ‘anais da História’, aos quais o historiador deve recorrer e, sobre eles trabalhar para tirar suas conclusões, fazer as conexões causais e tudo o mais; ou à própria natureza, onde o cientista deve recorrer para organizá-la em seu entendimento com a finalidade de compreendê-la de tal forma que, assim como as ‘leis científicas’ não estão organizadas e patentes à natureza, também não estão as doutrinas na Escritura.9 Aqui, claro, já antecipamos um pouco um assunto que elaboraremos doravante. Passemos, pois, à consideração dos itens subsequentes tendo por certo que fora compreendido o papel das Escrituras na reflexão teológica: ela é o fundamento e autoridade final, e não a elucubração teológica pronta, ou, em outras palavras, ela é a matéria prima da produção teológica e filosófica.

Tradição para protestantes
Uma vez entendido o conceito que temos a respeito da Escritura, temos que esclarecer, em breves palavras, as noções em torno do vocábulo ‘tradição’. Como pretendemos estipular o valor da tradição para nós cristãos (protestantes) precisamos diferenciar o que chamamos de tradição e o que a Igreja Católica o denomina. Hodge nos informa:

Na Igreja primitiva, a palavra [tradição] foi usada nesse sentido amplo. Fazia-se constante apelo às ‘tradições’, isto é, às instruções que as igrejas haviam recebido. Somente algumas igrejas a princípio receberam instruções escritas por parte dos Apóstolos. E somente no final do primeiro século os escritos dos Evangelistas e Apóstolos foram colecionados e organizados num cânon ou regra de fé. E, quando os livros do Novo Testamento acabaram de ser colecionados, os pais falavam deles como contendo as tradições, isto é, as instruções derivadas de Cristo e de seus Apóstolos. Chamavam aos Evangelhos de ‘as tradições evangélicas’, e às Epístolas, de ‘as tradições apostólicas’. Nessa época da Igreja, a distinção entre a palavra escrita e não escrita ainda não havia sido distintamente feita. Surgiram, porém, as controvérsias e disputas de ambos os lados de todas as questões invocadas pela ‘tradição’, isto é, ao que ela havia ensinado; e, quando se descobriu que essas tradições diferiam, uma igreja dizendo que seus mestres sempre lhe ensinaram uma coisa, e que os mestres da outra lhe ensinaram o contrário, fez-se sentir a necessidade de algum padrão comum e autoritativo. Daí, os mais sábios e mais excelentes dos pais insistiram em optar pela palavra escrita e nada receber como de autoridade divina se não estivesse escrito ali.10

Portanto, primeiramente, havia a tradição apostólica entregue à igreja que logo foi registrada em textos. Mas havia uma tradição de ensinos dados às Igrejas que não receberam nenhum texto escrito, ou podemos pensar até mesmo nas igrejas que não tinham todas as instruções que temos com o cânon completo. Os apóstolos eram ‘cânones’ vivos e seus ensinamentos podiam ser tomados como palavra de Deus. Por isso, paralelamente aos textos havia uma tradição oral. Com o tempo essa tradição oral não foi preservada com integridade e logo, como vários grupos reivindicavam uma tradição distinta a respeito de alguns ensinos – o que tornou claro o fato da não preservação pois, afinal, o ensino apostólico não poderia se contradizer – alguns acharam por bem decidir que apenas a Escritura era uma fonte confiável a respeito das palavras dos Apóstolos pois, afinal, os textos já estavam reunidos e era possível recorrer a uma coleção de ensinos indubitavelmente apostólicos.

Mas para manter a postura em relação à tradição os católicos propuseram uma tentativa de solução. Com o fim de distinguir entre verdadeira tradição e falsa tradição adotaram o critério da ‘quod semper, quod ubique, quod ab omnibus‘, i. é., era algo proveniente dos apóstolos aquilo que sempre foi crido, em todo o lugar e por todos. É isso mesmo o que Newman reivindica: “Os dogmas cristãos estavam na Igreja desde o tempo dos apóstolos – substancialmente sempre foram o que são agora”.11  Hodge, no entanto, mostra que ele não é satisfeito por nenhuma de suas doutrinas particulares, as quais diferem do Cristianismo Protestante.12 Strong levanta o mesmo argumento: “Contudo, demonstra-se que isto não é verdade a respeito da concepção imaculada da virgem Maria; a respeito do tesouro dos méritos distribuídos em indulgências; da infalibilidade do papa”.13 Essas e as demais doutrinas podem ser mapeadas na história e ao fazê-lo logo se descobre que não foram sempre cridas (a partir de um determinado momento foram propostas por alguém e ratificadas pela instituição eclesiástica), nem por todos (havia facções distintas, legitimamente reconhecidas, que disputavam sobre uma questão que depois foi estabelecida) e muito menos em todos os lugares.

Isso não quer dizer que não podemos considerar que Newman estaria certo se estivesse se referindo às doutrinas básicas essenciais, aquelas doutrinas centrais que fazem com que todos os grupos que as assumam sejam cristãos, as quais Lewis chama de ‘Cristianismo Puro e Simples’.14 Seguimos Franklin e Myatt em crer que as doutrinas essenciais estejam no Credo Apostólico: “Desde cedo, a igreja cristã afirmou o conteúdo do ‘cristianismo puro e simples’, as afirmações mais básicas e distintivas da fé cristã, no assim chamado Credo dos Apóstolos”.15 Hodge faz sua lista:

Há certas doutrinas fixas entre os cristãos, como há entre os judeus e os maometanos, as quais não mais são questões abertas. As doutrinas da Trindade; da divindade e encarnação do eterno Filho de Deus; da personalidade e divindade do Espírito Santo; da apostasia e pecaminosidade da raça humana; as doutrinas da expiação do pecado através da morte de Cristo e da salvação através de seus méritos; da regeneração e santificação do Espírito Santo; do perdão dos pecados, da ressurreição do corpo e da vida eterna, sempre fizeram parte da fé de toda igreja historicamente reconhecida na face da terra, e não podem agora ser legitimamente postas em dúvida por ninguém que pretenda ser cristão.16

Aquilo que é discutido para além dessas doutrinas inegociáveis, embora possa ser muitíssimo importante, não causa tanto dano caso haja equívoco. Pode-se errar em pensar que o batismo deveria ser administrado com determinada porção de água, ou que determinada posição escatológica é a verdadeira. Isso seria um erro teológico. Mas uma heresia seria quando alguém descrê de alguns desses pontos principais apontados por Hodge ou pelo Credo Apostólico.

Sendo assim, podemos dizer que temos apreço pela tradição no que diz respeito à Escritura, e à fé universal da Igreja. Mas não consideramos que haja doutrinas não contidas nas Escrituras que foram preservadas pela Igreja. Não há, para começo de conversa, qualquer evidência para isso e todas as tentativas de reivindicação foram frustradas.

Os credos17
Louis Berkhof, em ‘Princípios de Interpretação Bíblica’ acusa um equívoco na utilização dos credos:

Após a Reforma, tornou-se evidente que os Protestantes não tinham removido completamente o velho fermento. Teoricamente, retiveram o princípio sadio: Scriptura Scripturae interpres. Mas, embora recusassem sujeitar sua exegese ao domínio da tradição e da doutrina da igreja como formulada pelos concílios e papas, corriam o perigo de escravizá-la aos Padrões Confessionais […] A exegese se tornou serva do dogmatismo e degenerou em mera pesquisa de textos-prova.18

Essa é, em nossa opinião, uma posição problemática e que levanta questões delicadas a respeito da ciência hermenêutica. Se o interpretarmos de forma generosa, então ele está condenando o apreço místico pelos credos e confissões, como se fossem inerrantes e infalíveis. Então uniríamos nossas vozes em uníssono para fazer tal denúncia. Lado outro, não existe problema algum em buscar bases bíblicas para justificar uma proposição num Credo – no sentido de investigar se aquilo está nas Escrituras – e muito menos de fazer da teologia de um credo uma regra orientadora a respeito de nossa interpretação das Escrituras. Calvino anunciava explicitamente o fato de que a teologia nos orienta na interpretação de uma passagem, conforme interpretação de McGrath:

Ainda que considere a teologia como ‘um eco do texto bíblico’, esta não representa, estritamente falando, um comentário sobre o texto, mas uma estrutura de interpretação através da qual o texto pudesse ser compreendido. (…) Os comentários podem esclarecer aspectos particulares dos textos bíblicos; as Institutas fornecem a estrutura através da qual a essência da proclamação bíblica pode ser percebida e compreendida.19

Isso não é forçar as Escrituras. Isso é algo inevitável no exercício interpretativo de qualquer pessoa. Ferreira e Myatt informam que bem antes de Calvino os próprios Pais já concebiam as coisas dessa forma:

Os pais da igreja tinham consciência da futilidade de argumentar com os hereges com base somente nas Escrituras, cujo significado eles podiam torcer – como de fato frequentemente torciam. Por isso eles apelaram ao credo, não só como resumo dos temas centrais da Escritura, mas como conteúdo mais básico dos pressupostos cristãos, que tinha sido preservado intacto na igreja desde os dias dos apóstolos. Neste caso, não se trata de subordinar as Escrituras à tradição, mas oferecer uma declaração sucinta dos pressupostos, sobre a qual não poderia haver debate algum.20

Quando formos ler alguma passagem que fala algo sobre Deus, sobre o homem, sobre o certo e o errado ou qualquer outra questão já teremos, antes, de forma elaborada ou não, consciente ou não, uma teologia a respeito do mesmo assunto e essa tentará amoldar o que for lido às suas formas.21 A. A. Hodge está em perfeito acordo com isso:

Caso rejeitem a assistência oferecida pelas afirmações doutrinais tardiamente elaboradas e definidas pela Igreja, então terão que elaborar seu próprio credo fazendo uso de sua tacanha sabedoria. A questão real não é, como às vezes pretendia, entre a Palavra de Deus e o credo humano, mas entre a fé investigada e provada da corporação coletiva do povo de Deus e o juízo individual e a sabedoria isolada, sem assistência, daquele que repudia os credos.22

Mas, para sermos justos com Berkhof,23 temos que expor o fato dele fazer aberta defesa às confissões em sua Teologia Sistemática:

Toda igreja deve lutar pelo senso de identidade própria na confissão da verdade. Para realizar isso, não somente terá que refletir profundamente na verdade, mas terá também que formular uma expressão daquilo em que crê. Fazendo-o, gerará em seus membros uma clara concepção da sua fé, e transmitirá aos de fora um definido entendimento de suas doutrinas.24

A sua defesa, primeiro, consiste em observar que a Igreja precisa expressar de forma clara e concisa o que acredita, o que a faz gerar Credos e Confissões. É preciso expressar o que crê, e ao fazê-lo faz-se um credo e não há nada mais natural. Daí Berkhof continua:

Naturalmente, a Bíblia não contém nenhum exemplo de credo. Os credos não são dados por revelação, mas são fruto da reflexão da igreja sobre a verdade revelada. Em nossos dias, muitos são avessos a símbolos e confissões, e entoam glorias a uma igreja sem credo. Mas as objeções levantadas contra os credos não são insuperáveis absolutamente. Os credos não são, como alguns insinuam, considerados como iguais em autoridade à Bíblia, e muito menos como superiores a ela. E nada acrescentam à Escritura, quer por afirmações expressas, quer por implicação. Não militam contra a liberdade de consciência, nem retardam o progresso dos estudos teológicos científicos. Tampouco podem ser considerados como causa de divisões da igreja, embora a possam expressar. As divisões vieram primeiro, e , então deram surgimento aos diversos credos. De fato, eles servem, em grande medida, para promover a unidade da igreja visível. […] Isso tudo não significa, porém, que não possa haver mau uso de um credo.25

Assim, seguindo a Berkhof e Hodge teremos ótimas réplicas aos que depreciam as confissões. A. A. Hodge observa que não existe uma tensão entre o apego às Escrituras e aos Credos, mas, na verdade, quem supõe que isso acontece e com suposta piedade abraça as Escrituras está simplesmente sendo arrogante, insensato e imprudente, preferindo seu credo particular, não-testado e nem refletido. Berkhof completa que os Credos não são superiores e nem iguais às Escrituras, e muito menos, na concepção protestante, acrescentam alguma coisa a elas. Eles são sistematizações e expressões concisas do que pareceu a um grupo estar contido, de forma dispersa, nas Sagradas Letras. Berkhof também observa que a confessionalidade (o abraçar algum credo) não é militar contra a liberdade de consciência pois, afinal, é deliberar conscientemente sobre um assunto e concordar com algumas proposições. Só seria um depor contra a liberdade de consciência se para tê-la não fosse possível concordar com nada. Muito menos milita contra o progresso científico. Antes o sustenta de forma adequada, como ficará claro doravante. E, por fim, não faz com que as igrejas se dividam, mas apenas expressa a divisão que já existe no pensamento e interpretação das Escrituras, embora essa divisão abrace, nas igrejas legitimamente cristãs, aquelas doutrinas centrais já mencionadas. Para terminar, evidentemente, ele diz ser possível um uso equivocado do Credo e acreditamos que seja o que ele diz no começo desta seção.

O progresso teológico

Se olharmos para os credos e confissões em ordem cronológica, via de regra, observaremos que os posteriores falam de coisas que os anteriores não falaram. Alguns poderiam ficar extremamente incomodados com isso. Afinal, isso não implica em contradizer a formulação de que tudo o que Deus queria nos dizer já nos foi dito nas Escrituras? Mas essa é uma contradição aparente. Podemos afirmar, sem qualquer prejuízo ao princípio da Sola Scriptura, que a teologia avança, prossegue, e que entendemos mais das Escrituras – se, e somente se, aproveitarmos toda a tradição teológica – do que antes. Berkhof está coberto de razão quando ressalta que

A igreja não pode descansar sobre os seus louros e dar-se por satisfeita com o conhecimento que alcançou da verdade divina e que formulou em suas confissões. Ela deve cavar cada vez mais fundo na mina da Escritura, a fim de trazer à luz os seus tesouros ocultos. Pelo estudo científico,26 ela deve procurar um conhecimento cada vez mais profundo uma compreensão cada vez maior das palavras de vida.27

Se retomarmos aquela formulação de Hodge, mencionada no início do artigo, de que a Bíblia é a matéria prima, análoga à natureza, então a formulação teológica progrediria tal como a formulação das ciências naturais e é isso mesmo que o próprio Hodge diz:

Todos os protestantes admitem que tem havido, em certo sentido, uma evolução ininterrupta da teologia da Igreja, desde a era apostólica até os dias atuais. Todos os fatos, verdades, doutrinas e princípios que se introduzem na teologia cristã estão na Bíblia. […] Nenhuma adição foi feita a seu número, e nenhuma nova explanação se ofereceu de sua natureza e relações. O mesmo procede quanto aos fatos da natureza. São agora o que têm sido desde o princípio. Contudo, são muito mais conhecidos e mais claramente discernidos agora do que o foram há mil anos.28

Com isso não precisamos postular nenhum material novo, nenhuma nova revelação, exatamente como insistentemente confessamos. A revelação cessou, mas nossa compreensão a seu respeito não para de evoluir. Strong ilustra a questão de forma muito didática quando compara o avanço teológico com o avanço astronômico:

O progresso da teologia está na apreensão da parte do homem, não no progresso da comunicação da parte de Deus. A originalidade na astronomia não está na criação de novos planetas, mas na descoberta dos que nunca foram vistos antes, ou no esclarecimento das relações entre aqueles de cuja existência nunca se suspeita.29

É importante observar que o progresso teológico assimila o que já foi elaborado anteriormente. Novamente, Charles Hodge o admite claramente:

E como tem sucedido em questões de ciência, embora uma falsa teoria suplante outra, fundada em princípios equivocados ou em imperfeita indução dos fatos, todavia se tem feito real progresso, e o campo, uma vez conquistado, jamais perdido, assim devemos naturalmente esperar que seja com o estudo da Bíblia.30

Não poderíamos esperar menos da Palavra de Deus. Como tal, essa coleção de livros tem que ensejar respostas para as questões mais importantes da vida, para as questões últimas, e, sendo assim, com toda a profundidade necessária que ela, como texto inspirado por Deus, tem de ter, não poderia deixar de ter ‘camadas’ cada vez mais elevadas de conhecimento. Evidentemente isso não quer dizer que não haja partes simples o suficiente para qualquer pessoa, usando as competências naturais, não possa entender. Isso está explícito na Confissão de Fé de Westminster:

Todas as coisas, por si mesmas, não são igualmente claras nas Escrituras, nem igualmente evidentes a todos; não obstante, aquelas coisas que precisam ser conhecidas, cridas e observadas para a salvação são tão claramente expostas e visíveis, em um ou outro lugar das Escrituras, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar um suficiente entendimento delas.31

E Charles Hodge, na esteira da Confissão de Fé supramencionada, é cauteloso o suficiente para, enquanto afirma a profundidade da Escritura Sacra também admitir sua perspicuidade:

A Bíblia, embora seja tão clara e simples em seu ensino, tanto que quem corre para lê-la e aprendê-la encontra o suficiente para assegurar-se de sua salvação, é ainda repleta dos tesouros da sabedoria e do conhecimento de Deus […], as mais profundas verdades concernentes a todos os grandes problemas que sobrecarregam o intelecto do homem desde o princípio dos tempos. Essas verdades não são sistematicamente delineadas, mas promiscuamente dispersas, por assim dizer, nas páginas sacras, precisamente como os fatos da ciência estão dispersos sobre a face da natureza, ou ocultos em suas profundezas.32

Notemos que é dito que o que é preciso conhecer para a salvação está claramente exposto na Escritura. Mas Hodge também nota que a Bíblia oferece respostas para as questões filosóficas mais instigantes – e por isso ‘complicadas’, ‘difíceis’33 – e que, todavia, não estão dispostas sistematicamente por suas páginas. Nossa conclusão não poderia ser outra senão que “Ela [a Bíblia] está para a razão como um livro que, sendo o tema de devotado e laborioso estudo, século após século, manuseado por homens capazes e fiéis, chega a ser mais e mais compreendido.34

Heresias e equívocos como motores do desenvolvimento teológico

É importante notar que boa parte do desenvolvimento teológico se deu devido a algum problema ou heresia terem surgido ou no seio da Igreja ou por desafiantes externos. Franklin Ferreira e Alan Myatt chamam a este fenômeno de ‘escritos ad hoc’:

Os primeiros pais da igreja não escreveram teologias sistemáticas como as conhecemos. Por causa das tensões e pressões em que viviam, esses homens se dedicaram aos escritos ad hoc, escritos de ocasião, muitas vezes para responder a algum desafio específico do tempo em que viviam.35

O que se seguiu foram formulações de credos para definir o que a Igreja pensa. Em certo sentido, pois, as heresias destruidoras foram providenciais. Elas fizeram a igreja debruçar-se sobre as Escrituras para responder às aporias e questões que lhe eram lançadas. Às vezes cometiam-se erros e distorções, verdadeiras falácias ‘ataque ao espantalho’, quando se referiam ao credo da Igreja. Então uma confissão era necessária para mostrar o que, de fato, acreditavam:

A necessidade de fazê-lo foi grandemente incrementada pelas históricas perversões da verdade. O surgimento de heresias invariavelmente reclamava a elaboração de símbolos e confissões, afirmações claramente formuladas da fé esposada pela igreja.36

Outras tantas, alguma tentativa de refutação à fé cristã era jogada sobre a Igreja e um escrito apologético ‘ad hoc’ se fazia necessário. Pensaram em coisas que não haviam sido consideradas.

Aristóteles faz uma interessante consideração que pode muito bem ser aproveitada nesta discussão:

Não passa de justiça mostrar gratidão não apenas com aqueles cujos pareceres podemos partilhar, como também com aqueles que exprimiram opiniões um tanto superficiais. Estes também contribuíram com alguma coisa. Foi graças ao seu trabalho preliminar que o exercício intelectual foi desenvolvido […] extraímos certos pontos de vista de alguns deles e eles, por sua vez, estavam em débito com outros.37

Isso é claro no que diz respeito ao desenvolvimento da doutrina sobre Cristo nos primeiros séculos. Podemos ver, também, claramente a soteriologia sendo desenvolvida na Reforma e pós-reforma; uma eclesiologia que amplia sua missiologia, talvez, sugerimos, a partir dos despertamentos missionários; a escatologia ganhando novos contornos no século XIX; bem como a manuscritologia e alta crítica para responder aos céticos e buscar vindicar a integridade dos textos bíblicos. Isso coloca a Igreja em franco diálogo cultural e apologético com o mundo e os pensadores pagãos. Muito mais do que Aristóteles pensou, temos que agradecer àquele que dirige a história e faz bem dos intentos malignos dirigidos contra a Igreja.38

O que não tomar por progresso
Essa perspectiva progressiva da teologia pode, contudo, nos levar a erros típicos das ciências humanas, sendo alguns particularmente aplicáveis à teologia de um ponto de vista reformado (i. é, biblicamente orientado).

É bem verdade que o desenvolvimento filosófico39 e científico40 pode contribuir para a nossa compreensão das Escrituras. Não obstante, vários cuidados devem ser tomados. Em prol de uma ‘teologia moderna’, alguns negociam o inegociável para alçarem o ar de cientificidade e respeitabilidade. Daí Moreland e DeWeese nos advertem:

Tome cuidado com a adesão a concepções de ensinamento bíblico que pareçam ser revisões politicamente corretas da Bíblia Um bom teste para tais revisões é quando uma posição em uma área de ensinamento bíblico tenha sido adotada recente e justamente em um período em que houve pressão ideológica da cultura geral para que tal posição fosse aceita de alguma maneira. É mais do que irônico que seja descoberta, pela primeira vez na história da igreja, uma concepção que ‘coincidentemente’ está sendo recomendada pelos críticos da igreja.41

Qual o prejuízo psicológico e social em não se aceitar uma filosofia? Em que ela discorda da teologia precedente? Ela fere os pontos inegociáveis? O proponente de tal formulação conhece os principais autores cristãos que lidam com a questão? Por que Agostinho, Boécio, Anselmo, Abelardo, Aquino, Boaventura, Ockham, Scotus, Calvino, Lutero, Pascal, Leibniz, Locke, Descartes, Reid ou Kierkegaard discordam de determinado postulado? E o que dizem os teólogos mais importantes das igrejas reformadas, tais como, somados a Calvino, Turretini, Hodge, Strong e Bavinck, e. g.? Com isso queremos ressaltar o que já dissemos antes, a saber, que o progresso deve considerar com seriedade o passado e o que já se produziu para que o novo proponente não seja apenas um produto de seu meio, subvertendo a teologia para ficar de bem com o mundo.

Em seguida Moreland e DeWeese fazem uma observação extremamente sagaz. Não seria realmente estranho que justamente críticos mordazes do Cristianismo42 é que estejam propondo a verdade à qual a fé deve se amoldar? Daí Schaeffer adverte com grande perspicácia:

Se começarmos a orientar o que a Bíblia diz sobre o cosmos, história e mandamentos absolutos quanto à moral de acordo com os padrões culturais, estaremos seguindo a nossa própria forma de metodologia existencial. E, se fizermos isso, a próxima geração certamente acabará em desvantagem, no que diz respeito ao Cristianismo histórico.43

É evidente que a Igreja precisa dialogar com as questões de sua época. Isso sempre foi feito e com excelentes resultados. Mas ela não deve se dobrar às novas modas para ser aceita. Ela deve dialogar criticamente, sustentando seus princípios ao invés de amoldar-se à última moda filosófica. É possível reconhecer que há sabedoria fora da Igreja. Agostinho, Calvino e tantos outros o fizeram. 44De fato, se olharmos para o Antigo Testamento isso ficará claro,45 como nota Kuyper:

Cristo não é parcialmente de Israel e parcialmente das nações; ele é somente de Israel. A salvação é dos judeus. Mas na mesma proporção em que Israel brilha de dentro para fora no campo da religião, assim é igualmente invertido quando vocês comparam o desenvolvimento de sua arte, ciência, política, comércio e negócio com o das nações vizinhas.46

Israel bem poderia aproveitar-se da ciência desenvolvida fora de seus arraiais. De fato ela valeu-se dela para construções, como nos lembra o próprio Kuyper.47 O grande segredo é o de observar que as Escrituras nos fornecem os pressupostos básicos para erigirmos uma cosmovisão abrangente, coerente e prática. Daí a sabedoria, seja de onde ela vier, servirá como ferramenta para a construção de nossa teologia e, por conseguinte, concepção de mundo.48

Progresso e novidade: devemos ler apenas o que é novo?
Mas apenas um equívoco foi contemplado, a saber, aquele em que se amolda ao pensamento anticristão. Existe outro equívoco, que é o de considerar que apenas o que foi escrito por último é relevante, já que há progresso no pensamento.49 Nesse espírito muitos acabam abraçando o que nos acostumamos a chamar de ‘argumentum ad novitatem’, que é o nome de uma falácia em que alguém julga que algo é bom porque é novo, o que nem sempre (raramente, alguns insistem) é assim. Há pelo menos dois bons motivos para descrer no mito do valor da novidade enquanto novidade que culmina na suposição de que devemos ler apenas o que é mais recente nas ciências humanas.

Devemos ler os autores antigos, primeiro, porque para uma boa compreensão de um bom autor qualquer se faz necessário dialogar com suas fontes, entender o que ele entendeu. E um bom autor, via de regra, interagiu com outros autores. Olavo de Carvalho50 é perspicaz em notar que

Para compreender um filósofo – dizia Benedetto Croce – é preciso saber contra quem ele se levantou polemicamente. É uma regra dialética. Ortega y Gasset dava-lhe expressão formal dizendo que a forma própria da proposição filosófica não é ‘A é B’, mas ‘A não é C e sim B’. Em suma, cada tese filosófica só é compreensível como antítese de uma tese que a precede – tese que pode vir de uma outra filosofia, da religião, de uma ideologia política ou de uma opinião corrente. Se isto é assim, a filosofia é dialética por essência, e não por acidente (…).51

Isso quer dizer que não conseguiremos compreender bem um pensador52 sem entender quais questões ele tentou responder e é adequadamente cabível supor que essas questões surgiram a partir de suas leituras, ainda que em forma de insights. Se aquilo que o autor buscou responder for ignorado podemos não perceber o seu valor e, com isso, desprezar suas grandes contribuições. Respostas para questões que não fizemos tendem a não ser tão interessantes. Pode ser que as questões com as quais estão lidando sejam elaboradas de forma mais clara, evidente ou completa nos autores que foram lidos pelo escritor que estamos tentando entender. Adler e van Doren sustentam o mesmo argumento:

É bom lermos o que bons autores leram para entendê-los de forma mais substanciosa “… eles [os que se iniciam na leitura dos clássicos] acham que conseguiriam entender o primeiro livro que pegam na estante sem ter lido os outros livros com os quais ele se relaciona. […] Muitos clássicos não só estão relacionados entre si, como também foram escritos em certa ordem, que não pode ser ignorada. O autor que vem depois é influenciado por aquele que veio antes. Se você ler primeiro o auto mais antigo, talvez fique mais fácil a compreensão do que veio depois. Ler livros relacionados fazendo as devidas relações entre eles, numa ordem que deixe os posteriores mais inteligíveis – eis um princípio básico (…).53

Isso, evidentemente, vale para as questões teológicas. Valem para todas as ciências humanas, em geral.54 Para entendermos bem um autor, ou mesmo uma confissão de fé, temos que entender que discussões empreendeu, quais questões buscou resolver e até mesmo quais ignorou. Uma boa compreensão de Schaeffer, Van Til, Dooyeweerd e Plantinga sem entender Platão, Aristóteles, Agostinho, Anselmo, Aquino, Calvino, Descartes, Locke, Hume, Reid, Kant, Kierkegaard e Heidegger (para ficar em poucos nomes clássicos, além dos próprios contemporâneos daqueles), por exemplo, é tarefa hercúlea, senão impossível. Pode-se compreender uma parte do que disseram, mas não tudo. Não se avança formulando tudo sozinho. Bons autores colheram o que veio antes. Newton reconhece isso numa célebre declaração feita no Royal Society quando disse: “Se longe enxerguei é porque estive apoiado em ombros de gigantes”.55 Se quisermos enxergar mais longe, precisamos subir nos ombros dos gigantes do passado – que foi o que fizeram eles, apoiando-se nos grandes nomes que os precederam – como os gigantes do presente o fizeram.

Mas a questão não precisa se restringir a entender autores. Não temos mero interesse histórico. Queremos entender autores para colher sua contribuição na elucidação, formulação de problemáticas e resoluções apresentadas para indagações importantes a respeito do mundo, da verdade e de nossas vidas. Por isso, podemos pensar em termos de evolução de uma questão. Nessa entoada, temos, novamente, Olavo de Carvalho notando o que ele chama de ‘status quaestionis’ (o estado da questão), explicado assim:

O status quaestionis, ‘estado da questão’, é a evolução dos debates sobre um determinado ponto desde a origem da discussão até hoje. O conhecimento do status quaestionis distingue o erudito profissional do palpiteiro amador.56

Compreender bem uma questão é seguir as trilhas de seu desenvolvimento, bem como seus descaminhos, incluindo aí a percepção possível de como os autores se afastaram da discussão e ignoraram bons pensadores que discutiram a questão. Alguém que peque nisso é evidentemente um pesquisador descuidado e deve ser considerado suspeito. Os pensadores dignos de nossa atenção consideraram o ‘estado da questão’, aponta o filósofo:

Num relance, compreendíamos o sentido vivo daquilo que Aristóteles pretendera ao afirmar que o exame dialético tem de começar pelo recenseamento das “opiniões dos sábios” e tentar articular esse material como se fosse uma teoria única. Cada filósofo tem de pensar com as cabeças de seus antecessores, para poder compreender o status quaestionis – o estado em que a questão chegou a ele.57

A bem da verdade, faz todo sentido considerar o que pensaram outros homens inteligentes e estudiosos. Por isso, Carvalho emenda:

Mesmo na doce hipótese de que por natural instinto de comedimento ele se recuse ao bate-boca estéril e prefira trancar-se em casa para raciocinar a sós, jamais passará de um especulador maluco, de um novo Brás Cubas a rebuscar em vão soluções já mil vezes encontradas, a polemizar com as sobras de seus próprios enganos, a esgotar-se em perguntas estéreis e em tentativas de provar o impossível.58

Ignorar a sabedoria de outros homens é algo imprudente e, não raro, oneroso e com poucos efeitos ou mesmo nenhum. Esse fenômeno é particularmente pungente no que diz respeito ao fazer teologia. A conclusão é que o primeiro motivo pelo qual não devemos ignorar a produção anterior é que ela lança luzes sobre a interpretação e compreensão das discussões contemporâneas. Ler um bom autor clássico, antigo, pode tornar um autor posterior mais plausível e compreensível.59

Como dissemos, há dois motivos para não se prender à última novidade. Além desse princípio hermenêutico apontado acima, existe outro que se pauta no mito muito difundido de que a novidade é sempre melhor. Schopenhauer é particularmente ácido para com novidades. No texto ‘A Arte de Escrever’ podemos perceber algumas várias porções em que ele faz esse tipo de crítica severa. Vamos acompanhá-lo com o fim de aplicar as lições ao nosso tema. A primeira menção que queremos fazer é à sua mui sapiente refutação à pressuposição popular de que os últimos autores absorveram tudo o que veio antes deles. Na maioria dos casos eles nem leram os grandes autores. Para piorar, mesmo quando leram, amiúde, os compreenderam mal, leram de forma inadequada e ignoraram porções importantes de suas obras:

Não há nenhum erro maior do que o de acreditar que a última palavra dita é sempre a mais correta, que algo escrito mais recentemente constitui um aprimoramento do que foi escrito antes, que toda mudança é um progresso. As cabeças pensantes, os homens que avaliam corretamente as coisas são apenas exceções, assim como as pessoas que levam os assuntos a sério. […] Por isso, quem quer se instruir a respeito de um tema deve se resguardar de pegar logo os livros mais novos a respeito, na pressuposição de que as ciências estão em progresso contínuo e de que, na elaboração desse livro, foram usadas as obras anteriores. […] Com frequência, o escritor não entende a fundo os livros anteriores […]. Muitas vezes, esse escritor deixa de lado o melhor do que tais obras revelaram; seus mais precisos esclarecimentos a respeito do assunto e suas mais felizes observações porque não reconhece o valor dessas coisas, não sente sua relevância.60

O autor é particularmente incomodado com o fato de que as pessoas se entregam às últimas novidades imaginando ser o ápice da sapiência humana. Ele nota, observando a história da filosofia, que modas vêm e vão e as pessoas sensatas não se deixam impressionar pela retórica da novidade:

Em quase todos os tempos, tanto na arte quanto na literatura, entra em voga e é admirada alguma noção fundamentalmente falsa, ou um modo falso de se expressar, ou um maneirismo qualquer. As cabeças triviais se esforçam ardentemente para se apropriar de tal noção e exercitar tal modo. O homem inteligente reconhece e despreza essas coisas, permanecendo fora de moda. Contudo, após alguns anos, o público o segue e reconhece a farsa como o que ela era, ridicularizando a moda, e dessa maneira cai por terra a maquiagem, antes admirada, de todas aquelas obras amaneiradas, como um reboco malfeito cai de uma parede com ele revista.61

Já os menos doutos se aproximam dos de igual monta, por afinidade, e alardeiam seus escritos como grandes descobertas, ao passo que desprezam os grandes vultos do passado:

… o que pode ser mais mesquinho do que o destino desse público beletrista que mantém o compromisso de ler sempre a última coisa escrita por cabeças das mais vulgares, por pessoas que escrevem apenas por dinheiro e, por isso mesmo, podem ser encontradas em grande número, enquanto as obras dos espíritos mais raros e elevados de todos os tempos e países são conhecidas apenas de nome!62.

Podemos dizer que tanto Adler e Van Doren quanto Schopenhauer concordariam com a recomendação de Carvalho: “Comece com as obras mais antigas, e isso facilitará a seleção das mais recentes”.63 Adler e Van Doren são, na verdade, ainda mais específicos: comece pelos clássicos, pelos textos consagrados, testados pelo tempo e pela crítica de outros igualmente reconhecidos como doutos. As pessoas costumam ignorar o que foi apresentado e o resultado, aponta Schopenhauer, é que é típico do vulgo se prender às novidades e isso as conduz à estagnação e adestramento do pensamento,64 o que não queremos para nós e para a Igreja, evidentemente. No tocante à teologia parece-nos que a sugestão não difere. Ler os Credos e Confissões é absolutamente essencial. Conhecer os grandes pensadores que os inspiraram também é mais do que recomendável. Carvalho considera essa comunicação com a sabedoria de todos os tempos como o verdadeiro propósito da educação:

O objetivo primeiro da educação superior é negativo e dissolvente: consiste em ‘desaculturar’, no sentido antropológico do termo: desfazer os laços que prendem o estudando à sua cultura de origem, às noções consagradas do ‘nosso tempo’, à ilusão corrente da superioridade do atual, e fazer dele um habitante de todos os tempos, de todas as culturas e civilizações.65

Aristóteles nos dá o arremate. O estagirita dá forma filosófica ao adágio popular de que ‘duas cabeças pensam melhor do que uma’. Em outras palavras, dialogar com as mentes mais brilhantes de todos os tempos nos faz estar mais seguros na busca pela verdade:66

… se nenhuma pessoa isolada é capaz de ter uma adequada apreensão dela [da verdade], não é possível que todos falhemos na tentativa. Cada pensador faz alguma observação a respeito da natureza e, individualmente, pouco contribui ou em nada contribui para a investigação; mas uma combinação de todas as conjecturas tem como resultado algo considerável.67

E essas considerações se aplicam inclusive no que diz respeito à compreensão das Escrituras. Vários teólogos fizeram considerações muito parecidas no que diz respeito à compreensão científica histórica.

O valor hermenêutico-bíblico e teológico da tradição

O especialista em Teologia Histórica, Dr. Robert Letham, no início de uma de suas obras, faz esta importante colocação:

Em primeiro lugar, estaremos enganados se pensarmos que podemos ler a Bíblia somente por nós mesmos. Toda interpretação das Escrituras é construída sobre o que aconteceu antes de nós. No século 19, um pequeno grupo dos Estados Unidos decidiu abandonar o ensino histórico das Escrituras e estudar as Escrituras por si mesma, partindo do básico. Esse grupo publicou uma revista com o resultado dos seus estudos, chamada Studies in the Scriptures. E assim nasceu a seita conhecida como as Testemunhas de Jeová.*¹ […] Como podemos ver, as Testemunhas de Jeová não fizeram nada verdadeiramente novo; elas apenas reproduziram as heresias do Arianismo do século 4º*². Em segundo lugar, se depreciarmos as dificuldades passadas da igreja, não estaríamos nós cheios de orgulho? Não seria talvez o caso de estarmos tão envolvidos com o que o Espírito Santo esteja nos mostrando agora que nós prestamos pouca atenção ao que ele mostrou a outros? Parte da razão pela qual a tecnologia tem avançado tanto hoje é porque ela possui uma base de um longo período para se apoiar. Ela não tem tentado reinventar a roda!68

Basicamente, Letham nos dá um excelente panorama para discutir o assunto, com vários argumentos que podem ser explorados. O primeiro argumento a respeito do valor da teologia histórica é que estaremos – quer queiramos quer não, quer percebamos quer não – envolvidos, enredados em alguma perspectiva histórica. Isso é, de fato, muitíssimo verdadeiro. Via de regra, estaremos na esteira de algum pensamento, teológico ou filosófico, e nossa interpretação será influenciada pelos princípios admitidos nessa linha. Todo exercício exegético parte de alguns princípios e pressupostos que podem ser usados de forma consciente ou não.69 Só por aí nos parece sensato vincular nossos princípios ao lastro histórico-teológico ortodoxo.

Em seguida, Letham usa um argumento ad baculum, i. é., mostrando que o risco de se interpretar ignorando toda a história interpretativa e teológica é o de cair em erros gritantes como as Testemunhas de Jeová.70 E são veredas perigosas demais para se equivocar.
Um terceiro argumento que pode ser depreendido é que nem mesmo eles que pretendiam inovar o fizeram. Se tivessem olhado para os corredores da história teriam percebido que boa parte de suas questões já haviam sido levantadas e refutadas. As Testemunhas de Jeová são como um remake de Ário.71 Por isso Zuck é muito feliz nesta analogia:

Quando você está dirigindo um carro, precisa ficar atento a toda a sinalização rodoviária. Algumas placas servem para advertir […]. Outras mostram a direção […]. Já outras placas são meramente informativas […]. De forma semelhante, o entendimento de como pessoas e grupos interpretavam a Bíblia antigamente pode funcionar para nós como uma espécie de sinalização, advertindo, conduzindo e informando. Como placa de advertência, o estudo da história da interpretação bíblica pode ajudar-nos a enxergar os erros que outros cometeram no passado e suas consequências […].72

Em quarto lugar, Letham é feliz ao notar, de forma muito adequada, que seria uma pretensão arrogante ignorarmos a iluminação dispensada pelo Espírito em outras épocas. Deus providenciou mestres para responder a questões que constantemente voltam com uma nova roupagem oferecendo objeções para as quais já temos a resposta. É por isso que Lewis é feliz em observar, pela personagem ‘Screwtape’, que, enquanto Deus, pela Igreja, tenha produzido ótimas respostas às objeções anticristãs, são os ímpios quem melhor propagam suas ideias.73 Nós desprezamos o que Deus nos deu quando ignoramos a história. Esse tipo de atitude soberba é denunciado por Spurgeon num livreto intitulado ‘Como Ler a Bíblia’:

Alguns, sob o pretexto de estar sendo ensinados pelo Espírito Santo, se recusam a ser instruídos por livros ou por homens. Essa atitude não honra ao Espírito de Deus; pelo contrário, desrespeita-O, porque se Ele dá a alguns dos seus servos mais luz do que dá a outros — e é claro que Ele dá — esses estão obrigados a transmitir essa luz aos outros, e usá-la para o bem da igreja. Se, porém, o restante da igreja se recusa a receber essa luz, com que propósito o Espírito de Deus a deu?.74

Aqui Spurgeon explicita o fato óbvio de que Deus dispensa mais luz a alguns homens com vistas à instrução da própria Igreja.

Logo em seguida o ‘Príncipe dos Pregadores’ expressa uma condenação severa:

Seria muita iniquidade nossa dizermos: “Não queremos os tesouros celestiais que existem em vasos de barro. Se Deus nos der o tesouro celestial com a sua própria mão, nós o aceitaremos, mas não através de vasos de barro. Pensamos que somos suficientemente sábios, com mentalidade celestial, e muito espirituais para dar valor às jóias quando estão colocadas em vasos de barro. Não queremos ouvir a ninguém, e não queremos ler algo além da Bíblia, nem queremos aceitar alguma luz a não ser aquela que passa por uma fenda em nosso próprio telhado. Não queremos ver com a claridade da vela de outro; preferimos permanecer na escuridão”. Irmãos, não caiamos em semelhante insensatez. Se a luz vier da parte de Deus, mesmo que seja trazida por uma criança, nós a aceitaremos com alegria.75

Muitos anos depois Paul Washer iria expressar-se, de forma muito semelhante, sobre a insensatez de ignorar a providência divina.

Como cristão você não pode se separar de dois mil anos de história da Igreja Cristã. A sabedoria não nasceu com você e não vai morrer com você […]. Há inúmeros santos que viveram antes de você, e Deus usou muitos deles para mudar o mundo […]. Você deve estudar a Escritura, e a Escritura tem que estar acima de todas as coisas. Mas quero que você aprenda a estudar a Escritura no contexto da cristandade, no contexto de dois mil anos de história em que homens e mulheres estudaram as Escrituras.76

E um pouco depois, na mesma exposição, Washer completa:

(…) como posso saber que realmente entendi este texto? […] Uma vez que eu interpretei o texto, volto para a história da Igreja, e me pergunto: será que mais alguém interpretou este texto como eu, ou será que minha interpretação é nova comigo? Se ninguém repetiu a interpretação que faço do texto, então provavelmente estou errado. Se todos os santos através das eras estão em acordo e todos discordam de mim, eu provavelmente estou errado.77

No livro sobre hermenêutica de Berkhof podemos colher conselhos que ajudam a arrematar o ponto e completar a instrução. No que diz respeito à interpretação científica da Escritura, i. é., a exegese séria, afirma o teólogo, precisamos fazer todo o trabalho investigativo e depois verificar se nosso proceder encontra respaldo histórico ou aprovação em alguma grande mente consagrada e admitida por todos como dotada de grande luz:

Ao procurar explicar uma passagem, o intérprete não deve recorrer imediatamente ao uso dos comentários, uma vez que isso pode impedir toda a originalidade no início, envolver uma grande quantidade de trabalho desnecessário, e ainda resultar numa confusão inútil. […] Seu trabalho será bastante facilitado se ele abordar os Comentários, tanto quanto possível, com questões definidas na mente. […]… quando ele [o intérprete] consulta os comentários com uma certa linha de pensamento em mente, estará mais bem preparado para escolher entre as opiniões conflitantes que pode encontrar. Caso tenha sucesso em dar uma explicação aparentemente satisfatória sem a ajuda de comentários, é aconselhável que compare sua interpretação com a de outros. E, se descobrir que sua interpretação é contrária à opinião geral em algum ponto particular, deve ter a sabedoria de cobrir cuidadosamente aquele campo mais uma vez para ver se considerou todos os dados e se suas inferências estão corretas em cada aspecto. Ele pode detectar algum erro que irá compeli-lo a rever sua opinião. Mas se achar que a cada passo que deu está bem fundamentado, então deve sustentar sua interpretação a despeito de tudo o que os comentaristas possam dizer.78

Os conselhos de Berkhof são destinados mais especificamente à interpretação do texto bíblico e o uso de comentários. Em poucos termos podemos dizer que eles devem ser observados após o estudo particular, valendo-se de ferramentas linguísticas e antropológicas, de uma passagem Bíblia. É possível que discordemos dos comentaristas que temos em mãos, que não são todos, onde concordaríamos com Berkhof completamente. No entanto, ficamos com Washer no que diz respeito à inovação completa. Se nossa interpretação de um texto é inédita em toda a história e não há resquício de que nenhuma igreja e grupo de pensadores adotaram uma visão temos, provavelmente, uma interpretação falsa. Ao interpretarmos algum texto e formularmos alguma concepção teológica devemos verificar todas as confissões de que temos notícias para ver se há algum respaldo. Em seguida, seria ainda mais adequado ver como a Igreja lidou com essa posição. Quais foram os argumentos dos que adotaram essa posição e quais são as críticas dos que não a adotaram. Isso nos leva ao último ponto.

Por fim, Robert Letham retoma o argumento do progresso, que já abordamos outrora. Se quisermos progredir na compreensão teológica e abençoar a Igreja e as gerações posteriores precisamos colher o que já foi produzido para não ‘reinventarmos a roda’ ou ‘redescobrir o fogo’. Dessa forma, Letham parece subscrever a todas as nossas perspectivas. Ele admite o valor dos textos antigos ao mesmo tempo em que subscreve a ideia de progresso científico-teológico. A história do pensamento cristão é, portanto, evidentemente algo de inestimável valor para todo cristão, principalmente aos mestres, pastores, e que tenham alguma atividade intelectual séria.

Conclusão
Concluamos, pois, com as sábias palavras de Charles Malik às quais, esperamos, o leitor poderá subscrever, valorizando nossa herança e enriquecendo-se com ela:

A nutrição intelectual não pode acontecer separadamente de uma profunda imersão, por vários anos, na história do pensamento e do espírito. As pessoas que estão com pressa de sair da universidade e de começar a ganhar dinheiro, ou de servir a igreja, ou de pregar o evangelho, não fazem a menor ideia do imensurável valor de gastar anos de prazer conversando com as maiores mentes e espíritos do passado, amadurecendo, aperfeiçoando e ampliando os seus poderes de pensamento.79


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1O que será explicado logo adiante.
2Na Sessão IV do Concílio Ecumênico de Trento, por exemplo, é dito que “esta verdade [a do Evangelho, prometido pelos Profetas, anunciado primeiro pelo Filho e que, em seguida, foi ordenado por ele para ser divulgado pelo mundo pelos Apóstolos, como fonte da salvação] e disciplina estão contidas nos livros escritos e nas tradições não escritas, que recebidas na voz do mesmo Cristo pelos apóstolos ou ainda ensinadas pelos apóstolos, inspirados pelo Espírito Santo, chegaram de mão em mão até nós”.
3Talvez esse seja um mal do Brasileiro. Permitam-nos citar Machado de Assis a título de retrato da cultura tupiniquim. No livro ‘Esaú e Jacó’, os gêmeos Pedro e Paulo adotam posições políticas conflitantes, desde moços, e arma-se um ‘pé de guerra’. Certa feita, cada um compra um quadro com um representante de suas posições políticas (Pedro de Luis XVI, e Paulo de Robespierre) e pregam na cabeceira de suas respectivas camas. Crianças que eram, acabaram por destruir o quadro um do outro. A mãe, intentando uni-los (aqui e em todo o livro), vale-se do seguinte argumento (que, finalmente, é pertinente a este artigo): “Não quero ouvir rusgas nem queixas. Afinal, que têm vocês com um sujeito mau que morreu há tantos anos?” ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. Fixação de texto, notas e posfácio de Pedro Gonzaga; coordenação editorial, biografia do autor, cronologia e panorama do Rio de Janeiro por Luís Augusto Fischer. Porto Alegre: L&PM, 2012, p. 104.
De tal forma se dá o pensamento de muitas pessoas em relação aos grandes nomes do passado e mesmo à tradição cristã. Muitos se questionam, alguns com pedantismo e petulância, sobre o valor de se saber o que, por exemplo, Calvino, Lutero, Agostinho e tantos outros fizeram, ou do porquê de se interessarem pelas Confissões já que têm a Bíblia. Entendem que tudo isto não passa de conhecimento fútil.
4LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. Tradução de Álvaro Oppermann e Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2014, p. XII.
5Capítulo I, Seção VI.
6Capítulo I, Seção VIII, ênfase nossa.
7Cf. a palestra dada por Augustus Nicodemus, intitulada ‘A Inerrância da Bíblia’, na Conferência Fiel de Liderança.
8Cf. HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo: Editora Hagnos, 2001.pp. 1-2.
9Ibid.
10Ibid, p. 81
11NEWMAN apud STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. Tradução de Augusto Victorino. São Paulo: Hagnos, 2ed., 2007, p. 81.
12HODGE, Teologia Sistemática, p. 92-95.
13STRONG, Teologia Sistemática, p. 81.
14Na verdade a expressão original é ‘mere christianity’, que poderia ser traduzido por ‘mero cristianismo’, com a ideia de ‘cristianismo’ sem compromisso doutrinário com uma de suas vertentes, como ‘cristianismo calvinista’, ‘cristianismo arminiano’, ‘cristianismo dominicano’, ‘cristianismo franciscano’, ‘cristianismo jesuíta’, ‘cristianismo luterano’, ‘cristianismo anglicano’… etc.
15FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática. uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 19. Eis o Credo: “Creio em Deus o Pai Todo-Poderoso, criador do Céu e da Terra, e em Jesus Cristo, seu unigênito Filho, nosso Senhor; o qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, sofreu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao Inferno (Hades); ressuscitou dos mortos ao terceiro dia; subiu ao Céu e sentou-se à destra de Deus o Pai Todo-Poderoso, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal; na comunhão dos santos; no perdão dos pecados; na ressurreição do corpo; e na vida eterna” Amém”. A. A. Hodge nos diz que essa presente forma já estava pronta até o final do segundo século, cf. HODGE, A. A. Confissão de Fé Westminster: comentada por A. A. Hodge. Tradução de Valter Graciano Martins. [s. l.]: Os Puritanos, 2 ed., 2008, p. 25. Strong o considera nessa forma presente como oriundo do quinto século, embora admita que haja outras datações, como 150 e 120 depois de Cristo, por exemplo, cf. STRONG, Teologia Sistemática, p. 100. Ferreira e Myatt, por sua vez, declaram que “A forma integral do que conhecemos hoje como Credo dos Apóstolos teve sua origem em torno dos séculos V a VII, na Gália” , cf. FERREIRA; MYATT, Teologia Sistemática, p. 20. Se ele é tão tardio, então é uma representação do desenvolvimento teológico da Igreja, que é uma problemática que será trabalhada mais adiante.
16HODGE, Charles, Teologia Sistemática, p. 85.
17Uma exposição mais completa se encontra em FERREIRA; MYATT, Teologia Sistemática, pp. XXII-XXVI. Não queremos discutir todos os aspectos do assunto. Apenas apresentar uma ideia básica em prol do melhor aproveitamento do que se segue.
18BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. São Paulo: Cultura Cristã, 3 ed., 2007, p. 26.
19MCGRATH apud FERREIRA, MYATT, Teologia Sistemática, p. 44.
20FERREIRA; MYATT, Teologia Sistemática, p. 21.
21Evidentemente, embora um ou alguns textos isolados possam sustentar as mais diversas doutrinas, por conta das possibilidades lógicas que uma oração contém em si, a Bíblia como um todo, em conexão com suas partes, irá filtrar as possibilidades até sobrar apenas um significado final.
22HODGE, Confissão de Fé Westminster: comentada por A. A. Hodge., p. 22.
23Não conseguimos em fontes confiáveis a data da publicação do ‘Principles of Biblical Interpretation’ para dizer se Berkhof reviu o que pensou naquela citação ou se esqueceu do que escreveu no que vem a seguir. Outra alternativa é interpretar aquela citação inicial à luz das que ele faz apologia aos credos e, assim, optar pela interpretação generosa mencionada a respeito de suas palavras.
24BERKHOF, Teologia Sistemática, p. 550.
25Ibid, p. 550-551.
26‘Científico’ aqui é tomado no sentido amplo, de ‘conhecimento’, e não no sentido restrito de ciência natural.
27Ibid, p. 551.
28HODGE, Charles, Teologia Sistemática, p. 87.
29STRONG, Teologia Sistemática, p. 87.
30HODGE, Charles, Teologia Sistemática, p. 88.
31Capítulo I, Seção VII.
32HODGE, Charles, Teologia Sistemática, p. 87-88.
Escrevemos sobre isso noutro lugar. Caso se queira bases bíblicas para evidenciar que há coisas claras e coisas mais ‘obscuras’ nas Escrituras, leia este artigo: http://panaceiateoreferente.blogspot.com.br/2013/06/aprenda-ler-biblia-parte-2.html
34HODGE, Charles, Teologia Sistemática, p. 88.
35FERREIRA, MYATT, Teologia Sistemática, p. 31.
36BERKHOF, Teologia Sistemática, p. 550.
37ARISTÓTELES, Metafísica, 993b1, 10-20.
38Fazemos alusão, evidentemente, a Gênesis 50:20.
39O desenvolvimento da filosofia agostiniana é um exemplo de como a sabedoria filosófica pode lançar luzes no entendimento das Escrituras e da Fé Cristã. Nenhum desenvolvimento teológico ignora essa sapiência. Os termos em nossos compêndios e confissões são de origem pagã. Como observa Will Durant no seu célebre ‘História da Filosofia’: “[Aristóteles] construiu a terminologia da ciência e da filosofia; praticamente não podemos falar de qualquer ciência, hoje, sem empregar termos que ele inventou; eles jazem como fósseis no substrato de nossa linguagem: faculdade, média, máxima (que significa, em Aristóteles, a principal premissa de um silogismo), categoria, energia, realidade, motivo, fim, princípio, forma – estas indispensáveis moedas do pensamento filosófico foram cunhadas em sua mente” DURANT, Will. História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, p. 62. E é de conhecimento de todos que vários termos dos primeiros credos tenham influências neo-platônicas e agostinianas. Na verdade, isso não se constitui qualquer problema. Kuyper mesmo observou que a providência concedeu a revelação aos judeus e a sabedoria aos gregos e romanos: “Mas se Israel foi escolhido por causa da Religião, isto de modo algum impediu uma eleição paralela dos gregos para o campo da Filosofia e para as revelações da arte, nem dos romanos para o desenvolvimento clássico dentro do campo da Lei e do Estado” (KUYPER, p. 169) KUYPER, Abraham, Calvinismo. Tradução de Ricardo Gouveia e Paulo Arantes. Sao Paulo: Cultura Cristã. 2003, p.. 169. Essa tese era muito famosa na antiguidade pois Clemente o afirmava que “a razão era para os pagãos o que a lei era para os judeus” CLEMENTE DE ALEXANDRIA apud ROCHA, Alessandro. Uma Introdução à Filosofia da Religião: um olhar da fé cristã sobre a relação entre a filosofia e a religião não história do pensamento ocidental. São Paulo: Editora Vida, 2010. p. 76.
40Ernest Lucas (independente se concordamos ou não com suas posições) é feliz ao observar como a Igreja teve que reformular sua compreensão a respeito de Gênesis 1 na Renascença LUCAS, Ernest, Gênesis Hoje. Tradução de .São Paulo: ABU editora, 2005, p. 73-85. Ressaltamos, não é preciso concordar com as posições de Lucas para perceber a pertinência de suas colocações nesta porção.
41MORELAND; J. P.;  DEWEESE, Garret. Filosofia Concisa. Tradução de Djair Dias Filho e Vitor Grado. São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 150.
42Evidentemente esse não é o caso de alguém como Kierkegaard que criticava não o cristianismo, mas uma versão árida a qual denunciava.
43SCHAEFFER, Francis. Como Viveremos? Tradução de., p. 193. Alessandro Rocha, o qual citamos na nota anterior, é um exemplo típico de como não se deixar influenciar pelo pensamento secular. Ele abraça o pós-modernismo como um grande avanço e subverte toda a fé cristã (cf. ROCHA, pp. 147 – 176). O pastor Ed René Kivitz endossa essa mesma ideia num de seus sermões que pode ser visto no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=M6OXW_1Soes. Há várias obras respondendo ao pós-modernismo e ao relativismo. O texto curto mais competente nos parece ser o capítulo oito e décimo da obra ‘Questões Últimas da Vida’, de Ronald Nash. Este livro, aliás, é um excelente antídoto para a confusão que Kivitz faz nesse (e em outros) vídeos. O louvor ao pós-modernismo é uma tentativa frustrada de apoiar-se na irracionalidade para justificar a fé. Normalmente (senão todas as vezes), como fica evidente em Rocha e Kivitz, isso é fruto da ignorância quanto às respostas que a Igreja já deu. Rocha, por exemplo, não dialoga com nenhuma dogmática saudável, e desconhece os filósofos cristãos do século XX – para não falar da interpretação paupérrima dos clássicos. Kivitz nem mesmo sabia mencionar algum evidencialista quando falou de provas da ressurreição de Jesus.
44Cf. FERREIRA; MYATT, Teologia Sistemática, pp. 43, 672-674.
45Tilghman tenta ver no fato de Israel não ter desenvolvido ciência e filosofia um motivo para descrédito (cf.TILGHMAN, B. R. Introdução à Filosofia da Religião, Tradução de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1996, p. 38-39). Mas não há qualquer problema nisso por uma série de motivos. Primeiro, é muito compatível com a cosmovisão bíblica que a providência de Deus tenha concedido sabedoria aos pagãos. Além disso, é muito certo que os judeus podiam não perceber a profundidade filosófica da revelação, como já argumentamos. Por fim, há de se considerar, seguindo Adler, que o valor filosófico (e acrescentaríamos ‘histórico’) das asserções filosóficas de alguém não é afetado, necessariamente, pelos equívocos científicos que cometia. Embora a Bíblia esteja isenta de erros científicos, ela não tem propósito científico. Sua linguagem é fenomenológica. Mas esse é um assunto que não compete a este artigo. Sugerimos que se acompanhe essa discussão em LUCAS, Ernest, Gênesis Hoje, pp. 73-85; STRONG, Teologia Sistemática, pp. 395-400; e HODGE, Teologia Sistemática, pp. 424-427. Particularmente nos identificamos com o instrumentalismo no campo da filosofia da ciência. Para instruir-se sobre essa perspectiva o pequeno livro ‘Filosofia da Ciência’ de Rubem Alves é de grande valor.
46KUYPER, Calvinismo, p. 169.
47Ibid.
48Evidentemente os conceitos de ‘cosmovisão’ e ‘pressuposições’ precisam ser contemplados com mais calma, o que o espaço não permite. Sugerimos algumas leituras que poderiam facilitar tal tarefa. A leitura do livro Questões Últimas da Vida, de Nash (NASH, Ronald H. Questões Últimas da Vida: uma introdução à filosofia. Tradução de Wadislau Martins Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 448 p.), ‘O Universo ao Lado’ de James W. Sire (SIRE, James W. O Universo ao Lado: um catálogo básico sobre cosmovisões. Tradução de Fernando Cristófalo. São Paulo: Hagnos, 4. ed., 2009, 384p.).e ‘Filosofia da Ciência’ de Rubem Alves (ALVES, Rubem. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e a suas regras. 13. ed. São Paulo: Loyola, 2008. 224 p.) seriam salutares.
49Quem estiver mais familiarizado com a história da filosofia poderá lembrar-se, grosso modo, da dialética
50O autor é, evidentemente, controverso. Muitos o apreciam e outros o desprezam completamente (embora a maioria dos críticos nem mesmo tenham lido suas obras). Particularmente temos apreço pelo autor, embora tenhamos, acompanhados de outros importantes pensadores antigos e contemporâneos, sérias divergências. Não é preciso concordar com tudo de um autor para estimá-lo.
51CARVALHO, Olavo. In: SCHOPENHAUER, Arthur. Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão. Introdução, notas e comentários por Olavo de Carvalho. Tradução de Daniela Caldas e Olavo de Carvalho. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, p. 42.
52O que é dito de ‘filósofo’ vale para qualquer pensador sofisticado que reflete sobre temas filosóficos, o que inclui os temas teológicos. A propósito, defendemos que eles se sobrepõem se olharmos para a discussão sob o prisma do estudo de cosmovisão: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/10/cosmovisao-parte-1.html
53ADLER, Mortimer Jerome; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros. Tradução de Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 180-181.
54Existe um empecilho, principalmente para os que foram comprados pelo cientificismo, de ignorarem os pensadores antigos por terem cometido erros no campo da ciência natural. Adler e Van Doren, mais uma vez, nos trazem luz sobre a questão: “Ainda é preciso perceber que nem todas as perguntas feitas e analisadas pelos filósofos são verdadeiramente filosóficas. Nem Sempre eles mesmos tinham consciência disso, e sua ignorância ou erro nesse aspecto crucial pode gerar dificuldades consideráveis para leitores pouco perceptivos. Para evitar essas dificuldades, é necessário ser capaz de distinguir as questões verdadeiramente filosóficas das outras questões que talvez sejam discutidas por um filósofo, mas cuja resposta ele deveria ter deixado para a investigação científica posterior. O filósofo enganou-se por não ver que essas questões só podem ser respondidas pela investigação científica, ainda que talvez não lhe fosse possível saber disso quando escreveu […]. De modo geral, tirando as confusões que podem surgir, os erros ou a falta de informação a respeito de assuntos científicos que maculam a obra dos filósofos clássicos é irrelevante. A razão é que, quando lemos obras filosóficas, estamos interessados em questões filosóficas, e não científicas ou históricas” Ibid, p. 285-286 ). Evidentemente alguém poderia dizer, e com razão, que a recíproca é verdadeira: cientistas também não deveriam valer-se de sua autoridade científica para versarem sobre assuntos que não são de sua alçada. Adler e Van Doren o percebem e completam: “Não queremos dar a impressão de que só os filósofos cometem os erros que estamos discutindo aqui. Imagine que um cientista se preocupe com a questão do tipo de vida que se deve levar. Essa questão pertence à filosofia normativa e a única maneira de respondê-la é pensar nela. Mas o cientista talvez não perceba isso e imagine que alguma espécie de experimento ou pesquisa possa lhe dar uma resposta. Ele pode decidir perguntar a mil pessoas que tipo de vida elas gostariam de levar e basear sua resposta à questão nas respostas delas. Mas deveria ser óbvio que sua resposta, nesse caso, seria tão irrelevante quanto as especulações de Aristóteles sobre a matéria dos corpos celestes” Ibid, p. 286.
55NEWTON apud PONCZEK, Roberto Leon, A Necessidade de uma História da Física. In_ ROCHAR, José Fernando M. (org.). Origens e Evolução das Ideias da Física. Salvador: EDUFBA, 2002, p. 23.
56CARVALHO, Olavo de; BRASIL, Felipe Moura (org.). O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 608.
57CARVALHO, Olavo de. A Filosofia e seu Inverso: e outros estudos. Campinas: Vide Editorial, 2012, p. 173.
58CARVALHO, O mínimo, p. 70.
59Um bom exemplo disso é o de que Agostinho lança luzes sobre Calvino, evidenciando alguns de seus posicionamentos e enriquecendo a nossa compreensão das questões levantadas pelo reformador francês.
60SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Escrever. Tradução, organização, prefácio e notas de Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM, 2013, p. 53.
61Ibid, p. 61.
62Ibid, p. 117.
63CARVALHO, O mínimo, p. 608.
64“Como as pessoas lêem sempre, em vez dos melhores de todos os tempos, apenas a última novidade, os escritores permanecem no círculo estreito das ideias que circulam, e a época afunda cada vez mais em sua própria lama” SCHOPENHAUER, A Arte de Escrever, p. 118. É importante destacar, também, para fazer justiça a Schopenhauer, que ele não abraça a falácia oposta, i. é., o ‘argumentum ad antiquitatem’ que considera o antigo melhor por ser antigo. Ele escreve claramente: “Mas, como inventis aliquid addere facile est [é fácil acrescentar algo ao que já foi inventado], é preciso conhecer também os novos acréscimos, depois que as bases estão bem estabelecidas” Ibid, p. 54.
65CARVALHO, O mínimo, p. 606.
66No nosso caso trata-se da compreensão da Verdade que já nos atingiu. Esse tema é desenvolvido na tradição agostiniana com o tema de ‘fé em busca de compreensão’. Evidentemente não podemos desenvolvê-lo aqui. Mas vale a pena a ressalva para os que estiverem mais avançados nos estudos agostinianos.
67ARISTÓTELES, Metafísica, 993ª1,30 – 993b1, 5.
68LETHAM, Robert. A Obra de Cristo. Tradução de Valéria da Silva Santos. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 18.
69Estamos cientes das dificuldades de assimilação dessas afirmações. É preciso entender as questões relacionadas às pressuposições, compreender o conceito de cosmovisão e o de ‘zeitgeist’ para perceber o significado das premissas. Mas não é possível dissertar sobre o assunto aqui. Portanto, quem não entendeu este argumento, basta que o ignore ou leia um pouco sobre cosmovisão e hermenêutica.
70Poderíamos acrescentar os Adventistas do Sétimo Dia e mesmo as reprises montanistas hodiernas.
71Cf. FERREIRA, MYATT, Teologia Sistemática, pp. 487-488.
72ZUCK, Roy B. A Interpretação Bíblica. Tradução de Cesar de F. A. Bueno Vieira. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 31.
73Estamos nos referindo ao livro ‘Cartas de um Diabo a seu Aprendiz’ e, mais especificamente, a primeira carta. O livro é o de um demônio mais velho enviando cartas para um demônio mais novo, iniciante nas artes da tentação e que está tentando corromper um homem. O trecho diz o seguinte: “O problema da argumentação é que ela leva a batalha para o campo do Inimigo. Ele também pode argumentar. Mas, graças ao tipo de propaganda realmente prática que sugiro, durante séculos foi possível provar que Ele é inferior a Nosso Pai das Profundezas” (LEWIS³,  2009 p. 2). Entretanto há um problema de tradução nas edições em português e esse foi o motivo pelo qual não citamos o texto fora do rodapé. Na tradução de uma versão que circula na internet, no qual o  livro veio sob o título de ‘Cartas do Inferno’, está escrito assim: “Percebo que você tem intenções produtivas, mas há um problema muito grande quando tentamos persuadir o paciente a passar para nosso lado pelo emprego de argumentos e lógica: isto conduz toda a luta para o campo do Inimigo, que para azar nosso também sabe argumentar (e melhor do que nós). Por outro lado, no que diz respeito à propaganda prática (ainda que falsa) que lhe sugeri, Ele tem se mostrado por séculos bem inferior ao Nosso Pai lá de Baixo “. (LEWIS, carta I). O texto original é: “The trouble about argument is that it moves the whole struggle onto the Enemy’s own ground. He can argue too; whereas in really practical propaganda of the kind I am suggesting He has been shown for centuries to be greatly the inferior of Our Father Below” e parece-nos mais correto traduzir assim: “O problema a respeito de argumentar é que isso move toda a contenda para o terreno próprio do inimigo. Ele consegue argumentar também; ao passo que na propaganda realmente prática do tipo que eu sugeri Ele tem sido demonstrado por séculos ser imensamente inferior ao Nosso Pai de Baixo”. Na primeira tradução, de Juliana Lemos, não fica clara a ideia de que o campo da argumentação é todo do Inimigo (Deus), e muito menos que o que ficou demonstrado é que o Inimigo é inferior no que diz respeito à propaganda. Antes, de acordo com essa tradução de Lemos, pareceu que a propaganda provou que Deus era inferior ao Inimigo, mas o que ficou demonstrado é que Deus, ao responsabilizar a Igreja pela ‘propaganda’, tem sido inferior ao Diabo. A tradução do ‘Grupo de Amigos do C. S. Lewis’ (Cartas do Inferno) é mais livre e o ‘whole struggle onto the Enemy’s own ground’ foi traduzido livremente para dizer que o Inimigo (Deus) sabe argumentar e o faz melhor do que eles, os demônios; bem como se acrescenta o ‘ainda que falsa’ após o ‘propaganda prática’, o que é muito interpretativo. Um belo exemplo de que Lewis aprecia a produção clássica da Igreja está em suas recorrências aos textos e ideias de Agostinho e Aquino (cf. O Peso de Glória, pp. 83-84).
74SPURGEON, Charles. Como Ler a Bíblia.  São José dos Campos: Fiel, 2004,  p 9-10.
75Ibid, p. 10.
76WASHER, Paul. O Evangelho Segundo Jesus Cristo. http://www.youtube.com/watch?v=CNEfQdVjFqw, acessado em 06 de Setembro de 2013.
77Ibid
78BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica. Tradução de Denise Meister. São Paulo: Cultura Cristã, 2 ed., 2004, p 84-85.
79MALIK apud CRAIG, William Lane. Apologética Para Questões Difíceis Da Vida. Tradução de Heber Carlos de Campos. São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 14.

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